Já nos meus tempos de professor universitário confesso que me causava espanto a inclusão em certos portfólios disciplinares de temas polêmicos, sem maior embasamento na velha e boa ciência. Faz parte, diriam alguns, afinal a academia tem também por missão a refutação de teorias falsas. O problema é que coisas assim, ainda hoje,parecem cada vez mais frequentes e até respeitadas como se legítimas fossem. Temas polêmicos? Sim – e até aí, tudo bem – mas eu poderia também destacar a respectiva marginalidade em relação a algum modo de comprovação científica (não tenhamos medo de tal expressão, por favor!). Nisso aí se incluem procedimentos psicológicos de autoajuda, d’après certos gurus indianos; terapias energéticas (seja lá o que isso signifique…); divulgação de teorias autoconcebidas como se tivessem validade ampla; citações em teses e artigos de textos de autores esotéricos; inclusão de temas como mediunidade, reiki, clarividência, e psicografia nas pautas de pesquisa, sem os devidos cuidados formais, além de outros. Não que eu pense que a menção a tais assuntos, por assim dizer extraordinários, devesse ser vetada no ambiente universitário, mas a questão se me afigura como de outra natureza, ou seja, sua inclusão em um cardápio de ofertas temáticas como se pertencessem à mesma categoria epistêmica da teoria da relatividade de Einstein, da física quântica de Bohr, da genética de Mendel, da teoria da evolução de Darwin, por exemplo. A palavra “quântico”, por exemplo, às vezes é tratada como um achado epistemológico que se aplicaria não apenas ao campo da Física, mas também à Educação, à Psicologia e à Saúde Mental e outros temas das ciências humanas e biológicas. Tudo bem, faz parte da dinâmica universitária a liberdade de pensamento e ensino. Entretanto, acredito que a introdução na pauta curricular de tais assuntos me parece ignorar e desprezar o razoável limite entre o rigor acadêmico de questões ligadas a um esoterismo não apoiado em evidências reais, aproximando assim a Academia Universitária de outra instância calcada em práticas corporais e mentais propostas por gurus diversos e voltada para a busca de um suposto e vago bem-estar. Tais coisas me parecem um autêntico processo de lavagem de propostas vulgares e sem base em evidências, de forma a lhes conferir perfume, brilho, textura e apuro através da Academia. Percebi então que a palavra lavagem, que também significa comida de porcos, ultrapassou seu âmbito simbólico original, ou seja, de se ater a mentes e dinheiro, passando a expressar também um tipo de operação, igualmente pouco lisonjeira, desta vez praticada pelas universidades.
Foi assim que me dei conta que palavras como greenwashing (relativo à pauta ambiental) pinkwashing (LGBT) e purplewashing (direitos femininos) já vinham sendo aplicadas a empresas que incluem pautas sociais em suas estratégias de marketing, mas sem abraçá-las de fato no dia a dia – e até seguindo com práticas que as contradizem. Nelas, washing remete a algo além de “lavagem”, adquirindo um segundo sentido de “pintar” ou “cobrir com uma camada fina”, enfim, “encobrir” ou mesmo “disfarçar”.
E foi assim que descobri também que a partir de tal família de associações, um sociólogo, Jonathan Simmons, cunhou a expressão “epistemic laundering”, literalmente “lavagem epistêmica”, na qual demonstra que universidades vêm se prestando ao papel de “lavanderias de pseudociências”, conforme artigo publicado na revista Skeptical Inquirer: “Epistemic Laundering: How Universities Sell Pseudoscience”.
Seria algo como a indústria de cigarros abrisse em seus organogramas um departamento de saúde pulmonar, ou se uma produtora de filmes pornô se associasse a alguma entidade religiosa (algo que diante do que se ouve falar a respeito das práticas dos pastores neopentecostais não seria de todo surpreendente). Não houve uma dessas “igrejas” que tentou recentemente até mesmo abrir um banco?
Isso costuma ser colocado na conta do “relativismo cultural”, na melhor das hipóteses, ou ainda de “respeito ao pluralismo”, mas a meu ver trata-se de um discurso que não para de pé, ao não distinguir fantasia de realidade, através do qual a ciência (verdadeira) é tratada como mais uma “narrativa”, capaz de abrigar qualquer coisa, por mais absurda que seja, criando certos compartimentos temáticos (indígena, chinesa, xamânica, ancestral etc), entre os quais está o de nova ciência, distinguida da “antiga”, assim considerada como careta e superada. Convenhamos, meus amigos, Ciência (aquela que realmente faz jus a este nome…) é uma só.
Li recentemente um artigo que designa a difusão de tais práticas como divulgação Odara, com bastante ironia, embora justificada. Nele o cientista Marcelo Yamashita, docente do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp faz o seguinte comentário, que também achei muito pertinente:
A universidade, ao se anunciar publicamente como defensora da ciência e, ao mesmo tempo, fomentar práticas e atividades mais apropriadas a espaços esotéricos, compromete sua imagem e contribui ainda mais para seu descrédito perante a sociedade. É importante decidir o que se quer para a instituição: afinal, nenhuma universidade tem o direito de se considerar muito melhor do que a pior atividade que promove com dinheiro público.
O link vai a seguir. Obrigado pela atenção dos leitores.
