Jornada pelas Montanhas de Minas – Março 2025

Que tal um passeio por montanhas de Minas, suas estradas com curvas a perder de vista, à sombra da mata atlântica e na extensão de seus campos rupestres, acolhendo ainda, em tal panorama, cidades históricas e repletas de monumentos barrocos? Tudo isso com acesso relativamente fácil, a partir da Capital, BH. Vamos lá! Mas também é caso de nos prepararmos para que o deslumbramento não seja apagado por surpresas menos agradáveis. Viajemos, então, através de uma parceria literária, além de amorosa, entre eu, Flavio e minha mulher Keta, tentando fazer um contraponto entre uma visão mais crítica (minha) e afetiva e construtiva (dela), como é habitual entre nós. Aqui vão assim, nas linhas seguintes, nossas impressões sobre tal viagem, as minhas (Flavio) em texto normal e as dela (Henriqueta) em itálico.

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Pelos Sertões do Urucuia

A presente viagem foi realizada na segunda quinzena de janeiro último (2025), durando apenas quatro dias. Foram participantes dela este blogueiro que vos fala e meu grande amigo Cristiano Barbosa, misto de geógrafo, agitador cultural e cineasta-documentarista, residente em Uberlândia. A ideia era de realizar, ou começar a fazê-lo, um pequeno documentário sobre a região do rio Urucuia, a qual, como se sabe é também um ‘personagem’ de Grande Sertão: Veredas. Seu possível roteiro buscaria por imagens e possíveis referências de Guimarães Rosa, particularmente os chamados jagunços Catrumanos, gente pobre e valente, proveniente do vale de tal rio, os quais, por hipótese, acabaram desarmados, desempoderados e expulsos pelo ‘progresso’ material, particularmente pela entrada em cena do agronegócio na região. Acabamos mudando o foco após o encontro de um extraordinário personagem, que como se verá a seguir, nos revelou novas e interessantes facetas daqueles sertões. Não abandonamos o tema original relativo aos tais Catrumanos, ele apenas ficou para uma próxima etapa.  Narro agora nosso périplo pelos Sertões do Urucuia, através de pequenas inserções textuais, para não cansar os leitores. Vamos lá?

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O Urucuia em Rosa

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira-rio? Ou está mais interessado em comer um bom surubim ou dourado na brasa? Tudo bem, não chegaria a recomendar leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte de Brasília. Passando Formosa, você logo estará em altos chapadões o que só perceberá ao fitar o horizonte ainda mais amplo que o de Brasília. Esqueça – ou finja que não vê – a feia periferia de tal cidade e principalmente as bandeiras deste Brasil que não é o nosso que estão por toda parte. Siga em frente, deixando de lado o latifúndio totalmente improdutivo que é a imensa área pertencente às Forças Armadas à direita da estrada. Na primeira encruzilhada, virando à direita (apenas no sentido literal, da estrada…), a cidade que você logo encontrará, Cabeceiras, indica a situação geográfica da região, parideira de grandes rios. Aqui, a água flui para o São Francisco; um pouco antes para o Paranã, afluente amazônico e, mais atrás, para os formadores do São Bartolomeu, que via rios Paranaíba e Paraná, acabam desaguando em Buenos Aires. Cabeceiras de um continente, meu senhor! Algum corguinho verdoso desses – sem maiores pretensões – vai acabar dando no Urucuia, que corre para o Velho Chico. São personagens de uma história que está para começar. Deixa que eu apresento este Urucuia, “rio vermelho” na língua originária, que aqui principia a correr mundo e é marcante personagem de Grande Sertão: Veredas. Nada como viajar por ele na voz do próprio Guimarães Rosa.

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Por serras, morros, rios, vales – e História: uma festa em Sabinópolis

A Cordilheira. Talvez seja exagero chamá-la assim. Suas alturas máximas pouco passam de dois mil metros e sua extensão – assim mesmo descontinuada em alguns trechos – não chega a mil km. Além disso, não serve de divisa a países, nem mesmo a estados, já que percorre, no sentido Norte-Sul, apenas uma parte da área central de Minas Gerais e da Bahia, não chegando a cortar seus territórios de ponta a ponta. Sem dúvida, entretanto, a Serra do Espinhaço, tem presença marcante na vida de muita gente, mesmo que muitos de seus habitantes nem se deem conta que ela existe. De toda forma, é considerada pelos geógrafos como a única real cordilheira do Brasil. Recorrendo à prestimosa Wikipedia, vejo que ela se situa no chamado Planalto Atlântico, formada há mais de um bilhão de anos a partir de terrenos da era proterozóica, o que a faz rica em jazidas de minerais diversas, entre eles o ouro e o ferro, que contribuem para dar a estas montanhas um estatuto de importância econômica – ao mesmo tempo de devastação da natureza. Em Minas, o tal do Quadrilátero Ferrífero, situado ao longo de sua sombra é prova disso. Mesmo quem não se liga em geografia conhece ou já ouviu falar de algum de seus núcleos populacionais históricos: Ouro Preto, Mariana, Sabará, Serro, Diamantina, Grão Mogol e já na Bahia, Rio de Contas, Brumado, Mucugê e Lençóis. De entremeio, relíquias coloniais como Santuário do Caraça. Isso para não falar da cidade de Itabira, onde nasceu uma vasta parentada minha – e eu mesmo.

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Entre chapadões, morros e rios

E lá vamos nós conhecer a nascente do rio São Francisco. Melhor seria dizer “as nascentes” – mas isso é coisa que depois explicarei. Minha compulsão pela Geografia, entretanto, me obriga a começar pelo caminho de tal ciência, da qual fui aluno aplicado no Colégio. Estamos no Planalto Central e este é o nosso ponto de partida. Mas preciso dar contexto a tal afirmativa, já que a maior parte do território do Brasil é formada justamente por acidentes geográficos com tal nome, ou seja, planaltos.

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Sempre Portugal

<<Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, / Deus quis que a terra fosse toda uma, / Que o mar unisse, já não separasse. / Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, / E a orla branca foi de ilha em continente, / Clareou, correndo, até ao fim do mundo, / E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir, redonda, do azul profundo. / Quem te sagrou criou-te português. / Do mar e nós em ti nos deu sinal. / Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!>>

Foi com tais versos de Fernando Pessoa na cabeça que me dei conta que ainda faltava cumprir-se, se não a Portugal, a mim próprio. Afinal, como poderia um brasileiro não conhecer nosso país ancestral? Foi pensando assim que me mandei para lá, pela primeira vez em 2012 e mais outras, em 2015, 2019, 2021 e 2022. E com vontade de voltar sempre. “Que o mar unisse, já não separasse”, enfim.

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Uma viagem e tanto…

A viagem de que se fala aqui, na verdade, era para ser outra. Transcorreria antes do grande cataclisma mundial e nacional que foi a pandemia de Covid e reuniria apenas a família Camarotti, representada por Henriqueta, Helaine e Alexandre. Mas o mundo virou de pernas pro ar, dois anos inteiros se passaram e ela acabou acontecendo com novos personagens adicionados: Flavio Goulart e Maria Íris Guimarães. Alexandre deixou para outra vez. Assim é que nestas páginas eu, Flavio Goulart, narro minhas percepções sobre esta viagem, sob a forma de crônicas. O ideal seria que cada uma das demais viajantes deixasse também suas impressões, pois o que aqui vai é apenas uma visão individual. O narrador, admitamos, não é dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como disse Drummond a respeito de si mesmo, mas é o que se oferece para o momento. Intitulei estes escritos de Crônicas Portuguesas. Espero que os leitores também apreciem, já que eu gostei muito de ter escrito…

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Crônicas do Bom Viajar

Esta foi uma viagem a dois, para dois e entre dois. As origens de sua realização se situam antes, muito antes de ela ter ocorrido de fato. Mas por que Portugal? Por um lado, pela ascendência portuguesa de Keta. Por outro, pelo meu amor ao país onde também tenho raízes, embora mais remotas. Mais um lado foi trazido pela generosidade de Keta, minha mulher, em pensar que eu poderia guiar uma viagem que ela ainda não havia realizado, apesar de conhecer Portugal de outras passagens pelo país. Uma viagem, acima de tudo, amorosa, na qual paisagens, lugares e nossas duas pessoas estiveram entrelaçados todo o tempo, em clima intenso de conexão entre a construção humana, a paisagem, a amorosidade e o sagrado. E assim decorreram as semanas iniciais em Braga, depois os dias em Marselha e Paris, para arrematar com mais um tempo, de novo em Braga e depois Lisboa. Pequenos contratempos, como o furto de um celular e de cartões de crédito não tiraram o brilho da viagem nem a nossa alegria de estarmos juntos. Pelo contrário, fizemos valer com brilho o adágio, aquele, que fala do suporte mútuo na alegria e na tristeza, levados então por nós até as derradeiras consequências. Foram quase 60 dias juntos, 24 horas por dia, sorvendo cada hora e cada minuto, conhecendo coisas e lugares novos e diferentes praticamente a cada dia, mas principalmente nos (re) conhecendo, em um estado de permanente gratidão ao destino por nos ter proporcionado, depois de 12 anos afastados, um reencontro tão luminoso. Esta viagem foi um marco para nós. Assim foi, assim será. Cabe lembrar Saramago: O fim duma viagem é apenas o começo doutra […] É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Nossa história juntos mostra também tais desígnios e por isso fazemos disso palavras também nossas. E, principalmente, que tenhamos muita disposição e muita saúde para as outras viagens que nossa vida, juntos, haverá de proporcionar…

Acesse o texto completo aqui:

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Entre Sertões: de Brasília ao São Francisco e ao Jequitinhonha

 (Estrelando: Keta, Flavio, Iris e Luiz Gonzaga)

Com toda felicidade e já com saudades dos excelentes dias passados junto a tão amáveis companhias, eu, Flavio, principio este relato. Parafraseando Guimarães Rosa, aliás nosso companheiro constante nesses dias, esta foi uma viagem inventada (e realizada) no feliz. Não posso dizer que houve muita preparação, pelo menos coletiva, pois meus companheiros delegaram, com muita honra para mim, as atribuições de planejador, guia e escriba, além de condutor. E assim nos juntamos, Keta Camarotti, Iris Guimarães, Luiz Gonzaga e eu para este giro pelos Sertões de Minas, sem desprezar seu correspondente goiano, entre 5 e 11 de maio de 2023.

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Chapada dos Veadeiros

Aqui é a Chapada dos Veadeiros. Ou melhor, estamos em um dos muitos vales que foram abertos pela força das águas que correram através dos tempos a partir das terras mais altas, acima dos mil metros de altitude, como é o caso daquelas onde se hoje assenta a cidade de Alto Paraiso. Um dia, há mais de cem milhões de anos, tudo isso foi o fundo de um grande oceano. Quando as imensas placas que formam a superfície da terra se moveram, a água de tal mar simplesmente fez o que ela sempre faz, agiu sob a força de gravidade e rolou para as partes mais baixas. No seu caminho, abriu vales como este, do ribeirão São Bartolomeu, que corre para o rio Paranã, que corre para o Tocantins, que corre para o Amazonas, e para o mar, desaguando na Bahia de Guamá, onde está a cidade de Belém.

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