Ponte de Lima fica no Norte de Portugal, na antiga regiao do Minho. Para chegar lá, a partir de Braga, de Viana do Castelo ou de qualquer outro lugar, é melhor seguir pelo melhor caminho, ou seja, as estradas iniciadas pela letra “N” de Nacional, que são justamente aquelas que nos mostrarão o Portugal Profundo, coisas que as “A” (de Autopistas), padrão União Europeia, não permitem. Ali uma carroça; mais adiante ovelhas; um ou outro cavaleiro; crianças jogando bola na beira da estrada; colegiais na volta das aulas e as eternas senhoras de xale e aventalzinho. Paisagem minimalista, casas simples, portuguesas, com certeza, com suas videiras, macieiras e outras frutíferas. Hortas, também – afinal a couve é ingrediente imprescindível do caldo verde português. Uma igreja ou outra, comércio discreto e organizado, sem aquelas placas enormes que emolduram os botecos e armazéns por aqui; portas de reparos de autos, de talhos e outros estabelecimentos. De vez em quando, ao cruzarmos por baixo a autopista, isso nos devolve a certeza de estarmos no melhor caminho. E assim chegamos a Ponte de Lima. Imaginemos, primeiro, como disse Caetano Veloso, um sonho feliz de cidade. Ruas estreitas, calçadas quase artísticas, fachadas nobres em geral, embora mesmo quando simplórias, nunca deixem de estar enfeitadas com jardineiras e vasos, sempre na cor vermelha, com seus gerânios e avencas.
Afastamos um pouco e logo alcançamos um gracioso caminho cercado de muros de pedra, que vai dar a uma Igreja barroca e, mais adiante, em outra freguesia. É o verdadeiro Caminho de Santiago, com tudo que ele dá direito. As fachadas brancas, as janelas com molduras de pedra e folhas de madeira pintadas de azul ou amarelo. Telhados onde o tempo pôs e continua pondo sua pátina. Voltando ao pé da colina, o Rio; mas este não será um curso d’água qualquer, como veremos a seguir. Do outro lado do rio, outra vila, menor, mas igualmente acolhedora, já em outra freguesia que atende pelo gracioso nome de Arcozelo. Ao longo da margem de cá a alameda de choupos, podados todos à mesma altura, simetricamente, se mostrando como candelabros encimados por folhagem verde. No caminho, antigas mansões e prédios públicos e religiosos. O perfume das glicínias em toda parte é de embriagar e aqui elas se apresentam em variados tons de lilás. Nos jardins de uma pequena ermida o horto de plantas medicinais e especiarias mas completo que poderíamos ter encontrado. Eis a gentil vila de Ponte de Lima…
Aqui tem história também, claro. Reza a lenda que o rio que ao mesmo tempo nos cerca e abre caminhos, dito Rio Lima, foi durante algum tempo o limite do alcance do Império Romano, já há mais de dois mil anos. E não é que um dia os centuriões que chegavam, por ainda desconhecerem a região e menos ainda o que estava além dela, julgaram que o rio era o limite aonde poderiam chegar. Seria ele o mitológico Lethes, pelo qual quem passa deixa para trás toda lembrança, toda memória. E se recusavam a prosseguir. É então que o ousado comandante se atira às águas calmas do Lima e o atravessa a nado e, da outra margem, passa a convocar seus soldados, um a um, pelos nomes. Demonstrou, assim, que sua memória estava inteiramente preservada e não se diluíra nas águas límpidas daquele flumen. E assim os romanos avançaram e o Império deu novos passos em direção ao Norte.
Pra variar estamos em lugar antigo. Como município a Ponte existe desde cerca do ano mil e cem, por obra e graça de uma certa Dona Teresa de Leão. Está na região do Minho, eis que a fronteira com a Galícia jaz poucos quilômetros mais ao norte. Não é a cidade mais importante da freguesia: Viana do Castelo está logo ali do lado, junto à foz do Lima no Oceano, mas nada posso dizer sobre ela – não estive lá. Aliás, Ponte de Lima nem chega a ser cidade, é apenas uma Vila, mas, quem sabe, isso não chega a ser um problema, talvez seja mesmo a solução, ou um dos fatores que contribuem para o encanto especial deste lugar. Cinco mil habitantes, nada mais, a sensação que temos é a de poder vê-los todos nas ruas, em um simples passeio. Os nomes de lugares em seus arredores, por si só, fazem pura poesia: Paredes do Coura, Ponte da Barca, Peneda Gerés, Arcos de Valdevez, Vila Chã, Soajo, Entre-Ambos-os-Rios, Labrujo, Britelo, Vila Verde, Cerveira, Arcozelo, Caminha, Lindoso…
Da muralha medieval, milenar, ainda restam duas torres, além de uns pedaços esparsos, aqui e ali. Aqui, a muralha, longe de repelir, atrai…
A ponte por si só já traz uma história completa. Foi durante muitos séculos a passagem segura para se chegar ao Minho e à Espanha. Houve uma primeira ponte construída pelos romanos, da qual ainda resta um pilar na margem direita do rio. A atual, contudo, é produto da arquitetura medieval, havendo, segundo os alfarrábios, poucos exemplos que se rivalizam com ela em beleza e equilíbrio. Ela é passagem obrigatória dos peregrinos que se dirigem a Santiago de Compostela, conforme era no passado remoto e continua sendo até os dias atuais. Vejo também nos livros que as ruas da Ponte de Lima apresentam magníficas fachadas góticas, maneiristas, barrocas, neoclássicas e oitocentistas.
Mas as belezas naturais merecem também um parágrafo. Até a chegada, de quem vem de Braga, como foi o meu caso, a região é marcada por colinas suaves, sem grandes acidentes de relevo. Mas além do rio já se pode ver que a paisagem muda, com algumas serrinhas se dirigindo para o Norte e para o Leste. Nesta última direção fica o maciço de Peneda Gerês, que se estende até a Espanha. E logo logo dá vontade de mudar de rumo e ir por ali, já que Ponte de Lima era programa para um dia apenas. Em seguida se pode tomar o rumo de Santiago de Compostela, cerca de 300 km ao Norte, já em terras de Espanha (Galícia), sendo, todavia, de bom senso fazer por ali uma parada de pelo menos dois dias, mesmo à custa de deixar a peregrinação para outro momento, em troca de uma subida às montanhas.
Um derradeiro comentário sobre a culinária local. Meu amigo Cristiano Barbosa já havia me dito que eu não poderia deixar de experimentar uma iguaria local ou regional conhecida como arroz de sarabulho. E já na primeira noite decidimos experimentá-la, ou melhor, decidi sozinho, pois devo confessar que me calei perante minha companheira a respeito dos ingredientes do prato: miúdos e sangue de porco…
Para quem quiser se aventurar, uma receita original garimpada na internet é a da Basílica de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Vamos a ela:
Cozem-se as carnes em água abundante com a salsa, o casco de cebola, o louro e o sal. À parte, prepara-se um refogado pouco puxado com a cebola picada, o azeite, salsa e louro. Rega-se com um pouco da água em que as carnes cozeram e deixa-se ferver. Quando a calda estiver bem apurada e temperada, introduz-se o arroz. A calda deve ter cerca de três vezes o volume do arroz. Reserva-se a restante para acrescentar se for necessário. A meio da cozedura do arroz, junta-se o sangue e as carnes, que entretanto se desfiaram (com excepção das da colada). Mexe-se muito bem e deixa-se acabar de cozer. Serve-se o arroz assim que estiver pronto, enfeitado com as carnes da colada cortadas em bocados e algumas carnes desfiadas que se reservaram para o efeito.
Na minha primeira viagem por lá, minha companheira Carmen, bem mais ajuizada do que eu, declinou do acepipe e jantou arroz branco com ovos fritos e salada. Eu até comi tal sarabulho, mas aquela verdadeira bacia de vísceras suínas diversas, com aquele arroz, dito malandrinho, ou seja, com o vermelho do sangue de porco bem vivo, uma papa quase líquida, seria coisa para os fortes. Mas sobrevivi…
Ponte de Lima merece ainda uma flanada além ponte, com uma caminhada curta, mas inspiradora, na Freguesia de Arcozelo fronteira. Ali, chama atenção o belo e completo Museu Português do Brinquedo e um lindo Jardim Botânico, além da linda igrejinha colonial, de torre traseira, bem na cabeceira da ponte, de onde talvez tenham se inspirado os construtores de nossa Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará. Com um pouco de atenção para as belas chácaras (herdades) e suas vinhas, além de exemplares graciosos de residências antigas. Quem for a Santiago tem aqui uma pousada muito jeitosa, dedicada especificamente a tal clientela.
Nem tudo é perfeito. Andei indagando o valor de um aluguel, mesmo de um apartamento T-zero (os menores) e verifiquei que isso me custaria os dois olhos da cara e talvez meus rins e fígado. Fica pra outra encarnação.
