Quando as pessoas resolvem escrever suas memórias – e eu já o fiz – é natural que valorizem e deem primazia às coisas boas que lhes aconteceram na vida. Não fiz diferente em meus registros, mas ao mesmo tempo não deixo de imaginar como seria uma (auto)biografia em que alguém narrasse suas perdas, não suas conquistas.
Pus-me de fato a pensar nisso com mais profundidade quando li um poema de Elisabeth Bishop, poeta americana cuja vida teve uma passagem pelo Brasil, intitulado exatamente One Art, no qual ela confere à lida com as perdas um estatuto de sabedoria, ou mais: de verdadeira arte.
Tal poema magistral vai, ao final deste texto, acompanhado de uma talvez canhestra tentativa minha de traduzi-lo, não literalmente, mas sim, digamos, poeticamente. Que me perdoem os fãs de Mrs. Bishop se eu os traí, ou à verve poética da escritora americana.
Foi assim que, pensando a minha vida à luz das perdas que experimentei, cheguei à conclusão que nos anos 60 elas foram mais expressivas e marcantes.
Perdi meu avô Altivo, a quem eu era muito ligado; depois meu tio-avô Arnaldo Cathuod; outro tio, irmão de minha mãe, José Marcos; meu primo Mateus, que se afogou junto com ele; minhas duas bisavós Terezinha e Sinhana (sim, somos uma família longeva). Perdi também minha infância, não porque não a tenha vivido de fato, mas por ter ela simplesmente ter sido ultrapassada. Perdi minha inocência, ao descobrir, graças às revelações de um garoto ainda mais novo do que eu, a verdadeira maneira como eram feitos os bebês. Perdi, também, o aconchego e a proteção da casa em que vivíamos, no bairro da Lagoinha, em BH, para enfrentar os riscos de passar a fazer parte de uma turma de quarteirão, no Prado, onde fui recebido com uma boa sova (mas que acabou gerando um grande momento em minha vida); Perdi, ao cabo, a vida boa que eu levava, diante do fantasma do vestibular, que afinal de contas me sorriu, ao me premiar com uma vaga na faculdade medicina.
Entrei naquela década como um garoto de calças curtas e dela saí um estudante universitário, já inserido no mercado de trabalho, quase médico, a lidar com a vida e a morte de pessoas reais. A vida para mim, então, deixava de ser um sonho doce e leve, para se transformar em rotinas e cumprimento de ordens, como disse Drummond.
Pensando bem, foram sofrimentos que vieram para o bem, que me obrigaram a romper com o casulo da infância, mas que ao mesmo tempo me trouxeram conhecimentos e habilidades que me serviram pela vida a fora.
Mas, e a arte da perda?
Neste quesito Bishop é certeira.
No poema One Art é coisa imediata a gente se identificar com o um rosário de perdas, que certamente todos os mortais compartilham, entre elas as chaves de casa, os lugares por onde se andou, as horas descuidadas que se desperdiça, nomes de algumas pessoas; relíquias de família, as lembranças dos lares onde se viveu; além dos rios, reinos e cidades que um dia nos pertenceram.
Mas Bishop diz, com firmeza: nada disso é fatal, nada disso é um desastre e, por consequência, não são coisas irreversíveis. The art of losing’s not too hard to master: em outras palavras, a gente tem que saber lidar (to master) com ela, o que cria uma bela e repetida rima com disaster.
O problema maior, segundo ela, que passara por tal experiencia com a brasileira Lota Macedo Soares, é a perda de uma pessoa especial, sua voz peculiar, seus gestos amados. Aí sim, cabe registrar(!), é que se instala um autêntico desastre que é o deserto afetivo.
Obs. A figura que ilustra esta matéria é da poeta Elisabeth Bishop (Original: The Poetry Foundation)
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Aqui vai minha versão de One Art
Tantas perdas na vida… Enfrentá-las é uma arte.
Algumas parecem já ter vindo ao mundo assim fadadas
De forma que a perda pode não ser algum desastre.
A gente perde, sempre e a cada dia: é fatal cair no laço
Sumidas as chaves de casa, as horas desperdiçadas
Afinal perder é uma arte, nem é tão grande o embaraço.
Cabe aceitar as perdas, sejam distantes ou súbitas,
De lugares, nomes, viagens um dia aproveitadas
Nada. Nada disso poderá ser coisa estúpida.
Eu perdi o relógio de minha mãe, na vida tanto atraso
Três casas em que vivi já estão desocupadas
A arte de perder não será nenhum acaso.
Perdi mais: duas cidades amadas, e mais ainda
Reinos que eu possuí, dois rios, coisas muito apreciadas
Tudo isso, mas nem assim vi minha vida finda.
Mesmo ter perdido você (voz e gestos muito amados)
Não há porque mentir, não está finda a jornada,
Se tal arte de perder é o que resta de certo
Claro que se faça, (anote!), de tudo isso um deserto.
***
Agora, o poema original, de Elisabeth Bishop
One Art
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
