Viagem ao Sul (profundo) de Minas

É comum alguém me indagar sobre algumas coisas referentes à minha suposta mineiridade. Ou seria mineirismo? Por exemplo, se em minha casa se comia pão de queijo ou tutu de feijão todos os dias, se respeitávamos as tradições culturais e religiosas, se guardávamos dinheiro debaixo dos colchões ou comida em gavetas. Talvez tenha decepcionado meus interlocutores ao responder-lhes um sonoro não para algumas dessas perguntas. Em termos de pão de queijo, por exemplo, o que comíamos geralmente eram os biscoitos de polvilho das padarias, crocantes e até gostosos em alguns casos, mas que de queijo não tinham nada. A iguaria hoje nacional tinha que ser saboreada em lugares específicos, como era o caso de uma antiga Churrascaria Camponesa, situada na rua dos Goitacazes, quase esquina de Bahia, em BH (já não existe, faz tempo). Pão de queijo numa churrascaria, vejam só… A questão é simples de resolver e o próprio nome do meu estado, plural que é, explica tudo: não existe uma Minas, mas muitas delas – e uma costuma não ter muita coisa a ver com a outra. A zona central, onde ficam BH, Ouro Preto, Congonhas e mesmo minha terra, Itabira, foi (e é) dominada pela mineração (ouro e depois ferro) e nela pontificam as influências da escravidão, da religiosidade, da devastação ambiental. Ao Norte, existe a força da pecuária e de culturas agrestes, como a do algodão, importadas através do caudal do rio São Francisco. A Oeste, o Triângulo, de colonização tardia, recebeu fortes influências paulistas que a ele trouxeram o linguajar, o café, a ferrovia e talvez o espírito empreendedor. O Noroeste não era quase nada, mesmo Paracatu, sua importante vila oitocentista, estava decadente quando lhe chegou o sopro desenvolvimentista da construção de Brasília. O Leste era território dos valentes botocudos, que resistiram à invasão branca até o início do século 19. E assim por diante.

Mas, o que se pode dizer do Sul Mineiro?

Foi neste Sul de Minas, melhor dizendo, no Sul Profundo de Minas que estive há poucos dias, centrado na linda cidade de Cristina, depois de andar afastado dali por pelo menos 50 anos. Vi muita coisa mudada, portanto.

O Sul de Minas tem uma trajetória bem diferente das áreas mineradoras e dos planaltos a perder de vista do norte do estado. Ele surge e cresce através das bandeiras paulistas e do movimento de tropeiros, desde os anos seiscentos e mais adiante. Os cobiçosos e predadores bandeirantes passaram pela região à procura de ouro e pedras preciosas, mas não tiveram tanta sorte como mais ao norte. Assim, a região além-Mantiqueira (para quem vinha de São Paulo, capitania) foi principalmente rota de passagem e pouso pra quem transitava entre as Minas e os Gerais, no rumo da metrópole do Rio ou de São Paulo, exercendo assim um papel de apoio à atividade mineradora, mas não de centro verdadeiro. Foram assim, os tropeiros, os primeiros a ocupar de fato a região, grosseiramente localizada entre a fralda norte da cordilheira e o rio Grande.

Os acontecimentos de 1720, quando a coroa portuguesa houve por bem cobrar o “quinto” dos mineradores, gerando revoltas que desembocaram décadas mais tarde na Inconfidência Mineira, tiveram pouca ou nenhuma influência no Sul da província mineira, já estabelecida como zona agrícola e de abastecimento das áreas mineradoras mais ao Norte. A grande virada econômica e social que ali ocorreu foi o chamado Ciclo do Café, estabelecido na segunda metade do século 19. Clima, relevo e proximidade com o Vale do Paraíba fluminense, por onde o produto era escoado, ajudaram bastante, estabilizando a economia mineira e bancando investimentos em estradas de ferro e outras melhorias. Foi assim que cidades como Poços de Caldas, Campanha, Três Pontas, Varginha, Alfenas, Pouso Alegre nasceram e cresceram, adquirindo pujança que até hoje se mantém. Isso acarretou também razoável imigração, entre outros, de italianos, portugueses e libaneses, mas não de japoneses, como ocorreu em São Paulo.

A famosa crise do café de 1929, quando o produto perdeu preço no mercado internacional o Sul abalou a economia do Sul de Minas, mas ao mesmo tempo impulsionou sua diversificação, transformando-se em uma das maiores bacias leiteiras do Brasil. De toda forma, nos anos subsequentes o café recuperou seu valor econômicos e a região aperfeiçoou sua cafeicultura, transformando-se, em anos recentes, em um polo de produção de cafés especiais, daqueles classificados por provadores especializados, com amplo impacto na precificação, inclusive internacional. Tudo isso sem esquecer do turismo nas águas termais de Caxambu, Poços, Lambari e Cambuquira e da marcante indústria metal mecânica em Pouso Alegre, Varginha e Itajubá e em especial, do polo tecnológico de Santa Rito do Sapucaí.

Vamos falar de Cristina, finalmente. Ela fica na banda ocidental da Mantiqueira, tendo ao lado Pedralva, Maria da Fé, Carmo de Minas e São Lourenço. Conhecida como “cidade imperatriz”, por ter sido nomeada em homenagem á imperatriz Teresa Cristina. Tem uma história fortemente ligada ao ciclo do café e antes disso às sesmarias com que a coroa portuguesa aquinhoava os cidadãos mais notáveis, fazendo parte do chamado Sertão da Pedra Branca, monólito geológico que fica dentro do próprio município de Cristina.

Curiosidade: o nome da localidade, no tempo das sesmarias, era Cumquibus, palavra de origem latina que significa “riqueza”. Pelo visto, é um lugar que já começa com muita cultura!

Vamos à minha viagem, então.

Começando pela Mantiqueira, tal nome vem de amantikir, ou algo assim, em língua originária pedra que chora, numa alusão às nascentes que despencam em inúmeros paredões de pedra. Ela não chega a ser uma cordilheira, como o Espinhaço, porque é descontínua em alguns lugares e não se ergue como uma barreira vertical, mas como planos inclinados sucessivos, às vezes com largura de muitos km, entremeados de picos de altitudes variadas. Tudo muito imponente. Também, ao contrário do rosário de pedras em planos compactados que formam a Cordilheira do Espinhaço, aqui a dominância é de encostas cobertas de vegetação, que um dia deve ter sido Mata Atlântica, mas que mesmo hoje se mostram verdejantes, graças às pastagens contínuas, algumas delas formadas por gramíneas exóticas.

Para quem aprecia informações detalhadas, vejo na wikipedia que a formação de tais montanhas está associada à Orogenia Brasiliano-Pan-Africana, que resultou na amalgamação do Paleocontinente Gondwana Ocidental. Este processo envolveu a subducção de crostas oceânicas e colisões entre placas tectônicas, levando à formação de arcos magmáticos e a uma complexa configuração geológica. Entenderam? Eu, infelizmente, não…

O fato é que aqui e ali surgem grandes formações rochosas, lisas e volumosas, como se fossem pães de açúcar semeados na paisagem. O efeito estético é sensacional. Justamente no município de Cristina existe uma dessas pedras, de tonalidade clara, na divisa do município vizinho, dando nome a ele: Pedralva. Conhecida também simplesmente como Pedra Branca.  Aos pés de tal monolito visitamos algumas fazendas de café, todas formadas como verdadeiros jardins, cuidadosamente simétricos, acompanhando as curvas de nível da montanha.

É claro que não caímos diretamente em tal acidente geográfico. Pousamos em Campinas e viajamos quase 300 km de carro para chegar a Cristina, por ótimas estradas, a maioria sujeitas a pedágio, coisa que a gente paga com prazer quando dispõe realmente de segurança e qualidade no pavimento.

A excelente turma de viajantes se compunha, além de mim, de meu filho Flavinho, de sua mãe Lucineia, da namorada Malu e do pai dela Joe.

Antes de chegar a Cristina há várias cidades no roteiro, que a gente acaba passando sem entrar para conhecer. Destaque para Pouso Alegre e Itajubá, poderosas quase metrópoles, notáveis como polos industriais, educacionais e de desenvolvimento. Santa Rita do Sapucaí, menorzinha, não lhes fica atrás em matéria de tecnologia, sendo até apelidada como sede do Vale do Silício brasileiro.   

A paisagem torna-se montanhosa, com a abordagem da Mantiqueira, apenas depois de Itajubá, 40 km antes de Cristina, com a dominância, até então, daquilo que os geógrafos denominam, muito apropriadamente, aliás, como mar de morros.

No estado de SP tudo muito organizado, inclusive a paisagem. Não dá para conhecer as cidades, pois ficam longe do alcance dos olhos de quem passa pela rodovia. Na Fernão Dias isso muda, por alguma razão, pois a rodovia passa bem ao lado de diversas cidades, como Extrema, Cambuí, Camanducaia. Antes não passasse, pois não são cidades bonitas, que escalam os morros de forma desorganizada, sem grande cobertura de árvores e jardins, com as construções urbanas, nem sempre pintadas ou bem acabadas, aglomeradas como se fizessem parte de um cupinzeiro. Quando se sai da grande rodovia, entretanto, a estética é outra, como é o caso de Santa Rita, de Itajubá e finalmente de Cristina. Nessas, os morros são evitados, crescendo as urbes mais nas planícies do que nas encostas. Apenas constato, não sei explicar tal fato, que algum urbanista o faça.

Ah, Cristina! É uma graça de cidade, branquinha, abrigada como uma criança de colo, nas dobras, por assim dizer, carinhosas, da grande montanha. Lá no alto, dominando a paisagem, a Igreja Matriz, pintada de amarelo claro, a velar pela vida dos que ali vivem. À noite, sua iluminação através de LEDs que mudam de cor, faz efeito muito especial. A visão de quem chega, do alto, é aconchegante, mas dentro da cidade as surpresas vão se acumulando, por exemplo, uma rua que desemboca, logo além do centro da cidade, em um vão de montanha na qual um parque público muito bem cuidado abriga um riacho cristalino, uma cachoeira e uma gruta, rodeados todos por uma mancha de Mata Atlântica. Junto à entrada, uma escola pública municipal… de música. É idílico!

E tem mais: uma antiga estação ferroviária, abandonada devido à pneufilia, mas devidamente conservada para abrigar as novas divindades, ou seja, os ônibus interurbanos; as ruas repletas de nobres casarões, quase sempre bem conservados nas esquadrias, na pintura, nos jardins e o que é melhor, abrigando geralmente famílias e não escritórios de contabilidade, agências de banco ou salões de beleza. Mas do melhor não falei ainda…

O festival Café com Música! Café é quase um pleonasmo em Cristina, aliás, em boa parte do Sul de Minas. Música, entretanto, exige maior qualificação. Alguém, a pensar apressadamente, sem compreender o contexto de onde se desenrola o tal festival, apostaria sem medo de errar: música? Sertaneja! Pois bem, pensou apressado – e errado. O festival usa o nome da rubiácea e o associa à sublime arte das pautas e dos compassos, mas é muito mais do que isso. Café, ali, é gênero e dele há muitas variedades, não exatamente botânicas, mas sensoriais, ao ponto de que a palavra forte é apenas o primeiro estágio de uma escala de qualidade que desemboca em especial, produção esta da qual a cidade é referência nacional. O café, em Cristina, não é para principiantes… Eu, lamentavelmente, me vi pouco qualificado em apreciar com o devido respeito tal iguaria suprema, pois achei os tais “especiais” um tanto ácidos para o meu gosto vulgar, acostumado aos Três Corações e Melitas da vida.

E ainda tem a música: nada de Fulanos & Beltranos, com suas calças justas, seus imensos fivelões prateados, seus chapelões descomunais, suas botinhas de bico fino, sua cantoria chorosa e cafona. Nada disso! No Café com Música o que temos é MPB de verdade, inclusive o próprio quarteto que tem tal nome, orquestra clássica, professores de música formando um quarteto sinfônico, roda de samba, tributos a Elvis e Elis. Coisas assim. Sem deixar de lado um gracioso trio de garotas, de nome Manaflor, que acrescentam e valorizam, na formação clássica de sanfona, zabumba e triângulo, uma seleção musical primorosa, que vai de Luiz Gonzaga a Astor Piazzola, em performance de total alegria e criatividade, inclusive nos figurinos.

Sem preconceito: é um alivio descobrir que no interior do Brasil há lugar também para uma música que não é só aquela dos botinudos chapeludos com suas dores de corno…  

Um último comentário sobre o evento (embora ele mereça muito mais): Café com música é pouca substância para falar do que a cidade de Cristina é capaz. É preciso acrescentar pelos menos dois outros ingredientes locais: primeiro, a banana maçã, macia, sadia, doce, de tonalidade perolada, como nunca vi e provei em minha vida de bananeiro contumaz, ela que cresce em longas veredas ao longo ou de forma circundante aos cafezais; segundo, dentro da mais pura herança sul-mineira, o leite e seus variados subprodutos, com destaque especial para a muçarela que aqui tem consistência e sabor ímpares – sabe Deus como aquelas vaquinhas mimosas ainda conseguem produzir a matéria prima depois de escalar aqueles pastos abissais da Mantiqueira. Isso para não falar do doce de leite, com o qual eu, diabético, não pude me esbaldar. Ah, sim, e ainda tem a cerveja artesanal regional, de enormes variedade e qualidade superiores.

Agora vamos à parte mais delicada da história, em vários sentidos: como descrever a mineiridade de Cristina?

Ela está presente em toda parte: nos casarões centenários da cidade, nas ruas calçadas de pedra, na igreja matriz sobranceira, na velha estação ferroviária adaptada aos novos tempos, na gente discreta que não deixa de ser cortês, na farta comida com que fomos recebidos na casa de Dona Ana, com a presença de um inenarrável lombo assado, no cuidado com que cobrem as ruas com um tablado, para facilitar o trânsito das pessoas nos dias da festa.  

Voltando ao tema que abre esta crônica, em que consiste, de fato, a tal mineiridade em Cristina? Penso que ela se apresenta de diferente forma em relação a outras mineiridades do meu estado, todas legítimas, diga-se de passagem. Não tem, por exemplo, o sotaque paulista do Triângulo; o ar de baianidade do Jequitinhonha e Norte de Minas; o crescimento econômico trazido pelas novas e imensas minerações subterrâneas da zona central e de Paracatu; as chapadas permeadas pelos pivôs centrais de irrigação no Noroeste; o pretenso ecletismo, misturado com a pobreza, da conurbação belzontina; o way-of-life valadarense; a carioquice da Zona da Mata; a invasão estrangeira das cidades históricas. Nada disso. Desconfio que seja coisa ímpar, só tem lá mesmo.

 O que o explica aquilo tudo, afinal? Um antropólogo responderia melhor do que eu tal indagação, mas mesmo assim vou me arriscar. Acredito que no Sul profundo de Minas se ajuntam fatores variados para dar no que deu. Em primeiro lugar uma formação econômica apenas de apoio ao empreendimento minerador, o que inculcou na sociedade local uma certa modéstia, pelo menos em sentido filosófico, além de livrá-la do jugo colonial português. Sem entrar na questão do racismo, que por lá certamente existe, como em todo o país, o fato de a escravidão não ter por ali o peso que teve na porção mineradora da Província, pode ter sido outro fator a moldar o espírito local. O isolamento e a auto suficiência dos pequenos proprietários em seus minifúndios dispersos pelas fraldas montanhesas não poderia também ter dado sua contribuição? A relativa proximidade com os grandes centros coloniais, especialmente com o Rio de Janeiro e depois com São Paulo não canalizariam para ali alguma energia civilizatória?

Nada como um Poeta para também explicar tais coisas. Este que lhes trago agora, Dantas Mota, é dali mesmo, de Aiuruoca, alguns km adiante de Cristina, ainda em plena Mantiqueira. Assim ele falou sobre um sentimento que deve ter sido o mesmo de muitos daqueles que celebravam, seja de forma alegre ou nostálgica, a rica combinação entre Café e Cultura:

CANÇÃO DO EXÍLIO

Alma,
Pássaro solitário,
Como é difícil abranger-te!
Nem sei como defender-te,
Incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
Visitas todas as terras,
E te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere…
(De Planície dos Mortos – 1945)

E para terminar, indago, pensando naqueles dias de bonomia que experimentamos ali pelo Sul de Minas, naquela festa tão brasileira, na cidade que faz de sua montanha um santuário e que conserva, ao lado do café e do leite, suas muitas riquezas simbólicas: será que um Brasil mais civilizado, culto, respeitoso com a natureza, algum dia de fato se realizará?

Não custa sonhar.

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