Não sou daqueles que rejeitam liminarmente a inserção de palavras estrangeiras na língua. Se o fosse, ficaria em apuros diante de palavras como futebol, lanche, drinque, drible, basquete, pizza e muitas outras. Mas quando se pode falar a mesma coisa em língua pátria, para que buscar auxilio, ainda mais de forma canhestra e apressada, em outras línguas, geralmente o inglês? Vou direto ao ponto, quero falar aqui é da cafonice abrigada pela expressão influencer, para designar, primeiro, pessoas que não têm uma profissão muito bem esclarecida, beirando sentidos como aproveitadores ou charlatães; segundo, por conferir a tais indivíduos um estatuto duvidoso de sucesso profissional; terceiro, por já existir em bom português a palavra influenciador, cujo único possível defeito em relação ao termo gringo é ter duas sílabas a mais… Com efeito, gosto do verbo influenciar, cuja sonoridade líquida, particularmente na sílaba “flu” me parece pertinente ao seu significado, derivado do latiminfluere, ou seja, fluir para dentro. É assim que me encanto com a possibilidade de melhor entender certas coisas que fluem para dentro de mim e, principalmente, dos agentes humanos de tal fluxo (outra palavra simpática, de mesma raiz, que lembra alguma coisa gotejando com suavidade e constância). Assim, permitam-me os leitores, trago aqui uma seleção das reais personalidades influenciadoras, no sentido mais nobre da palavra, que conheci ao longo de minha vida, chegando a uma dúzia de pessoas (embora em um exercício mais intensivo eu possa ampliar tal lista.) Um conjunto de narrativas relativas a tais pessoas segue adiante, retirada de meu livro de memórias (Vaga, Lembrança), mas para começar uma breve digressão simbólica e afetiva do significado de cada uma delas em minha existência como ser humano, cidadão, profissional, ser amoroso etc.
Há um Panteão deles, digamos assim, encabeçado por meu avô Altivo Drumond de Andrade, sim, ele mesmo, o irmão do poeta. Ele faleceu em 1961 e sendo assim minha convivência com ele durou apenas 13 anos, mas suas influências perduram ainda hoje em mim. Herdei dele a estatura e uma certa postura hierática, mas o mais importante foi o gosto pela leitura, o amor pelas plantas, seu senso crítico às vezes explícito e aparentemente exagerado, talvez impiedoso, mas que no fundo significa não se impressionar muito com as glórias do mundo.
Neste nível eu incluiria mais outros dois, sem laços de sangue comigo, mas que poderia definir como pessoas mais velhas cujo exemplo de vida me foi muito significativo: José Garcia Brandão e José Virgílio Mineiro. Há um terceiro: José Joaquim Goulart, o Juca, primo de meu avô, com quem tive longa convivência em BH e em Brasília. Acho que deles herdei, não sei se com competência bastante, meu modo de exercer certa mineiridade, traduzida por um modo que Drummond muito bem descreveu: à primeira vista seco, à segunda vista lhano, dir-se-ia que ele tem medo, de ser fatalmente humano.
Nesses aí, em uma só palavra, embora não exata em termos semânticos, percebo neles algo próximo a uma ancestralidade minha, que eu procuro honrar e respeitar.
O gosto pela leitura e pelo conhecimento apurado que atribuo ao meu avô Altivo teve outros influenciadores notáveis em minha vida. Não poso deixar de citar dois de meus tios maternos, Roberto e Virgílio Santos Andrade. O primeiro, portador de um aditivo especial, a capacidade de comunicação e interação porosa e espontânea, que eu também definiria por uma expressão que poderia ser considerada capciosa e até pejorativa, mas que no caso de Roberto absolutamente não o é: aquele que se não sabe, inventa. Acho que herdei um pouco de tal qualidade… Em quesito semelhante devo acrescentar também meu tio Heraldo, irmão destes últimos, um verdadeiro mestre da palavra falada, que um dia se revelou a mim também como autêntico doutor na palavra escrita, título que ele divide, sem favor nenhum, com Virgílio e Altivo.
Falo agora das pessoas que exerceram influência na minha vida profissional, não propriamente na minha escolha pela medicina – esta é uma outra história – mas certamente na maneira como a exerci. Na fase clínica, da qual me ocupei nos dez primeiros anos, sem dúvida o maior exemplo que tive foi de meu professor José de Oliveira Campos, na Faculdade de Medicina da UFMG. Como falei dele antes, ele era um clínico de potente formação, inclusive nos EUA, que associava a isso uma crença profunda e militância espírita. Esta segunda parte, entretanto, não me pegou, embora o respeitasse, bem como a todas as pessoas imbuídas de espirito religioso, em relação às quais confesso ter até uma certa inveja. Quando deixei a clínica para me transformar em sanitarista entra em cena outra pessoa marcante, talvez a maior delas em minha vida, por quem tive verdadeira paixão, nos possíveis e variados sentidos que existem em tal palavra: Maria Helena Brandão, com quem trabalhei alguns anos em Uberlândia e mantive uma amizade profunda ao longo da vida, até que um câncer a levou em 2021. Não por acaso Maria Helena era filha do Dr. José Garcia Bandão, já citado acima.
Minha vida teve também uma fase política, quando fui nomeado Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia. Acho que foi em tal posição que ofereci, modéstia à parte, minha maior contribuição ao bem estar coletivo, mais do que como médico propriamente dito. Uma das minhas pessoas referenciais neste campo foi o prefeito com quem trabalhei, Zaire Rezende, um perfeito humanista em relação ao qual, se poderia dizer, havia certo excesso de qualidades para ser político. Mas é através do exemplo de um cara como Zaire é que posso definir o que para mim é a melhor prática de se agir na polis. O outro exemplo creio ter sido Cid Veloso, meu professor na UFMG e depois reitor da Universidade. Foi uma das pessoas mais íntegras que eu conheci, sua maneira de gerir a coisa pública, assim como Zaire, para mim foi um exemplo de responsabilidade, de humanidade e de verdadeiro espírito republicano.
A vida da gente não é feita só de conhecimento, sentimento coletivo ou ancestral. Ela é mais do que isso, ao se somar à capacidade de ser humano, receptivo, generoso, aquiescente com os demais. Não que as pessoas citadas até agora não o tenham sido, bem ao contrário, mas cabe aqui lembrar de dois nomes que levaram essas qualidades a um patamar sobre-humano. Referi-me ao meu tio torto. Bruno Carlos de Almeida Cunha, casado com minha tia Ângela, sobre o qual repito uma brincadeira que eu já fazia quando ele ainda estava entre nós: se alguém um dia merecesse ser canonizado enquanto estivesse vivo o candidato número um seria ninguém menos que o Bruno. O segundo exemplar é meu amigo-irmão Luiz Carlos Lemos Prata, o Homem de Manhuaçu, meu companheiro de lutas municipalistas, um verdadeiro exemplo de líder comunitário e emérito médico de interior, um humanista de visão ampla, com profundas raízes espirituais.
Há uma pessoa que não posso deixar de lado, meu amigo de mais de 60 anos (de amizade), Mauro Marcio de Oliveira. E bota AMIGO nisso! Mauro é uma das pessoas mais inteligentes que conheço e ao mesmo tempo mais atencioso, mais solidário, tendo em sua companhia uma pessoa que é totalmente diferente dele, exceto nas qualidades, que se rivalizam: Maria de Nazaré. E mais: imaginem uma pessoa que manada espalhar nos terrenos de sua Fazendinha Arvoredo placas enormes com poemas diversos… Qual é o mistério que faz duas pessoas, com Mauro e eu, se unirem tanto, seja no afeto ou no intelecto? Não gastaria palavras vãs para explicar isso, porque Guimarães Rosa já o fez com perfeição: Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.
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AS PESSOAS NOTÁVEIS, UMA A UMA
Altivo Drumond de Andrade
Trago aos leitores algumas informações sobre tal personagem, ao mesmo tempo agreste, citadino, bacharel e camponês: Altivo Drummond de Andrade, meu avô, que apesar de ser nome de rua em Itabira, continua a ser, meio século depois de sua morte, o que se costuma chamar de “ilustre desconhecido” – não só em Itabira, aliás.
Altivo nasceu em Itabira aos 19 de novembro de 1895, filho de Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Teixeira Drummond, de tradicionais famílias locais. Fez seus estudos iniciais na terra natal e em Ferros, cidade cujo nome por si só indica proximidade e identidade com Itabira. O pai, pouco estudado, mas muito bem-sucedido na vida e nos negócios, queria os filhos doutores. E lá se foi o jovem Altivo estudar medicina na capital. Sentiu-se mal nas primeiras aulas de anatomia e, com a devida licença do pai, mudou-se para o curso de direito, formando-se em 1918, no Rio de Janeiro. De volta a Minas, casou-se com Dodora, que foi sua companheira até a morte. Do casamento nasceram nada menos do que onze filhos.
Em Itabira, sua vida se dividiu entre a advocacia, o magistério, a política e aquilo que seria sua maior paixão: o trato com as plantas, os bichos e a natureza. Herdou do pai, juntamente com o irmão Carlos, a Fazenda do Pontal, ou dos Doze Vinténs, hoje monumento em Itabira, embora fora de sua locação original. Assumiu sua administração na década de 40 e fez com que a antiga propriedade se transformasse em verdadeira fazenda-modelo, repleta de fruteiras raras, com suas terras sabiamente aproveitadas e seu notável casarão sempre muito bem conservado. Sem dúvida, Altivo deixou marcas em Itabira, fundador que foi, junto com outros ilustres conterrâneos, do antigo Ginásio Sul Americano e também da Associação Comercial.
Na década de 30 havia se mudado com a família para Belo Horizonte, para possibilitar maiores oportunidades para os filhos adolescentes. Assumiu, então, o posto de redator no jornal Diário de Minas, que lhe fora oferecido pelo irmão escritor, então de mudança para o Rio. O ímã da política, da terra e das amizades, entretanto, logo o atrairia de volta a Itabira, para onde retorna em 1938. Contam que, por este tempo, ao discursar numa cerimônia de recepção ao ditador Getúlio Vargas, que fora a Itabira lançar a pedra fundamental da Vale, fez um discurso elegante, mas no qual não deixou de cobrar a redemocratização do país. Altivo, com seu perfil intelectual e militante, era amigo pessoal de Milton Campos e de outros líderes que viriam a constituir a antiga UDN, comungando com eles ideais de elitização e moralização da política, junto com a modernização e o anseio de progresso material para o Brasil.
Com mais alguns anos na terra natal, já com a família criada, muda-se definitivamente para Belo Horizonte em 1952, onde se estabelece em um grande casarão da Rua do Ouro, no bairro da Serra, de agradáveis lembranças para seus netos mais velhos. Adquire então uma chácara em Contagem, retomando ali a obra interrompida no Pontal. Divide-se, agora, entre a função de inspetor escolar, o trato com a chácara e os netos, que passam a nascer em sequência anual. A política e a advocacia se transformariam, então, em páginas viradas. Altivo faleceu em junho de 1961, cercado pela legião de amigos e familiares, entre os quais se incluem, hoje, trinta e cinco netos e incontáveis bisnetos.
Foi um homem de seu tempo, acima de tudo. A literatura lhe fez tentações, que afinal cederam, mas que vigoraram o bastante para contagiar o irmão mais novo, que atribuía a ele, sete anos mais velho, sua iniciação literária, inclusive graças a livros que Altivo lhe mandava direto do Rio de Janeiro, onde fazia o curso de Direito. Pouca coisa conhecemos de sua lavra; raro exemplo é uma refinada “Baladilha” simbolista, que saiu no número 12 da Revista Vita, publicação auto-referida como “consagrada á propaganda moral e material do Estado de Minas Geraes”, no longínquo cinco de maio de 1914. O texto chegou às minhas mãos graças a Humberto Werneck – a quem agradeço – que certamente deve tê-lo encontrada em suas pesquisas sobre aquela “rapaziada desatinada” de BH nas primeiras décadas do século 20. Ouçamos Altivo, ou melhor, “Altyvo”, que é como ele assina o texto, no mais puro maneirismo simbolista, cheio de reticências, e no português esquisito da época: “Imagino-te fria, esgalga, velada em mortalha … Faces engelhadas, o corpo escarnado num elance juncal, cabelos limalhados de nimbus argenteos: na fronte – um mysterio de brumas cinereas, nos labios – um rictus funebre de caveira nova…Crépes negros, como azas fatidicas, escondem as tuas formas esqueleticas, o esboço perdido dos teus seios murchos… Os teus olhos são círios azues a arder lagrimas. Andam semi-envoltos em esbatidos de violeta, da côr amarga do martyrio pisado, a avivar tuas olheiras ecchymoticas, rôxas… Julgo-te moça, creio-te octogenaria… Idealizo-te uma virgem, nublada num véo d’espumas de luar, pallida, expectral… a beijar na noite esponsalicia o cadaver do noivo, na alcova de lyrios, no thalamo de núpcias […] E sonho-te mais triste que és, ó monja do claustro d’alma, a desfiar o rosario sem fim da Magua e da Saudade…”.
Uma síntese dessa vida simples, mas de grandeza humana e cidadã nos é dada por Carlos, em uma crônica intitulada “Uma vida”, publicada no livro “A Bolsa e a Vida”: Anos e anos escoados na cidadezinha natal, entre problemas pequenos e grandes que nunca se resolviam. Tentou ajudar a resolvê-los na oposição. No governo era impossível; não tinha paixão bastante para ser injusto ou odioso. Outros disputassem esse ou aquele posto importante, ele nem vereador quis ser. Mudou de terra e de vida. No fim, espectador enjoado, dizia aos políticos: seria melhor que fizessem como eu, indo plantar, tirar formiga, limpar galinheiro.
José Garcia Brandão
Em meus anos de atuação na Diretoria Regional de Saúde de Uberlândia tive oportunidade de conhecer muitas pessoas que militavam na área, como colegas de trabalho ou, especificamente, como pessoas supervisionadas por mim em seu trabalho nas Unidades de Saúde da SES-MG espalhadas pela região.
Conheci de fato muita gente. Alguns verdadeiros missionários; outros, nem tanto. Certos indivíduos fariam boa figura atrás de alguma grade… Gente lamentavelmente pouco consciente de seu papel na assistência ou na gestão da saúde dentro de um sistema público. O certo é que ainda não havia SUS e eu mesmo não poderia me jactar de já possuir consciência tão apurada.
Há um desses, porém, que poderia ser o patrono dos demais: José Garcia Bandão. Era mais do que o médico chefe do Centro de Saúde em Patrocínio. Era uma figura emblemática, no melhor sentido que esta palavra pode ter, na cidade. Ex-Prefeito, ex-Provedor da Santa Casa, presidente do Lions Clube, vicentino militante – tudo o que faz de um homem em comunidade personalidade prestante e imprescindível, embora sejam coisas às vezes valorizadas (ou mesmo autovalorizadas) de maneira equivocada.
Nossa primeira conversa, ele respeitoso comigo, afinal seu supervisor, novidade que ele recebia pela primeira vez depois de décadas de trabalho, já foi marcada pela simpatia mútua. Nossa diferença de idade talvez ultrapassasse os trinta anos. Difícil foi manter a conversa nos trâmites burocráticos. Ali mesmo descobrimos que tínhamos origens familiares comuns, no Oeste de Minas; ele de Iguatama, meu pai e meus avós paternos de Pains e Formiga. Sobre sua filha, Maria Helena, me avisou: você deveria conhecê-la, vai gostar dela, pensa do mesmo jeito que você. Dito e feito, ela e eu nos tornamos grande amigos e também lhe presto homenagem em outra seção destas memórias.
Anos depois…
Do portãozinho do jardim da casa de sua fazenda, em Patrocínio, ainda o ouvi repetir: que você seja feliz, que Deus lhe abençoe… Entrei no carro depressa, com certo pudor de que ele me visse os olhos molhados. E vim pela estradinha de terra, depois pela rodovia, gozando o privilégio de ter encontrado, em plena madureza, aquela especial figura de pai e amigo.
Havia, então, seis meses que não nos víamos. Ele estava doente, de câncer, com um prazo de vida indefinido pelos médicos, provavelmente curto. Acompanhava-o, entretanto, à distância, sabendo-o machucado pela moléstia, com o rosto alterado pela brutalidade da quimioterapia. Eu não queria vê-lo naquele estado. Outra coisa, ainda, me mantinha distante. Eu rompera um casamento de muitos anos e tinha medo de que o afeto que ele sempre dedicara ao casal, não sobrasse para mim, que trilhava agora outros caminhos. Ou que me recriminasse, por partir vínculos tão sagrados. Aquela visita me deixava um tanto angustiado, com medo da reação que ele pudesse ter. Fui então encontrá-lo na fazenda, onde poderíamos usufruir da privacidade que a casa da cidade, na qual a família, numerosa e comunicativa, com certeza não nos permitiria.
Nada porém foi como eu temia. Recebeu-me com as honrarias de sempre. Mostrou-me as novidades no curral e os chiqueiros reformados, o novo trator, o viveiro para o qual havia adquirido um punhado de novos habitantes, desde porquinhos da Índia, para alegria dos netos, a uma rara cacatua, além de galos e galinhas exóticos, de polainas e crista caída sobre os olhos.
Era daquele tipo de pessoa que, mesmo condenado por uma doença maligna, mandava plantar mais dez mil pés de café, reformar a casa e povoar um novo viveiro. Além disso, trocara o carro por um mais novo e mais veloz. Notei, naquele dia, que apesar da disposição em me exibir as benfeitorias, ele ofegava ao caminhar. Suava, talvez, um pouco mais que o costume. Ao transpor o rego d’água, não armou o costumeiro pulo, majestoso, que apesar dos setent´anos, ainda lhe permitiam as longas pernas. Antes, preferiu passar pela prosaica pinguela, destinada, naqueles passeios, apenas às mulheres.
Chamavam-nos para o café, preparado ritualmente pelas empregadas, uma tradição nas casas da cidade e da fazenda, desde o tempo em que ainda era viva a esposa. Na mesa grande, três ou quatro quitandas diferentes, queijo de Minas feito em casa, além de, é claro, bom café plantado, torrado e moído ali mesmo. Na mesa, a sós comigo, dirigiu-me o olhar azul profundo, inquiridor, sem deixar de ser carinhoso: e você, então… Falou de um modo que me deixava livre, para interpretar e responder a pergunta como quisesse. Resolvi encarar pelo lado que, até então, evitara.
Abri-me, como nunca pensei ser capaz. Eu tinha com ele uma relação afetuosa e franca, mas, nunca antes me sentira capaz de confissões tão pessoais e íntimas. Escutou-me calado, paciencioso. Creio que nem me fez perguntas. Apenas me deixou falar, sem qualquer gesto intempestivo. Quando percebeu minha loquacidade diminuída, atalhou, bondoso: vamos, ainda preciso mostrar muita coisa a você; aqui na fazenda não se para nunca, tem sempre novidades.
Fomos aos cafezais e à nova gleba recém incorporada. Depois ao pomar de laranjeiras que começavam a ser substituídas por enxertos novos, por estarem caducas muitas delas. Mais uma vez estivemos no curral, para assistir à tirada vespertina do leite. E, principalmente, continuamos a conversa longa e macia que, entre ele e eu, mesmo com tantos anos de diferença na idade, parecia nunca ter tido começo ou fim.
Era um final da tarde, de um mês de junho. O céu vermelho fazia como que um lençol contínuo com os morros recobertos de capim gordura. Esfriava. Eu tinha pela frente quase duas horas de estrada que me separavam de casa. Na soleira da varanda, abraçamo-nos, com um contato físico breve e um tanto duro, como era de seu feitio.
Por um momento, ficamos silenciosos e melancólicos, mas, principalmente, lembro-me bem, emocionados. Os olhos azuis tornaram a me fitar, com surpreendente profundidade e clareza. Disse-me, então: ninguém pode julgá-lo, muito menos eu. O importante, na vida é ser feliz. Siga seu rumo, se você já sabe que a felicidade lhe espera. Isso é o que importa, não o julgamento de alguém, seja lá quem for. Deus há de te abençoar.
E me fui, no rumo de casa, enxugando com as costas das mãos, repetidas vezes, as grossas lágrimas, já misturadas com a poeira vermelha da estrada. Havia no ar um prenúncio de que talvez não tivéssemos outro encontro. Aquele pai, que escolhi ou pelo qual fora escolhido, não sei bem ao certo, me abençoara. E com isso eu seguia aliviado, em busca da felicidade que merecia. E ela me pareceu, naquela hora mágica, uma busca que justificaria toda uma existência.
Ele e eu não mais nos vimos. Três ou quatro meses após minha visita, veio a falecer durante uma pescaria com amigos, no pantanal mato-grossense. Vi-o no funeral, com a face serena de quem confiara a alma ao espírito das matas, dos rios e dos peixes. Alegrei-me por ter meu amigo encontrado, daquela forma feliz, a libertação da doença e do sofrimento.
José Virgílio Mineiro
Ter saúde é ter projetos: esta frase foi proferida por René Dubos, um médico e cientista francês que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina na década de 60. Confesso que conheço poucas máximas mais acertadas do que essa. A este respeito, tenho uma bela história para contar sobre o assunto, referente a um grande amigo de Uberlândia, falecido há muitos anos: José Virgílio Mineiro. Antes de narrá-la, porém, creio que seria melhor apresentar o personagem, já que as novas gerações de Uberlândia, além de meus queridos leitores, pouco ou nada sabem dele.
Virgílio Mineiro era médico, formado na minha antiga faculdade de BH, natural de Ouro Preto e trabalhou em Uberlândia desde sua formatura na década de 30. Ali exerceu a especialidade de radiologista, destacando-se na investigação das doenças do esôfago, principalmente do chamado mal do engasgo (ou megaesôfago), um componente da doença de Chagas que matou ou inutilizou muitas pessoas nas regiões endêmicas. Depois de mais de duas décadas na radiologia, Virgílio foi trabalhar no controle da hanseníase (lepra), uma vez que os aparelhos de RX da época traziam grande perigo aos que os manuseavam e já o estavam molestando com queimaduras por radiação.
Virgílio foi também militante político do antigo PCB e como tal foi eleito para uma cadeira na Câmara de Vereadores de Uberlândia nos anos 40, tendo sido um precursor da legislação sanitária municipal. Recebeu homenagem de Suas Excelências, mas só muito tempo depois de morto, sendo dado seu nome a um viaduto e a uma unidade de saúde, no bairro da Lagoinha, onde residia, à época, grande parte de seus pacientes hansenianos.
Vamos então à nossa história. Nos anos 70, Virgílio foi visitar um filho, também médico, que morava nos Estados Unidos e aproveitou para fazer um check-up. Na ocasião foi-lhe diagnosticado um câncer no intestino. Utilizando-se do proverbial pragmatismo norte-americano, o filho recomendou-lhe cirurgia radical, executada sem maiores delongas.
De volta a Uberlândia, portador de uma colostomia temporária e sem maiores garantias de cura do tumor maligno, resolveu tomar iniciativas em relação à vida, já suficientemente movimentada. Reformou sua casa, construiu um enorme viveiro para colibris, adquiriu equipamento fotográfico de última geração e começou a fotografar aves, paisagens, árvores e pessoas, ganhando inclusive sucessivos concursos de fotos artísticas. O homem estava com câncer e tinha muitas incertezas sobre sua saúde. Mas uma coisa lhe era certa: seus projetos mais estimados precisavam ser iniciados ou continuados. Poderia ser chamado de “doente” alguém assim?
A história oferece muitos outros exemplos. De passagem, posso me lembrar de Betinho, Teotônio Vilela, João Paulo II, Darci Ribeiro, Mario Covas, José de Alencar, Cazuza e tantos outros. Gente de quem a doença não retirou a vontade de fazer as coisas acontecerem.
Isso me traz pelo menos uma reflexão, que compartilho com meus leitores. Os médicos precisam valorizar os projetos dos seus pacientes! Que tal se passassem a incluir em seus interrogatórios uma simples pergunta: que projetos você tem para sua vida? A partir daí se poderia, quem sabe, levantar e programar como parte do tratamento dessas pessoas – com a ajuda de outros profissionais – o desenvolvimento de tais projetos pessoais, fossem artísticos, afetivos, intelectuais, militantes ou outros.
Um enorme benefício seria oferecido para tais pacientes, com certeza. O pressuposto é claro: quem tem projetos em vista possui, pelo menos potencialmente, muito mais saúde do que quem não os tem e disporá, por isso mesmo, de mais razões para continuar vivo e se cuidando, ajudando assim os médicos e suas balas milagrosas se tornarem de fato mais efetivos.
São coisas das quais deveria dar conta uma nova formação médica, que, infelizmente, ainda engatinha ou esbarra em preconceitos de uma cultura de imobilidade em nosso país.
Virgílio Santos Andrade
Um móvel de respeito, este, feito de sucupira-preta, possivelmente originária do Mato Dentro, ou de outra mata do Rio Doce – madeira que nem existe mais, em sua forma viva pelo menos. Foi usada na casa de minha avó Dodora por muitos anos, até que veio parar em minhas mãos, em 1973, quando ela faleceu. A velha cadeira-de -armar, na ocasião, ainda estava prestante e me acompanhou nas moradas que tive em variadas cidades. Tenho da cadeira duas recordações que, por si só, a fazem merecedora de homenagens: foi refestelado nela que o li, em uma das vezes que o fiz, Grande Sertão: Veredas, livro que me marcou para sempre. Foi sobre ela, também, que meus dois filhos gêmeos, já com mais de 40 anos hoje, posaram para sua primeira foto, com poucos dias de idade, no colo de um pai orgulhoso e ainda assustado.
A história da cadeira é mais antiga. Foi fabricada em Itabira por meu tio materno Virgílio Andrade, nos anos 50, quando este resolveu se transferir das lides da política e da administração pública para a indústria de móveis e marcenaria em geral. Ainda me lembro da “Virma”, nome que meu tio deu a seu pequeno empreendimento, cuja origem ele explicava, orgulhosamente, significava a combinação de “Virgílio-Marita”, carinhosa referência a Marita Guerra de Andrade, sua mulher, ou “Virgílio-Madeiras”, em versão mais pragmática. Virma, a firma, ficava na esquina de Água-Santa com João Pinheiro, num tempo que ainda se podia pescar gordos bagres no corguinho ainda não submisso a manilhas e poluído, como hoje se vê. Em sua casa, logo adiante da marcenaria, do outro lado da rua, havia também criação de rãs e produção de mel, num quintal pequeno, porém repleto de surpresas, como um olho d’água e certa galinha que abandonava seu ninho para botar ovos cotidianos na cama de Rosângela, minha prima. Itabira não era ainda um doloroso retrato na parede, mas sim um lugar de férias, de primos e primas, de alegrias, de descobertas, de primeiros namoros, etc. Mas isso são outras histórias…
Virgílio Santos Andrade, meu tio. Sujeito pra lá de interessante. Como ele me identificava e me identifico até hoje. Em comum tínhamos a altura, acima da média da família, o fato de sermos primogênitos, além de algo que apenas mais tarde descobri: ter-me transformado, também, em compulsivo guardião de coisas e lembranças relativas à família e à mineiridade em geral. Mas nisso, certamente, me considero bem acompanhado por outros primos, entre os quais Mariza Guerra de Andrade, filha mais velha de meu personagem.
Entre tantas lembranças de Virgílio, algumas ainda ecoam em mim. A importância que ele dava aos mais jovens, ou, pelo menos, a mim. Perto dele sempre me sentia adulto, valorizado, sem que isto significasse perda de ternura com a criança que eu era. Virgílio era um homem culto. Se meu avô, Altivo Drummond de Andrade, tinha um “ar letrado de camponês”, como dele falou o irmão Carlo. Virgílio, não: ele era letrado na essência e na aparência. Aliás, se parecia com um príncipe Romanov. Um humanista e um polemista, acima de tudo, mas ao mesmo tempo uma pessoa simples. Uma marca de seu espírito: ainda nos anos 60, já residindo em BH, lembro-me de vê-lo deblaterar contra a “mordida” que as mineradoras produziam na Serra do Curral, como já o fizera antes com relação à Cia. Vale do Rio Doce, em sua Itabira natal. Contestava, na família e também fora dela, algo que o senso-comum da época acreditava ser apenas parte da paisagem e preço razoável para o progresso. Quando meu irmão João Mauricio foi preso pela ditadura, Virgílio levantou-se contra o perigo e nos acudiu de pronto, movimentando influências para apurar a situação do preso e dar-lhe o apoio necessário.
Mas eu falava era de uma cadeira-de-armar, feita de sucupira-preta…
Pois bem, após quase quarenta anos de uso, o móvel, dotado de um complicado mecanismo de abrir e fechar deu de si, perdendo ferragens e parafusos. Esteve encostado por mais de dez anos e até mesmo chegou a ser atirado ao lixo por uma faxineira descuidada, dado o estado de espandongamento em que se encontrava. Até que decidi recuperá-lo. Foi assim: eu havia terminado minha tese de doutorado e comecei a fazer coisas que a longa jornada acadêmica tinha banido de minha vida, por exemplo, a literatura e o trabalho com as mãos. O velho móvel, que naquele momento era pouco mais que um feixe de pedaços de madeira empoeirada empilhado em um canto, entrou na minha agenda. Realizar a tarefa foi trabalho para três ou quatro finais de semana, nos quais aconteceu sua desconstrução e remontagem. Tive que abandonar seu antigo mecanismo de armar, por falta de algumas peças essenciais. Optei por montá-la agora de forma fixa, aproveitando os pedaços de madeira que ainda restavam, o que me obrigou a alterar as dimensões originais, ficando com o assento um pouco mais estreito, impraticável para bundões, mas ainda confortável para pessoas normais. Retoquei com cera tingida todos os buracos dos antigos parafusos, alguns remontando à época de fabricação; coloquei novos parafusos e um novo extensor para o tecido do assento, que mandei fazer de “encerado locomotiva”. Ato contínuo, lixei, apliquei duas demãos de selador, depois cera e pronto!
Enfim, se a velha cadeira itabirana fabricada por Virgílio Andrade não chegou ao estatuto de se converter em móvel de grife, um hobjeto, ou coisa que o valha, ainda assim ficou bonita, simpática e, principalmente, acolhedora como poucas. Está agora novinha em folha a cadeira, pronta para repetir sua história. Eu que me preparava, na época de sua reforma, para me aposentar, saboreando o retorno às leituras mais intensivas, inclusive uma há muito planejada, embora fosse pela sexta ou sétima vez, do Grande Sertão: Veredas. Minhas ilusões de lazer e fruição da vida durariam pouco, pois de repente me vi convocado para novos compromissos. A aposentadoria teve que esperar e espera até hoje.
Mas minha cadeira está lá, na sala de minha casa na Chapada dos Veadeiros, aguardando para novamente me acolher, em viagens intelectuais e afetivas, embora eu continue ainda sem saber do futuro, se ele me trará – e quando – ócio ou negócio.
Mas, perguntariam os leitores: que importância, afinal, teria essa bendita cadeira? Nenhuma grande solução para o mundo foi concebida em cima dela; nenhum livro foi escrito; nenhuma ideia original foi pensada; não houve nenhum diálogo fenomenal que a tivesse por testemunha. Minha cadeira, como o Elefante do poema de Drummond, apenas existe, nada mais, em sua história modesta, que atravessou gerações, despertou recordações e uniu pessoas em torno dela. Mas uma coisa é certa: as lembranças que esta singela peça já foi capaz de me despertar com sua reforma, sejam de pessoas, de paragens ou de momentos da vida de uma família, já me foram um prêmio suficiente. São essas pequenas (grandes) coisas que a tornam tão importante e que compartilho com vocês agora, sendo a mais significativa delas a lembrança que trago deste meu tio.
Roberto Santos Andrade
Anos 50. O homem louro e alto, para nós crianças, simplesmente enorme como uma torre, nos trazia o cheiro de currais e as histórias de lugares de nomes sugestivos: Uberaba, Barretos, Areias. A cada ano éramos apresentados a um novo primo, quatro evangelistas, depois meninas com os nomes começados por “B”.
Anos 60. Os encontros na Fazenda das Areias. Festas regadas a conversas, brincadeiras e a comida inigualável de Dona Teresa. Mas as tragédias nos espreitavam no meio da alegria: vovô Altivo, para começar. Depois José Marcos e Mateus; vovó Terezinha e Dr. Cathoud. Nós meninos, começamos a sentir que a vida não era só brincadeiras.
Mas acima, bem acima, pairava nosso Tio, que trazia vida e alegria ao nosso cenário infantil. O cheiro dos currais e as histórias de lugares longes agora mudaram. Ele agora abria estradas e rodava por toda parte em sua camionete amarela. Sempre personagem de nossa infância.
Anos 70. Nuvens negras no céu… O jovem universitário buscava fugir da cidade nos finais de semana, pegar um ônibus na rodoviária de BH, rumo ao Povoado de Areias para encontrá-lo na Fazenda, sempre receptivo. Primeiro, o jantar copioso da Tia e o doce de leite de “bufa” com queijo idem. Depois a varanda, onde a conversa escorria mansa, às vezes enfática e até agitada. E íamos da literatura à agricultura, da medicina à política. No meio de tudo o ingrediente da Poesia que nunca lhe faltou. Entre um golinho e outro, no que eu me iniciava – uma récita de O Padre e a Moça. Nunca ninguém traduziu pela palavra falada este poema de Drummond, com tanta verve e com tanta emoção. E o sol nos alcançava ali na varanda, com a certeza de que aquelas conversas eram a essência da vida.
Conversar é que era preciso; já viver, que fosse da maneira possível, nada mais. Anos 90. Ele, agora, Patriarca, em seu refúgio nos altiplanos do Fama, entre o Jequitinhonha e o Mucuri. Lá estive por quatro vezes. Sua vitalidade custava a ceder, parecia não se abalar com o fumo e as muitas cachacinhas. Ali, uma Nova Fonte delas se descobria nos alambiques de Novo Cruzeiro. Um cafezal a perder de vista. Toda a tecnologia da agroindústria capitalista presente. Dava gosto vê-lo discorrer sobre os micronutrientes e as tecnologias israelenses de irrigação minimalista. Parecia até que já nascera naquele meio. À noite, as conversas iniciadas na minha juventude, nas confortáveis cadeiras de espaldar alto, na varanda da Fazenda das Areias, ainda mostravam inesgotável fôlego. Só que eu, aos cinquenta anos, já não encontrava disposição para encarar o sol chegar; mas ele, vinte e cinco anos mais velho, sim. Para dormir usava apenas um banco de madeira. E mesmo assim já amanhecia com profunda disposição para retomar a conversa, tivesse como temas O Padre e a Moça ou a flutuação dos preços dos insumos agrícolas, com a devida ressalva sobre suas discordâncias relativas às tecnologias médicas. Sujeito opinioso!
Frase sua, dedicada a alguns amigos, que guardei: não lhe devo obrigações, apenas finezas. De meu Tio Roberto Andrade o que posso dizer é algo semelhante. Cumulou-me de finezas por toda a vida. Pela atenção que deu à criança e ao jovem estudante de medicina. Pelo convite para que eu batizasse a caçulinha Betânia e assim nos tornássemos compadres. Pelo exemplo permanente de saber dizer o que pensava, de forma tão desabrida, mas ao mesmo tempo atenciosa. Pela sua coragem em enfrentar os desafios que a vida lhe trouxe: perdas de filhos, irmãos, mudanças de lugar e a sistemática destruição das coisas que produziu. Pela sua inteligência criadora e abrangente. Pela sua capacidade de carregar o Mundo dentro de si. Pela generosidade em se colocar abertamente para todos. Por não ser sovina em suas emoções e lembranças.
Para mim, sem medo do lugar-comum, ele ainda vive. Sua passagem por nós é apenas um dos fatos de sua existência luminosa, que prossegue, apesar da dor e da decadência física. Meu e nosso amigo Roberto, obrigado pelas finezas e pelos privilégios que a convivência com você trouxe a mim e a todos que com você estiveram!
Heraldo Santos Andrade
Todos têm tios. Jacques Tati tinha o dele, Tchekov curtia seu Tio Vanya; Guimarães Rosa imortalizou certo Tio Iauaretê.
Mas o meu – ou melhor, o nosso (divido a honra com vocês) – modéstia a parte, é melhor e diferente desses todos. Um tio como poucos… Meu Tio, o Heraldo, o único – o dos Santos e dos Andrade… Para dar conta da multidão que nele habita, me aventuro nos dicionários. Vejo que seu nome pode indicar o oficial que na Idade Média tinha a seu encargo transmitir mensagens importantes, além de organizar as festas de cavalaria e cuidar dos registros da nobreza.
Ah, sim, é um nome masculino de origem germânico, significando o mesmo que “Rei de Armas”. Como sinônimo, poderia ser simplesmente mensageiro, pessoa que leva uma mensagem, ou aquele que anuncia algo que ainda vai acontecer. Fico também sabendo que nas cortes da Idade Média, o Heraldo (Araut em francês e Herald em inglês e alemão) era aquele cavaleiro habilitado a transmitir mensagens de importância e comandar as grandes cerimônias, além de (nas horas vagas, possivelmente) exercer cargo e ofício de conhecer e ordenar os brasões das famílias nobres.
Um Heraldo não pode ser pouca coisa, realmente. De onde provém seu nome? Pode ser que seja do alemão herald, que equivale a soldado veterano, mas pode ser também do latim, heros, daí derivando herói, heroísmo, heróico. Mas acho que podemos dar a pesquisa por finda, pois estes caminhos de armas, cavalos, guerras, tropelias, brasões, ambientes cortesãos, militarismo etc não nos conduzirão, definitivamente, ao verdadeiro Heraldo que conhecemos.
Falo, então, de como o vejo. Em 1995, nos seu setenta anos e cem de seu pai e meu avô Altivo, escrevi sobre ele, em poema dedicado a meu avô: Este outro é tal qual ver-te / se não no corpo, no gesto, / fez teu percurso ao contrário / envelhecendo no berço / da terra que o viu nascer. / Fazendeiro das ideias, / suas lavouras aéreas / fazem grande latifúndio.
Heraldo, das histórias tantas. Por exemplo, aquela que me foi contada por José Marcos, o irmão precocemente falecido. Dizia ele que, estando em Nova Era, onde na ocasião residia o nosso personagem, recebeu dele, emprestada, uma mula para facilitar sua locomoção pelas ruas da cidade. Ótima montaria, mansa e educada, de bom trote. Só tinha um problema, parava a toda hora nas ruas, bastava que alguém a pé ou montado viesse na direção contrária. Era, então, uma besta empacadeira? Nada disso! Apenas, em sua rara inteligência muar, agia conforme os hábitos de seu ginete habitual, que dedicava um dedo de prosa para todos que passavam – e que conhecia todo mundo em Nova Era. Assim, a missão montada que deveria durar no máximo uma hora, demorava três vezes mais para se concretizar.
Esta é uma história minha… Cerca de 1997 ou 98 fui matar saudades dele, em Itabira, junto com Maurício, meu filho. Peguei meu carro e rumei para lá; com muito custo o encontrei, apesar de ter combinado a ida, pois não estava nos altos do Campestre e sim em novo endereço, numa barafunda de ruas, pra lá da Estação Ferroviária. Impressionou-me o cômodo modesto que agora lhe servia de escritório, cozinha e, muitas vezes, também de dormitório. Tudo isso dentro de um terreno de uma serraria desativada. Coisas dele… No tal quartinho, me mostrou uma pasta cheia de escritos, poemas, crônicas, textos filosóficos, utopias – coisas assim, a amostra foi rápida, não deu para identificar o teor. De repente me deu um daqueles papéis (que procuro agora e não encontro…). Nele estava escrito um poema, sobre terras compradas por ele, defendidas com muito orgulho e tenacidade, até que, na segunda parte, na finalização, conclui: a terra não era minha, era da onça. Texto forte e sensível, de fazer orgulhosos os numerosos ecologistas da família.
Era bom de conselhos, também. Certa vez me disse que se um dia em comprasse terras, devia preferir aquelas que estivessem em mãos de herdeiros, melhor ainda se brigados entre si. É só ter paciência, se você souber esperar, vai comprar por menos da metade do preço, negociando com cada um. Bom, pelo menos aprendi duas virtudes que nele eram abundantes como em ninguém: paciência e habilidade para conversar, negociar e, acima de tudo – e nisso ele atingia a perfeição – fazer amigos.
Tia Angelita certa vez me contou outra. Como ele se hospedava em sua casa, quando ainda vivia em Itabira, já em anos mais recentes, um dia resolveu usar suas prerrogativas de irmã e lhe deu uma bronca pelo fato de viajar entre Itabira e BH levando seus pertences em uma reles sacolinha de supermercado. E ato contínuo lhe presenteou com algo bem melhor e mais digno de respeito. Não adiantou nada. Eis que quando ele aprece de novo traz nas mãos outra sacolinha, justificando: que nada, assim é melhor, tem muito ladrão por aí; assim passo mais desapercebido.
Uma imagem dele me marcou profundamente. Na viagem já citada a Itabira, fomos dar uma volta por lá, à antiga Fazenda Pontal (agora um “vale sinistro”) e a uma propriedade dele, no município, onde havia uma bela cachoeira que lhe tinha despertado a ideia de ali construir um “clube da família”. E viajou nisso, durante longo tempo.
Já voltando para a madeireira extinta, em seu Fusca renitente, ao cair da tarde, eu apressado para pegar meu carro e enfrentar a BR 381 na volta para BH, noto que ele praticamente não mais acelerava o carrinho, antes o deixava descer livremente as eventuais ladeiras e depois, tal qual a proverbial mula de Nova Era, simplesmente deixava o mesmo estacar, sem mais nem por quê. Eu, com a pressa que estava, confesso que cheguei a ficar um pouco impaciente. Mas logo vi o que o movia (ou melhor, o que não o movia…): a vontade de estender minha companhia e a de Maurício por mais tempo. Voltei já com a noite fechada e não me arrependi.
Assim era este sujeito: meio fazendeiro, meio poeta; muito Andrade, mas Drummond na medida; fazendeiro do ar e da terra; um tanto de monge zen, outro tanto de empresário; um contador de histórias que conta o que viveu, mas se por acaso vier a inventar, fará dessas histórias algo ainda mais acreditável; homem portador das armas da palavra fácil e abridora de caminhos; cavaleiro de mulas que não sabem o que é pressa e param a cada esquina. E isso tudo sem esquecer uma porção romântica e ousada que certamente ainda vive nele. A do jovem elegante e bem-querido na BH dos anos 40 e 50, que não titubeia em organizar uma fuga rocambolesca, junto com seu Amor, a bordo de uma perua Peugeot cinquenta e um, pelas malévolas estradas do Brasil, até dar em terras paraguaias!
A vida lhe foi ingrata. Um acidente vascular, ainda nos anos 90, emudeceu o contador de histórias e paralisou o ativo empreendedor, mas a ele Heraldo já sobrevive por mais de 20 anos.
Meu Tio, o Heraldo-etê! Viva ele!
José de Oliveira Campos
José de Oliveira Campos foi meu professor de Clínica Médica, no quarto ano. Eu na verdade já havia prestado atenção nele bem antes, quando ia almoçar na casa de minha avó Dodora e o tinha como co-passageiro no ônibus Serra. Um sujeito dez anos mais velho do que eu, muito sério e mesmo sisudo, sempre de paletó e gravata. Mas viajando de ônibus… Dele, o que se dizia é que era um dos caras mais brilhantes de sua área, egresso de uma formação pós-graduada em universidade do Estados Unidos e talvez pouco à vontade com o ambiente meio frouxo que imperava em seu entorno no HC. Quando fui seu aluno não só confirmei como expandi meu bom conceito sobre ele, como um dos professores mais brilhantes que tive e, ao mesmo tempo, mais dedicados e responsáveis. Sob sua tutela, na residência médica, esta visão só cresceu.
J. O. Campos tinha (e ainda tem) como particularidade o fato de ser capaz de discutir a última descoberta de medicina molecular divulgada pelo New England Journal of Medicine e com igual ênfase e propriedade o Livro dos Espíritos, de Alan Kardek.
No início dos anos oitenta, eu e alguns companheiros da UFU, como Hélio Teixeira e Renato Sologuren, que também haviam sido alunos dele na UFMG, soubemos que havia se transferido para a Universidade de Brasília e que não estaria satisfeito com as coisas por lá. Bateu-nos a esperança de que, quem sabe, conseguiríamos cooptá-lo para vir trabalhar na UFU. E não é que conseguimos trazê-lo, junto com a família? Sua esposa Shilene é uma grande médium e líder espírita em Uberlândia e o casal criou e fez prosperar uma obra social de amparo a crianças e gestantes, de primeira grandeza na cidade.
Conheci um pouco mais e confirmei tudo que pensava deste grande médico, professor e colega quando solicitei que ele acompanhasse, ainda nos anos 70, o tratamento de minha avó Dodora, que estava com um linfoma de natureza muito grave. Ali, na beira do leito dela, eu conheci uma das melhores figuras médicas e humanas com quem já privei.
Maria Helena Brandão Oliveira
Já falei aqui da minha amizade e devoção á uma figura verdadeiramente paterna para mim, Dr. José Garcia Brandão, de Patrocínio. E também do que ele me dizia de sua filha, que morava na época em BH: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você…
Algum tempo depois de fato a conheci, Maria Helena Brandão Oliveira, mais precisamente em 1980, quando ela e seu marido Luiz Felipe vieram morar e trabalhar em Uberlândia. Ela me veio recomendada, também, por minha cunhada Lucia Horta Figueiredo, de quem já era amiga e parceira de trabalho em uma unidade de saúde na periferia da Capital. Mesmo sem tais recomendações, tenho certeza, nossa empatia teria sido imediata e irreversível. E ela acabou por trabalhar junto comigo na Diretoria Regional de Saúde, o que me abriu novos horizontes, pois eu estava recém-chegado de um curso de especialização em planejamento de saúde, na Fiocruz, e já percebia que minha vida de burocrata não seria a mesma, depois de ter sido apresentado a tantas novidades no Rio de Janeiro.
E foi assim que começamos freneticamente a pensar coisas novas, muitas delas, realmente impraticáveis, pois estávamos dentro de uma estrutura muito conservadora e rígida. Mas se ter saúde é ter projetos, nós dois estávamos, ambos, quase que adoecidos de tantos projetos. Realizamos, talvez, menos da metade deles, mas valeu a pena.
A amizade e a admiração por Maria Helena logo se estenderam a Eliane e a meus filhos pequenos, que até hoje a têm, mais do que uma pessoa da família, como um anjo benfazejo, a quem se recorre nas horas boas e más da vida. Tudo isso foi consolidado e eternizado, anos depois, quando ela adotou uma criança – com muito orgulho, meu afilhado Pedro! – a quem Eliane e eu fomos buscar, numa manhã de um domingo em 1985, nos Sertões de Goiás.
Para resumir o que me une a esta pessoa admirável, posso dizer que devo a ela grande parte do que hoje constitui a minha capacidade técnica. Eu era apenas um médico clínico quando fui cursar a ENSP/Fiocruz, no Rio. E não voltei de lá muito diferente disso. De tudo que aprendi, depois, a respeito de planejamento, gestão, participação, modelo assistencial, direitos de usuários, educação em saúde, devo muito a ela. Mas não é só isso. Devo dizer também que ela é a pessoa mais coerente que conheço, mesmo que isso às vezes incomode a quem lhe está próximo, e também a mais generosa e disposta a fazer junto, que é uma expressão que ela muito aprecia.
Dr. Brandão estava certo: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você… Mas eu acrescentaria: pude também pensar com ela muitas coisas.
Luiz Carlos Lemos Prata
Conheci aquele sujeito calmo, mas bastante comunicativo, em uma reunião de Secretários Municipais de Saúde, em Belo Horizonte, meados da década de 80. Ali era tudo novidade, até mesmo nós próprios. Eu, por exemplo, era o primeiro secretário de fato e de direito em Uberlândia, já uma das maiores cidades de MG, mas que até então não tinha sua estrutura própria municipal na saúde. Eu em Uberlândia, ele em Manhuaçu, no outro extremo do estado; ele também inaugurando a carreira de gestor da saúde em sua cidade. Nosso primeiro contato foi protocolar, empenhados que estávamos, junto ao um grupo ainda muito reduzido, de organizar o movimento de SMS em Minas. Mas estreitamos os laços nas semanas seguintes, em frequente ligações interurbanas, com foco no nosso objetivo comum.
Luiz Carlos Lemos Prata é o seu nome.
A partir daí, passamos a nos encontrar com mais frequência, inclusive com tempo para colóquios mais pessoais, o que me permitiu conhecer um pouco mais da história desse sujeito notável. Tínhamos sido quase contemporâneos na Faculdade de Medicina da UFMG, eu formado em 1971 e ele em 1968, mas não nos conhecíamos daqueles salões e corredores da Avenida Alfredo Balena. Logo que formou, Luiz Prata voltou para sua cidade natal, Manhuaçu, lugar montanhoso, na divisa entre MG e ES, famosa nos anos 60 por ter abrigado uma tentativa de guerrilha no estilo cubano, dado sua proximidade com as montanhas do Caparaó. Cidade, como tantas outras no Brasil, rica e pobre ao mesmo tempo, marcada pela (quase) monocultura do café, com seu cortejo de associações menos desejáveis: migrações desordenadas, pobreza, tráfico, ocupações mal planejadas de morros etc, além de uma rodovia assassina, a BR-262, cortando seu território.
Luiz especializou-se em pediatria. Junto com a esposa, Beatriz Lourenço, agitou a cidade com um forte trabalho social, seja no hospital e na sede da LBA local, tendo como foco a saúde das mães e das crianças. Eram daquelas pessoas que praticamente renunciaram à vida individual, em total disponibilidade para a vida em comunidade, cotidianamente. Enquanto isso, vieram os filhos, seis no total.
Luiz Prata, muito mais do que eu em Uberlândia, enfrentou o forte conservadorismo e os péssimos costumes políticos de sua cidade. Foi secretário de saúde em três ou quatro ocasiões, com prefeitos de partidos diferentes. Com efeito, naquele homem estava presente a marca do respeito e da responsabilidade, não do partido político. E ele, que após cada mandato julgava ter cumprido sua cota, via-se assediado por mais um convite, que era incapaz de negar – não por vaidade ou ganância – mas por ver ali oportunidade de fazer prosperar suas ideias igualitárias e democratizantes na saúde e na política social, tendo a seu lado a marcante e querida companheira Bia.
De certa feita, por questões típicas da baixa política que se pratica no Brasil, foi removido da saúde em troca de uma função menos importante, que ele aceitou de bom grado, movido pelo espírito de que seria sempre possível servir à cidade. Me mandaram para o lixo, comentou comigo na ocasião. Mas sem deixar de se empenhar na implantação inédita, para a cidade de Manhuaçu e também para a região, da coleta seletiva e da educação para a reciclagem do lixo.
Luiz era um entusiasta da participação social. Tive a oportunidade de ser convidado para pelo menos duas conferências municipais de saúde em Manhuaçu, onde falei sobre o SUS e suas vantagens para a população. Tarefa difícil, não pelo conteúdo da argumentação em si, que eu trazia na ponta da língua e no âmago da alma, mas pela necessidade de tentar trazer algo ainda mais interessante do que a realidade que aquelas pessoas já viviam em seu dia a dia. Tínhamos, nesse campo, algumas divergências. Se dependesse dele, cada cheque que o gestor assinasse devia ter a chancela do Conselho Municipal de Saúde. Já eu procurava ser mais cauteloso, pois sempre questionei aquele “poder deliberativo” que a Lei 8142 conferira aos conselhos, por considerá-lo demagógico e impraticável. Mas nem por isso abrimos mão de nossa admiração e amizade.
Eis um fato que demonstra e confirma a estatura moral deste homem. Nos anos noventa, quando já tinha criado e praticamente feito a vida seus seis filhos, adotou mais três. É que perdera um irmão e sua mulher, tragicamente, num acidente na famigerada BR-262. Eram crianças adotadas pelo casal falecido, que tinham problemas de infertilidade, o que por si só houvera sido um gesto generoso, por se trataram de filhos de pessoas muito pobres e, além do mais, já assumidas com certa idade. Luiz e Bia poderiam ter transferido o caso para a Justiça, mas não o fizeram. Na ocasião da adoção passei por Manhuaçu e os visitei. O quarto dos recém-chegados mais parecia aquele de Branca de Neve e seus amigos anões: caminhas enfileiradas para abrigar os três adotados e mais uma para a babá.
Quando lhe comuniquei que estava separando de minha mulher, que ele mal conhecia, ele me interrompeu para dizer: não importa, continuo gostando de você mesmo assim. Ditoso o homem que tem amigos de tal naipe…
Bruno Carlos de Almeida Cunha
<<As pessoas não morrem, fica encantadas>>. Mas o que acontece com quem já tinha e fazia acontecer o encantamento como parte inseparável de sua vida? Bruno Carlos de Almeida Cunha, marido de minha tia Angelita, era assim e não mudou de estado. Sua mudança, num treze de agosto, foi apenas para produzir o encanto em outras paragens. Mas continua vivo entre nós, herdeiros que somos de sua alegria e de sua arte de costurar gerações.
Para lembrá-lo melhor, volto aos anos 50-60, quando o vi pela primeira vez – um rapaz tímido – em namoro de portão com minha tia, na rua do Ouro. Depois na rua Chefe Pereira, também na Serra, onde viveu nos primeiros anos de casado. Em seguida, em Tulane (EUA) e em Sampa, tantos anos. E então, novamente, BH. Acho que neste périplo encontrei um pouco da essência bruniana: uma enorme mistura de coisas amáveis. Assim foi que escrevi os versos seguintes:
Dia de mudança
No olhar de Mariana
verde-azul, tantas lágrimas,
toda tristeza do mundo.
E todos ali reunidos
para velar nosso Bruno
face ao vale profundo
que de repente se abriu.
E tantos amigos, tantos
Andrades e Almeida-Cunhas
vieram acompanhar
tão querido companheiro
em seu dia de mudança.
Mas, para além da tristeza,
todos trouxeram lembrança
de sua muita alegria
por tantos multiplicada:
96 97
sua verve, seu humor,
seu talento prosador,
seus casos, suas charadas.
Trafegando entre todos
de diversas gerações,
netos, filhos e sobrinhos
cunhados, irmãos e outros mais
(ele nunca era demais).
Para todos tinha estórias
ou caso bem singular
e sempre com muita graça
– ou mesmo sem ela – um mago
que graça sabia criar.
Nosso Bruno, um grande mestre
da arte do bom conversar.
E assim era de todos
convidado, muito amado,
do que houvesse a festejar.
Em tal dia de mudança
– não que caiba fazer festa –
mas, se bem, vamos pensar,
procurar causa e efeito:
o que fazer da lembrança
deste mágico sujeito
que nos legou tal herança?
Com certeza damos conta
Este é um caso pra alegria
Que se faça jus a ele
em bem homenagear.
Trazer à mesa a matéria
de que foi bom professor:
Alegria sim, não tristeza!
Eis o que se ajusta ao Bruno
é de sua vida a riqueza
o bem mais puro, e uno.
Cid Veloso
Eu o conheci desde muito jovem, pois frequentava a casa de seus pais, na rua Monsenhor Horta, bairro do Prado, Belo Horizonte, nos anos 60. Seu irmão, Tiago, era meu colega de Colégio Estadual e Cid, na época, já havia se formado em medicina e era tratado por nós com o devido respeito. Mas acima de tudo era um cara bonachão e muito atencioso com os adolescentes que frequentavam a casa de seus pais, onde ele, já casado e pai de família, não raramente aparecia.
Falar de Cid Veloso me remete a Geraldo Veloso, seu pai. Éramos mais ou menos conterrâneos, ou melhor, a família de meu pai o era. Os Veloso eram de Piumhy e meu pai de Pains, poucas léguas perto. Geraldo era irmão de meu Tio Lécio, casado com Aurea Goulart, irmã de meu avô Zezé. Assim tínhamos também essa aproximação pelo lado da família.
Mas não foi o sangue que me aproximou dos Veloso. Foi muito mais do que isso. Geraldo era um autodidata perfeito, dominava o inglês e talvez outras línguas e tinha uma cultura vastíssima. Era contabilista, mas deixara um bom emprego na iniciativa privada para lidar com o comércio de nada menos do que … livros. Estar na casa da Monsenhor Horta era um prazer, sempre, cheio de surpresas. Ali conheci livros de arte, grandes romances universais, a obra de Marx, discos de jazz e muito mais. Pela primeira vez ouvi falar de Marx & Engels, que eram cultuados naquela casa. Mas sem proselitismo e radicalismo, pois aquilo ali era um território de livre pensamento, acima de tudo.
Cid era cardiologista e lecionava na disciplina de Semiologia. Ele havia criado uma tradição de ministrar, dentro dos conteúdos da “cadeira”, um curso de eletrocardiografia, que era famoso. Muito bem montado do ponto de vista pedagógico, em uma era em que não havia PowerPoint, mas sim projetores de slides, ele intercalava, em meios aos traçados que logo aprendíamos a interpretar, figuras retiradas da arte clássica. Quando surgia uma Pietà, uma Monalisa, uma Banhista ele parava a parte formal para nos inquirir sobre a autoria, o nome do artista, o período em que foi pintada – coisas assim. E ás vezes colocava uma montagem, com corpo de miss e cabeça de um político ou general da ocasião. Magalhães Pinto, por exemplo, totalmente careca, era impagável de maiô. Ao fim e ao cabo, além de informações sobre aqueles complexos QRS e segmentos ST, saíamos de lá repletos de cultura.
Neste tempo ele era apenas um cardiologista e professor de Semiologia. Era famoso apenas naquele último quarteirão da Avenida Alfredo Balena, onde ficava o Hospital de Clínicas da UFMG. Mas grandes acontecimentos ainda estavam para acontecer em sua vida. Cid foi o primeiro reitor eleito por voto direto na UFMG. Sua gestão se caracterizou pela inovação, amplitude cultural e interdisciplinar da ação da reitoria e democratização da gestão. Eu já não morava mais em BH, mas acompanhei algumas de suas peripécias na gestão universitária, por exemplo, a negociação pacienciosa com os invasores do antigo Hospital Borges da Costa. O desfecho foi a transformação do velho prédio abandonado em residência universitária. Sem tiros, sem bombas, sem prisões. Além disso, ele trouxe à UFMG, para uma homenagem, ninguém menos do que o Bispo Desmond Tutu, paladino, junto com Mandela, da luta contra o apartheid na África do Sul. Cid, de fato, enxergava longe, muito longe…
Cid ficou viúvo e casou de novo, com a enfermeira Roseni Chompré, uma companheira de sua exata estatura moral e humana. Certa vez, Roseni, com quem trabalhei no Ministério da Saúde, me contou como foi a aproximação dele com ela, apenas colegas de trabalho até então: “você permitiria que eu lhe cortejasse?” Assim era Cid.
Roseli faleceu poucos dias depois de Cid, em 2016. Sobre este cara maiúsculo só posso dizer, para não me perder em redundâncias: ele viveu além de seu tempo e fez da vida um exemplo de militância, de tolerância, de responsabilidade civil. Eu tenho muito orgulho de ter sido seu amigo e de ter frequentado sua família.
Mauro Márcio de Oliveira
Foi assim que conheci Mauro Marcio de Oliveira e Erix Mafra, meus amigos de mais longa data. Aos 16 anos de idade eu vivia um permanente “éramos três” em matéria de amigos e isso começou a dar sinais de cansaço. Eu até que gostava das conversas com aqueles caras tão mais instruídos do que eu, Tiago Veloso e Mario Coutinho, mas eu mesmo tempo percebia que eu tinha um cabedal a que eles não alcançavam, e que passava por certa boemia, pelos carnavais dos clubes Orion e Tremedal, para não falar nas aprazíveis praias de Água Limpa, um conhecido balneário próximo a BH onde se refugiavam caras de família, como eu, na companhia de garotas nem tanto.
E foi assim que certo dia, graças a um colega do Colégio Estadual que morava perto de minha casa, Paulus Cicero Horta Pessoa, fui apresentado a um cara da mesma idade que nós, que eu conhecia – e respeitava – de longe – por sentir nele um sujeito importante, um verdadeiro líder, no ambiente de uma das turmas de jovens da redondeza. Eu que ansiava por ampliar meu círculo de amigos, ainda saudoso da rua Chapecó, no Bairro do Prado de minha infância, mas querendo mais em termos de vivências e sintonia com um modo de vida mais mundano, senti que por ali passava o meu caminho.
Este outro cara, personagem importante de minha história, chama-se Erix Curi Mafra e residia bem perto de mim. Ele me tratou, desde o início, com condescendência e simpatia e isso logo abriu caminho para uma grande amizade, das maiores que já tive – e que não está perdida. Descobri que ele ja havia prestado atenção em mim, por me ver sempre com livros debaixo do braço e em companhia quase permanente daqueles tipos notórios de intelectuais que eram Tiago e Mario. Um dia me disse que também gostava de ler e que se aproximara de mim por me considerar um cara intelectualizado. Não era bem assim, mas eu ia negar?
Erix um dia me apresentou a um seu colega do Colégio Marconi, também intelectualizado (mais do que nós dois juntos, na verdade) e um tanto solitário, como eu, até pouco tempo antes. Surge aí outro grande amigo que trago comigo há 50 anos, como um vinho que envelhece e melhora a cada ano: Mauro Marcio de Oliveira. E assim eu troquei uma dupla por outra dupla, mas essa aí, agora, numa encruzilhada aberta a novas amizades e experiências. Foi assim que ampliei e renovei meu círculo de amigos de maneira assombrosa, em termos de número, qualidade e fração de tempo.
Eu poucas semanas eu já alcançara o direito de ter um posto de observação, associado a uma penca de jovens da minha idade, junto à porta da Padaria Cinelândia, na esquina da Avenida Amazonas com a rua Aristóteles Caldeira. O fato é que em torno de uma suposta “intelectualização”, valorizada especialmente por Erix, nos unimos e nos tornamos amigos. Mas acho que o fator que realmente nos aproximou foi aquela velha sintonia, difícil de explicar, mas muito palpável, que une os seres humanos, seja para a amizade ou para o amor, desde o início dos tempos. Ficamos amigos – e pronto.
E ponto! E foram alguns anos de celebração, em dezenas de botequins, em mil conversas, na chácara de minha família em Contagem, numa fazenda remota no Oeste de Minas, onde passamos alguns dias de esbórnia, em 1966. Havia álcool em nossas tertúlias, quase sempre, com Erix nos ganhando na prova de resistência, eu e Mauro sucumbindo cedo. Mas nem sempre eram papos etílicos e, justiça seja feita, nunca precisamos de outro motor para o exercício de uma “profunda” filosofia, derivada de nossas vivências e pequenas angústias, de nossa cara de pau e também de algumas leituras, quesito em que Erix e eu éramos amplamente superados por Mauro.
Mauro começou a estudar engenharia em Belo Horizonte, na velha faculdade da UFMG na rua dos Guaicurus, mas logo viu que sua praia era outra. Parou com aquilo com menos de um ano de estudo e foi prestar vestibular de agronomia em Viçosa, ele que de roça quase não conhecia nada. Mas aí já demonstrava um pouco de sua ousadia intelectual e existencial.
Passamos a morar em cidades diferentes, o que se manteve após sua formatura, quando ele foi trabalhar na Bahia – mas nunca deixamos de ser amigos, mantendo, aliás, uma frequente e produtiva correspondência. Sim, cartas! Não é demais lembrar que não existia internet. Mais tarde, mas bem antes de mim, Mauro mudou-se para Brasília, onde eu passei a visitá-lo com frequência, retomando o antigo fluxo da amizade. Entrementes, casou-se com Maria de Nazaré, dama de notável baianidade, de quem me fiz amigo desde o princípio.
Não é pouca coisa: amizades de mais de cinquenta anos! Erix continua em BH e nos vemos mais esporadicamente. Mas quando nos encontramos, os três, é bem fácil retomarmos papos interrompidos em alguma noite e em algum botequim do circuito do circuito Barroca – Nova Suíça.
Zaire Rezende
Eu o conheci através de uma apresentação formal, feita por um primo dele que já era meu amigo. Logo pude saber que era médico, como eu, embora mais velho; natural da terra e de família tradicional de Uberlândia; formado no Rio de Janeiro e que passara mais de vinte anos fora da cidade, trabalhando no interior de São Paulo, e que agora voltava, para continuar a clinicar, como gineco-obstetra em um dos hospitais da cidade, onde já tinha amigos e parentes médicos. O que eu não fiquei sabendo naquele momento é que ele tinha aspirações políticas, ainda não totalmente reveladas na ocasião, mas confirmadas para mim algum tempo depois.
Eu o revi dois anos depois em reunião que já mencionei aqui, na sede do Bispado da cidade, tendo como anfitrião D. Estêvão Avelar, um dominicano atrevido, visado como inimigo pela ditadura, que corria solta na época. Preparava-se, então a campanha da Fraternidade de 1980, cujo tema era a saúde. Éramos dois médicos apenas no evento: ele e eu. E, ao final das conversas com o Bispo, ele veio conversar comigo, se dizendo bem impressionado com as coisas que eu tinha dito pouco antes e então me revelou que seria candidato a prefeito nas próximas eleições, daí a dois anos e que, se ganhasse, ele gostaria que eu fosse seu secretário de saúde. Isso me deixou, não sei se lisonjeado ou curioso, dada tanta ousadia e até mesmo, eu diria, certa presunção, daquele sujeito, até então um ilustre outsider na política local. A ele eu me ligaria política e afetivamente mais tarde, pois de fato ganhou aquela eleição que parecia completamente impossível dois anos antes, fazendo de mim um interlocutor até certo privilegiado. Pela primeira vez na minha vida eu me aproximava de um político.
Zaire Rezende é o nome de tal homem. Ganhou a eleição de 1982, disparado, na frente dos demais candidatos, em uma campanha que ocorreu de casa em casa, de ouvido em ouvido, como pouca grana, como nunca antes acontecera na cidade. Teve o apoio da Igreja Católica, pois era um praticante fiel, ligado aos movimentos mais liberais da Santa Madre, mas pôde contar também com os sindicatos, os mais pobres, além da comunidade universitária. Os uberlandenses tradicionais, não apenas os mais ricos, torciam o nariz, claro, mas o homem empolgou de verdade o eleitorado. Seu segredo era um grande carisma e, mais importante, a quantidade de gente que ele conseguiu acessar na base de “olhos nos olhos”. O dito comum era o de que, quem conversasse com ele sairia convencido. O fato é que eu mesmo, apesar da desconfiança anterior, já fora inteiramente magnetizado.
Ele era um Rezende, família importante na cidade, com muita gente rica e outros nem tanto. Seu pai era um fazendeiro tradicional, que lhe deixou terras de herança, que a política cuidou de dispersar mais tarde – mas isso é outra história. Sua passagem pelo interior de São Paulo se deu no contexto da formação de grupos médicos progressistas e sintonizados com o ideal cristão das Comunidades Eclesiais de Base. Foi médico em duas cidades, a última delas São Sebastião, em SP. onde tinha sido vereador, ligado ao grupo democrata cristão de Franco Montoro. Teve sete ou oito filhos, com a esposa, Neusa, companheira solidária de suas andanças e aventuras.
Vi nele desde o início um homem atencioso, calmo, portador de um olhar realmente diferenciado e dedicado a seus interlocutores. Assim ele era não só em família, como também com eleitores, servidores da Prefeitura, colaboradores, membros do partido. Muitas vezes creio que pagou duramente por isso, pela incompreensão que um homem público sofre, até mesmo (ou principalmente?) quando é honesto e justo. Em sua primeira visita a minha casa, meus gêmeos Mauricio e Fernanda, que tinham quatro anos de idade, o rodearam curiosos e em poucos minutos já tinham se instalado, sem nenhuma cerimônia, em seu colo. Acho que isso ilustra bem a matéria de que Zaire foi feito.
Ele procurou fazer um governo ambicioso, instilando na política da cidade muitas coisas novas, sob um lema que ele respeitava e acreditava com sinceridade – democracia participativa – resistindo brava, ou melhor, suavemente, às investidas críticas de gente que queria pulso mais forte com a população, dentro e fora do governo – às vezes mais dentro do que fora. Foi a primeira vez que a cidade teve secretarias destinadas à saúde e ao meio ambiente, por exemplo. Na saúde colocou um sanitarista; na educação, um educador; no meio ambiente, um ambientalista; na cultura, uma professora de literatura. É claro que na vala comum dos maus governos também há exemplos assim, mas naquele momento, principalmente nos primeiros quatro anos de gestão, acho que fizemos mais do que em todo um século anterior.
A eleição para o sucessor foi perdida, em parte porque a figura escolhida tinha a cintura e a simpatia pessoal dignas de um poste. E forçosamente o contraste como prefeito que saía (não havia segundo turno na época) era inevitável. Mas aspectos culturais também pesaram certamente, por exemplo, aquilo que me disse um frentista de posto de gasolina para justificar seu voto “nos outros”, a oligarquia da cidade: uai, eles fizeram o Camaru… Tal obra era um centro de exposições de gado e máquinas agrícolas, construído na administração anterior à nossa, com grande consumo de recursos. Mas para aquele gasolineiro era “a obra”.
Seu segundo mandato, entre 2001 e 2004, do qual participei novamente, foi malsucedido por inteiro, já dentro de um quadro político muito adverso, marcado por uma estratégia de coalizão e de verdadeira obsessão precoce com a sucessão, já em regime de dois turnos. Foram criadas secretarias em excesso, a crise fiscal mordeu fundo na carne, os aliados se mostraram pouco confiáveis e já na metade do mandato não se pensava em outra coisa a não ser nas eleições vindouras. Zaire se recandidatou, contra a minha opinião e de outros secretários e assessores, acabando colocado em posição totalmente desonrosa naquele pleito.
Na época eu fiz ver a ele já ter tido realizações perfeitas na vida: dois mandatos de prefeito, dois de deputado federal, duas décadas de carreira médica bem-sucedida, uma geração inteira de família bem-criada. E forcei a barra: por que não deixa a política e vai curtir a vida e criar sua filhinha mais nova? Não adiantou nada. Ainda insistiu em ser candidato a vice-governador em chapa do PT (ele sempre foi PMDB, ninguém é perfeito) e mais uma vez foi derrotado, tendo sido antes abandonado pela própria companheirada, que certamente o tinha como estranho no ninho.
Como herança da prefeitura, carregou uma série de processos judiciais por improbidade administrativa, aos quais respondeu penosamente por uma década inteira, tendo perdido grande parte do patrimônio que recebeu do pai. Isso é o de menos… No Brasil de hoje os tais processos abertos sofregamente pelos luminares do Ministério Público às vezes servem apenas para comprovar que o gestor acusado tentou fazer as coisas acontecerem. Se servir de consolo, a mim ou a ele, também fui alvo de um dos tais processos, e faço narrativa disso em outro capítulo destas memórias.
Zaire resumido em uma única frase: um homem que não precisa de fazer força para ser bom. Ele foi sempre naturalmente bom, sem qualquer esforço ou demagogia, valendo isso para a família, para a política, para administração, para os amigos.
José Joaquim Goulart (Juca)
No bairro do Prado,onde minha família residiunos primeiros anos em BH, depois que viemos de Itabira, morava também um importante personagem de minha infância: o Juca, de quem falarei mais adiante. Por ora basta dizer que ele era primo em segundo grau situação para se ajustar às normas do novo mundo regulado e urbano que nos anos 50 começava a se impor no Brasil. Juca era dono de uma farmacinha na rua então chamada Hipódromo, hoje Cura D’ars, bem em frente à grande igreja que lá está, construída lentamente justo naqueles anos que morávamos ali perto. Na verdade, ele era uma espécie de Dr. Jekill e Mr. Hyde para eu e meus irmãos, temido, por um lado, pelas dolorosas injeções que nos aplicava; estimado, por outro, por nos trazer da farmácia as famosas “caixinhas”, embalagens de remédios, já vazias, com as quais fazíamos carros, casas, edifícios – devem ter sido os primeiros brinquedos que conhecemos de verdade, numa época em que o plástico era raro e caro – e o consumo da classe média bastante limitado.
No Prado, ainda, tive a minha primeira experiência como motorista, muito mal-sucedida, por sinal. Foi assim: morávamos na rua Turquesa esquina com Turfa e meu pai tinha um caminhão Chevrolet Gigante, com o qual ganhava a vida na ocasião. A rua Turquesa tinha uma pequena inclinação e por uma daquelas manias infantis (eu devia ter no máximo quatro ou cinco anos), devidamente assessorado por meu tio Willer, apenas um pouco mais velho do que eu, mexe daqui, mexe dali, quando me dei conta o caminhãozinho tinha ganhado movimento, e descia a rua de ré. Por sorte, a direção virou, o veículo fez uma trajetória de meia lua e foi de encontro ao muro do vizinho, posto ao chão de imediato. Felizmente as maiores consequências foram essas, certamente corrigidas pela cobertura do prejuízo por meu pai. Eu, tão garoto, fui absolvido – mas não sei se meu tio também. Um dia ainda pergunto isso para ele.
Rubens Costa Romanelli
Citei aí acima pessoas que me trouxeram generosamente qualidades profissionais, de amizade, de política, de ancestralidade, de conhecimento. Mas quanto ao quesito da espiritualidade reconheço que fui pouco enfático; ou talvez, infelizmente, minha incompetência em aproveitar tal influência me tolheu. A verdade é que tenho certeza que existem coisas para além de nossa vã filosofia, como dizia Shakespeare – se não consegui me acercar delas foi por pura falha pessoal minha, talvez. Mas tal terreno continua me desafiando. E falar disso me traz à memória uma pessoa, um professor, com quem convivi por dois anos na minha vida, quando era ainda adolescente, na década de 60, mas que me deixou até hoje, com lembranças marcantes, particularmente em relação a seu modo de falar de coisas transcendentes e pelo respeito com que agraciava seus alunos tão jovens e imaturos na ocasião. E já se foram quase 70 anos! O nome dele é Rubens Costa Romanelli e sua personalidade e seu exemplo ainda repercutem, em mim e em outras pessoas, tanto que encontrei, sobre ele, na internet de hoje o seguinte:
Rubens Costa Romanelli nasceu em Divinópolis, centro-oeste de Minas Gerais, em 17 de setembro de 1913. Aos 11 anos de idade, começou a trabalhar em Ibiá /MG, nas oficinas da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (hoje Rede Ferroviária Federal), como ajudante de mecânico. Três anos mais tarde, transferindo-se com seus familiares para Araxá, no sul de Minas, foi trabalhar como ajudante de carpinteiro e de marceneiro. Aos 17 anos, passou a funcionar como contínuo nos Escritórios daquela ferrovia. Posteriormente, já com 21 anos de idade, foi transferido para Belo Horizonte, fazendo em tempo recorde o Curso Supletivo. A essa altura, já lecionava Português e Matemática no estabelecimento de ensino onde iniciara seus estudos. Ingressou depois no Curso de Letras da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, formando-se em 1943. Desde então, foi professor de Latim e Português em vários educandários de Belo Horizonte, entre os quais o Colégio Estadual e o Instituto de Educação de Minas Gerais. Em 1963, logrou alcançar o grau de Doutor em Letras e o de Livre Docente da Cadeira de Língua Latina da Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais. Em 1966, realizou na Sorbonne três cursos de especialização. Romanelli dominava doze idiomas, pesquisando todos os demais. Faleceu em 1978, alguns anos depois de ter sido meu professor de Latim no Colégio Estadual de MG, em um acidente automobilístico no qual faleceram a esposa e uma de suas filhas.
Imaginem só o privilégio de ter, em plena adolescência um Mestre de tal quilate!
Eu o homenageio de forma especial através da foto dele que encontrei na internet, para ilustrar esta memória.
