Se bem me lembro (V): Eu, gauche na vida
O que tem sido minha vida, em termos das minhas posições ideológicas ou práticas, bem como sobre os desafios e as contradições a que cotidianamente se é submetido? Gosto do termo gauche, popularizado por Drummond para uma definição mais ampla de mim. Vejo na internet que tal palavra deriva arcaicamente de “guichir” (?), significando aproximadamente dar voltas e, por extensão, vacilar e agir de forma desajeitada. E por alguma razão, também significando “esquerdo”. Na língua mãe do francês e do português, o latim, entretanto, a matriz para esquerdo é sinistro, forma mantida no italiano, que fornece pano para digressões bem interessantes – mas vamos deixar isso para outro momento. O nosso esquerdo, izquierdo em castelhano, viria do basco esker (e viva a maravilhosa Wikipedia!). Quando Drummond se declara gauche provavelmente quer se dizer “desajeitado ou “fora dos padrões”, refletindo sentimentos de inadequação, deslocamento, de ser estranho ou diferente. Pode ser também uma alusão à contradição entre em “eu” lírico e a realidade mais crua. Pois bem, isso me serve a contento! Eu também tenho muitas vezes a sensação de ser diferente de todo mundo – mas quem não tem? Sobre isso, escrevi certa vez este pretenso haikai: Nem melhor, nem pior / que toda gente. Apenas quero ser /diferente.
Mas será que é isso mesmo?
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