Pandemonia (1): Cenas de uma quarentena

<<Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte. Os vizinhos, em geral, movidos tanto pelo temor de que a decomposição dos corpos os afetasse quanto pela caridade que tinham pelos falecidos, observavam um mesmo costume. Sozinhos ou com a ajuda de carregadores, quando podiam contar com estes, tiravam os finados de suas respectivas casas e os punham diante da porta, onde, sobretudo pelas manhãs, um sem-número deles podia ser visto por quem quer que passasse; então, providenciavam ataúdes e os carregavam (alguns corpos, por falta de ataúdes, foram carregados sobre tábuas). Continuar lendo “Pandemonia (1): Cenas de uma quarentena”

E a Medicina, a que será que se destina?

vestibulandoQuerido Lucas Carvalho, leio nos jornais que você, com apenas 17 anos conseguiu vaga no curso de medicina na UnB. É um feito e tanto. Parabéns!  E seu merecimento fica ainda maior quando vejo que você é filho de uma diarista e de um entregador de bebidas, que é morador de uma remota periferia do DF e que desde a infância já se virava vendendo brigadeiros na escola. E mais: sonhava ser músico e não deixou por menos, hoje é saxofonista profissional! É muita conquista para uma pessoa só. Parabéns de novo! Nem eu nem a maioria das pessoas conhece, de perto, as intempéries e os acidentes de percurso que você deve ter enfrentado para chegar onde está. Então, você quer ser médico… Sem dúvida, é uma boa escolha. Mas talvez eu, do alto dos meus 71 anos e quase 50 de formado nesta profissão, possa lhe trazer alguma informação que você talvez ainda não tenha recebido ou percebido por si só. Ou talvez já o tenha… De toda forma, me desculpe se repito o que você já sabe e chovo no molhado.

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Renato Maia partiu…

Eu conheci Renato Maia anos atrás, primeiro como colega de Hospital Universitário, depois como paciente seu. Algo nos unia, isso eu descobri logo de cara. Poderia ser a nossa formação na UFMG, ou talvez a nossa mineiridade comum; quem sabe a sua raiz em Uberlândia, onde eu vivi por alguns anos, embora sem conhecê-lo de lá. Mas de toda forma me chamou logo atenção seu … Continuar lendo Renato Maia partiu…

Um Doutor que dispensa o pedestal…

drauzioPor estes dias, Drauzio Varela ocupou aquilo que na internet, em língua gringa, chamam de Trend Topics (Trem de Trópicos, como é mesmo?). Ele entrevistou Suzy, uma mulher transgênero, dentro de uma penitenciária e ao final, ao saber que a mesma não recebia visitas há alguns anos, a abraçou fortemente, na frente das câmeras. Que solidão! – exclamou então. Numa terra repleta de gestos trogloditas e inconsequentes foi realmente um consolo ter assistido algo assim. E a internet explodiu – para o bem desta vez – coisa rara de acontecer ultimamente neste pobre país. Seria normal, se não fosse exceção, absoluta, por sinal. Eu também me senti feliz e gratificado. Gosto de Drauzio, de sua figura humana, de seu jeito de ser, das coisas que faz e fala, de sua boa e suave militância – e não é de hoje. Continuar lendo “Um Doutor que dispensa o pedestal…”

Saúde e fake news

Em matéria recente (ver link ao final) a Folha de São Paulo resolveu levantar alguns dos mitos de saúde espalhados pelas redes sociais, checando e argumentando sobre sua veracidade. Por via das dúvidas faz o alerta logo ao início da matéria: “Não repasse esta mensagem a seus amigos e familiares” – sabe-se lá até onde chega a credulidade (em combinação com a irresponsabilidade…) humana. São … Continuar lendo Saúde e fake news

Temos novo governador: e agora?

O fenômeno já está sendo tratado como um case pelos cientistas políticos. Afinal, como é que alguém, em poucas semanas, abandona os meros “traços” de incidência de votos nas pesquisas eleitorais e ganha a eleição com mais de 70% das preferências? Realmente incrível… Certamente é mais uma combinação daquilo que Maquiavel chamou de fortuna (nos dois sentidos da palavra: dinheiro e sorte) e virtude (ou pelo menos a capacidade de estar presente em momento e lugar adequados, além de sintonizado com as expectativas dos eleitores). Mas o certo – e incontestável – seja bom ou ruim; estranho ou corriqueiro, é que Ibaneis ganhou. Assim quiseram seus eleitores – respeitemo-los… Mas o que ele diz  da saúde? Isso é o que nos interessa no momento. Continuar lendo “Temos novo governador: e agora?”

O que fazer com aquele amigo que vota em Bolsonaro?

Em primeiro lugar, como dizia Vinicius de Moraes, “melhor não tê-los…” Mas uma vez tendo-os, o que fazer? Para esgotar logo a parte pior, como todo mundo abriga um pequeno bolsonaro dentro de si, começo por ele, usando ele contra ele mesmo. Vou conjugar e fazer valer (mentalmente…) aqueles verbos que fazem parte do vocabulário habitual do coisa-ruim, de seus filhos e demais asseclas: torturar, … Continuar lendo O que fazer com aquele amigo que vota em Bolsonaro?