O que tem sido minha vida, em termos das minhas posições ideológicas ou práticas, bem como sobre os desafios e as contradições a que cotidianamente se é submetido? Gosto do termo gauche, popularizado por Drummond para uma definição mais ampla de mim. Vejo na internet que tal palavra deriva arcaicamente de “guichir” (?), significando aproximadamente dar voltas e, por extensão, vacilar e agir de forma desajeitada. E por alguma razão, também significando “esquerdo”. Na língua mãe do francês e do português, o latim, entretanto, a matriz para esquerdo é sinistro, forma mantida no italiano, que fornece pano para digressões bem interessantes – mas vamos deixar isso para outro momento. O nosso esquerdo, izquierdo em castelhano, viria do basco esker (e viva a maravilhosa Wikipedia!). Quando Drummond se declara gauche provavelmente quer se dizer “desajeitado ou “fora dos padrões”, refletindo sentimentos de inadequação, deslocamento, de ser estranho ou diferente. Pode ser também uma alusão à contradição entre em “eu” lírico e a realidade mais crua. Pois bem, isso me serve a contento! Eu também tenho muitas vezes a sensação de ser diferente de todo mundo – mas quem não tem? Sobre isso, escrevi certa vez este pretenso haikai: Nem melhor, nem pior / que toda gente. Apenas quero ser /diferente.
Mas será que é isso mesmo?
Pois bem: diferente, contestador, do-contra, excêntrico, incorreto politicamente, esquipático – algo assim. Me cabe bem ser um sujeito gauche, à moda de Drummond. Podem me chamar de iconoclasta e exagerado, também. Ou ainda, de alguém que mete a colher de pau em panelas não são de sua cozinha. Não me importo. Como diria Brecht, um epitáfio com tal conteúdo muito me honraria.
Como procurarei demonstrar em seguida, minha bizarrice se conforma através de escritos meus dos últimos anos, nos quais minha colher de pau revira uma mistura de vida, política, esporte, infância, opção profissional, educação, medicina, religião, saúde pública, morte, Drummond, Guimarães Rosa, Grande Sertão, conforme uma seleção de textos de minhas memórias que segue adiante. Afinal, livre pensar é só começar, como dizia Millor Fernandes.
E vão desculpando aí qualquer coisinha.
Eu, quase político
Corria o ano de 1986. Eu participava da administração municipal em Uberlândia e, no horizonte, já raiavam as negociações e fofocas para a eleição daquele ano, para o Legislativo estadual e federal. Era impossível ficar fora dessas conversas. Como sempre acontece, a o grupo de Secretários do governo já estava meio rachado, entre uma facção mais pragmática e outra mais progressista (mas, por favor, não me perguntem sobre os reais significados dessas palavras, ainda mais passados tantos anos). Eu me alinhava com o segundo grupo.
Uma brincadeira da época: nosso governo se parecia com um violino – tocado pela direita, mas seguro pela esquerda…
Na verdade, o que nos movia era certa antipatia – retribuída, aliás – frente a dois líderes do PMDB na região, Luiz Alberto Rodrigues, deputado estadual e Ronan Tito, senador. Eram dois tremendos manipuladores, faziam uma política das mais rasteiras e clientelistas e quase sempre criticavam, de forma abusiva, a parte do secretariado que eles não julgavam suficientemente alinhada com o partido. Tal era o meu caso, mas me faziam companhia mais uns três ou quatro colegas. O próprio prefeito era frequentemente cobrado por eles por não colocar “ordem na casa”, ou, em outras palavras, exigir de seus assessores uma postura política “coerente” com a estratégia política dos caciques referidos acima.
O tal grupo sob suspeita, associado a alguns filiados mais independentes, achou que devia ter sua própria opção para a eleição legislativa que se avizinhava. E assim, conversa vai, conversa vem, dois nomes foram cogitados: o meu e o de Niza Luz, que respondia pela Secretaria de Ação Social. Nós fomos cogitados por razões até bem objetivas: éramos, de longe, os dois secretários da administração municipal com maior visibilidade pública e midiática. Mas daí a virar político certamente ia uma distância muito grande, pelo menos no meu caso.
As coisas foram caminhando. Niza logo declarou que não toparia, pois tinha compromissos familiares ou particulares que a impediriam. Não que não gostasse da política; ela mais tarde foi vice-prefeita de Uberlândia na chapa de nosso principal adversário da ocasião. Coisas da política – ou pelo menos do que se chama “política” no Brasil… E foi assim que, da noite para o dia, me vi candidato, embora deva confessar que sem muita convicção.
Na hora de escolher o nível da candidatura, estadual ou federal, tivemos que nos dobrar às tais lideranças. E elas haviam determinado que deveria ser estadual, pois Rodrigues já se lançara candidato a deputado federal na ocasião e não queria concorrência. Fazer o quê? Aceitar, foi a solução.
E assim eu fiquei pensando no assunto por alguns dias, sem me definir em um primeiro momento. Eliane, naturalmente, era contra. Os amigos insistiam. O prefeito, neutro. E eu, totalmente perplexo…
A situação só se resolveu quando fui procurado por um sujeito, o qual, aliás, eu nunca tinha visto, que se anunciou como liderança política do chamado “Pontal do Triângulo”. Ele veio todo formal, marcou hora com minha secretária, veio em camisa de seda e deixou no ar um perfume que me nauseou por horas seguidas. Era um anjo da anunciação, porém com sinal trocado, depois eu percebi…
E o tal sujeitinho: – doutor, sua candidatura vem em boa hora; liderança jovem e dinâmica é o que nos falta no momento; temos que desbancar esses políticos que não largam a rapadura. Só na minha cidade posso conseguir dois mil votos certos. E nem falo dos contatos que tenho em muitas outras cidades da região. Vim aqui para anunciar meu apoio.
Eu recebi aquilo com o pé atrás, naturalmente. Só não esperava que tal anjo se desmascarasse tão rapidamente.
– Doutor, é o seguinte, para começar a trabalhar preciso levantar, de imediato, uma graninha, coisa pouca, mas essencial para começar. O senhor pode tirar isso do bolso sem susto, que depois será reposto pelos doadores de campanha… O “quanto” ele não explicitou exatamente, apenas sugeriu: era bem mais do que o meu salário de secretário.
E foi assim que, mesmo antes de ser anunciada oficialmente, minha candidatura foi retirada. Para nunca mais.
Como deixar de ser homenageado
Na minha vida de professor de medicina creio que tive um momento áureo, que se deu entre a minha chegada à Faculdade de Medicina de Uberlândia (então Escola de Medicina e Cirurgia) e um momento seguinte, cerca de cinco anos depois. Eu era jovem, esbelto, bigodudo, com cabelos lisos e de fios longos a me descer sobre a nuca, andava de moto. Bonitão, diziam… Mas na verdade o segredo de meu sucesso era outro: eu viera preencher um vazio. Até então a faculdade não havia ministrado a disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias, e eu, concursado para tal área na UFMG, chegara ali para dar o recado. E foi assim, parece, que acabei obtendo muito sucesso.
Além disso, logo me envolvi com o atendimento, não só no pronto socorro como nos ambulatórios, além de acompanhar pacientes na enfermaria. De repente eu estava presente em vários cenários de ensino e assistência. É bem verdade que eu não era o único fazê-lo, mas de alguma forma era contemplado pela aura de ser novidade naquele ambiente. Fui lembrado até mesmo para ser diretor da faculdade, no final do segundo ano que lá cheguei. Daí me surgiu uma frase que tem me ajudado muito na vida, particularmente em reuniões de condomínio: muito cuidado ao praticar ou mesmo divulgar ideias inovadoras ou sensatas; as pessoas podem imaginar que você topa aceitar ser diretor ou síndico…
Assim, não chegou a ser surpresa para mim quando, no final do ano seguinte, a primeira turma que havia tido aulas comigo, me escolheu como um de seus homenageados. E assim aconteceu por quatro anos seguidos. Eu me sentia mesmo o queridinho geral…
Mas como bem se sabe, o que é bom não dura muito. Foi o que me aconteceu, ajudado que fui pela inquietação existencial que me acompanha pela vida a fora. Explico. Depois de quatro anos repetindo os conteúdos de clínica das doenças infecciosas, sempre dentro de um esquema clássico, que incluía etiologia, patogenia, diagnóstico clínico, terapêutica, resolvi promover uma virada em tal disco, já meio gasto e rachado. Além do mais, o território das DIP estava bastante revirado agora, com o advento da AIDS, de forma que a antiga “medicina tropical”, de forte inclinação pela determinação geográfica das doenças, estava se vendo perturbada pelos novos ventos da determinação social e cultural.
E foi assim que comecei a conversar com meu colega e amigo Melicégenes Ribeiro Ambrósio, grande figura, que era o responsável pela disciplina de Medicina Preventiva, cujo território, aliás, também se via perturbado por ventos de mudança. Que tal se criássemos uma nova disciplina, que integrasse prevenção e cura? – foi o que propus a ele. Ele relutou um pouco, mais acabou aceitando, talvez mais por confiar em mim do que propriamente por achar a ideia totalmente viável. E assim foi; já no primeiro semestre de 1980 estávamos ministrando aulas em parceria, ora eu, ora ele (todo o conteúdo era apenas teórico na ocasião).
O resultado disso, em termos didáticos eu não sei. Certamente foi uma coisa inédita, pois o comum na ocasião era cada disciplina, com seu professor, ocupar um cercadinho, sem maior comunicação, nem para os lados, nem para trás e muito menos para a frente, na grade curricular. Mas certo desfecho me pareceu cabal e definitivo: eu nunca mais fui homenageado pelos alunos…
Anos depois, já na Universidade de Brasília, cansado de ser um professor tão invisível e pouco reconhecido, resolvi desabafar, produzindo a seguinte fábula moderna com sabor antigo. Phantasilia e Belgladesh, foi o nome que dei a tal brincadeira, logo se verá por quê.
Phantasilia e Belgladesh
Era uma vez um Reino, muito distante daqui no tempo e no espaço, chamado Phantasilia. Seu rei, Eu-ricus, muito poderoso e dono de muitas posses, tinha um único filho, Patricius, cujo sonho era estudar a Arte de Curar. Toda a família era impressionada com a destreza com que Patricius esfolava e depenava pássaros, retirando com perícia, de seus corpinhos ainda cálidos, os corações pulsantes. Todos queriam que o principezinho seguisse a carreira de Perscrutador, que era o nome que se dava aos praticantes da Arte de Curar e todos tinham certeza que ele se dedicaria ao estudo das cavidades esquerdas do coração, que era um ramo importantíssimo da perscrutatória da época. Naquele tempo, grassavam muitas doenças destas cavidades, tanto é que várias pessoas da família de Eu-Ricus e de sua mulher haviam adoecido e mesmo morrido em consequência das mesmas. Patricius era muito curioso a respeito de doenças e doentes e descobrira que as tarefas de perscrutador lhe cairiam como uma luva e haveriam de lhe granjear grande prestígio e muito dinheiro, pois não só pessoas de sua família como muitas outras, ligadas a ela por laços de sangue e de nobreza, padeciam das tais doenças cardiossinistras.
Quanto ao acometimento das demais cavidades do órgão, ou mesmo do corpo, bem como de outras camadas da população, Patricius pouco ou nada sabia, pois todo o seu pensamento, até então, fora dedicado a se imaginar um Perscrutador notável, um cardiossinistrólogo, como outros que ele conhecera nos saraus da corte, todos muito queridos e muito abonados.
Assim foi que o príncipe chegou à idade de frequentar a Academia da Arte de Curar e foi encaminhado por seu pai a uma notável instituição de seu tempo, conhecido como HUBrius, onde a maioria das famílias nobres punha seus filhos a aprender a Arte. É bem verdade, que já àquele momento, um Rei vizinho, por nome Jofranus, resolvera criar sua própria Academia, com a justificativa de que no Hubrius não se ensinava corretamente a Arte e de que era preciso dar oportunidade a mais pessoas no aprendizado da mesma. Apesar disso, Eu-ricus, apegado à tradição como um Rei que se preze, mandou Patricius para o Hubrius, recomendando que ele dedicasse o melhor de seus esforços ao aprendizado da Arte, o que, afinal de contas, era um destino traçado para ele desde a infância. Além do mais, não tinha cabimento que todos aqueles passarinhos inocentes tivessem sido sacrificados em vão… Patricius, justiça seja feita, saiu-se muito bem no Hubrius, tendo sido até escolhido por seus pares para fazer a tradicional Homenagem aos Pais, durante o rito de passagem final da Academia.
É certo que ao findar seus estudos, Patricius se envolvera em uma polêmica desgastante com Epidemonis, um velho lente da Faculdade que cismara de mudar a tradicional e bem posta ordem das coisas, ao dizer que os alunos deviam também cuidar das pessoas pobres, estudar outras matérias além daqueles que tratavam do corpo e dos elementos físicos, além de praticar em ambientes diferentes das tradicionais salas perscrutatórias. Patricius, galhardamente, liderou a reação contra tais medidas estapafúrdias, argumentando muito apropriadamente que ele e seus colegas não tinham vindo à Academia, e com tantos sacrifícios, para praticar algo que não fazia parte de nenhuma tradição conhecida a não ser, claro, que tudo não passasse de uma invenção diabólica do notório Epidemonis, um sujeito que, além do mais, era conhecido no Hubrius e fora dele como portador de pensamentos fora de linha, donde sua alcunha jocosa de Epidemonius.
Superado e esquecido este episódio desagradável, que quase empana o brilho do grande festival que Eu-ricus promovera para homenagear seu filho, agora iniciado na Arte, Patricius resolveu seguir o caminho de todos os filhos das boas famílias da época: procurar o Reino de Terra Mater, para se aprofundar na perscrutatória das cavidades sinistras. E assim veio a conseguir, graças a um Arquiduque que devia favores a seu pai, uma vaga no Incorus, que era o nome do Templo onde melhor se praticava tal mister. Longa é a Arte, curta é a Vida…
Passados cinco invernos, Patricius finalmente cumpriu o rito final da Arte de Curar e recebeu a prebenda de Perscrutador Hermenêutico e Douto, ou «PHD», como singelamente se dizia então em Terra Mater. Como os anos passados em tais estudos profundos o haviam deixado muito esgotado do espírito e dos nervos, Patricius, com licença de seu pai, pôs-se a correr o mundo, para conhecer outros reinos e travar contato com perscrutadores de outras academias, no que foi muito bem-sucedido, tendo feito inúmeras amizades e mesmo sido convidado a colaborar em diversos alfarrábios que então se editavam aqui e ali sobre o tema das preocupações de nosso herói: os distúrbios das cavidades sinistras.
Chegara, finalmente, a hora de retornar a sua velha Phantasilia. Ah pobre Patricius! Quando ele vagava feliz e inocente pelos reinos da Disnélia e da Maiâmia, jamais poderia imaginar que tudo mudara em seu país e que o mundo que ele conhecera simplesmente desabara! Para dizer pouco: a monarquia fora derrubada e seu pai obrigado a se exilar em um Reino vizinho, a Penúmbria, sob a guarda de seu monarca e amigo Ignotus II. Os bens da família tinham sido confiscados, seu poder extinto. Aliás, o próprio nome de seu país natal fora mudado, era agora Belgladesh. O Hubrius entrara em decadência e Jofranus, em seu Reino à oeste, não cabia em si de contente com o sucesso de sua nova academia, da qual agora emergiam chusmas de novos perscrutadores cavitários.
Assim foi que Patricius encarou firmemente a realidade e foi abrir sua Sala Perscrutatória em um bom local, próximo às antigas residências da nobreza. Mas, qual! A nobreza se dispersara e os poucos que ficaram não tinham dinheiro. Alguns até mesmo descobriram que nem doentes eram de verdade, mas que haviam sido enganados por certo perscrutador de nome Iatrogenicus que andara pelo Reino, por coincidência num tempo em que os diagnósticos brotavam como cogumelos à sombra. Passados dois anos de sofrimento, o belo pergaminho que certificava sua passagem pelo Incorus esquecido em uma parede (e depois em um fundo de gaveta), Patricius teve que abrir mão de toda sua expectativa e de toda sua ilusão, cultivadas nos anos do Incorus e nos reinos estrangeiros…
Vai então nosso herói, envergonhado, à procura de um reles emprego, mediante soldo, para praticar a Arte. E aí então, horror dos horrores, dá com os costados em um lugar onde os doentes eram doentes não só das cavidades do coração, mas também de outras partes do corpo e até mesmo da alma, além do mais sendo pobres, muito pobres – pobres de doer! As salas perscrutatórias e a vasta equipagem de um perscrutador pouco ou nada valiam naquela situação – e era assim em toda Belgladesh, ex-Phantasilia. Foi então que Patricius lembrou-se de seu antigo desafeto Epidemonis, dito Epidemonius: quem sabe ele não tivesse razão? Mas aí, então, já era tarde, muito tarde…>>
***
A história que criei foi essa. Talvez um pouco sarcástica, reconheço, mas bem fundamentada nas minhas vivências de professor, particularmente nos últimos anos, quando me dedicava inteiramente ao que então se denominava saúde coletiva e depois medicina social. Alguns esclarecimentos talvez caibam, pela datação do texto no final dos anos 90, embora ele pretenda ser autoexplicativo. Jofranus, diz respeito a Jofran Frejat, ex-Secretário de Saúde do DF, responsável pela criação – bem-sucedida, aliás – no início dos anos dois mil – de uma nova faculdade de medicina na cidade. Hubrius é uma brincadeira com a sigla HUB – Hospital Universitário de Brasília. O título da crônica deriva de uma piada da década anterior, de autoria, se não me engano do economista Edmar Bacha, que falava do Brasil como uma Belíndia – ou seja, uma mistura insólita de Bélgica com Índia. Epidemonius representa minha homenagem aos endiabrados, persistentes e, acima de tudo, heroicos professores de medicina preventiva, social, coletiva, seja lá qual for o nome que se atribua a esta área de conhecimento, da qual eu, honrosamente, fiz parte.
Cenas da vida de um professor
Comentário adicional a esta história de Phantasylia e Belgladesh, para me redimir de alguma acusação de intolerância ou amargura com a carreira de professor. Anos depois de aposentado da UnB tive que me submeter a uma cirurgia de ombro, no Hubrius. Eu já estava na mesa cirúrgica quando um mascarado – o anestesista – se aproximou de mim e me disse, olhos nos olhos: professor, nunca é tarde; eu queria lhe pedir desculpas por termos, eu e minha turma, valorizado tão pouco aquelas informações que você nos trazia. Só depois vimos como aquilo tudo era tão importante. Eu apenas pedi a ele que tirasse a máscara, para que eu o reconhecesse e lhe disse, entre honrado e emocionado: não faz mal, estão perdoados. E por dentro, como Cristo: vocês não tinham mesmo nenhuma ideia do que faziam…
Mas devo dizer que se a minha careira docente não foi completa, dada a interrupção que sofreu entre 1989 e 1995, intervalo em que fui fazer mestrado na Fiocruz e em seguida assumir um posto no Ministério da Saúde, para em seguida ser transferido para a UnB. Penso assim que tive, com os devidos descontos, uma carreira docente ao menos precoce e até relativamente longa, durando, no total, quase três décadas. Assim, estive presente em salas de aula entre 1969 e 1973, no colégio Arnaldo e curso Champagnat, em BH e também na Faculdade de Medicina da UFMG, e depois, entre 1975 e 1988, na UFU e entre 1995 e 2003, na UnB, marcando ponto efetivo nos famosos ambientes de cuspe e giz – as tecnologias educacionais só vieram depois.
Fui feliz e infeliz, misturadamente, mas faria tudo outra vez…
Como professor, uma das manias que tive, e que agora confesso, era a de fazer as coisas de forma diferente a cada momento. Assim, quando se trata de ir e vir, por exemplo, quase sempre me recuso a usar o mesmo caminho duas vezes para alcançar o mesmo objetivo. Mesmo no roteiro do trabalho à minha residência, a não ser que não existam de fato outros caminhos viáveis, embora às vezes tenha que testar isso de forma exaustiva.
Assim, como professor, sempre gostei de inovar. Peço licença para usar aqui este verbo tão querido nos dias atuais: inovar. Podem chamar de criar novidades, também. Não que eu ache que isso seja uma qualidade minha. Pode ser um defeito, coisa de quem se sente entediado quando faz as coisas sempre do mesmo jeito, mesmo que tal jeito demonstre ser correto. Devo dizer, também, que talvez muito do que eu chame inovação seja apenas maneira de fazer algo diferente do que os outros costumam fazer, já que nas universidades e em outras áreas provocar ou aceitar as mudanças não chega a ser um comportamento habitual.
Entre as minhas inovações pedagógicas tenho que admitir que colecionei alguns fracassos, junto com alguns frutos positivos também.
Assim, por exemplo, nos meus últimos tempos de professor da Universidade de Brasília, início do século XXI, coincidindo com a recente expansão das comunicações pela internet, ainda sob a égide do velho e bom e-mail, resolvi organizar uma lista de discussão com os alunos, tendo como temas alguns dos conteúdos da disciplina que ministrava. Fiz isso de maneira mais pontual, na chamada Introdução às Práticas de Saúde (IPS), no primeiro período e de forma mais abrangente na de Administração de Serviços de Saúde (ADM), no oitavo. A receptividade até que foi boa, no início, mas logo tive que ouvir coisas do tipo “este professor ao invés de dar aula fica nos enrolando na internet”. Mas olha que eram apenas discussões em paralelo às aulas formais, ou seja, dava um trabalho dos diabos, em dobro, inclusive! Um dia começaram a postar as graçolas comuns na web, chegando mesmo a fazer circular no grupo a foto de uma privada devidamente “carregada”. Chamei a atenção dos responsáveis e resolvi reduzir a iniciativa, reservando-a para alunos mais maduros e responsáveis, coisa de que, particularmente, o curso de medicina da UnB era carente.
Programei, também, algumas visitas a instituições de saúde, a serem feitas por grupos de alunos, que depois apresentariam em classe um relatório de suas impressões. Funcionou relativamente bem, mas do ponto de vista dos anfitriões as furadas foram constantes, sendo os alunos vistos como verdadeiro estorvo. Fato curioso foi o relatório de um grupo que visitou a OPAS, escritório regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde, situado no Setor Embaixadas Norte, em Brasília. Ali eles foram bem recebidos, mas se revelaram muito críticos com o que viram, ao considerarem que em instalações daquela magnitude e luxo era inconcebível que ali também não se atendessem pacientes, relegados às péssimas estruturas da rede hospitalar do DF. É mole?
Uma vez resolvi incluir em um debate com a turma de Enfermagem um tópico sobre a influência da religiosidade ou da espiritualidade na saúde. Quase desencadeei na Faculdade de Saúde uma reedição de Belfast ou Jerusalém, com as militantes de uma corrente, as chamadas evangélicas, que parecem ser especialmente numerosas e ativas no curso de enfermagem, a se digladiarem com as papistas, minoritárias, porém aguerridas… Melhor não insistir nisso, foi a conclusão a que cheguei.
De outra feita, resolvi criar uma disciplina opcional com matrícula aberta para todos os cursos da UnB, mesmo fora da área da saúde. O horário de aulas era inovador, este sim, entre dezoito e vinte horas, para que a participação fosse ampla. Saúde no Brasil era o nome da matéria e ali eu discutia a história e os rumos da construção do SUS, utilizando como material de aulas, muitas vezes, notícias de jornal e comentários afins. Eu mesmo me surpreendi com o número de matrículas, mais de cem, tendo sido obrigado mesmo a mudar da sala convencional prevista, passando as aulas para o grande auditório da Faculdade de Saúde. Havia alunos de Geografia, Jornalismo, Agronomia, Sociologia e por aí vai, além de alguns da própria área de saúde. Do curso de medicina, literalmente ninguém… A plateia muito numerosa, embora bem interessada, não facilitava o desenvolvimento de discussões, mas mesmo assim acho que foi um acontecimento marcante para muitos alunos. E com certeza para a minha vida de professor entediado…
Anos antes, no curso de medicina da Universidade Federal de Uberlândia, resolvi implantar uma novidade na disciplina que lecionava junto com Melicégenes Ambrósio, a tal da Profilaxia e Clínica das Doenças Transmissíveis. Naquele tempo, eu era apenas um iniciante na arte de inovar. Determinei então, como trabalho a ser apresentado mais tarde em classe, que grupos de alunos realizassem entrevistas com médicos locais que tivessem mais de 40 anos de formados. Hoje eu tenho 55 anos de formatura, mas na época essas quatro décadas me pareciam uma eternidade, digna de um Matusalém. Com a ajuda de alguns amigos e professores da faculdade localizei logo um punhado destes anciãos e assim os alunos foram a campo. O objetivo era indagar desses personagens como eles percebiam as mudanças na vida social e nas tecnologias médicas, bem como os modos de reconhecimento social da prática médica, ao longo de seus anos de profissão. Melhor intenção, impossível.
Os jovens foram bem recebidos, de maneira geral, e muitas informações interessantes foram colhidas, embora houvesse aqueles entrevistados que se revelaram incapazes de se lembrar de muita coisa. Mas mesmo assim, como momento de interação entre gerações, considerei a atividade perfeitamente válida. Até aí tudo bem.
Um problema veio à tona, porém, com determinada entrevista, com um médico de quase noventa anos, sessenta anos de prática médica, um dos fundadores da faculdade e persona sumamente grata na cidade. Não citarei seu nome pelos motivos que se verá adiante. O entrevistado era, aparentemente, um homem ainda muito lúcido e recebeu os alunos com fidalguia, capturando de saída a atenção e a simpatia destes. A entrevista parece que durou a tarde inteira, pois o homem tinha muito o que dizer e não queria parar de falar. Não foram necessárias mais do que uma ou duas perguntas e o resto ocorreu espontaneamente. Alunos extasiados ao final, de tal forma que o relato deste grupo não só foi o mais abrangente como o mais bem avaliado pelos colegas, que logo entraram no clima de simpatia ao entrevistado.
Mas o conteúdo daquilo… Pelo amor de Deus! O homem era um conservador e passadista feito e acabado. Para ele os bons tempos foram apenas os que já tinham passado. No mundo atual nada mais prestava. Os médicos agiam agora como “porcos fuçadores”, ou algo assim, nas palavras dele. A busca de lucro na medicina tinha transformado a profissão em verdadeira “pocilga”. E por aí se caminhou.
O pior é que a turma gostou… E ao invés de fazer qualquer análise crítica ou comparativa de conteúdo, embora eu tentasse o tempo todo conduzir a discussão para tanto, o que ouvi da maioria dos alunos foram palavras de louvor e total sintonia com as ideias extravagantes do octogenário. E parecia, ao fim e ao cabo, que apenas confirmavam impressões que traziam da vida em família e em sociedade. Daria tudo para saber como essas pessoas conduzem sua vida profissional atualmente: será que escaparam de se refocilar em alguma pocilga?
Talvez tenham me faltado, reconheço, mais sensibilidade e senso de humor para conduzir os trabalhos, pode ser. Mas aprendi, desde então, que às vezes nada pode ser mais conservador do que a própria juventude…
De volta à vida acadêmica
Na mudança de governo de 2005, com a chegada de FHC à presidência da República, a equipe da qual eu fazia parte no Ministério da Saúde foi desfeita. Ia dizer desmantelada, mas acho que, justiça seja feita, o que ocorreu foi normal, pois afinal a maioria dos que estavam lá em posição de direção e assessoramento superior não éramos funcionários de carreira do Ministério. É bem verdade que, para os que entraram a situação era mais ou menos a mesma, um seis trocado por meia dúzia, como diz o velho adágio.
Ao contrário da troca de governo anterior, de Collor para Itamar, na qual eu fiz gestões para ficar, desta vez me dei conta que era hora de me mandar. Lembrei-me, então, de um verso que segundo minha mãe, sua babá na infância, ainda filha de escravos, cantava para ela: que passarim amoroso / frutejo acabou / passarim tá teimoso…
Meu pomar havia secado e eu queria procurar frutos de outros sabores, sem teimosia nenhuma. E assim me aproximei daquele que seria meu destino normal e previsível, por pertencer à carreira docente: a Universidade de Brasília. Até então eu quase não conhecia ninguém lá, salvo uma ou duas pessoas que eram professores de um aperfeiçoamento em Medicina Tropical que eu havia cursado quase vinte anos antes. Mas tinha da UnB uma imagem muito poderosa, que vinha do momento que a conheci em 1976, ainda marcada pela ditadura, mas muito expressiva em termos da lindeza que era aquele campus, no qual pelo menos um resquício do sonho de Darcy e Anísio talvez ainda sobrevivesse.
Meu primeiro contato na UnB, nos anos 90, foi com Mourad Ibrahim Belaciano, professor na Faculdade de Saúde, da qual veio a se tornar diretor mais tarde. E ele comprou meu passe, defendendo minha transferência da UFU com grande garra. No começo, contei com a simpatia de Vanize Macedo, minha antiga professora na Medicina Tropical, mas a adesão dela à minha causa se desfez quando ela foi informada que eu já era professor titular na UFU – e assim eu só poderia vir para a UnB se permitisse um rebaixamento de minha qualificação, coisa que nem eu nem Mourad aceitamos.
Aqui cabe uma explicação. Tal titularidade nunca me havia deixado à vontade, pois foi fruto de um casuísmo corporativo, pelo qual eu não lutei, diga-se de passagem. Assim, alguns docentes da UFU, que tinham pontuação alta na carreira, por força de tempo de serviço e pioneirismo, como era o meu caso, na época da federalização daquela Universidade foram automaticamente reclassificados de acordo com a nomenclatura das já existentes universidades federais. E assim virei titular. E a egrégia professora queria que eu abrisse mão disso – e dos vencimentos correspondentes – o que não achei definitivamente uma coisa justa.
Vanize nunca me deu atenção, pois talvez tenha se sentido derrotada com a decisão que Mourad conseguiu arrancar de um dos conselhos da UnB, favorável à minha transferência. Independente disso, manteve em sua sala uma foto em que eu estava presente ao lado dela, junto aos colegas da turma de aperfeiçoamento de Medicina Tropical, em 1976. Talvez tal detalhe lhe tenha escapado.
Minha transferência, concretizada no início de 1995, teve para mim um sabor especial, não o de ter derrotado alguém, mas de ter possibilitado, mediante troca de vaga, um concurso na UFU, no qual foi aprovada uma pessoa que sempre admirei muito, Lindioneza Adriano Ribeiro, também objeto de um relato meu nestas memórias (Bons Alunos, in Personae).
Voltemos a Mourad. Devo a ele minha vinda para a UnB, mas também devo dizer que ele é uma pessoa de temperamento complexo e difícil. Judeu libanês, isso talvez explique seu comportamento messiânico, pretensamente à frente de seu tempo, totalmente independente do juízo que dele alguém possa fazer. Um tipo para o qual não há adversários, mas sim inimigos. E por estarmos em campos opostos, alguns anos depois, quando o curso de medicina se emancipou da Faculdade de Ciências da Saúde, ele rompeu comigo e, passados mais de 15 anos, nunca mais nos falamos. Eu lamentei e continuo lamentando, sem deixar de admitir que Mourad é uma pessoa importante e, em que pese suas bizarrices, tem liderança verdadeira no ambiente universitário. A criação do curso de medicina na SES-DF (Escola Superior de Ciências da Saúde), que veio quebrar a cômoda hegemonia da UnB neste aspecto, é obra quase cem por cento dele, sem tirar o mérito de outro messiânico de origem libanesa que comandava a saúde no DF à época: Jofran Frejat, o Jofranus de minha fábula. Fizeram uma boa dupla, tal árabe, talvez cristão, e tal judeu.
Não encontrei, na UnB, circuitos permeáveis para minhas preocupações a respeito da renovação das práticas de saúde, coisa que se transformou em uma espécie de mantra para mim, depois da minha gestão da saúde em Uberlândia, além dos quatro anos passados no Ministério da Saúde. A área de saúde da universidade, embora tivesse uma tradição de ação comunitária estabelecida na década de 70, com um projeto desenvolvido em Sobradinho e Planaltina, havia se concentrado basicamente na assistência via Hospital Universitário, aliás localizado em uma área central de Brasília, a L2 Norte.
Havia também, coordenado por Mourad, um projeto de extensão financiado pela Fundação Kellog (o chamado Prouni), mas que já encontrava em declínio, vitimado pela tradicional crise de sustentabilidade que costuma acometer as propostas que, por dependerem de muitos apoiadores, acabam por não contar com nenhum. Além do mais, todos os lócus do projeto já se encontravam ocupados por gente que ali estava desde seu início, todos muito ciosos e autossuficientes em suas tarefas. Logo percebi que minha participação no Prouni era realmente dispensável, naquele momento.
Como fator de alento, entretanto, me aproximei de uma experiência de Saúde da Família, o Programa Saúde em Casa (PSC), que estava sendo implantada pela SES de Brasília, como parte do programa de Governo de Cristovam Buarque. Passei a levar alunos, tanto do primeiro como do sexto ano, para acompanhar equipes do programa, o que creio ter sido útil para a formação deles, embora alguns tenham reagido fortemente contra tal ideia. Eu e os outros docentes envolvidos nos prontificamos também a colaborar com o PSC e, para tanto, fizemos algumas interlocuções com a SES e preparamos alguns documentos, contendo análises e sugestões. Devo dizer, contudo, que uma proverbial autossuficiência dos burocratas no governo, aliada à dificuldade em receber críticas, acabaram nos afastando do programa.
Mais tarde, graças a um entendimento pessoal com meu amigo Vitor Machado, que também aparece na seção Personae, foi possível levar os alunos do último ano a fazerem parte de seu internato em Ceres, Goiás, sob a supervisão de Vitor e outras pessoas igualmente generosas e competentes. Considero essas duas últimas iniciativas altamente proveitosas e penso que foram as únicas coisas de alguma importância que consegui realizar na Universidade de Brasília, da qual não guardo mágoas, só distância.
Em 2003 me despedi de vez da UnB, que me trouxe muitas dores e algumas delícias e segui para Uberlândia para ser, de novo, secretário de saúde. As dores que ali experimentei superaram, e muito, as que a universidade me proporcionou. Mas em compensação, em Uberlândia nasceu Flavinho, rapa de meu tacho, alegria de minha velhice. Assim é a vida, não precisa de mais.
Mas o fato é que, na UnB o sonho de Darci Ribeiro estava se derretendo, pelo menos em minha área. Já tinha tempo de aposentadoria e resolvi executá-la. Minha diretora na Faculdade de Medicina, na época, Tânia Rosa, ficou sabendo e me chamou: professor, por que se aposentar logo agora, temos tantas coisas para fazer aqui! Admito que lhe ofereci resposta evasiva e talvez descortês: quero trabalhar em lugar onde tenha papel higiênico nos banheiros e menos greves. Mas isso não deixava de ser um bom resumo para a ópera…
Preparei, então, minha saída da UnB. Por sorte eu já tinha a proposta de voltar para Uberlândia – mas isso é assunto para outro momento. Minha decisão foi pouco divulgada. Mas, para surpresa minha, em uma aula da disciplina Administração de Serviços de Saúde, que eu conduzia com ânimo desproporcional à acolhida dos estudantes e que seria a última de minha estadia na UnB, fui abordado por um aluno, frente a toda classe, no final da sessão. Confesso que isso me deixou um pouco preocupado, porque este aluno tinha sido meu monitor algum tempo antes e fora afastado por mim devido a sua inadimplência com as obrigações e tarefas que lhe eram atribuídas. Lá vem chumbo, pensei, porque isso era regra nas relações acadêmicas de então, principalmente na Medicina, com seus legítimos representantes da elite econômica, política e militar de Brasília. Mas qual, é preciso realmente ter a mente aberta! Getúlio Morato, o nome do moço, queria me fazer uma homenagem pelo meu esforço e dedicação e, principalmente, pedir desculpas pela incompreensão com que disciplinas da área de Medicina Social eram tratadas pelos alunos. E pediu para mim uma salva de palmas, a única que recebi nos 30 anos de carreira docente. Abracei-o, agradeci e segui em frente. Uberlândia me esperava, de novo.
Back to Berlândia
Janeiro de 2003. Eu defendera, um mês antes, minha tese de doutorado na Fiocruz e estava, para usar uma expressão sincera, embora pouco refinada, de saco-cheio com a UnB. Afinal, não recebera qualquer estímulo da Universidade para fazer doutorado; tinha pago todas as passagens áreas de meu bolso, três ou quatro vezes por mês; o colega indicado pelo meu departamento para me substituir não o fez e a corporação acadêmica deixou por isso mesmo; o curso de medicina em cuja emancipação institucional eu havia me engajado já dava mostras de que nele tudo continuaria como dantes, ou pior. Enfim, percebi que o melhor seria encontrar outra coisa para fazer.
Eis que atendo um telefonema. Era Zaire Rezende, prefeito de Uberlândia em segundo mandato, insistindo para que eu aceitasse seu convite, que já havia sido feito dois anos antes e fora então recusado por mim. Eu sabia dos riscos que corria, pois acompanhava de longe a situação política da cidade e sabia que as coisas por lá não andavam nada bem. Resolvi, mesmo assim, correr os riscos. Aceitei. Afinal, pensei (sem conhecer, ainda, o palhaço deputado): pior do que está não fica, tendo foco não só na situação da cidade como na minha profissional.
Cheguei lá em março do mesmo ano. No hotel, à noite, ao ligar a TV, assisti a chuva de bombas sobre Bagdá, na fatídica noite que Bush resolveu ir ao encalço de Saddam Hussein e de suas pretensas armas de destruição em massa – e deu no que deu. Só depois pude perceber que devia ter entendido aquilo como um sinal premonitório…
A administração já ia pela metade, com índices de popularidade do prefeito pífios, sendo a saúde uma das principais áreas críticas da administração. E foi assim que aquela Bagdá me abriu as portas… Aquilo, de certa forma repetia a situação do Brasil atual, fermentada ao longo dos últimos anos. Aliás, dizem que a política sempre se repete: um governo desgastado, com apoiadores dúbios ou simplesmente em movimento de traição, concessões corporativas e clientelistas por todo lado. Governo de coalizão – ou de ocasião – esse filme nós vimos de novo em 2013, 2014, 2016, 2020 (e antes também).
Foram dois anos de destruição em massa da administração municipal, com suas trinta secretarias, a maioria sem dinheiro e com titulares imobilizados e perplexos, na melhor das hipóteses ou já em estado de traição, na pior delas. Muitos já haviam abandonado o navio. Bombas me caíam na cabeça o tempo todo, sem que eu pudesse me valer, como Saddam, de esconderijos possíveis. Mas fazer o quê – não sou de desistir.
Da egrégia Câmara de Vereadores tive um tratamento digno daquele que os americanos teriam dedicado ao ditador iraquiano, se o pegassem de jeito. Estive lá diversas vezes, intimado, digo melhor, a convite, e jamais consegui manter dois dedos de diálogo civilizado ou minimamente inteligente com Suas Excelências, um verdadeiro bando de gente mal informada e desonesta, pelo menos do ponto de vista intelectual, se é que esta palavra coubesse ali. Um deles queria que eu discutisse as ações de saúde com o Legislativo antes de implementá-las, ao que eu lhe retorqui, com ironia, mas totalmente coberto de razão, ter apoiado o parlamentarismo no plebiscito de 1994, tendo infelizmente perdido meu voto. Foi o bastante para o sujeito abandonar o plenário e ir para o gabinete ou para o cafezinho. Nas portas do plenário, todas as vezes que eu ia lá, me sentia como se adentrasse no Inferno de Dante, abandonado de toda esperança.
Mas tive também meus consolos também, por exemplo, o de ali ver chegar meu quarto filho, Flavinho, nascido no meio da batalha, mas muito bem acolhido pelas mãos dos doutores Ismael Ferreira, o grande parteiro que trouxe ao mundo uma geração inteira de uberlandenses, bem como o queridíssimo pediatra e amigo Meligénes Ambrósio, que não deixava por menos na sua assistência aos neonatos.
E não posso deixar de louvar as pessoas que comigo trabalharam, uma equipe que de modo geral mantive nos postos, embora tenha descartado alguns mais renitentes e rançosos. E não posso esquecer de gente como Rosuita Fratari, a quem convidei para ser minha secretária adjunta; e mais as figuras adoráveis de Glaucia Galante; Alfredo Demétrio Jorge; Rogério Ferreira; Eneas Faleiros; Dario dos Passos; Marcela Guedes; João Batista Silva; Roseli Muniz; Rubens Galvão; Sueli Nozella; Shirley; Eduardo; Maria Luiza; Marcão e tantos outros.
Foi uma lição e tanto. Saí de lá desgastado, mas certamente melhor do que entrei. Fui também “homenageado” com uma ação de “improbidade administrativa” por parte dos excelentes promotores, zelosos cuidadores da coisa pública, que me autuaram por faltarem medicamentos, em um único dia da semana e em uma única unidade. As sumidades, simplesmente, não atentaram para o fato de que isso ocorrera por falta de pagamento ao fornecedor o que, aliás, não era de minha responsabilidade, pois a Prefeitura trabalhava em regime de caixa único centralizado na ocasião, sem qualquer autonomia das secretarias em fazer pagamentos por decisão própria.
Homenagem também me fez o cidadão que em certo momento presidia a Fundação Maçônica, à qual eu reduzi à devida dimensão, não mais de gestora, como ela achava de que devia ser, mas de simples prestadora de serviços à municipalidade. Assim falou o egrégio bode: estamos só esperando o doutor acabar com esta “poesia” para podermos agir de fato. A tal poesia no caso, tinha como versos as medidas de enxugamento e racionalização do modelo assistencial e gerencial em saúde, que passavam também pela redução do poder dos maçons. Imaginem que nas unidades onde eles detinham contrato impunham regras e até feriados próprios, além de placas em que afirmavam que sua ação ali, junto à Prefeitura, fazia parte de um projeto caritativo deles.
Em 31 de dezembro de 2004 encerrei minhas atividades em Uberlândia e, como despedida, assisti a inesquecível posse da nova administração naquela Câmara de Vereadores, a mesma que meses depois tentou introduzir a frase “Deus está aqui” entre os símbolos municipais, assunto que repercutiu no Brasil inteiro, com direito até a manchete no Jornal Nacional. Aquilo era para ser um culto ecumênico, palavra que significa, é bom lembrar, “aberto para o mundo”. Na ocasião, um sacerdote católico e alguns pastores evangélicos se revezaram na condução do ato. Até aí, tudo bem. O problema, a meu ver, foi o caráter de hegemonia que os representantes evangélicos procuraram trazer ao momento. Ficamos ali uma boa hora e meia com noventa por cento do tempo ocupado pelos pentecostais, que se alternavam no palco com brados de exortação e muita música (de gosto duvidoso, diga-se de passagem) – como se estivessem em um templo de suas seitas e não em um ambiente laico e, ainda mais, participando de um ato convocado como ecumênico. Por sorte não cobraram dízimo…
Repito, foi uma experiência positiva, em seu conjunto, embora o sofrimento do dia a dia tenha sido exorbitante. Mas, de toda forma, a grande lição foi e continua sendo para mim: cargo público, nunca mais!
Sob as luzes da ribalta
A experiência relatada acima ainda me rendeu outros dissabores. Um belo dia de 2004 a Promotoria Pública de Uberlândia, tendo recebido uma denúncia, talvez de Vereador ou funcionário demitido, correu em diligência a uma das unidades do sistema de saúde, onde constatou a falta de alguns medicamentos e materiais. Denúncias dessa natureza eram constantes na imprensa e na Câmara de Vereadores, tendo em vista que a SMS trabalhava com uma lista de padronizada de medicamentos como, aliás, devem fazer os gestores públicos de saúde em toda parte. Com efeito, o conteúdo nossa lis ta de medicamentos, com quase as duas centenas de itens, gerava insatisfação na clientela, que nem sempre alcançava o que desejava receber, secundada pelos médicos da rede, que receitavam de forma abundante e até pouco responsável os medicamentos fora da tabela, seja por uma questão de formação, seja pela opção claramente manifestada por muitos de colocar a administração municipal em dificuldades. Como pano de fundo, medidas restritivas e de contenção de custos, que eu fora obrigado a tomar em diversas ocasiões. Na tal visita, Suas Excelências se arvoraram a retirar conclusões a partir de um único momento, em uma única unidade, não se detendo de fato sobre a continuidade (ou não-continuidade) do fornecimento de medicamentos em toda a rede ao longo do tempo.
O problema era recorrente, sendo muito mais grave anteriormente ao contrato que tínhamos na ocasião, um contrato unificado e global, apontado pelo MP como lesivo ao interesse público. Sem provas, contudo. O que aconteceu e que provocou a reação dos bravos rapazes da Promotoria, gente talvez treinada na barra dos tribunais, onde a obrigação do Promotor é colocar gente na cadeia, foi motivado por baixa de caixa municipal naquele momento, mas não foi sequer uma pálida sombra do que ocorria antes, quando o sistema de licitações múltiplas e parceladas vigorava.
O contrato em questão, assinado com uma empresa de São Paulo, representava, sem dúvida, um instrumento de dinamização da política farmacêutica, de natureza semelhante a outros igualmente celebrados no âmbito da administração pública com particulares, em muitos municípios do Brasil que não tinham a “sorte” de ter promotores tão competentes como os de Uberlândia. Entre suas vantagens estavam o fato de que o faturamento ocorria apenas após entrega do medicamento à clientela; os custos de transporte e armazenamento corriam por conta da empresa, da mesma forma que a responsabilidade em arcar com os medicamentos vencidos. Disso decorreu, inclusive, a redução de quadro de dezenas de funcionários da Prefeitura, ao mesmo tempo em que foram contratados pela Home Care, para prestarem serviços diretamente a ela, fato que foi colocado pelas excelências como um prejuízo provocado pelo contrato firmado e não como uma vantagem operacional do mesmo.
Os Promotores se horrorizaram, na ocasião, na vistoria que fizeram ao almoxarifado da empresa, tendo ali encontrado medicamentos vencidos. Ou seja, simplesmente, o que deveria ser contado como ponto favorável ao contrato em vigência foi apontado como objeto de ilicitude, pois tais medicamentos lá estavam exatamente para serem devolvidos ou descartados, em processo que não oneraria em nada os cofres municipais, ao contrário do que sempre aconteceu na rede municipal de saúde.
A denúncia de alguns vereadores teria motivado a ação da Promotoria, mas os mesmos não foram identificados, embora bem conhecidos: eram membros do grupo que fazia oposição sistemática e visceral ao Governo Municipal, vetando de forma contumaz projetos de interesse da população da cidade, em nome de conveniências partidárias circunstanciais. Pessoas que nunca se animaram a um debate aberto nas várias ocasiões em que estive na Câmara Municipal. Mesmo assim sua denúncia foi acolhida prontamente e sem maior crítica, como se não fossem partes interessadas na ação, por motivos eleitoreiros – em 2004 ocorreram eleições para a Câmara e Prefeitura, é bom lembrar.
Além disso, aleguei em minha defesa na ocasião mais alguns tópicos: (1) Se quem comprava não pagava, quem vendia seria obrigado a continuar o fornecimento, desfazendo o chamado “equilíbrio financeiro” dos contratos públicos? (2) O pretenso custo dos procedimentos administrativos da empresa fornecedora referia-se à cobertura de diversas despesas do contrato (salário de todo o pessoal anteriormente lotado na Prefeitura, aluguel do almoxarifado, despesas de manutenção das instalações, transporte) e não era apenas o “lucro” da empresa como afirmaram as tais excelências. (3) Disseram os promotores nos autos que “foi possível verificar que a PMU realizou a fiscalização de forma pueril”; “aliás não fosse o MPF e MPE visitarem as instalações da UAI Tibery nada decorreria em termos de atenção aos termos contratuais”; afirmações gratuitas e irresponsáveis, demonstrando que o MP considerava que só assumimos o papel de gestores públicos da saúde quando eles adentraram ao cenário, num verdadeiro fiat lux (4) Assinei, de sã consciência o contrato, pois ele havia passado antes de mim, pelas mãos dos Secretários de Administração, de Finanças, do chefe da Seção de Compras e do próprio Procurador do Município – e nenhum deles foi acusado de nada. (5) Sobre a tal “primazia do interesse público”, expressão reiterada no processo, tenho consciência de que fiz o que deveria ter feito; “dano moral e coletivo”, como quer o MP, se daria, de fato, caso o contrato fosse rompido, situação que acarretaria de quatro a seis meses de interrupção do fornecimento de remédios, prazo necessário pra se realizar, até sua completude, um processo licitatório.
Para completar as sumidades ainda me acusaram de um pretenso “enriquecimento sem causa” possibilitado pelo contrato. De minha parte, o que posso dizer é que saí da gestão municipal exatamente como entrei: como um membro da classe média apenas “remediado”, funcionário público durante toda a minha vida, sem amealhar nada mais do que me possibilitaram meus vencimentos. Sobre multa que me foi estipulada, da qual soube pela imprensa ainda antes da Carta Precatória me ter sido entregue, o que posso dizer é que em mais de 30 anos como servidor público não amealhei sequer uma parcela disso em bens e reservas. Assim, o que se produziria, nada mais nada menos, se tal penalidade viesse se realizar, seria somente um ato de humilhação e espezinhamento de um cidadão e servidor honrado, comprometendo-me pelo resto de minha existência e certamente aos meus herdeiros também.
Finalizando, não custa esclarecer: fui absolvido nas três instâncias às quais o processo foi encaminhado, inclusive no STJ.
Promotores… Quem vigia e quem nos defende dessa gente?
Cargo público nunca mais!
Encerrei minha história de retorno a Uberlândia com a expressão acima, dita de mim para mim mesmo. Hoje, passados tantos anos, consegui mantê-la sem ressalvas, ajudado, é claro, pela escassez de convites neste sentido…
Quando terminei minha colaboração naquela Bagdá, (antes Califórnia), resolvi escrever algo sobre os acertos e as dificuldades que encontrei em minha passagem. Não só o fiz como entreguei, sob a forma de carta pessoal ao Prefeito, meu amigo Zaire Rezende. E assim, depois de julgar meu texto perdido, acabei por resgatá-lo recentemente. E ele dizia o seguinte:
<<Desde o momento em que algumas pessoas ligadas à estrutura partidária do PMDB começaram a criticar o trabalho desenvolvido por minha equipe na Secretaria de Saúde, ao ponto mesmo de considerá-lo a causa principal de sua derrota eleitoral, resolvi me antecipar e analisar um pouco do panorama das dificuldades enfrentadas. Mas quero fazer uma análise não só dos obstáculos encontrados, mas também dos acertos concretizados, que afinal não foram poucos.
Espero que, uma vez superada a dor da derrota que nos atinge a todos e mais uma vez entrega os destinos dessa cidade aos conservadores de sempre, possamos discutir de forma aberta, sem preconceitos, sem rancores os problemas e os avanços que tivemos, não só na saúde, mas na administração municipal como um todo, fazendo um balanço justo de sua administração.
Rejeito o jogo dos que acusam a saúde de ter contribuído para o mau resultado nas recentes eleições. Foram os mesmos que, na minha chegada, me louvaram e me anunciaram como “o salvador da pátria”, quem sabe já antevendo o futuro e fazendo nele a previsão da existência de um bode expiatório.
Quero lembrar-lhe, Zaire, de saída, que não foram poucas as vezes que lhe alertei sobre os obstáculos administrativos, financeiros, políticos e culturais que rodeavam minha gestão na saúde. Em pelo menos dois momentos pensei sinceramente que entregar meu cargo seria a melhor solução, dando ao governo a chance de escolher alguém mais sintonizado com certa lógica corrente de fazer política, combinando inovação zero com recursos escassos, que de fato imperou na administração como um todo.
E somente não abandonei o barco porque você me solicitou que continuasse. E permaneci não apenas em atenção a você, mas também por respeito a uma equipe e pela coerência do projeto que propus implantar, embora todos os obstáculos colocados no caminho da saúde.
Em primeiro lugar, não houve tempo hábil para a consolidação de muitas das medidas tomadas, principalmente aquelas que envolveriam mudanças culturais e adesão das equipes para vigorarem. As mudanças na sistemática de atendimento nas impropriamente chamadas Unidades de Atenção Integral à Saúde (UAI), tão criticadas, além da própria implementação da Estratégia de Saúde da Família, muito se ressentiram da falta de tempo, o que afinal de contas estava fora de nossa governabilidade.
Além disso, é preciso admitir que se dispõe, na Prefeitura de Uberlândia, de uma máquina administrativa e de apoio logístico
extremamente ineficiente e pouco ágil, com não raras evidências de má vontade ou mesmo desrespeito pela saúde, considerada “gastadora” e “ineficaz”. Exemplos concretos e paradigmáticos de tal incapacidade e de tais posturas estão nos setores municipais de orçamento e finanças, compras, informática e jurídico, frente aos quais tivemos incontáveis dificuldades, reiteradamente denunciadas por mim em nossos despachos e mesmo por escrito.
Outro aspecto a considerar, foram os marcantes descaminhos (para dizer pouco!) da área da saúde em sua gestão como um todo: troca de secretários; baixa capacidade gerencial e política dos titulares anteriores; indefinição de um plano de ação; permeabilidade à po lítica partidária; não implementação de programas previstos no Plano de Governo original; mudanças de status anunciadas e não concretizadas em relação à gestão pela Fundação Maçônica; confrontação tardia e débil face ao “poder médico”; não neutralização de interesses particulares contrariados; falta de ação intersetorial para resolver os problemas da área etc.
Nos vinte meses de minha gestão foi necessário impor medidas de natureza administrativa e regulatória, imprescindíveis, como por exemplo, o remanejamento das especialidades; as restrições a consumo de medicamentos, exames, horas-extras, pagamentos a pessoal, além de outros, nem sempre realizando intervenções de maior “agrado” potencial à clientela, principalmente interna (médicos, essencialmente), gerando frustração e oposição, com o consequente desgaste político à administração como um todo. Mas a opção única era a de agir assim, com firmeza, para não sucumbir ao descalabro reinante na rede de serviços, situação, aliás, muito pouco conhecida (e consequentemente mal gerida) pela administração municipal até a minha chegada, diga-se de passagem.
Não se pode esquecer, Zaire, que tivemos uma oposição totalmente livre para agir contra nós, inclusive irresponsavelmente, sem contrapartidas ofensivas por parte do governo, principalmente em relação ao Legislativo e à imprensa local. Na saúde tal situação chegou ás raias do paroxismo. Minha intervenção pessoal, não mediada em absoluto por quem deveria ter responsabilidades sobre isso (seu chefe de gabinete e assessoria de imprensa, por exemplo), junto ao jornal Correio de Uberlândia, no início do ano, constitui uma marca importante do que estou afirmando.
Onde encontrar apoios para a saúde? Em Uberlândia, infelizmente, o que se encontra é apenas tibieza e insipiência de uma comunidade intelectual ou técnica de apoio e crítica construtiva às mudanças propostas, seja no âmbito da SMS e mesmo da cidade (nas universidades), ao contrário do que costuma acontecer em centros mais avançados. Se alguém tinha interesses nessa área, eles eram particularistas (exemplo claro: o Diretor do Hospital da UFU que queria-porque-queria ser o seu secretário de saúde), ou então partidarizados, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. A saúde caminhou sozinha, sem apoios externos o tempo todo, ao contrário da área ambiental, mais feliz, no meu entendimento, em abrir esses caminhos.
E qual foi a política de alianças do governo, frente a tantos desafios? Eu diria, sem medo de ser injusto e embora não tenha estado aqui desde o começo: tal política foi bastante débil por parte do governo, seja na saúde ou em geral. Bem que tentei fazer minha parte, por exemplo, em articulações com a Câmara ou com a Imprensa, mas não obtive respaldo superior e ou do governo como um todo para agir.
Agora o ponto mais delicado… Faltou consistência e articulação interna e externa a este governo, seja em sua ação intersetorial; na busca de resultados duradouros e sustentáveis; na administração de conflitos entre secretários; na coordenação geral centralizada das ações de governo. Este não foi, definitivamente, o que a Ciência Política chamaria de “Bom Governo”. No máximo, poder-se-ia falar de um “governo bem intencionado”, portador de ações isoladas corretas, conduzido por uma pessoa inatacável do ponto de vista de sua honradez pessoal. São muitas qualidades, sem dúvida, mas não perfazem os critérios de um real “bom governo”.
Além disso houve, no meu entendimento, muito pouca firmeza em relação a uma posição de governo referente à saúde. Exemplos contundentes: o Prefeito afirmava uma coisa e o Secretário de Finanças impedia frequentemente sua execução, como nos casos da protelação desmesurada da implantação do PSF ao longo de 2004; a crise de abastecimento da rede em junho-julho deste ano de 2004, por falta de pagamento a fornecedores; a protelação sucessiva por mais de um ano da negociação da dívida com os hospitais da cidade. Em julho e agosto tivemos algumas semanas de desabastecimento de toda a rede, inclusive de medicamentos essenciais e de emergência, por que o mesmo Secretário de Finanças (de quem ninguém mais se lembra, nem mesmo para incriminá-lo pelo mau resultado eleitoral de outubro) não pagou a conta da empresa fornecedora de medicamentos, apesar das suas determinações em contrário. E quem está respondendo processo na Promotoria sou eu…
Neste aspecto, a situação que foi constatada diretamente por você naquela reunião com os coordenadores das UAI em seu gabinete, de franco desabastecimento da rede até mesmo de itens essenciais e prosaicos (papel higiênico!) é outro exemplo marcante. Se você bem se lembra, o Secretário de Administração admitiu, na ocasião, que fazer compras por licitação demoraria até seis meses em alguns casos (!). Isso foi uma regra geral, Prefeito. Morosidade extrema para o essencial e agilidade insólita para o supérfluo – posso dar inúmeros exemplos também.
Finalmente, para não botar toda a culpa no Governo Municipal, gostaria de chamar sua atenção para a verdadeira “impregnação” da sociedade e dos trabalhadores de saúde pelo “modelo UAI” (pronto atendimento, especialização, dependência tecnológica, não integração em rede) vigente historicamente na cidade o qual, embora distante de uma contemporaneidade sanitária, possui forte apelo social e corporativo, por suas características de ênfase curativa; abordagem referencial de casos agudos; falta de controle de procedimentos médicos e complementares; não-participação dos usuários; gestão alheia à PMU (e sim pela FMMS); planejamento baseado na oferta (e não na demanda), incentivo ao poderio dos médicos, entre outros aspectos. E foi justamente este modelo que tentamos desesperadamente mudar, mas certamente nos breves quinze meses que tivemos os resultados podem não ter aparecido completamente.>>
Entre segundas-feiras de garoa e sábados de sol
Trabalhei em muitos lugares, antes e depois de formado. Uma lista cronológica de meus empregos formais aqui vai, apenas para efeito de maior esclarecimento a respeito do que vou dizer. Colégios Arnaldo e Champagnat; Universidade Federal de Minas Gerais; Consórcio Impregilo-Almeida; Escola de Medicina de Uberlândia; Prefeitura Municipal de Uberlândia (em duas ocasiões); Instituto Brasileiro de Administração Municipal; Ministério da Saúde; Universidade de Brasília; Organização Panamericana de Saúde O mesmo aconteceu nas instituições de ensino que frequentei, ressalvando uma honrosa exceção: aquela hilária aula trote, de que já falei em outra parte dessas Memórias (Ver Lição de Anatomia, em Noviciado)
Agora posso concluir o parágrafo anterior: em nenhuma de tais instituições tomei parte de algum ritual, manifestação ou evento, por mínimos que fossem, de boas-vindas a ingressantes. Nem como anfitrião, nem como recém-chegado. Parece coisa de pouca monta, mas eu, sinceramente, acho que isso importa.
É bem verdade que, na UFMG, quando fui apresentar meu pedido de demissão à Dona Gercina, digna encarregada da Seção de Pessoal da Faculdade de Medicina, fui brindado por ela com a seguinte pérola: professor, estou aqui há trinta anos e é a primeira vez que alguém pede demissão! Considerei como um elogio, pois afinal estava fazendo algo diferente dos demais, em décadas (!), originalidade que considerei muito positiva. Assim, se não tive nenhum tipo de boas-vindas na entrada, pelo menos pude contar deferência correspondente na saída.
Na UnB a coisa foi ainda mais radical. Fui recebido no gabinete do diretor e este me indicou uma porta no corredor em frente, dentro do qual eu deveria “procurar um espaço” para me assentar. Aquilo era um depósito de traquitanas abandonadas, com vasta camada de poeira sobre os móveis ali jogados, coisa de fazer um alérgico – que felizmente eu não era – sair dali às carreiras. Tive de me conformar em catar uma das poucas cadeiras, com as quatro patas inteiras e prestantes, uma mesa em iguais condições e me arrumar, com muita labuta, depois usar um pano igualmente sujo para limpar tal mobiliário.
Na mesma indefectível UnB, um tempo depois, propus ao coordenador do curso médico, um sujeito permanentemente mal-humorado, com pinta de quem acabava de desembarcar de um estágio em Harvard, que fizéssemos uma semana de recepção aos calouros. Afinal eu ministrava uma disciplina que os pegava já no primeiro dia de aula e estava disposto a ceder o meu horário para tal atividade, esperando que outros professores também o fizessem nos dias seguintes, para que os alunos pudessem ter palestras e serem apresentados ao programa de curso, além receberem orientações e cumprimentos de boas-vindas diretos da direção, dos professores e dos demais alunos. O casmurro me olhou com se não estivesse acreditando no que ouvia e pediu alguns dias de prazo para pensar. Quando o abordei novamente, já às vésperas do início do ano letivo, ele me fuzilou com olhos, gestos e voz: meu senhor, o nosso currículo é muito apertado não tem espaço para coisas desse tipo. E como eu esbocei uma tímida insistência, quase berrou: por favor, me deixe trabalhar!
Recolhi-me à minha inconveniência e resolvi promover, por conta própria, no meu singelo horário de aula, algo semelhante. E passei a convidar outros professores, pessoas de fora e médicos experientes, além de apresentar filmes de temática crítica sobre a medicina, para dizer algo mais substancioso aos pobres ingressantes e com eles dialogar, ao invés de simplesmente lhes despejar aquelas tradicionais latadas de saber.
Tudo isso poderá parecer implicância com a UnB – mas não é. Coisas assim podem acontecer – e certamente acontecem – nas melhores instituições. Mas deu-se que uma vez eu convidei, como seria natural, a diretora da Faculdade de Ciências da Saúde para uma palestra de recepção aos alunos. A professora era uma mulher abnegada, totalmente “casada” com a profissão de médica (e jamais com qualquer outra entidade, humana ou institucional), famosa pelos seus, digamos, excessos de linguagem. E em sua recepção aos ingressantes daquele semestre, não deixou por menos. De sola, já deixou claro que a vida dela como diretora lhe exigia muitos sacrifícios; que ela era mal compreendida e perseguida; que as pessoas que trabalhavam ali não tinham compromisso com nada; que lhe faltavam recursos para tudo, até mesmo para a compra de papel higiênico e que às vezes foi mesmo obrigada a mandar arrombar portas de professores que se aposentavam, abandonavam suas salas e não mais apareciam nem para devolver as chaves. Imaginem a cara dos pobres calourinhos… Mas nem assim desisti de tais eventos e felizmente cheguei a colher ótimos frutos disso, como a história que narrarei a seguir.
Depois daquele episódio em Uberlândia, no qual um velho médico abriu desmesuradamente o verbo com os alunos de medicina, expondo todas as suas frustrações, não só com a medicina, mas também com a humanidade em geral, conforme narrei em Cenas da vida de um professor (Vita Activa) pude um dia lavar minha alma. E o fiz em grande estilo, anos depois, quando convidei outro médico octogenário para uma palestra e debate com a turma de medicina na UnB. Deste vale a pena citar o nome: Pedro Sampaio Guerra, pai de meu amigo de infância Eduardo Guerra, também médico em Brasília. Dr. Pedro clinicou e operou por décadas em Timóteo/Acesita e Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, em Minas Gerais.
Dr. Pedro abafou! Foi totalmente modesto em narrar suas peripécias como médico de interior, que incluíam desde atendimentos em lombo de burro até cirurgias de improviso, sem anestesistas e recursos essenciais por perto. Reconheceu que sua geração havia penado muito, mas que via a profissão com otimismo e muita expectativa em relação às novas tecnologias, que estavam mudando, para melhor, a vida dos médicos e dos pacientes. Respondeu a todas as perguntas, dando sempre voz à réplica e elogiando os estudantes por serem tão perspicazes. No final agradeceu muito a oportunidade que lhe demos, de forma imensamente humilde, arrematando que havia aprendido muito ali comigo e meus alunos. Foi aplaudido de pé pela moçada.
Disse Guimarães Rosa que a natureza da gente “é muito segundas e sábados”. Eu diria, acrescentando, que os seres humanos podem ser anjos ou demônios, às vezes ao mesmo tempo, mas muitas vezes separadamente – e com força total em uma das duas categorias de tal aforisma. Aquele foi como um dia de domingo, no qual eu e meus alunos da UnB recebemos um verdadeiro Arcanjo.
Mas, sinceramente, não quero fazer desta página, que pretende ser construtiva, um muro de lamentações. Assim, não poderia nunca me esquecer de um evento que inverte toda essa lógica infeliz: a recepção que me proporcionaram, na Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia, quando assumi o cargo em março de 2003. Já relatei isso em Back to Berlândia. E realmente depois disso não poderia ter mais do que me lamentar.
Toda essa história me leva a pensar se coisas assim não deveriam ser práticas institucionais consagradas. Por que não o seriam?
Acho que uma parte da explicação está na pouca valorização que as pessoas dão ao que fazem, principalmente se isso ocorre dentro de uma instituição pública. Pode ser que no privado as coisas sejam diferentes, mas minha experiência com isso, ao longo de minha vida, infelizmente foi pequena. Eu fui quase sempre um servidor público. A resposta habitual a uma pergunta que eu fazia aos funcionários das unidades de saúde em Uberlândia, a respeito de qual era o serviço que prefeririam para levar seus parentes próximos quando adoeciam, é bem significativa a respeito de tal valorização: os serviços privados eram os preferidos. Em outras palavras, o que se fazia ali seria bom só para os outros, não para quem ali trabalhasse ou sua família. E este, para mim, seria apenas um dos motivos pelos quais o SUS esbarra em tantas dificuldades pelo Brasil a fora.
Quando estive no Canadá pude perceber algo curioso em quase todas as instituições que visitei, na contramão dessa lamentável desvalorização do lugar onde se presta serviço que aqui se vê. Fiquei particularmente encantado com o fato de que em cada portaria de setor ou departamento, independente do grau de circulação de pessoas externas no local, haver quase sempre um quadro de avisos ou pôster com o nome e a foto de cada pessoa que ali trabalhava, bem como sua função, valendo para todos os funcionários, independente de seu status, sendo tudo organizado formalmente, mas de forma simpática e comunicativa, típicas do agir dos canadenses. Fotos com rostos sorridentes, diga-se de passagem! Para mim, a mensagem principal era: aqui a gente gosta de trabalhar e respeita o que se faz e a quem nos procura. Certamente haveria exceções, como sempre há em toda obra humana, mas a disposição institucional de acolher e informar ali estava posta, de forma absolutamente clara. Não deixa de ser um bom começo para as pessoas passarem a valorizar o que fazem.
Não deixo de admitir que trabalhar em instituição pública no Brasil muitas vezes é desanimador, com a falta de recursos e, principalmente, pela captura das mesmas pelos políticos e seus apaniguados. Mas o que lamento mais é a postura generalizada que aceita ou proclama que o que é público é ruim. Mas não deixaria de ser um bom começo que as instituições públicas exercessem uma cultura de receptividade desde a chegada dos novos funcionários e que principalmente, como um dia disse Gastão Wagner, um amigo meu, acho que inspirado em Hannah Arendt: é preciso, além de incentivar os bons, fazer com que os maus tenham um pouquinho de temor…
Ideias bizarras (Para não dizer que só falei do passado)
Ah, a política! Quem um dia votou no PT – como eu – corre sério risco de fazer como o bêbado da anedota: esperar sua casa passar, já que o mundo todo está rodando, para então introduzir a chave na fechadura e abri-la de vez. Disso, pelo menos, acho que desisti, há muito tempo. Prefiro correr atrás da tal casa, ou do prejuízo, digo, dos fatos. Mas a lógica atual parece questionar o que valem os fatos – eles que se danem, na versão do pateta Donald, copiada por seu concorrente tropical.
Concordo com Frei Betto, petista de carteirinha e quase de nascença, que diz ter sido o PT apenas um inquilino no governo, até que tomou um pé na bunda do verdadeiro dono da casa. Para ele, independente das qualidades dos governos da sigla, há que se reconhecer que cometeram equívocos fatais, particularmente em relação a princípios primordiais da esquerda, pelo menos o de ser um modo de organização da classe trabalhadora, bem como da promoção da ética e da construção do socialismo, por meio de reformas, não de violência e luta armada. Enfim, o partido foi vítima de algo que não conseguiu fazer, ou seja, uma bela reforma política. Chegou apenas ao governo; não ao poder.
Aliás, acho que a aventura do PT no poder da República pode compará-lo àquele aprendiz de feiticeiro que um dia abriu a porta que lhe era vedada, tomando uma surra de vassouras mágicas lá guardadas. Já vimos isso com Mickey no papel principal.
Mas será que a tal Esquerda, agora com Maiúscula, tem cura – ou futuro? Ando refletindo sobre isso. Que tal se os dogmas fossem rejeitados em troca das evidências? “Dogmas são as pedras com que se constrói a sepultura da liberdade”, como disse Juan Arias, brilhante jornalista espanhol. E que as composições escusas, em nome da vaca sagrada da “governabilidade”, sejam sempre denunciadas e neutralizadas. E vamos combinar: dilapidar patrimônio público não é coisa de direita nem de esquerda, mas apenas sintoma de marginalidade, a ser corrigida com os rigores das leis (embora, na prática, entre a intenção de quem as aplique e a justificativa factual para tanto vá uma distância muito grande).
Fico pensando, também, no peso e na importância que teriam, no mundo de hoje, aqueles prolíficos sindicatos de esquerda, supostos defensores dos direitos dos trabalhadores, com os “novos pobres” pululando em toda parte, sendo eles justamente os sem-emprego e os grupos muitas vezes perseguidos, que nunca tiveram acesso à cultura? Quem se preocupa com eles?
Para finalizar
Antes que o leitor se retire (se é que já não o fez antes…) permita-me algumas reflexões adicionais sobre as passagens de minha vida das quais acaba, generosamente, de tomar conhecimento.
Para dizer pouco, foi uma existência movimentada, pelo menos do ponto de vista profissional. Eu já crescera num ambiente de carências materiais (mas não muitas) e de minguado afeto familiar e tais coisas foram até atenuadas na minha vida profissional, mas devo dizer que só conheci desafios existenciais expressivos quando entrei finalmente no mercado de trabalho, seja no meu emprego de médico de obra, em São Simão e, particularmente, na lida sucessivamente médica, docente, administrativa e política em Uberlândia e depois em Brasília.
O fato é que tudo isso me conferiu a certeza de que o mundo que me rodeava requeria de mim menos conformismo e reverência do que enfrentamento e uma certa postura de contestação, de destemor, de “pé-atrás”, para não dizer recusa ou atitudes assemelhadas. E foi assim que construí minha vida, para o bem e para o mal (embora pense que se não foi totalmente para o bem, pelo menos a intenção era essa).
Muitas vezes por acaso e algumas delas por desejo meu, acabei tendo uma carreira profissional digamos entrecortada, na qual vivenciei facetas diferentes, seja como médico clínico, professor, gestor, político, blogueiro. Com certeza, fui alguém que por espírito de aventura, ou por puro desfastio, não titubeou em extrapolar a moldura que muitas vezes lhe era cômoda, consagrada socialmente e que parecia definitiva.
Pois bem, penso que nunca apreciei, de verdade, tal lugar, a tal zona de conforto.
Na atuação política, com certeza, nunca usufruí de nenhum conforto, seja material ou simbólico. Longe disso. Pelo contrário, percebia os demais atores em tal cenário com desconfiança e até algum demérito, mesmo quando tive por alguns deles certo respeito atávico, como foi o caso do Prefeito de Uberlândia com o qual trabalhei. Acho que herdei este meu de ser e estar no mundo diretamente de meu avô Altivo, o qual por força de sua posição social teve alguma aproximação com as forças políticas formais e o poder de sua terra, depois se afastando disso com certa radicalidade, preferindo, segundo uma imagem de seu irmão Carlos, apenas “limpar galinheiro” a ter que conviver em tais ambientes.
Sim, creio ter sido verdadeiramente gauche pra valer neste campo. A maneira com que as lideranças políticas eleitorais de Uberlândia demonstram sua desconfiança em relação à minha pessoa, transmitidas verbal e diretamente ao meu Prefeito, além de meu alheamento a tal mundo demonstram que isso não somente era intenção minha, assumida, como tinha reflexos do outro lado.
Isso não me provocou sofrimento algum, ao contrário, certa satisfação, bem própria dos gauches, os quais, entre outros atributos, tentam fazer, nem sempre com sucesso, de frutos amargos uma bebida refrigerante.
Coisa semelhante aconteceu no campo profissional, dada minha inclinação de escapar das caixinhas e das proverbiais zonas de conforto em diversas ocasiões de minha vida, por exemplo, nas situações em que eu, por assim dizer, dinamitei minha estátua, fazendo com que eu passasse, em poucos anos, da condição de queridinho dos alunos de medicina na UFU a uma espécie quase pária. As duas manifestações positivas e até desculposas de ex-alunos, que eu mencionei páginas acima, mais confirmam do que negam a existência de tal trajetória de declínio.
Fazendo, sem dúvida, um pouco de ironiaa respeito de tais eventos, eu diria que assumi em muitas ocasiões o que eu costumo chamar de síndrome de reunião de condomínio, ou seja, aquelas situações que uma pessoa evita dar opiniões sensatas ou concatenadas sobre determinado assunto da pauta, tentando evitar um fatal convite ou insistência para que aceite ser síndico.
Derrubar mitos, ou duvidar deles, sem dúvida, foi parte marcante de minha trajetória, conforme ilustrado naquilo que eu chamei de fábula moderna com saber antigo, ou seja, aquela alegoria relativa aos reinos de Phantasilia e Belgladesh. Ali declaro, para que ninguém ouse duvidar, meu temperamento ao revés ou, se quiserem, iconoclasta.
Em suma, creio que me faria justiça, em termos profissionais médicos, pelo menos, minha opção preferencial, não pela pobreza como Boff, mas pelo conceito contemporâneo de Determinação Social das Doenças, passando a ser esta a diretriz que tem orientado minha prática desde que abandonei a clínica, aos 10 anos de formado. Qualquer coisa como: por que apostar tanto na genética ou nas bactérias e vírus? Deserção gauche ou opção bem pensada? É claro que defendo a segunda opção e o fato é que nunca disso me arrependi.
O preço que alguém paga pelo gosto novidadeiro ou, de forma mais nobre, pela pratica da inovação não deixa de ser mais um traço gauche e neste território aí me esbaldei, mesmo pagando o preço, por exemplo, de ter sido acusado por alunos, anonimamente, ainda na UnB de picaretagem, por introduzir em minhas disciplinas conteúdos e exercícios on-line. É bem verdade que em pelo menos duas oportunidades meus algozes se desculparam diretamente.
Ser docente na UnB, para mim, acabou sendo um sonho frustrado. Já na recepção naquela sala empoeirada, conforme relatei, algo já teria me alertado que ali não seria fácil a minha vida. O que veio a seguir só confirmou tal presságio. A reação irada do coordenador do curso quando eu lhe propus desenvolvermos alguma atividade de recepção aos recém ingressados, culminando, alguns anos depois, com a recusa mal justificada de que eu compusesse o grupo de orientadores na pós graduação, quando concluí o doutorado na Fiocruz, foram sinais inequívocos de tal mal estar entre a minha pessoa e a tal instituição. Para não deixar passar a oportunidade, lembro-me também de uma aula ao ar livre, transferida para a sombra de uma sibipiruna anexa ao prédio da administração do HUB, por absoluta falta de conforto interno, motivou as suas senhorias que trabalhavam lá dentro um protesto perante a direção do hospital. Chega, né?
Tal indivíduo criativo não só sobreviveu como aumentou a intensidade de sua maneira gauche.
Não quero falar mal da instituição que me acolheu por oito anos, longos demais para mim. Permitam-me lembrar, entretanto, de alguma coisa de útil que eu certamente fiz ali dentro, com ou sem algum tempero gauche: a criação do estágio dos alunos de sexto ano em Ceres-GO, depois de décadas de afastamento do curso médico da UnB em relação a tais práticas; a adição inédita de componentes on-line nas disciplinas que eu ministrava na graduação, muito antes do que alguém fizesse isso não só no curso médico, mas também em outros das ciências da saúde; a criação da disciplina optativa de Saúde no Brasil, com interessados de múltiplas áreas, na qual a matrícula era disputada por mais de uma centena de interessados. Está de bom tamanho, não é?
Na gestão do SUS em Uberlândia creio que meu temperamento gauche se revelou apenas marginalmente. Lembro-me, por exemplo, da primeira portaria que emiti quando assumi oposto em 2003, a proibição de placas que anunciavam a negativa para atendimentos e procedimentos diversos, coisa contumaz nas portas de entrada de nossas unidades, além de conferir estatuto meio “sagrado” a uma pergunta que eu invariavelmente fazia aos membros das equipes: onde você e sua família se tratam – para a qual, diante do padrão habitual de respostas, eu não perdia a oportunidade de arrematar: então o que faz aqui só serve para os outros, não é? Não para você sua família... Constrangimento total no ar, sem deixar de se pedagógico, todavia.
Para a frase marcante do presidente da Entidade Maçônica que detinha, como entidade prestadora, a gestão de parte da rede de unidades de saúde na cidade, na qual eu fora tratado como praticante de pura poesia, administrativa e política, não dei resposta. Ou melhor, algum tempo antes eu já tinha dado motivos de sobra para que ela acontecesse: mandei afixar na porta de cada unidade uma placa que dizia algo assim: “Esta unidade faz parte do SUS municipal, sob gestão da Prefeitura Municipal de Uberlândia, sendo a Entidade Maçônica “Fundação xxx” uam prestadora de serviços”. Mais gauche, impossível – pelo menos para aqueles maçons, que se achavam donos do negócio ou, pior do que isso, probos e desinteressados filantropos a ajudar a administração municipal.
Ao fim e ao cabo há uma pergunta que ainda não fui capaz de responder: teria sido eu um sujeito que estive à frente do meu tempo ou apenas eterno iludido? A meu favor, talvez, poderia dizer, as duas coisas, misturadamente. Ruim mesmo talvez seja nunca não ter ilusões.
Que passarim amoroso, frutejo acabou, passarim tá teimoso. A frase que Sá Maria, a babá de Drummond, cantarolou para ele e também para meus tios maternos, fala de mim também. Se há alguma coisa que fiz com total consciência em minha vida foi sempre saber a hora de me mandar, reconhecer como encerrado um determinado círculo. O caso recente da professora que desencadeou uma onda de revolta on-line do grupo da reforma sanitária, por ter sido convidada a aposentar na FGV, mesmo tendo mais de 70 anos e quase 40 de serviços ali prestados (comentado criticamente por mim no meu blog) é bem uma mostra de como a teimosia de determinados passarins é considerada nas instituições públicas. Pássaros gauche buscam outros pomares logo que as primeiras frutas começam a escassear, antes que apodreçam…
Se há uma coisa da qual não me arrependo é a de ter um dia proferido a frase: cargo público nunca mais! Mais de vinte anos depois continuo pensando do mesmo jeitinho. É pra valer, mesmo!
Enfim, entre dias de chuva e de sol é que a vida de gente decorre… De um lado, acumulamos a força da vitamina D, do outro lado é oportunidade para que a mente faça seu trabalho na solidão de um quarto, quem sabe debaixo de um cobertor. É assim que deve ser. Como na bandeira de Minas, não me envergonho de expressar meu desejo: reconhecimento, ainda que tardio. Para meu consolo, eu poderia repetir, como Darci Ribeiro: mesmo com todas as derrotas eu ainda me daria por satisfeito de estar ao lado dos perdedores!
Finalizando, o que eu teria aprendido, em termos de lições essenciais em minha vida de sujeito gauche, particularmente em termos de reflexões sobre política, gestão e relação com pessoas. Vamos lá. É preciso, de fato, ter coragem e sabedoria para enfrentar as situações difíceis, sem fugir delas. Isso não é para qualquer um, de fato. Aliás, não seria nem mesmo uma obrigação compulsória, para ninguém, pois depende de capacidades que nem todos dispõem, seja por formação ou temperamento, sorte ou virtude. Enfrentar os dilemas da vida pode não ser apenas uma questão pessoal, mas de enfrentamento de forças sociais poderosas, que remam em sentido contrário, ainda mais em uma sociedade como a nossa, desigual, elitista, conservadora, cruzada por disputas por hegemonia, formada por grupos sem consciência social e de classe. Em tal mundo tudo é mais difícil, claro, não há soluções fáceis. Um bom começo seria conseguir, de fato, estimular os bons e fazer os maus sentirem um pouco de temor – isso no campo da saúde é imperioso, com as forças das hegemonias sempre presentes e atuantes.
O mais não sei dizer, mas continuo pensando nesses assuntos…
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