Portugal Drops 2026

(Dedico esta memória a Eduardo Guerra e sua esposa Célia, bem como a minha prima Mabel, amigos que me acompanharam no périplo que narrarei em seguida).

Acabo de chegar de mais uma viagem a Portugal, a sexta que faço. Mas é também a última, de uma série iniciada em 2011. Por que? certamente me indagarão. Será que eu enjoei do país, fui mal tratado por lá, ou porventura já teria visto tudo o que me cabia ver? Nada disso! A terra lusitana jamais deixará de pulsar em meu coração, sendo eu descendente direto dela, bisneto de mais um daqueles saloios, que à falta de maiores perspectivas em seu Minho natal, veio a dar ao Brasil com seus costados, seus costumes, seu catolicismo antiquado e certamente sua incurável nostalgia. A questão, para mim, é bem outra, ou seja, é que já me sinto meio velho para este tipo de viagem, não só para Portugal como para o resto do mundo. De fato, aquele 11 de setembro ainda nos traz seus reflexos maléficos, amplificados pelo espectro diabólico desse Senhor Donald T. Com efeito, depois de mais de 10 horas de viagem, com certeza mais confortável do que aquelas dos tempos das caravelas e dos vapores, mas mesmo assim penosa para quem tem quase 80 anos como eu, é bem desafiador enfrentar quase três horas de fila, depois de uma noite nos ares muito mal (ou não) dormida. Tudo isso para que as autoridades dessa nova Europa assombrada pelo 11 de Setembro e por Putin, se convençam de que não somos terroristas e nem imigrantes prontos a roubar empregos dos europeus já estabelecidos. Não é nada agradável, mas é a realidade nos dias de hoje. Deixando de lado essas ruindades, que aliás fazem parte hoje do curso normal da humanidade, vamos ao lado bom de passar duas semanas no continente que, apesar de todos os pesares, ainda nos oferece sua marca ao mesmo tempo iluminista e colonialista, nem sempre para o bem, muitas vezes para o mal. Enfim, uma civilização e de um modo de vida que também nos pertencem. Falo não só do que percebi nesta vigem, realizada em setembro de 2026, mas também das outras, nas quais percorri o roteiro Oiapoque – Chuí de lá, ou seja, de Valença, no Minho, a Lagos, no Algarve. Então vamos em frente, sob uma forma a que denominei drops, pela sonoridade quase onomatopaica que tal palavra da língua inglesa nos oferece e pelo feitio de pequenas gotas que dei ao texto abaixo. Não vai aqui, naturalmente, algum exercício de antropologia cultural, nem tenho luzes para tanto, mas apenas constatações, por certo amadorísticas, talvez um tanto deslumbradas, carentes de maior processamento intelectual, provindas de um reles turista amador. Como disse Drummond (de si mesmo), eu também me sinto longe de ser um cronista dos melhores, mas ao contrário, estar entre os mais expostos à galhofa.

Minha base de operações, mais uma vez, foi a cidade de Braga, a Bracara Augusta dos romanos, onde residem (ou residiram até agora, por que já estão de volta ao Brasil depois de 8 anos por lá) meus anfitriões Eduardo e Célia. Se alguém por acaso me perguntar qual seria, para mim, o aspecto mais marcante em Braga eu titubearia em responder. É difícil, realmente, decidir, entre o espetacular ambiente barroco; a variedade e o esplendor dos templos; a escadaria barroca de Bom Jesus do Monte; a natureza montanhosa e verdejante; as vistas espetaculares dos miradouros; o excelente hospital (público) regional; a limpeza das ruas e praças, o padrão de consumo oferecido nos supermercados; os sítios arqueológicos que remontam a séculos antes de Cristo; a frota pública de autocarros quase toda eletrificada; os estacionamentos subterrâneos; o bom vinho verde bebido bem próximo a suas fontes mais autênticas; os banheiros asseados; a abundância de gente estrangeira nas ruas – e por aí vai. Devo somar a isso, entretanto, um fator que deriva dos três primeiros elementos citados acima: o clangor (palavra esta que fui buscar no dicionário!) dos sinos das igrejas, que ecoam por toda parte, dada a sua presença constante no território da cidade. Esta é uma lembrança, auditiva e não visual, que carregarei para sempre. A Bracara dos romanos será sempre hiperbolicamente Augusta para mim

Para não perder algum senso poético, embora um tanto trágico: por quem dobrariam os sinos bracarenses? Pelos mouros e judeus perseguidos e assassinados sob o jugo lusitano? Pelos muitos brasileiros explorados? Idem, pelos indianos, chineses, indonésios e africanos pisados pela bota emboaba? Pela devastação ambiental que a mineração do ouro provocou no Brasil? Pela miscigenação forçada a que nossas mulheres negras e indígenas foram submetidas? Pelo degredo em África a que alguns brasileiros inconfidentes foram remetidos? Pelos que morreram naquele oceano salgado pelas lágrimas de suas viúvas? Pelos portugueses que acreditaram no sonho brasileiro e que, ao contrário de outros tantos, aqui morreram e não enriqueceram? Pelo país que durante séculos não se cumpriu, como disse Fernando Pessoa? Pelo país que um dia nos acolheu tão bem e agora se rende à real politik de uma Europa xenófoba e amedrontada? Sei lá… quem souber que responda.

Vamos, então, às lembranças de tal viagem.

Nossas semelhanças, nossas diferenças…

Portugal é, como aqui entre nós, um país multiétnico e multicultural. Nem mais rico, nem mais pobre em termos culturais. Ali o traço étnico e cultural indígena naturalmente está ausente, o que não impede que nos supermercados se venda a mandioca in natura e alguns de seus derivados, como a farinha e a tapioca. O que vem da África e da Índia, em termos alimentares, como tubérculos, quiabo e temperos, tem presença um pouco mais nítida, embora em termos de preconceito e racismo contra aquela gente eles não nos fiquem muito atrás.

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Mas há um aditivo nisso, que um dia me surpreendeu: ao conversar mais longamente com uma atendente de hotel, que era ruiva, de olhos e pele muito claros, ao indagar se ela possuía antepassados holandeses, de pronto ela me esclareceu: não! Aqui em Portugal somos também descendentes de visigodos e celtas – e me deu uma detalhada explicação histórica sobre isso. Surpresa dupla, aliás: uma simples atendente de hotel saber tantas coisas a respeito da história remota de seu país, de sua formação étnica, bem como por receber uma informação que até então a mim escapava.  

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Falando de algo mais prosaico: o fenômeno das janelas fechadas. Achei também surpreendente que em pleno verão, com temperaturas passando dos 36 ou mais graus, tanto nas cidades, como no caso de Braga, como no interior por onde circulei, as casas portuguesas mantenham, de modo geral, todas ou quase todas as janelas e portas fechadas durante todo o dia, dando a impressão às vezes que não tem gente morando nelas. A explicação que recebi é que isso mantem o ar fresco dentro de casa, evitando trocá-lo pela canícula do exterior. Poderia até ser algo correto, mas é totalmente contraintuitivo com relação ao que se faz aqui no Brasil, em que os dias quentes são sinônimos de janelas e portas tão abertas quanto possível.

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Quem teria razão, nós ou eles? De toda forma, me lembro de algo que se dizia na minha infância, ou seja, de que este hábito de manter casas fechadas durante o dia seria coisa de gente da roça. É claro que o comentário era preconceituoso, mas quem sabe seria um costume de herança lusitana, já fora do entendimento dos citadinos como eu e minha família?

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Por falar em moradias, e ainda no campo das curiosidades, apresento uma delas: os interruptores das luzes nos banheiros portugueses, sejam domiciliares ou públicos estão invariavelmente instalados do lado de fora de tal cômodo. Por que seria? Meu amigo Eduardo Guerra, que como eu é um cara que quando não sabe, inventa (e isso aí nos coloca como portadores de uma verdadeira dádiva da natureza) afirma que é para evitar faíscas que provocariam explosões nas instalações de gás. Tudo bem, parece lógico, mas não vi em nenhum lugar tais instalações dentro dos quartos de banho, mas sim em pontos externos, geralmente nas cozinhas. Tal informação seria do interesse de quem, exatamente? De ninguém, claro. É apenas uma curiosidade, a chamar atenção apenas de curiosos profissionais ou desocupados, como eu.

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Ainda no campo digamos, íntimo-sanitário, o vaso da privada em Portugal é sanita e a descarga eles chamam de autoclismo. O cômodo onde tais benfeitorias se instalam nas residências é o quarto de banho ou, às vezes, casa de banho.

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E como é a vida, em termos econômicos, para nós brasileiros, migrados ou a turistear por lá? É claro que na unidade monetária Euro tudo fica assombrosamente caro para nós. Na verdade, nem tudo, dependendo do lugar onde se vive, claro, com o interior mais em conta e Lisboa a bater recordes estratosféricos de custo de vida. Aluguel, por exemplo, é muito caro; o preço do metro quadrado, também. Mas uma boa compra básica de supermercado, daquelas que incluem o nosso arroz com feijão do dia a dia, tem preços equivalentes aos nossos. Mas a qualidade e a variedade do que existe por lá, em matéria de pães, bolos, assados, embutidos, lácteos, sobremesas, legumes, frutas, grãos, folhas etc, graças ao livre comércio vigente na União Europeia, não se compara com o regime de consumo quase franciscano que vigora aqui do Brasil, mesmo nos melhores supermercados.

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O fato, todavia, é que artigos de luxo em Portugal, sejam alimentícios, de vestuário, automobilísticos, ou de outra natureza custam realmente caro, por exemplo, morar em Lisboa e algum dos lugares da moda, como no Algarve, ou consumir produtos de qualidade superior, independentemente de serem ou não importados, porque na União Europeia isso não costuma fazer diferença. Quanto ao vinho, não há comparação possível com o nosso país, pois é perfeitamente possível beber alguma coisa boa por menos de três Euros a garrafa de 600 ml, por incrível que pareça. E é possível beber vinhos até razoáveis em caixas de litro ainda mais baratas do que as garrafas, como aquelas aqui utilizadas para embalar leite.

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Os combustíveis, por lá, é que são espantosamente caros. Para se ter uma ideia, o litro de gasolina ou gasóleo (o nome que eles dão ao diesel) custa mais de dois Euros, ou seja, cerca de 12 Reais ou até mais, dependendo do câmbio. Uma boa enchida de tanque não sai por menos de 100 Euros, ou seja, mais de 600 Reais. Em termos de comida pronta é possível passar relativamente bem, de preferência em lugares que os próprios portugueses comem, por algo em torno de 10 a 12 Euros. Self services são muito raros por lá, o mais comum é uma sequência de sopa, prato principal e sobremesa, às vezes associada a uma microscópica salada, ou então um prato que já vem montado, simples, sem deixar de ser nutritivo e saboroso. Em alguns lugares o pacote inclui uma jarra de vinho, em outros não. De toda forma, o que se paga por tal complemento vale pouco mais do que o preço de uma Coca Cola. E mesmo em lugares mais modestos o vinho, dito da casa, é muito bom!

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Meus amigos Eduardo Guerra e sua esposa Célia estão de volta ao Brasil depois de oito anos em Braga e em quase todas as minhas viagens anteriores fui abrigado por eles. Estão voltando não por desencanto com o país, longe disso, mas para terem a companhia dos filhos e da família nos seus anos de maturidade. Entendo a alegria deles em voltar, mas ao mesmo tempo lhes desejo muita força em (re)enfrentar a realidade deste nosso país. Eles não mais terão ruas tão limpas; a política feita de maneira mais séria; o padrão de consumo da União Europeia; a polícia que não mata inocentes nem bandidos; a segurança nas ruas e a qualidade das estradas. Quando lhes falei disso, contestaram que ainda assim valerá a pena fazer o caminho de volta. Tudo bem, porém ao tentar me colocar no lugar deles tenho pena mesmo assim.  

Território e Natureza

Para nós, brasileiros, o padrão de construção de moradias urbanas, quando comparado com as rurais é totalmente abissal. Há um toque cultural nisso, claramente perceptível aqui na fronteira agrícola do Centro-Oeste, onde os sulistas constroem boas casas e costumam morar em suas fazendas, enquanto goianos e mineiros preferem residir nas cidades, deixando para seus empregados na roça umas construções toscas, muitas vezes sem reboco e cobertas por telhas de fibrocimento. Há exceções, certamente, que talvez apenas confirmem tal regra.

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O fato é que o padrão das construções em Portugal representa uma aprazível provocação para alguém, como eu, que gosta de especular sobre isso ou aquilo. Em suma, as muitas moradias que existem nas zonas rurais, possuem solidez e acabamento surpreendentes, quando comparadas ao que se vê aqui no Brasil. Há nisso um diferencial a ser observado: graças ao sistema de transporte muito mais fluido que o nosso, geralmente ferroviário, a zona rural em Portugal parece ser apenas uma extensão da urbana, residindo nela muitas pessoas que trabalham nas cidades, mas que vivem no campo, deslocando-se no cotidiano ente um e outro local. O oposto também pode ser verdadeiro. É claro que isso é facilitado pelas reduzidas dimensões do país.   

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Núcleos populacionais em Portugal: sua nomenclatura geopolítica é complexa existindo expressões tão variadas como município, cidade, concelho (com “c”) vilas, freguesias, aldeias e até mesmo lugar, quando são muito pequenos. A primeira expressão, município, corresponderia ao conceito que temos também aqui, dirigido lá por um autarca, que é o presidente do que corresponderia a uma Câmara de Vereadores nossa. Tal Concelho tem membros eleitos diretamente pela população e seu presidente tem o encargo de administrar a cidade, como os nossos prefeitos. O regime político de Portugal é parlamentarista, não nos esqueçamos. Dentro de tal unidade existem Freguesias, nas quis uma Junta eleita representa, ao mesmo tempo, o Executivo e o Legislativo, como nos próprios Concelhos. Parece complicado, mas tem tradição centenária no país, com revisões e ajustes ocasionais na composição de tais conjuntos. Pelo visto realmente funciona.  Em Portugal o regime político não é federativo, mas sim unitário. Isso significa que o maior poder é o da República, sem a competição de competências e de autonomias que se vê aqui no Brasil. Há uma divisão em Distritos, uma instância administrativa correspondente ao que se chamaria no Brasil de UF, ou Estado, porém sem eleições diretas e sem um legislativo próprio, com dirigentes nomeados pelo Governo Central em Lisboa.  

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Em Portugal, como aqui e em qualquer lugar do mundo, cada cidade é única, ou seja, tem suas particularidades. Entretanto, eu me arriscaria a afirmar que existe um padrão mais ou menos constante nas cidades portuguesas, sejam grandes ou pequenas (a maioria), antigas ou novas (estas últimas, uma raridade). Todas elas, ou quase todas, têm um centro antigo, histórico, às vezes com muralhas, e nos arredores deste, com dimensões variadas, um conjunto urbano mais contemporâneo, onde predominam prédios de apartamento ao lado de residências mais modernas. Arranha-céus, como hoje mesmo as cidades do nosso interior apresentam, nem pensar! Eles praticamente só existem em Lisboa e mesmo lá são bem raros e pouco elevados, denotando, talvez, o temor de que um terramoto, como o de 1750, venha a se repetir.

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São comuns em quase todas as cidades algumas marcas características: piscinas públicas; ginásios de esporte; caprichadas calçadas (ditas portuguesas); arborização maciça (com plátanos, carvalhos, laranjeiras, tílias, sobreiros, azinheiras e outras espécies); asfalto que mais parece um tapete; casas de loteria monopolizadas (acreditem!) pela venerável instituição da Santa Casa; quarteirões reservados ao uso exclusivo pedonal, ou seja, de quem anda a pé (também chamados peões), além de igrejas sem conta, fiéis ao estilo barroco, nas quais as cores que vemos por aqui em Diamantina, Ouro Preto e outras cidades históricas, são substituídas pelas estruturas em pedra trabalhada. 

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Mais curiosidades. Em Portugal há uma onipresente empresa pública que se chama CTT, que representa os correios de lá, com atividades que vão além do trânsito de encomendas e documentos, no caso, agindo como um banco poderoso, onde não só de deposita dinheiro como se desenvolvem aplicações e outras atividades junto ao mercado financeiro, como se fosse um banco comum do Brasil.

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Precisa de uma Farmácia em Portugal? Prepare-se para andar, pois não é como aqui no Brasil (e particularmente em Brasília, cidade em que há praticamente uma ou mais em cada quadra). Lá é diferente, elas são muito mais raras, tipo uma aqui outra acolá, o atendimento tem sempre um farmacêutico no balcão e ao entrar você tem que pegar uma senha e esperar num banquinho para ser chamado. Em caso de dúvida, elas são identificadas por uma cruz verde, geralmente iluminada e piscante. Em Braga fui a uma dessas que faz uma promoção criativa: no dia 20 de cada mês, todos os produtos, sejam, medicamentos, cosméticos e outros têm 20% de desconto. Nestes dias a fila é grande.

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O que fazer com um móvel usado? Aqui no Brasil a gente os doa para nossos auxiliares ou pessoas mais pobres, ou simplesmente joga no lixo. Em Portugal há uma solução interessante: existem entidades de cunho social que fazem a coleta dos objetos a serem descartados para vendê-los em bazares, com o dinheiro arrecadado sendo destinado à filantropia. Há uma diferença a ser notada, entretanto: pelo que vi em uma dessas lojas sociais, em Braga, a qualidade do material ali exposto é marcante, talvez os diferenciando dos correspondentes no Brasil, onde o mobiliário barato praticamente se dissolve com o uso, feito que é com as “pastas” de madeira, mdf, compensados e outros. O fato é que as tais lojas sociais de Portugal parecem verdadeiros antiquários, dos mais chiques, por sinal.

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Entre as peculiaridades do comércio de varejo é Portugal são dignas de nota as China Stores e congêneres, quase onipresentes. Só em Braga deve ter pelo menos uma meia dúzia. São imensas, verdadeiros galpões, como uma variedade inumerável   de produtos, que vão desde roupas e ferramentas até objetos ligados a tradições totalmente ocidentais, como santinhos, enfeites natalinos e presépios, além de fantasias e adereços de halloween. Lá dentro, poucos empregados e apenas um chinês na caixa registradora, com a cara de poucos amigos que essa turma geralmente tem. No quesito souvenirs locais, além das tais China Stores, o comércio parece ser dominado por um povo cor de azeitona, aparentemente bengalis ou indianos. Os atendentes portugueses (ou brancos em geral) dominam nos supermercados e outros estabelecimentos mais tradicionais.  

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Portugal, sem dúvida conta com ótimas estradas. Eu citaria pelo menos três categorias: as autoestradas, dentro do padrão típico da União Europeia, designadas pela letra “A” seguida de um número; as nacionais (“N”), também numeradas, de pistas simples ou duplas, mas sempre de alta qualidade e além destas, as mais estreitas e curvilíneas, não identificadas formalmente, que conectam as “A” e as “N” às aldeias e aos núcleos menores. Na primeira o pedágio é obrigatório – e caro; nas nacionais geralmente não há cobrança. As pequenas são ótimas vias para a gente se perder e conhecer, de fato, o Portugal profundo, transformando o que seria prejuízo e perda de tempo em privilégio. Mas atenção: se precisar parar para fazer xixi, as autopistas da categoria A não são a melhor opção, pois são rodeadas por cercas de aço quase junto às pistas e os postos de gasolina (padronizados) com banheiros só surgem a cada 50 ou 70 km. Padrão União Europeia, para o bem e para o mal.  

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A eletrificação veicular também me chamou a atenção, pela relativa raridade dos carros elétricos nas ruas, os quais, quando aparecem, são mais Teslas do que chineses ou coreanos. Certamente é coisa diferente do que acontece atualmente no Brasil, onde tal tipo de veículo talvez tenha virado mais objeto de ostentação do que qualquer outra coisa. Mas em transporte coletivo a coisa muda de figura. Em Braga por exemplo, boa parte da frota de ônibus já está eletrificada, com grande conforto e tecnologia, além do silêncio e da emissão zero. Em alguns pontos dos trajetos há postos de carregamento. E há veículos grandes e pequenos em ação, com estruturas bem funcionais e de linhas modernas. Nada desses autênticos “caminhões com saia” que a gente vê aqui no Brasil. Tudo made in China, como no resto do mundo.

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Cheguei em Portugal no dia 14 de setembro último. Ao longo do dia o termômetro que ao meio dia já ultrapassava os 32 ou 33 graus chegou a 36, coisa que se repetiu ao longo de toda semana. Um belo dia o céu amanheceu nublado e a temperatura despencou mais de 10 graus. Loucura… Numa viagem a Caminha, que fica poucas dezenas de km ao Norte de Braga, na fronteira com a Espanha, os termômetros baixaram ainda mais, para uns 15 graus. Essas variações térmicas parecem ser comuns por lá, não sei se por todo o hemisfério Norte, mas para quem convive com as faixas bem mais suaves, como aqui em Brasília, não deixa de ser chocante. Dentro do mesmo hábito de querer entender as variações atmosféricas e os ritmos da natureza, é interessante perceber, por lá, o fenômeno das estações bem demarcadas, que aqui entre nós é mais mito do que realidade. Na derradeira semana que estive por lá, final de setembro, já os plátanos e os carvalhos haviam perdido o verde vivo de suas folhagens, que começavam a tomar tons dourados.

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Particularidades culturais

O presente tópico seria mais apropriado se partisse de algum linguista ou filólogo, algum Marco Franco Neves, por exemplo (quem não conhece visite-o no Instagram). Uma coisa que acho curiosa no português “deles” é a diferenciação que fazem entre os verbos ter e haver, que para nós brasileiros têm mais ou menos o mesmo significado. Ter, em Portugal, é mais usado no sentido auxiliar, como eu tenho visto ou você tem comprado isso ou aquilo. Já haver é mais usado no sentido de existir ou possuir de fato alguma coisa, como por exemplo, em anúncios de quitandas: há ovos. Outra curiosidade: os portugueses se dão por satisfeitos com as conjugações verbais e costumam dispensar o uso de pronomes, por exemplo: tens, queres, viajas etc, sem usar o tu regulamentar. O uso do pronome você, embora inventado por eles, é raríssimo, se é que faz parte do cotidiano da língua. Se bem que o gosto pelas novelas brasileiras deve estar mudando isso por lá.

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Falemos de algo maléfico… Fiquei impressionado com outdoors que vi por toda parte, nos quais um homem de uns quarenta anos, começando a ficar grisalho, olhar firme e postos no infinito, parece estar dizendo apenas uma palavra: Chega!, de forma bastante enfática. Trata-se do onipresente André Ventura, o Bolsonaro deles, que chegou ao estatuto de deputado da República, mas contra o qual, até agora pelo menos, ergue-se o que eles denominam, muito apropriadamente por sinal, de cordão sanitário, para que não suba mais de posto. Ele acaba de perder a eleição para Presidente, mas pelo menos não saiu dizendo que houve fraude no pleito. Me admira o fato de que nenhum outro membro do partido dele, o tal Chega! tenha tal exposição em praça pública, oque faz dele uma espécie de proprietário do partido. Em suma, com gente assim todo cuidado é pouco. Se os nossos políticos tivessem uma visão, digamos, mais higiênica da política talvez tivéssemos outra história para contar. Portugal, por enquanto, vem resistindo.  

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Aeroportos, de maneira geral, não são lugares acolhedores. Em Portugal também, embora ali eles pareçam estar disputando um título mundial de desorganização e mau atendimento a quem chega.  Comentei isso com minha filha Daniela, que conhece os mais variados aeroportos do mundo e ela me confirmou tal impressão. A “recepção” que tive no belíssimo aeroporto do Porto foi, por assim dizer, exemplar. Eu tinha comprado passagem para lá, pela Azul, porque alguém me disse que a acolhida por lá estaria melhor do que a de Lisboa. Mas qual! Depois de 10 horas de voo vi que me aguardavam duas filas enormes, uma para apresentar o passaporte a uma máquina, que simplesmente não o reconheceu e ato contínuo me encaminhou a uma segunda fila, igualmente excruciante, para registrar impressões digitais, tirar foto e finalmente receber o visto do funcionário de imigração. Uma hora e meia em cada uma delas, é mole? Os terroristas do 11 de setembro, secundados por Putin e Trump, jamais poderiam imaginar, tantos anos depois, que seus esforços não seriam em vão.

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Aqui em Brasília, para qualquer cidadão não é novidade: se alguém pisa fora da calçada numa travessia, os motoristas, ou a maioria deles, incontinenti, metem o pé no freio. Isso em Portugal é levado totalmente a sério. Assisti cenas assim com velhinhos, crianças, cegos e quem quer que fosse. À diferença daqui tal coisa por lá representa um comportamento geral. E ninguém reclama quando o passo fora da calçada é feito por gente distraída, obrigando a que a pisada no freio venha a ser uma surpresa totalmente inesperada e objeto de reflexos rápidos.  E depois de algo assim, a vida segue, sem maiores tropeços. Como brasiliense militante isso me deixa muito orgulhoso, de toda forma.

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Uma grata surpresa neste país é a de poder entrar em um banheiro, até mesmo naqueles de rua e encontrar uma atmosfera, se não totalmente agradável, pelo menos digna. Eu que sou um frequentador assíduo desses úteis dispositivos, eis que a natureza não me é mais muito favorável no quesito capacidade vesical, posso afirmar isso com toda certeza, tendo encontrado bons exemplares destes cômodos em restaurantes, cafés, museus, estações de metrô ou até mesmo nas ruas. Eu diria até que talvez estejamos diante de um indicador cultural seguro. Mas a verdade é tais casas (ou salas) de banho indicariam também outras coisas, talvez menos nobres, qual seja a presença quase obrigatória de trabalhadoras negras, muitas aparentemente recém imigradas “de” África” a cuidar de tais aposentos. Sempre mulheres, sempre africanas e, por extensão, sempre pobres e mal qualificadas. A elas devemos, em parte pelo menos, o fato de podermos entrar nesses aposentos sem aquela sensação digna do Inferno de Dante que costuma nos acometer no Brasil, em situações semelhantes.

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Público versus privado, no Brasil, representa uma dicotomia quase inconciliável. Em Portugal os limites entre uma coisa e outras são por assim dizer borrados. A Universidade do Minho, como outras de lá, inclusive a de Coimbra, são de certa forma públicas, por terem participação governamental, inclusive no seu financiamento. Ao mesmo tempo, todavia, estão habilitadas, sem maiores contratempos e ressalvas, a buscar recursos no mercado, inclusive a cobrar mensalidades dos alunos. Aos professores não se exige aquelas cargas horárias predefinidas de 20 ou 40 h, com ou sem a tal da D. E. A coisa é mais simples, o docente declina o seu interesse em termos de carga de trabalho e é contatado com salário proporcional a isso. E acredito que não haja por lá a tal da “estabilidade”, garantida pelo Estatuto do Funcionário Público no Brasil, cujo efeito mais imediato é não prestigiar os bons e conferir regalias aos picaretas. Simples assim. No que realmente interessa, o sistema é de fato gratuito: na educação básica e na saúde, por exemplo.

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Assunto mais agradável, sem perder o apego à realidade mais crua: nada como um bom almoço de bacalhau ou polvo ao lagareiro, na honrosa companhia de bons amigos e no embalo proporcionado por um vinho verde, fabricado ali ao lado, em seu Minho de origem. Viva os prazeres da vida, né?

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Já ouviram falar dos santuários que rodeiam Braga? Bom Jesus do Monte, Nossa Senhora do Sameiro, além de outro, menorzinho, de Santa Maria Madalena? Se ainda não conhecem não fazem ideia do que é opulência e exagero. Isso para não falar das igrejas do Pópulo, dos Congregados, de Santa Cruz entre outras, e também do Mosteiro de São Martinho de Tibães. Resumo da ópera: enquanto este povo construía tais coisas, ingleses, holandeses e outros povos ganhavam o mundo.

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Aqui vai mais uma (apenas) curiosidade. Descobri em Portugal duas expressões que embora possuam significados semelhantes do lado de cá do Atlântico, por lá ganharam outras conotações. Refiro-me a rusgas e ranchos. Elas me chamaram atenção quando observei, em lugares diferentes, serem títulos de verdadeiras instituições locais, que logo descobri ter um fundo folclórico e musical. Aliás, no caso de rancho, o mesmo vale para o Brasil também. Vamos lá. A rusga popular é uma dança típica das festas de São João no norte de Portugal, mas pode ser também algum desentendimento leve ou passageiro entre pessoas, ou ainda, uma erupção cutânea leve e passageira e ainda expedição policial noturna para capturar criminosos ou vadios – o que às vezes se denomina baculejo aqui no Brasil. Já rancho é uma variedade de dança folclórica portuguesa, típica da região do Minho, mas pode ser também, um grupo de pessoas reunidas para determinado fim, em forma de marcha ou jornada (“rancho de peregrinos”, por exemplo ou mesmo grupo de trabalhadores contratados para serviços, geralmente de natureza agrícola). Aqui no Brasil, por derivação, certamente, virou também grupo de foliões nos carnavais ou ainda de pastores e pastoras em festas religiosas, além de um ritmo musical específico, imortalizado, entre outros autores, por Vinicius de Moraes, em seu Rancho das Flores, no qual ele toma de intimidade surpreendente com J. S. Bach, transformando Jesus Alegria dos Homens em uma graciosa marchinha de Carnaval

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Lugares

Rio Cávado. Este nasce em terras altas a Nordeste da cidade de Braga, que fica, ela mesma, em região bastante montanhosa, daí corre pelos arredores da cidade e se dirige ao Oceano Atlântico, desaguando à altura de Esposende, uma cidade balneária. Em sua passagem pelos arredores de Braga há um espaço remansoso, criado por um pequeno dique de pedras e ali se formou uma agradabilíssima praia chamada Adufe, com águas cristalinas, fundo rochoso, margens quase sem areia, marginadas que são por um largo gramado. Lugar ideal para piqueniques e banhos, totalmente de gestão pública, sem taxas de uso ou cobrança de estacionamento. Praias assim são comuns nas cidades ribeirinhas portuguesas, acrescentando valor à qualidade de vida que se desfruta no país. No momento em que lá estivemos havia poucos frequentadores, afinal era um dia útil, mas nos finais de semana de verão o que se vê por lá é uma enorme multidão. Ditosa cidade que conta com um benefício assim.

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Uma palavra sobre São Martinho de Tibães. É um monumental mosteiro em estilo barroco, construído ao longo do século XVII, pertencente, no começo, à ordem Beneditina e depois abandonado quando as ordens religiosas foram extintas. Passou mais de cem anos aos Deus-dará e é de se admirar que tenha se mantido de pé durante todo este tempo. Fica bem próximo ao centro de Braga e é visita imperdível. A lição que tiro de lá é a seguinte: nada como o respeito ao patrimônio histórico de uma Nação, no caso, artístico, arquitetônico e espiritual, tudo ao mesmo tempo, como em Tibães. A recuperação que está em curso já faz mais de uma década e é sensacional. Anexarei algumas fotos ao final. Fomos agraciados, no momento em que estivemos por lá, com uma festa popular, dita do Milho, que transcorria dentro dos muros do mosteiro, o qual, aliás, bem absorve este tipo de manifestação. Ali, entre ranchos folclóricos e comidas variadas à base de milho, além de outras iguarias e vinho, passamos algumas horas especiais.

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Uma palavra sobre o Douro. Não conseguirei ser enfático o suficiente e assim recorro ao escritor Miguel Torga, um dos clássicos de Portugal, que inclusive viveu um tempo no Brasil, mais exatamente em Minas Gerais.  O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.

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Uma palavra sobre as “Citânias”, nome dado a sítios arqueológicos que remontam a antigas cidades de colonização celta, nos séculos anteriores à era cristã. A Citânia de Briteiros, localizada entre Braga e Guimarães, mas no território desta última, tem origem céltica, na idade do ferro, tendo abrigado uma cidadela fortificada (ou Castro) de dimensões imponentes para a época em que esteve ativa. É um dos principais sítios arqueológicos do país, foco de importantes estudos sobre a cultura e a organização dita castreja, com vestígios de uma complexa organização urbana, formada por malha viária, com áreas públicas e residenciais, balneários, além de um edifício central de reuniões, considerado um dos parlamentos mais antigos do mundo. Vale a pena conhecer, o acesso é fácil a partir de Braga e ainda oferece bela paisagem montanhosa. Mas não deixe de levar um tênis confortável, porque as vielas (ruas) de lá são muito irregulares, dificultando a pisada da gente.

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Vizela é uma pequena cidade autônoma nos arredores de Guimarães, creio que sem maior importância histórica, artística ou arquitetônica. Melhor dizendo, é certo que alguma coisa importante possa ter acontecido lá, isso é praticamente regra em todo Portugal. O que traz Vizela aqui é outro fato: o aproveitamento que se deu a um terreno baldio, banhado por um córrego (de águas cristalinas, para variar) que desce de morros vizinhos e atravessa uma parte da zona urbana. Aquilo ali, no Brasil, não seria nada mais que um depósito de lixo ou uma invasão de despossuídos (ou, quem sabe, de milionários mesmo…). Mas lá a história foi outra, até porque tal área deve ter se mantido intacta ao longo de muitas gerações. E assim, não sei bem quando, mas provavelmente em tempos recentes, o Concelho local decidiu dar uma finalidade nobre a tal terreno, construindo um enorme passadiço em madeira, suspensa sobre o terreno e lindeira às águas do ribeirão, que atravessa o tal terreno por quase 5 km. O resultado é apenas aquilo que se poderia imaginar: um parque urbano sensacional, aberto totalmente ao público, com espaços para merendas, meditações, reuniões ao ar livre e contemplação da natureza. Ai, que inveja!   

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A fronteira Norte de Portugal se dá com a Espanha, tendo como mediador o rio Minho, que na verdade nasce neste segundo país, com o nome de Miño e portanto é tão português como espanhol. Nas suas margens estão algumas cidades importantes, do lado de lá e do lado de cá. Entre as que visitamos agora estão as portuguesas Valença e Caminha, fora a espanhola Tuí, vista por mim de outra feita. Duas palavras sobre a surpreendente Caminha. Fica bem na foz do Minho, defronte ao oceano, na verdade uma ria onde convergem dois cursos d’água, o Minho e o Coura. Como a maioria das cidades portuguesas tem um centro antigo e uma periferia moderna, mas nesta aí predominam luxuosos prédios de apartamentos, provavelmente para veraneio. Tal parte antiga é uma graça, com prédios centenários entre os quais desponta um mercado municipal e uma torre do relógio. O mais imponente deles é a da igreja principal, no estilo românico, feita toda em pedra e datada de antes do descobrimento do Brasil. Só ela vale a visita. Mas não é de se desprezar a bela visagem da Espanha, do outro lado da larga ria que aqui separa os dois países, com um destaque especial para o Atlântico azul que se estende a perder de vista.

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Para honrar a família Pinheiro, à qual pertence meu amigo Eduardo, fomos visitar a aldeia ancestral deles, na região do Douro, no Concelho de Baião. Teixeiras é uma aldeia portuguesa, com certeza: duas dúzias de casas na rua principal, outras tantas espalhadas pelos morros adjacentes, com um indefectível e graciosa igreja com cantoneiras e molduras em pedra trabalhada, um sino a avisar do correr das horas. Vida calma e mansa, longe de todo bulício das cidades. No único café da localidade é possível tomar um bom espresso e até mesmo compartilhar um pouco da conversa dos retirados que ali se reúnem nas tardes, coisa em que o descendente dos Pinheiro é mestre consagrado. Destaque especial para a piscina pública, logo ao lado do tal café, aproveitando as águas cristalinas que descem da serra e também ao lado uma figueira a nos oferecer a delícia de uns figos brancos, nem terreno particular, mas que se espraia generosamente pela rua. Cenário completo de uma visita inesquecível.

Sabor de despedida…

Sabe bem conhecer e estar em Portugal! Não. Não está escrita errado esta frase. O verbo saber em Portugal comporta outra conotação, além daquela de adquirir conhecimento e nesta tem a ver com sabor. Para falar isso em “brasileiro” eu poderia dizer: é gostoso estar nesta terra, a qual, queiram eles ou não, acaba sendo também nossa. Afinal, não está lá o ouro das igrejas e as novelas brasileiras que não me deixam mentir? Isso sem falar de dentistas, cabelereiros, picheleiros, pedreiros, motoristas de aplicativo, manicures, garotas de programa e tantos outros trabalhadores que foram tentar a vida lá e ainda persistem nos seus sonhos, embora muitos deles venham sendo rechaçados atualmente.

Adeus Portugal, eu te visitaria muitas outras vezes, mas é hora de cuidar de outros afazeres.

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MOSTEIRO DE TIBÃES

MOSTEIRO DE TIBÃES

IGREJA DE SÃO VICENTE – BRAGA

TEIXEIRAS: UMA ALDEIA PORTUGUESA

O RIO DOURO

PONTE DE LIMA

CASTELO DOS DUQUES DE BRAGANÇA – GUIMARÃES

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