Assim falou Zuenir Ventura desses anos que muito marcaram a vida política brasileira. Quanto a mim, no plano puramente pessoal, tenho a impressão que esses anos tiveram – ou têm ainda – duração inusitada, pois muito do que vivi e do que eu sou de fato, tem origem seguramente em tal momento. O mais significativo nessas vivências é o fato de que entrei nesses anos menino, de calças curtas, deles saindo quase médico e homem casado. Com efeito, me formei em 1971, ano em que igualmente me casei com Eliane, ou seja, um tempinho de nada depois que a tal década terminou. Para mim – e para todo mundo no Brasil – os anos sessenta começaram com a inauguração de Brasília. Já aí me vem uma recordação especial: entoando nosso hino, o “Rataplã do Arrebol”, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, talvez, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais. Mas teve mais, muito mais, a tal década: o golpe e ditadura militar, os festivais da canção, o surgimento de vários expoentes na música brasileira, a contracultura, o fenômeno Beatles – Rolling Stones, a chegada do homem na Lua, o início da derrocada dos conceitos tradicionais de família, comportamento sexual, posição subalterna das mulheres e dos jovens na sociedade, o uso ampliado da maconha, entre outros. Querem saber mais? É só prosseguir na leitura.
Minha cidade
Que tal um giro pela BH de meu tempo? E de sempre, porque o que vive na memória e não perece. Assim como os sonhos, naquela música que Milton canta.
A vida é essa: descer Bahia, subir Floresta... E já que subiu Floresta, aproveite e vá observar a cidade do alto do Colégio Batista. Velhas casas, velhas ruas, quintais pequenos mas de grandes frondes. À frente, a Serra do Curral, emoldurando o cenário de um gigantesco paliteiro. Bonito? Tem sua graça, sempre, esta recem-tenária cidade.
Desça agora por uma das ladeiras que vertem na Lagoinha as pessoas, os carros e as fortes enxurradas, quando é tempo delas. Antigo caminho da perdição, hoje apenas passagem de estudantes e comerciários, para a lida brava na metrópole. A Praça Vaz de Mello já não é do povo e sim dos carros, mas a Lagoinha está muito melhor. Quem duvidar que suba Antonio Carlos até a altura do antigo Mercadinho Popular, que reformado virou lugar dos mais ajeitados.
Prossigamos, de taxi, ônibus ou mesmo a pé. O Barro Preto é próximo e vale a pena conhecê-lo. Ali parece que se produz roupa para o mundo, tudo é luz, cor e fashion. Até oficinas mecânicas se travestiram de cinema, espaço cultural, restaurante. Mas, em fins de semana, as ruas tranquilas e arborizadas do Barro Preto ainda permitem vislumbrar um restinho da BH de décadas passadas, nas diversas camadas arquitetônicas que os modismos foram depositando sobre a cidade. São bons exemplos os Grupos Escolares Francisco Sales e Caetano Azeredo, que faziam belo conjunto com o antigo Ginásio Mineiro, depois Colégio Militar, hoje o prédio-sede da Justiça, caído naquele pedaço neoclássico com a sutileza de mil toneladas de concreto. Mas não vale a pena maldizer, não faríamos outra coisa nesta cidade, que às vezes sossobra nos contrastes e injunções do lucro imobiliário.
Vamos em frente, pela Av. Barbacena, que até hoje parece instável, quase flutuante, com seu piso irregular, assentada como está sobre um brejo, quem sabe o antigo barro preto. Para os lados da Assembléia, a cidade mostrará sua face moderna quase por inteiro. Mas, procurando bem, vamos ver os belos casarões (alguns nem tanto) da burguesia do bairro de Lourdes, já virados em escritórios. O melhor aqui são as ruas e avenidas arborizadas – a Álvares Cabral é marcante – os nossos boulevards, que fazem deste canto da cidade algo sofisticado e cosmopolita. Mais uma vez a Serra do Curral se impõe, um tanto banguela, mas sem perder a majestade.
Pelo Boulevard da Alvares Cabral, subindo e descendo colinas suaves, vai-se ao Parque Municipal, o verdadeiro coração desta cidade. Aqui toda perda, toda delapidação, toda decadência parece ter passado longe. O Parque não, o Parque continua o mesmo. Aliás, o Parque está cada vez melhor.
Agora é subir Afonso Pena até a antiga Praça do Cruzeiro, nem é preciso ir mais acima. Ali, no sopé do Curral, junto às araucárias da caixa d’água, mirando o horizonte do poente, com as colinas do Santo Antônio e da Barroca ao fundo, é hora de confirmar com os olhos, mas principalmente com o coração, que nenhuma outra cidade é bela como esta BH que habita nossa memória.
Conhecendo o mar
Eu me lembro, ali pelos meus doze ou treze anos do dia em que meu pai nos comunicou, bem feliz, que havia ligado para seu parente (distante) Joaquim Machado, morador em São Paulo, comunicando-o que ia levar toda a família para passar uns dias na casa dele, a fim de que nós, crianças (já éramos nada menos do que cinco), conhecêssemos, além das belezas da Paulicéia, nada mais que ele mesmo: o Mar, em Santos. E arrematava: ele estava tão feliz com a notícia que até ficou mudo, de surpresa. Já na época eu achei que tal fato poderia ter provocado no primo Joaquim uma baita surpresa, mas quanto a felicidade, te nho minhas dúvidas. E lá fomos nós, agora em uma reluzente Vemaguete, novinha qua se-em-folha, pela Fernão Dias, igualmente nova e pouco trilhada na ocasião. Tudo era novidade para nós, que por tal caminho ainda não havíamos passado de Betim, bem nas cercanias de BH. E as sim fomos desbravando o vasto Sul de Minas, passando por cidades ainda não conhecidas, como Oliveira, Perdões, São Gonçalo do Sa pucaí, Camanducaia, Extrema, Bragança Paulista e muitas outras. Cito assim nominalmente porque fazia parte do roteiro entrar em cada uma delas, para que meu pai especulasse se havia parentes ou colegas de colégio extraviados por ali. Em Perdões, por exemplo, fomos visitar uma moradia que era alvo de romarias desde que um desenho natural na madeira de uma cama, usada por uma velhinha já falecida, figurava uma Nossa Senhora, de cuja face escorria uma espécie de lágrima avermelhada.
Em Bragança, aproveitamos para cortar o cabelo. Afinal, alguma coisa prática tinha que suceder naquelas visitas. Apoteótica foi a chegada a Sampa. Nós nunca tínhamos visto prédios tão grandes, ruas tão movimentadas, pessoas tão agasalhadas, tantos túneis e viadutos por todo lado, além de um jeito pra lá de esquisito de falar. E mais as propagandas de um estranho refrigerante chamado simples e misteriosamente de “7Up”. Mais ainda nos extasiamos ao chegar à casa de Joaquim e Germana, com seu mimado filho único Joaquim Carlos. Aquilo era um paraíso de consumo, mostruário de objetos extraordinários, onde havia até – imaginem! – sorvete na geladeira, à disposição de quem quisesse experimentar, a qualquer hora. Uau! É claro que tal luxo, oferecido assim de mão cheia, nos foi vedado de imediato por minha mãe, apesar da oferta gentil da dona da casa.
E o show de maravilhas continuou, com visitas ao Pacaembu, às lojas Mappin, ao Anhagabaú, às avenidas Paulista e São João, ao Ibirapuera e a uma sessão de Cinerama, para não falar do Mar, em Santos, que merece um novo parágrafo. Aquela cidade era realmente extraordinária, embora não houvesse, ainda, para nenhum de nós, a sua mais completa tradução, Rita Lee…
Ir a Santos, até hoje, acho um espetáculo maravilhoso, principalmente quando olhamos, não pelas janelas laterais dos ônibus ou dos automóveis, mas para frente. Com efeito, é melhor fingir que não se vê as chaminés e as favelas do ABC ou de Cubatão, para se concentrar no que realmente interessa, o glorioso espetáculo do mar, principalmente quando se o observa pela primeira vez; mar que já nos toca e sensibiliza desde os altos daquele Planalto de Piratininga.
E fomos todos para a praia, os sete mineirinhos e mais o casal paulistano com seu filho, espremidos (não sei como, só sei que foi assim…) em um único carro, desta vez o Chevrolet Bel Air de Joaquim Machado.
A primeira lembrança que tenho do mar não é exatamente sua visão de perto, mas sim de seu cheiro, que parecia nos entrar não apenas pelas narinas, mas por todo o corpo. A sensação, ainda hoje presente em mim, é a de que nossa pele condensa aquele ar especial e o faz penetrar pelos poros e só assim chegando às narinas, numa autêntica subversão da fisiologia. Algo pegajoso, mas totalmente bem-vindo, pelo menos na primeira vez que é sentido. Mas sem nenhuma fisiolosofia: não dá para esquecer de um momento como aquele! E logo em seguida, além de cheirá-lo e senti-lo com todo o corpo, pudemos também prová-lo. No fundo, no fundo, mesmo sabendo de tudo, não há quem se espante de sentir, com a língua, que o tal mar é realmente … salgado.
E que importavam aquelas manchinhas de óleo que nos grudaram na pele e nem mesmo o tom de camarões fritos que adquirimos ao fim de algumas horas de sol forte. Que doesse! Se o preço que o mar nos cobrava para conhecê-lo era só esse, estávamos quites e satisfeitos.
E que viesse mais! E ainda vieram a visita à Ilha Porchat, a circulada pela avenida costeira, o aquário, a vista dos navios no porto, os velhos prédios centrais. Era muita novidade para um bando de mineirinhos.
Na volta, pela mesma Via Anchieta, parecíamos personagens daquele quadro duplo de Norman Rockwell, que retrata uma família na ida e na volta de um dia no campo. Cada um tombado em seu canto. Só faltou o cãozinho preto. Mas também nem havia lugar para tal personagem.
O dia em eu conheci Brasília
Entoando nosso hino, o rataplã do arrebol, de cujas palavras ignorávamos o exato significado, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais.
Era tudo aventura, a começar pelo vento, que já à altura de Sete Lagoas havia destruído o toldo de lona posto sobre o caminhão e dispersado alguns dos chapéus de feltro, o que deixou seus donos inconsoláveis.
Em Três Marias paramos para comer, de marmita, pois naquele tempo não se conhecia fast-food, palavra que, aliás, soaria como um palavrão em língua gringa. Ali constatei, para meu dissabor, que a comida preparada com carinho por minha mãe, de véspera, simplesmente azedara, irremediavelmente. Um colega caridoso me ofereceu uma banana, com a casca já preta, a qual comi com gosto, o que fazer?
Chegamos esbodegados em Paracatu, já a tempo de dormir. Um Grupo Escolar foi nosso abrigo e ali o chão nos serviu de cama, sem direito a um chuveiro. De madrugada, o planalto mostrou-nos sua inclemência, quase nos congelando.
Lembrança de Cristalina: filas de carros com os para-brisas quebrados pelo impacto dos cristais do cascalho fino que cobria o asfalto. E filas de vendedores de para-brisas, recém descobridores daquele filão de ganhar dinheiro, coisa rara naquele tempo e naquela região.
Brasília nos recebeu lá pelas onze horas da manhã, num calor de rachar. Com os chapéus restantes e o nosso grito escoteiro – arrê, arrê, arrê – saudamos os Fuzileiros Navais que vinham a pé do Rio de Janeiro. A estátua gigantesca e esquisita, na entrada do DF, não nos augurou boa coisa.
Acampamos logo abaixo do Palácio do Planalto, monumento colorido pela poeira vermelha, no meio do cerrado. Não havia banho. Para as necessidades mais imperiosas, o hediondo WC de uma cervejaria instalada num galpão provisório, ao lado do Palácio. Acabamos descobrindo uma adutora furada, ao lado da qual, meio atolados na lama, lavávamos as panelas, as cuecas e o corpo. No acampamento sem árvores já no primeiro dia estávamos à beira de uma insolação. À noite, um frio siberiano. Como se não bastasse, um «enxame» de carrapatos nos assolou, propiciando o intenso afazer de nos coçarmos, dia e noite.
Por muita teimosia voltei a Brasília – e para morar – muitos anos depois. Na adolescência, entretanto, só não corremos, eu e meus companheiros, de volta ao regaço materno, porque nossa querida BH ficava muito longe do terrível Planalto Central.
O colégio da elite mineira (e meu também)
Colégio Estadual de Minas Gerais, dito Central, nos altos do bairro de Lourdes – ou seria no Baixo Santo Antônio? Ali estudava a elite mineira. E também pobres e mortais, pequenos burgueses ou quase proletários, como eu e muitos outros. Além dos que vieram a ser governadores e ministros no futuro, nos seus bancos se sentou também a filha do governador da época, Ana Lucia (de Magalhães Pinto). E é claro, que não se esqueça a infeliz moçoila que veio a ser eleita, por duas vezes, Presidente da República. E mais um bando de gente passou por ali, uns maiores, outros menores, como diz o samba de Vanzolini.
O Estadual foi projetado por ninguém menos que Oscar Niemeyer. Falar nele é correr riscos. Quem palreia em demasia estende saudações matinais a equinos, já diziam os antigos. Mas dessa vez não resisto à vontade de palrear sobre um personagem que é detentor de verdadeira unanimidade nacional. Corro o risco, certeiro, de colocar minha colher de pau em mingau alheio, pois sou estranho aos quadros da profissão do homem.
Penso, sinceramente, que a unanimidade que sempre cercou o grande arquiteto não lhe faz justiça. Ou faz mais louvor do que a o merecido por ele. Um pouco de contestação e debate não faria mal à sua obra, eis a verdade. Diante de casos assim, torna-se irresistível, lembrar da frase definitiva e já clássica de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra. Além de burra, não ajuda em nada o progresso das ideias.
Reivindico para mim pelo menos uma razão importante para não apreciar a unanimidade em torno do mestre: eu estudei naquele Colégio Estadual, projetado por ele.
Ali, no Estadual, gerações e gerações de pessoas importantes na política, nas artes e em outras atividades tiveram assento. Bons tempos aqueles que o ensino público era sinônimo de qualidade. Até hoje quem estudou lá se sente honrado e menciona isso nas rodas de amigos com o maior orgulho, alguns até mesmo com certa empáfia. Mas se temos grandes lembranças de tudo o que nos rodeava, estas não eram exatamente do prédio, obra de ON feita por encomenda de JK. O Colégio Estadual era e ainda é realmente lindo por fora, com seus blocos imitando objetos escolares. Estudávamos, por exemplo, na régua… O auditório era uma verdadeira obra de arte, sem dúvida, com seu formato de mata-borrão, dos antigos, que já não se usava à época que o projeto foi concebido. Tudo isso de fora e de longe; de perto e por dentro a coisa mudava.
Alguns exemplos? As salas de aula eram quentes ao extremo, o sol nos batia de chapa durante as aulas do período da tarde, os banheiros tiveram que ser fechados porque empesteavam o ambiente com apenas meio dia de uso, dada sua localização junto ao corredor das salas de aula, além de problemas na exaustão de gases. Tais cômodos, além de excessivamente ensolarados e quentes, eram pequenos para o número de alunos nelas alocado, que, aliás, naquele tempo, talvez não passasse de trinta ou trinta e cinco. O belo auditório era insuportavelmente abafado nos dias de calor, além de possuir uma acústica de qualidade duvidosa. Os professores, coitados, nos intervalos das aulas tinham que se acotovelar em acomodações precárias, uma sala de aula, com todos seus defeitos, em desvio de função. No pátio era um sacrifício encontrar abrigo para o sol, não havendo uma única árvore, com exceção de um notável abacateiro, que não se sabe como escapou incólume ao concretismo árido e exacerbado do Mestre. Por sorte tínhamos os pilotis do prédio principal, marca registrada da arquitetura do mestre. É só olhar para o atual Museu da República, em Brasília, para ver que neste quesito, o “paisagismo” de Niemeyer continuou o mesmo…
Para concluir esta intrusão em seara alheia, devo dizer que é melhor desconfiar das unanimidades, sejam elas quais forem. Afinal, Niemeyer notabilizou-se em defender causas inglórias, como o finado comunismo do modelo soviético. Olha que ele resistiu incólume à glasnost e à perestroika, fazendo ainda muitos e muitos projetos e defendendo suas ideias anacrônicas. Mas Oscar Niemeyer já tem seu lugar na história, deixemo-lo de lado.
Um garoto fora da província
Em meados da década dos 60, tive oportunidade de fazer duas viagens que, por assim dizer, ampliaram tremendamente o horizonte aberto pela ida a Brasília, para a monumental inauguração em 1960.
A primeira delas foi a São Paulo, em 1965. Alguma coisa aconteceu, de fato, para mim – e não foi só andar pela esquina da Ipiranga com a São João (a canção de Caetano ainda não tinha sido escrita ou, pelo menos, não era conhecida). Peguei um Cometa em Belo Horizonte, sozinho e – detalhe importante! – cheguei a Sampa nas regulamentares nove horas depois. Na velha rodoviária da cidade, na região da Praça Tiradentes, lugar onde hoje ninguém, muito menos um menor, anda sem estar prevenido contra “fel, moléstia ou crime”, desci do Cometa e entrei no ônibus para Mogi das Cruzes.
A casa de meus tios Cicida e Alfredo Froes era meu destino, em São Miguel Paulista. Cheguei de noite e fui muito bem recebido, como não poderia deixar de ser. Meu tio Alfredo era um sujeito especial, mesmo com a idade que eu tinha já me tratava com honras de adulto – era tudo o que eu queria. Com poucos dias na casa deles, já familiarizado com o ambiente um tanto tosco de São Miguel, resolvi ampliar meus limites. Além disso, o casal já tinha três de seus cinco filhos, uma escadinha, todos pequenos e eu começava a querer respirar uma atmosfera mais descomprometida com querelas infantis e aquelas demandas reiteradas ao primo que veio de longe. Assim, depois de estudar com profundidade um mapa da cidade, devidamente amparado por Alfredo, um belo dia tomei um trem da Central do Brasil e parti da periferia para o Anhagabaú.
Comecei pelo reconhecimento do terreno. Da Estação Dom Pedro, explorei o grande parque e rumei ao Vale, registrando cuidadosamente o trajeto daquelas ruas estreitas que acabaram por me conduzir a Santa Ifigênia e ao Viaduto do Chá. Atravessei o soterrado riacho para conhecer o Teatro Municipal, o Largo do Arouche e a famosa esquina depois cantada por Caetano. Segui São João, subi Consolação e São Luiz, virei a Paulista. Achei que valia a pena voltar e o fiz também em outros dias, mudando meu objeto, da geografia urbana paulistana para a exploração cinematográfica. Juntei meus parcos trocados e assisti a uma maratona de filmes. Aquilo era encher a alma de cultura e informação.
Um dos filmes que assisti em Sampa, Hatari, de Howard Hawks, grande sucesso nos anos 60, de repente me provocou a fúria de ser do contra, pois era elogiadíssimo como comédia e como transposição do ambiente western para a África. John Wayne em um de seus papéis magistrais. Ao voltar a BH, dias depois, expus minha crítica ao cinéfilo Mario Alves Coutinho, que fazia trinca comigo e Tiago Veloso. O céu, simplesmente, ruiu sobre minha cabeça! Para meus amigos, HatarI era obra prima; para mim, porcaria. Não teve acordo possível, por pouco rompemos nossa forte amizade. Tenho vontade de ver a tal fita de novo. Quem sabe mudei de ideia?
Mas devo ter voltado a BH mais culto e mais sabido, com certeza.
Um ano depois, já com 17 anos (impressionante como um ano faz diferença nessa época de nossas vidas) fui conhecer o Rio de Janeiro. Obrigação de mineiro que se prezasse, claro. Ai, da primeira vez no Rio ninguém esquece! Achei a cidade pouco convidativa em matéria de odores e temperatura, mas o resto me encantou profundamente. Fiquei hospedado no apartamento, em Laranjeiras, de meus tios Aucélia e Roberto. Ali eu dispunha de mordomias e tenho especial lembrança da coleção de long-plays de clássicos que meu tio possuía e que foram logo colocados à minha disposição. De quebra, ainda tinha o proprietário dos discos, na volta para casa, como interlocutor qualificado a comentar comigo as obras que eu escutara antes dele chegar. Como todo bom iniciante, me amarrei em Vivaldi, não só nas Quatro Estações mas também nos Concerti Grossi, que eu logo trauteava com gosto e ardor de um velho conhecido. Inesquecível!
Eu já não estava tão ligado em cinema como no ano anterior. É bem verdade que agora tinha cinema à minha disposição – e sem sair de casa! Televisão? Não – algo muito melhor! É que meus tios moravam em uma rua estreita do bairro das Laranjeiras, General Glicério se não me falha a memória, e seu apartamento, em andar elevado, se situava numa muralha de edifícios que por sua vez ficava de frente (e de costas) para outras muralhas. Se você chegasse a uma janela qualquer, tinha visão imediata de algumas centenas de outras janelas, a partir de todos os ângulos do imóvel. E meu tio Roberto, militar reformado da FAB, era proprietário de um extraordinário binóculo. Assim…
Resumo da ópera, ou melhor, do filme: eu que nunca havia visto sequer uma dama de roupa íntima ao vivo, tinha agora à minha disposição dezenas delas, inclusive sem roupa, em total intimidade…
Se o Rio me marcou como um todo nessa primeira visita, as cenas paradisíacas que eu assisti marcaram mais ainda. Realmente não dá para esquecer.
Nós que amávamos a revolução
Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever.
Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas da Barroca, Prado e Calafate, em muitas noites escuras. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas” (nossa interpretação, é claro), filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e fazer a Revolução no Brasil.
Mário Alves Coutinho era mais intelectualizado, lia Schopenhauer e Nietszche. Tiago Veloso era ligado em ciência e em pleno ginásio nos explicava a fissão do átomo e a teoria da relatividade. Eu com a minha cultura de Seleções, ficava meio capenga entre eles. Mas nas artes da vida, me considerava melhor. Pelo menos já tinha tocado em mulher, embora só o bastante para um beijo furtivo.
Éramos três apaixonados! Tinha a morenona do ônibus, a loura da Igreja, a moreninha do especial do Santa Marcelina. Por elas, mataríamos e até, quem sabe, seríamos capazes de morrer. O único problema é que nenhuma delas fora avisada disso. Nem seus nomes sabíamos, para falar a verdade. Extremistas platônicos, eis o que éramos.
O cinema, certa época, povoou nossas noites. Era o tempo de nouvelle vague, cinema novo, neo-realismo. Ficamos sócios de cineclube, não perdíamos sessão. Nossos papos eram sobre a incomunicabilidade humana, o não-ser, o ridículo existencial. Intimidade total com Antonioni, Goddard e Fellini. Um dia caí na asneira de criticar o gênero western, por achá-lo “alienado” (palavra da época, acho que não se usa mais). Meus dois amigos caíram de pau em cima de mim, dizendo que alienado era eu que não conseguia perceber a “desconstrução do estereótipo americano” de Peckinpah, ou qualquer coisa que o valha.
Abril de 64 nos pegou de surpresa. Nós, que amávamos a Revolução, tínhamos a certeza de que ela viria através de Jango, da UNE e do CPC. Fizemos aproximação com uma célula do PC. Queríamos armas, dinamite, uniformes de campanha. Disseram que o importante no momento era agitação, propaganda. Aguardamos o momento, disciplinadamente. No dia, ou melhor, na noite, da agitação, nas ruas adjacentes ao Batalhão de Guardas (BG) de Santa Efigênia, mandaram para a gente um saco de mantimento com panfletos, uns poucos papéis amarelados e amarfanhados, que não deram para mais do que vinte minutos de trabalho. Nem uma dupla de policiais ou uma rapa, por longínqua que fosse, deram o ar da graça. A Revolução não tinha o charme nem o perigo que nós, seus amantes, esperávamos…
Éramos três na noite escura, perambulando, filosofando, discutindo, brigando, mentindo, acreditando na Revolução, fazendo literatura mental, nos iludindo, amando platonicamente. O que não percebíamos era a juventude fugindo de nós, tão depressa, para nunca mais.
Meu clube da esquina
O bairro da Barroca e a “Turma da Barroca”, à qual eu orgulhosamente passei a pertencer depois de 1965, merecem algumas palavras. Na verdade, não era uma única turma, mas sim “turmas”. Elas se distinguiam pela idade e pelo ponto de encontro. Antes, seria preciso localizar a Barroca. Isso talvez se responda com precisão nos mapas de Belo Horizonte, mas naquele tempo e naquele mundo construído por nós, a tal Barroca era um vasto território que começava depois da Av. do Contorno, altura do Colégio Pio XII e ia até os altos do Cine Amazonas e talvez um pouco mais. O lado direito da Avenida já seria Prado, mas os primeiros quarteirões das ruas que vinham do Prado real, eram considerados como parte da Barroca. O polígono incluía o que já então se chamava de Gutierrez, sede de um Barroca Tênis Clube. Portanto não podia deixar de ser parte da Barroca, também. No limite, este bairro mítico de minha juventude era um território mais ou menos vago entre os bairros do Prado, Santo Agostinho, Gutierrez e Nova Suíça e talvez Calafate. Resumindo e simplificando: a Barroca era um estado de espírito. E em 1965 eu fui admitido à confraria dos que comungavam tal deleite espiritual.
Havia a turma do Cine Amazonas (Aristóteles Caldeira com Amazonas); do Barroca Tênis Clube; do Alto da Barroca (Pedra Bonita com Campos Elísios) e também certamente outras. Curiosamente, havia alguma circulação entre os diversos grupos e também certo respeito entre eles, como nas alcateias. O que não havia era luta de classes, pelo menos explícita, pois a organização dos diversos estratos era bastante democrática. Tinha prestígio quem exibia certos atributos, entre os quais não obrigatoriamente se incluía o poder aquisitivo próprio ou da família. O que conferia admiração e poder, por exemplo, era ser destemido e saber brigar bem. A arte de conquistar garotas (“amarrar”, como se dizia então) contava pontos numerosos. Ter vivido fora do Brasil, como aconteceu com alguns dos mais velhos, mesmo na condição de lavador de pratos ou entregador de pizzas em New York, conferia tremendo status ao portador, era realmente o máximo!
A miscigenação, contudo, esbarrava na faixa etária. Entre os mais velhos era gesto apenas magnânimo, embora não obrigatório, dar colher de chá aos mais novos. E não se deve esquecer que nesta idade, entre os 17 e os 25 anos, quaisquer dois ou três anos fazem muita diferença. Aos pixotes, como eu, ainda na faixa teen, cabia admirar e se babar com as histórias da geração, digamos, “sênior”. Histórias de brigas, de conquistas, de valentias, de vivências em lugares estranhos (por exemplo, uma pizzaria no Harlem ou em Miami).
Dentre estes mais velhos e prestigiados, havia um sujeito especial, líder de todos os líderes, capo de tutti capi, morubixaba geral, pertencente às hostes do Barroca Tênis Clube. Ele tinha por apelido “Secretário” e se notabilizava em todos os quesitos qualificativos arrolados acima e mais alguns, aí incluída uma aparência de galã. Constava até mesmo que, tendo estudado em seminário, era capaz de se expressar em bom latim. Mais chique e completo, impossível! O dito cujo tinha ficha criminal, também, que mais ainda aumentava o respeito que lhe tinham. Algum tempo antes, com efeito, compareceu sem ser convidado a uma festa de debutante e aprontou tanto que o pai da moça, ao repreendê-lo, teve um infarto e morreu. Levou processo, pois já era “de maior”.
Muito tempo depois vim a descobrir que o tal Secretário ninguém mais era que o funcionário da Câmara dos Deputados que foi o autor intelectual de todo o escândalo dos “Anões do Orçamento”, nos anos 90. E de quebra ainda mandou matar a mulher, que descobrira, aparentemente, suas falcatruas. Com efeito, naquelas turmas da Barroca havia de tudo, até gente boa, como eu e muitos outros.
E tome figuras ímpares. Nas alturas do Cine Amazonas pontificava um fulano de alcunha Paracatu, da categoria sênior, famoso pela distância entre o que ostentava em termos de poderio material e o que, de fato, era e possuía. Andava com a cabeça tão erguida que um dia caiu num bueiro aberto na Avenida Amazonas.
Outro de extração social baixa era um Bogó, mulato de compleição avantajada, com uma voz que mais parecia uma trombeta, bom de briga e provocador como quê, capaz de chamar sozinho a torcida adversária, no Mineirão, para um quebra pau, mas que tinha um fraco: era gay. Aimoré era outro famoso de então. Ninguém sabe o que fazia e como ganhava a vida. Não sei dizer se pertencia ao time dos bons de briga ou dos pegadores. Mas tinha uma liderança fenomenal. Meu tio Willer pertencia a tal estrato e se destacava por ser proprietário (e assim ganhar vida) no volante de um taxi.
Ali na Barroca, o ano de 1965 foi o último de uma vida de esbórnia e irresponsabilidade. Em 1966 seria tudo diferente, como foi. Para despedir do velho regime resolvi passar um Carnaval em grande estilo. O local escolhido era meu velho conhecido, apresentado que foi por meu tio Willer em momento anterior: o Clube Orion, na rua Padre Eustáquio. E lá fomos em penca. Deste Carnaval me lembro muito bem dos hits: Quero que vá tudo para o inferno, de Roberto Carlos, em forma de marchinha; se a canoa não virar, eu chego lá; passar o carnaval contigo, beijar a tua boca e depois morrer… Músicas proféticas: mandei o passado para o inferno; fiz minha canoa navegar, sem naufrágios e, principalmente, beijei bocas sem fim naquele salão. E sem morrer, cheguei lá, ou seja, na Faculdade de Medicina da UFMG, algum tempo depois.
A quarta-feira de cinzas amanheceu em grande estilo, no jeito “barroca” de ser: na porta de uma padaria da rua Rio Negro, ainda de madrugada, sorvemos diretamente no gargalo de uma garrafa de vidro (não havia caixinhas e saquinhos, vejam só…) o leite Itambé que o caminhão da Itambé acabara de deixar na calçada, antes mesmo de abrir o estabelecimento – coisas daquele tempo.
Aqui introduzo um personagem barroquiano, o Messias. Chuva ou sol, lá estava ele, entre o açougue e o botequim da esquina. Roupa encardida e rasgada, visivelmente de “defunto maior”, botinas cambaias, gaforinha suja, sabe-se lá de que. Na boca, só uns caquinhos de dentes e uma língua brancacenta, que se projetava a todo momento para fora, como a de um batráquio. Tinha também um cavaquinho. Bêbado, o mais das vezes, gritava e esmurrava o peito: cê já foi ruim, Messias!
A moçada de minha turma não perdoava: ruim de quê, Messias? Ele dava de ombros e não se dignava a nenhuma explicação, seguindo adiante.
Diziam que fora importante e tivera bens. Antigo funcionário da prefeitura, ao que se dizia. Capturava animais soltos nas ruas: coisa de responsabilidade. Eu o conhecera já varrido, doidivanas, por vezes, agressivo. Dele, pouco se sabia. Dizia-se, também, ter ficado daquele jeito depois da morte estúpida de um filho. Tinha suas luas de cantar alto, choroso, tirando acordes toscos do cavaquinho, assustando mulheres no dia da feira, jogando chistes aos moradores das vilas distantes que passavam em ônibus. Sua cantiga predileta era mais ou menos assim: caixa dágua pegou fogo, sapecou tamanduá, telefonei pros bombeiro, que não demora a chegá.
Essa era a cantoria dos dias alegres, que não eram poucos. Havia também música para dias de dor. Então, com a mão fechada em concha sobre o ouvido, ou dedilhando o cavaquinho, ao qual faltavam cordas, lamentava-se: tô doente, tô impertenente, tô com dor de dente, sei que vou morrer…
E, às vezes, galante, era incansável no refrão: na aldeia, oi, na aldeia, quero ver o teu vestido, se arrastando-se na areia. Ou então: abre a janela formosa donzela, venha ver quem te adora.
Um dia, sumiu para sempre. Como acontecia com tudo que dizia respeito a ele, nossa turma apenas ouviu dizer que, bêbado, ao atravessar a grande avenida que cortava o bairro, certa noite, fora atropelado. Removido inconsciente para o Pronto Socorro, morreu poucos dias depois. Sozinho, dizem.
Sentimos sua falta. No coração ainda puro uma sombra passava e deixava sua marca. Ficou ecoando dentro da gente o som oco dos murros no peito frágil, aqueles gritos de dor. O mundo assim se mostrava a nós em sua crueza e contingência. Não seríamos os mesmos, pouco tempo depois.
Nesta mesma Barroca fiz amizades que me acompanharam pela vida a fora. Poucas e boas! Cabe registrar pelo menos três agora, mas é preciso falar desses amigos depois, com mais calma: Erix Curi Mafra, Mauro Marcio de Oliveira e Saulo da Matta Viana Barbosa.
Uma escola que me abriu a cuca
Em 1965 cometi uma das maiores ousadias de minha vida, que foi a de sair do Colégio Estadual, de tanta tradição, para experimentar um tal Colégio Universitário, que a UFMG havia inaugurado um ou dois anos antes. Lá era tudo novo para mim. Acostumado ao laissez-faire do Estadual eu tinha agora mais horas semanais de aula, muitas obrigações para casa, um ambiente marcado pela vontade coletiva de levar as coisas a sério. O estabelecimento tinha sido criado recentemente e não havia ainda demonstrado qualquer vantagem em relação ao sucesso de seus egressos no vestibular, que já naquela época era o que realmente importava.
Seu diretor e criador era um cidadão chamado Hélcio Lins Werneck, um professor de anatomia humana de temperamento difícil, mas certamente dotado de genialidade. Convivi com ele anos depois, em Uberlândia, para onde ele havia se transferido. Mas neste último momento tal atributo tinha sido quase que completamente substituído pela geniosidade. O Colégio Universitário era a menina dos olhos do Reitor da UFMG, Aloisio Pimenta, que havia sido perseguido pelos militares e retirado da Reitoria. A sigla utilizada para o mesmo era “Coluni”, dada a impublicabilidade de suas duas letras iniciais ou, como dizia uma paródia estudantil, inspirada na tabela periódica: para diferenciá-lo do Cobre.
No Coluni não acabou a arbitrária divisão entre os currículos de biologia, exatas e humanas, mas em compensação havia amplas alternativas de se frequentar disciplinas de outras áreas de forma cruzada. Eu, por exemplo, fiz disciplinas ou participei de seminários ligados à História da Arte e Música. Cheguei mesmo me matricular em Cálculo Diferencial e Integral, mas pedi arrego logo de saída. Isso era demais para um estudante até então medíocre e pouco embasado como eu, além do mais geneticamente indisposto com as matemáticas.
Mas a distração e o laissez-faire logo cederam e levar as coisas a sério não foi tão difícil como pareceria antes. Mais que um aluno esforçado, eu já percebia que podia ser competitivo para enfrentar aquilo que já naquele tempo representava o horror conradiano verdadeiro: o vestibular – e para Medicina! Foi assim que comecei a perseguir a ideia de seguir tal carreira. No início ainda achava que não daria conta de tal façanha, mas certo dia, lendo a Realidade, a grande revista da época (que desaguou na Veja), entrei em contato com o que se fazia no Hospital das Clínicas da USP, os primeiros transplantes de rim, que pouco depois já alcançavam também o coração. Pensei comigo: é isso que eu quero! E quis. E fui. E passei! Cheguei lá, conforme a marchinha do carnaval do ano anterior.
Devo ao Colégio Universitário muitas coisas. Além de ter possibilitado que eu entrasse para a Faculdade de Medicina – e em terceiro lugar no vestibular geral – penso que o ganho principal que ali obtive foi o de ter aprendido a estudar, com rigor e método. Nesta época eu morava na rua Selênio, ainda na Barroca e tive a sorte de dispor de um quartinho nos fundos do apartamento térreo em que morávamos, ao lado da garagem, coberto com telhas de amianto e um tanto desconfortável. Mas era só meu! Ali eu cumpria, com gosto, jornadas diárias de seis a oito horas de estudo, que se iniciavam após um breve descanso logo que almoçava, ao chegar das aulas no Universitário e se prolongavam até dez ou onze horas da noite. Mas devo dizer, com orgulho: nunca passei uma noite em claro estudando, nem naquela época e em nenhuma outra. Eu tinha método e força de vontade para executá-lo, no horário “comercial” mesmo. Minha mãe chegou a se preocupar com minha saúde. Afinal, nunca tinha visto um filho fazer aquilo.
Mas daí pra frente seria tudo (bem) diferente… Dez meses depois: vestibular!
Eu cheguei para fazer a prova escrita, no velho prédio da Escola de Engenharia da UFMG, beira do Arrudas, tranquilo como um monge tibetano. Seria a tranquilidade dos ignorantes ou dos que sabiam tudo? Quinze dias depois pude concluir: eu sabia demais!
O vestibular, naquele ano de 1967, foi cheio de novidades. Ele foi unificado para o currículo biológico (Medicina, Biologia, Enfermagem, Farmácia, Veterinária), antecedendo a unificação geral de alguns anos depois. As provas foram respondidas mediante cartões magnéticos – novidade total para nós – preenchidos obrigatoriamente a lápis, em pequenos traços, por uma questão de condução elétrica da máquina de leitura. Não suprimiram as provas práticas e foi nelas que nadei de braçada, pois me pareceram simplórias demais. Por exemplo, tive que identificar a classe de animal a que pertencia um aparelho digestivo dissecado em uma bandeja. Uma moela enorme e manjada já respondia a questão. E assim por diante.
O que me complicou a vida foi um vizinho de carteira, aliás, da mesa de trás, que me pedia desesperadamente cola. Achei que íamos acabar sendo expulsos, eu e ele. O colador desesperado é hoje um notável cirurgião vascular e creio que age agora por conta própria, sem precisar do tipo da ajuda que lhe fazia tanta falta nos anos 60.
Eu fui boy
No início dos anos sessenta arranjei, ou melhor, meu pai me arranjou, dois empregos, em sequência – os primeiros que tive. O primeiro foi em uma construtora chamada Hiron, nome de seu proprietário, sobrenomeado de Oliveira Santos, onde eu tinha como missão datilografar contratos de venda ou aluguel. Sim d a t i l o g r a f a r! E sem herrar, digo erar, digo errar… Ainda não havia xerox e muito menos impressoras digitais. Felizmente, foram poucos meses, pois nunca fui muito habilidoso em artes manuais ou mesmo digitais.
Episódio da época, que sempre me vem à lembrança, foi aquele dia em que a Avenida Afonso Pena parou. O escritório da Hiron ficava nos altos do Edifício do Banco da Lavoura, em plena Praça Sete, cruzamento da Afonso Pena com a rua Rio de Janeiro. Pois bem, certo dia de novembro de 1963, estávamos apreciando a paisagem da janela lateral quando – o que é isso?! – percebemos que o trânsito de pessoas na Avenida havia simplesmente “coagulado”. Formavam-se pequenos grupos por toda parte e, especialmente no Café Pérola, em frente, onde todo mundo ia conversar fiado, já se formava uma verdadeira multidão, dado o fato que lá havia um aparelho de TV quase sempre ligado. Um boy que nos atendia (eu já entrei promovido a datilógrafo…) foi logo despachado para ver o que havia lá em baixo e voltou esbaforido anunciando: mataram o Kennedy!
Como se vê, já se era conectado na época, mas tinha que mandar um portador físico, a pé, verificar diretamente a natureza dos acontecimentos. Naquele dia fiquei livre de datilografar pelo menos uma meia dúzia de contratos, pois nossa cabeça e nossa disposição para o trabalho, que já não era grande, também entraram em estado de coagulação, no que fomos acompanhados do gerente, um tal de Zé Matipó.
Com meu primeiro salário comprei um relógio, um sonho de consumo para a época. Mas creio que o tal objeto de desejo não durou bastante para marcar a hora de minha demissão de tal emprego, pois a firma mudara de ramo, passando a fabricar componentes óticos, mudando também de endereço, indo se estabelecer em Montes Claros, no distrito industrial que naquele momento começava a ser implantado ali.
O segundo emprego foi em 1965, ainda na época do Estadual, em um escritório de comércio de pedras semipreciosas de um meio amigo de meu pai chamado Josué Irffi, um libanês esperto pra caramba, que havia ficado rico com a construção civil e também se dedicava à compra, venda e lapidação das tais pedras. Eu trabalhava só à tarde, como na construtora, pois tinha aula pela manhã. Josué era um negociante rígido em seus princípios e na sua vocação de se endinheirar, mas parece que foi com a minha cara e me dava colheres de chá especiais, por exemplo, quando eu tinha provas no colégio. Eu tinha ali uma vaga função de “escriturário” e ele logo me pôs para cuidar da correspondência de uma instituição de caridade que ele dirigia, o Asilo Paulo de Tarso, sendo espírita fervoroso, assim como toda sua família.
Foi assim, que eu passei a redigir cartas de solicitação de doações a empresários e pessoas físicas diversas da cidade, me encarregando de agendar retornos de ligações e contatos. Mas os telefonemas de pedir donativos felizmente eram feitos por uma funcionária. Creio que minha voz ainda meio vacilante e falseteada não me daria muita cancha para isso.
Além de redigir as tais cartas eu tinha de – adivinhem – datilografá-las, porque Josué não considerava de bom tom mandar cartas mimeografadas para pedir dinheiro. Não se esqueçam que o xerox ainda não havia sido inventado.
Na ocasião, para agradar ao patrão que me era tão generoso, me ofereci para redigir a correspondência em inglês, destinada aos contatos internacionais do comércio de pedras semipreciosas. Santa ousadia! Eu tivera apenas aulas sofríveis de inglês no Colégio Estadual, com professores idem e mal ia além daquele the book is the table. Mas não me apertei: levava o trabalho para casa e recorria a meu tio Danilo Coscarelli, casado com minha tia Clarinha, que sabia inglês como ninguém, sendo professor de professores e que me tratava com a fineza e a dignidade peculiares aos meus demais tios, tortos ou retos. Para não abusar dele, eu tentava também criar meus próprios textos, aproveitando as lições que recebia de graça e aí certamente cometia erros vulgares. Mas pouco tempo depois, uma agregada da família Irffi, que estudava inglês em curso de letras tomou meu lugar. Melhor assim…
Anos de chumbo
Mil novecentos e sessenta e quatro: fatídico ano. No dia exato dos acontecimentos, ou seja, num simbólico primeiro de abril, eu trabalhava em uma escola de datilografia (já fui professor desta arte, acreditem), que fez parte de uma das variadas tentativas de meu pai “abrir um negócio”. Eu escutava pelo rádio de uma sala ao lado os relatos da movimentação de tropas, com evidentes avanços dos mineiros do General Mourão sobre o Rio de Janeiro. Mas não me dava por vencido, achando que aquilo só podia ser intriga dos terríveis Diários Associados, sabidamente associados ao golpismo e às forças da direita. Achei que estes termos iam ficar sepultados, como relíquias de um passado, mas ainda hoje, mais de meio século depois, ainda os vejo pulsar. Na minha impotência de militante encarcerado num sétimo andar, sendo obrigado a prestar atenção no téc-téc de meia dúzia de gatos pingados naquelas velhas Remington, fui ao banheiro e atirei pela janela uma garrafa vazia no vão central do edifício. Foi uma catarse de adolescente, mas juro que se pudesse encheria aquela garrafa de gasolina, acenderia um pavio e a atiraria heroicamente sobre um carro de polícia.
Minha ficha só caiu, de fato, alguns dias depois, quando passei de ônibus próximo ao quartel da PM na rua Platina, entre o Calafate e o Prado, onde nós morávamos, e vi a imensa fila de voluntários, muitos deles quase tão jovens como eu, querendo se alistar para combater a tal “subversão”. Desta palavra, pelo menos, acho que ficamos livres….
Nessa época, como fruto de minha aproximação com Mario Alves Coutinho e Tiago Veloso, comecei a colecionar uma revista de propaganda da antiga União Soviética, impressa em rica policromia e de caráter encomiástico às conquistas do socialismo. Depois daquele fatídico abril, cuidei de levar tal material para esconder na chácara da família, em Contagem. Até que meu tio Virgílio, sempre vigilante, não só por ser simpatizante da UDN, mas por temperamento, se encarregou de botar fogo naquele perigoso pacote. Ele tinha razão, melhor assim. Mas confesso que minha impressão favorável sobre o socialismo na versão soviética demorou um pouco mais a ser eliminada.
Realmente, quem viveu nos anos 60, não escapa de falar de política. Neste campo eu era portador de uma bagagem apenas convencional. Havia “apoiado” Jânio Quadros nas eleições de 1960, por influência direta de meu avô Altivo e meus tios maternos, todos de extração udenista. Mas em 1964 eu já estava convertido à esquerda, que na época era uma palavra com significado mais nítido do que hoje. Devo esta mudança no campo político aos meus amigos Tiago e Mario, já citados. O primeiro, aliás, irmão de Cid Veloso, que foi anos depois Reitor da UFMG e sobrinho de meu tio Lécio (casado com minha tia avó Aurea Goulart), era criado numa família de esquerda. Seu pai, Geraldo Veloso, era um comunista da velha guarda, mas acima de tudo um grande intelectual, sensível à música, à literatura e outras artes, que me brindou com grande camaradagem, por eu ser amigo de seu filho caçula. Este ambiente me fez muito bem e dele emergi não só mais amadurecido intelectualmente como também pretenso militante “de esquerda”.
Em 1964 Tiago, que já tinha seu irmão Geraldo Jr. militando no PCB, tratou no nos alistar no partido. Mas talvez pela nossa idade isso não se concretizou formalmente, embora tenhamos recebido algumas “missões”, de panfletagem, por exemplo. Creio que isso talvez tenha sido, também, uma espécie de quarentena, habitual nos movimentos clandestinos, em relação aos novos adeptos.
Na segunda metade da década o significado de “ser de esquerda” se ampliou, pois as dissidências habituais se ampliaram, a questão da luta armada voltou à tona e a repressão, inclusive interna às próprias seitas de então, comeu solta. No Colégio Estadual todo mundo tinha tomado partido; os que não o faziam recebiam um rótulo certeiro: alienados. Eu era ligado, por laços de amizade, aos Veloso, sabidamente identificados com o PCB. Mas tinha amigos da Ação Popular (AP), mais próxima à Igreja Católica. Para mim, recém iniciado na política, a questão parecia simples: se nosso inimigo é a ditadura, por que não lutamos todos juntos? Não deu outra: a turma do PCB me acusou de fazer o jogo da AP – e vice-versa. Por pouco não caí na vala comum dos “alienados”. Aliás, curiosamente (ou nem tanto…) ser um dos tais alienados, naquele tempo, podia ser até mais confortável, relativamente, do que tomar partido, pois a facção contrária, sempre vigilante, massacrava com mais vigor aqueles que tinham posição definida, mesmo do lado sinistro do espectro, do que aqueles que não a tinham por nenhum lado
Quando entrei na Faculdade, porém, por questão de simpatia pessoal, principalmente com o cara que era presidente do Diretório
Acadêmico (DAAB) na ocasião, Zé Celso, me considerei como membro, ou melhor dizendo, simpatizante, da AP. Mas mesmo aí minha posição nunca se definiu por completo, pois os rachas eram galopantes e eu continuava, ingenuamente, pensando que o melhor
seria unir forças contra os militares no poder. De toda forma, meu namoro com Eliane, agora firme e com convivência cotidiana, acabou me afastando da política, pois minha companheira, definitivamente, não era dessas coisas.
Em 1968 fora assassinado pela Polícia, no Rio, o estudante Edson Luiz, durante uma passeata. Isso mobilizou não só os estudantes de Medicina como todo o alunado da UFMG. Nossas lideranças, unidas finalmente contra um inimigo comum, resolveram “tomar” a Faculdade. Como veem, há pouca coisa nova real sob a luz do sol. A primeira medida foi pichar, por cima do nome oficial do prédio principal, referência a um conservador odiado pela estudantada de então, Prof. Oscar Versiani Caldeira, o nome do mártir do momento, Edson Luiz. Ato contínuo, nós montamos – aqui me permito usar a primeira pessoa do plural com propriedade – uma barricada em frente à entrada do prédio, a partir de materiais descartados que abundavam em uma área dos fundos. Sui generis esta barricada, com macas, cadeiras de rodas, armários de metal, mesas cirúrgicas, coisas assim.
Enquanto isso, a Policia Militar já nos cercava, sem entrar, ainda. A nota pitoresca foi o acoplamento de um eixo com rodas, provavelmente de algum veículo de tração humana, de transportar mantimentos ou roupa suja, com um tubo de chaminé ou coisa que o valha, de forma a figurar um canhão. Nós empurrávamos a tal trapizonga pra lá e pra cá, como se mirássemos os policiais ali em frente, fazendo com que eles, por via das dúvidas, se recolhessem atrás de árvores e de viaturas. Foi bem divertido, até que a tropa de choque chegou e invadiu a Faculdade, sem mais, distribuindo bordoadas e fazendo algumas dezenas de presos, todos liberados no dia seguinte, alguns sendo processados na sequência. A ditadura não só mostrava os dentes, mas agora já mordia.
Um ano antes, ainda primeiranista, eu fora manifestar “de roldão” na avenida Afonso Pena e no Palácio da Liberdade. O móvel era a falta de verbas para o ensino, particularmente no Pronto Socorro Amélia Lins, que pertencia ao Estado de MG. Não teve polícia e nem bombas. Fomos até acolhidos, por assim dizer, nos jardins do Palácio da Liberdade, onde passamos a noite sem que isso incomodasse ao governador de então, Israel Pinheiro, que parecia não ser adepto do cassetete, embora não fosse também defensor de maior diálogo. Na etapa da Afonso Pena passei uma noite indormida debaixo da marquise do edifício chamado Lavourinha, na esquina com Tamoios. Com efeito, não é todo mundo que teve a experiência de acordar pela manhã, em colchões improvisados, com os pedestres vistos do ângulo de seus sapatos. E com uma fome terrível, saciada um quarteirão acima, na Padaria Boschi, na Tamoios com Rio de Janeiro.
Isso foi em 1967. Um ano depois o tom das queixas dos estudantes havia subido, deixando de lado questões locais, como o tal abandono do PS, em troca de temáticas mais abrangentes, nas quais as palavras de ordem tinham a ver com democracia, liberdade, repúdio à ditadura. Em cada um desses momentos aprendíamos mais um pouco – a primeira lição que a Faculdade de Medicina me deu, de abrir as orelhas, além da mente, ia sendo consolidada pouco a pouco.
Naquele ano de 1968, que demorou a acabar (ou nem acabou, como disse Zuenir Ventura), havia uma inscrição misteriosa pichada nos muros de BH. Sim, naquele tempo as pichações eram anônimas, como hoje, mas pelo menos diziam alguma coisa. Aquelas, no caso, proferiam: tudo certo, mas tá esquisito. E estava tudo muito estranho mesmo: gente desaparecendo, inclusive colegas nossos de Faculdade, artistas sendo perseguidos ou se auto exilando, políticos sendo cassados. Patrulhas reais, fardadas ou não, trafegavam livremente e faziam estrago entre as pessoas de esquerda.
Em uma manhã de dezembro minha mãe foi a primeira a me dar a notícia, eu ainda na cama: meu filho, agora é que se tem uma ditadura de verdade! Estava assinado o ato institucional cinco e o terror agora tinha a chancela do Estado. A raiva que se sente uma hora dessas é inimaginável! Quando vejo ainda hoje pessoas ansiarem pela volta dos militares ao poder, a sensação que tenho é mais de nojo do que de medo. Mas naquele tempo o que nos aguardava nas ruas, nos corredores da Faculdade, nos eventos públicos era tudo isso misturado: terror, desconfiança, medo, repulsa, revolta, nojo. Só quem viveu tempos assim saberá do que estou falando.
Enquanto isso, a esquerda deblaterava sobre as vírgulas de O Capital, ou sobre a interpretação de parágrafos de Lenin ou sobre a conveniência dos focos de revolução, se dilacerando antes de concatenar alguma ação política organizada. Entrementes, Che Guevara foi assassinado na Bolívia e a luta armada passou a ser a opção preferencial de muitos. Aí então é que a mão pesada da ditadura se mostrou com toda sua força covarde.
Alguns meses depois do fatídico dezembro, o que já era previsível aconteceu. Meu irmão João Mauricio foi preso na Escola Técnica Federal, onde estudava, depois de uma busca arbitrária e constrangedora, por parte de agentes militares e policiais, na casa de meus pais na rua Cristina. Até sabermos de seu paradeiro e se sobrevivia aos maus tratos que certamente lhe dispensavam, foi um sufoco. Neste momento, entra em cena meu Tio Virgílio, aliás, um personagem essencial na minha vida. Ele tinha contatos entre as autoridades políticas, embora não fosse, nem de longe, o que se poderia chamar de agente da ditadura, embora sem dúvida simpático ao movimento de 1964. Graças a ele pudemos saber que João estava recolhido ao DOPS, na Avenida Afonso Pena e que aparentemente estava bem – vivo pelo menos. A extensão dos danos que sofreu na ocasião só se soube depois…
João Mauricio esteve alguns meses preso, depois respondeu a processo em liberdade e finalmente foi absolvido de tudo o que lhe acusavam, graças ao trabalho de um notável advogado de presos políticos de então, chamado Geraldo Magela. Não sei se este cara já teve sua história contada, mas pelo que sei foi uma figura marcante, ao defender seus clientes como um leão, ao mesmo tempo que ironizava e tripudiava dos algozes e juízes da ditadura. Quem sabe este notável Magela não merecesse um livro, ou um filme?
Um Rondon às esquerdas
No final de 1968, quando nuvens escuras começavam a turvar o céu da pátria, soube que um colega mais velho – eu no segundo, ele no quinto ano da faculdade – estava organizando uma espécie de Projeto Rondon alternativo e não oficial em sua cidade. Eu tinha colegas que haviam frequentado a versão oficial do Rondon e não via com bons olhos o que tinham experimentado. Procurei o organizador da excursão, Zé Murilo Zeitune e depois de breve conversa com ele, me inscrevi. Chamei também para participar um grande amigo da época, Dalton Ferreira Alves e ele topou na hora. E assim rumamos para Guaranésia, no extremo sudoeste de MG, embarcados em uma gloriosa Rural Wyllis da instituição então denominada Acar.
Lá a recepção foi calorosa, fomos festejados como vips. Zé Murilo cuidou das consultas, enquanto eu e Dalton fomos fazer palestras e organizar o atendimento. Conversa vai, conversa vem, nos aproximamos de um grupo de jovens da cidade, que se encantaram com nossa condição de universitários, ainda mais de medicina. Descobrimos que esta turma queria mais ar, mais luz, mais liberdade – e que quem tapava tudo isso ali era o vigário da cidade, um velhote casmurro, dono de imutável postura conservadora, que exercia seu mister de trevas na cidade fazia muitos anos. Fizemos nossa parte, estimulamos o diálogo e o debate, deixando implícito que um pouco de “embate” também seria bom. Não deu outra, o padre resolveu comparecer a uma sessão de finalização de nosso trabalho e lá teve que ouvir coisas que até então não ouvira. O tempo fechou na pequena Guaranésia, mas saímos de lá meio como heróis.
Uma das jovens que nos assistia, filha da cidade, um pouco mais nova do que nós, que naquele momento estudava fora, em Ribeirão Preto, esteve presente em tudo e adorou participar da confusão. Ficamos amigos e, como era comum acontecer naquele tempo, passamos a nos corresponder assiduamente. Quantas certezas e ao mesmo tempo quantas dúvidas tínhamos… Mas acima de tudo nos iluminava um grande sentimento que nossa geração tinha um papel na história e que o Brasil, um dia, ia sair da treva em que se encontrava – com a nossa ajuda, claro.
Lia Ribeiro Dias, era o nome da garota continuou minha amiga epistolar por alguns anos. Um dia, as cartas foram escasseando, um novo encontro foi sendo adiado, até que a perdi de vista. Tinha tudo para virar namoro, mas não virou. Eu já namorava Eliane e achei por bem não abrir novas frentes afetivas, mas creio que com um pouco mais de flexibilidade de minha parte e da dela, acho que teria acontecido. Mas esta história não acaba aqui.
Em 2008, ou seja, quarenta (!) anos depois, recebo um e-mail em que alguém me perguntava se era eu mesmo que tinha estado em Guaranésia no remoto ano de 1968. Não resisti a tentação de brincar: não, não era eu; agora é outro que está aqui, aquele já morreu…
Resumindo a ópera, Lia e eu nos reencontramos em Brasília, onde ela vinha (e ainda vem) periodicamente, por compromissos de trabalho. Ela é jornalista e editora de uma publicação especializada em inclusão digital, além de cobrir a área de telecomunicações. Retomamos de maneira integral, agora de forma mais madura e consciente, aquela amizade apenas esboçada em nossa juventude. Acho essa história maravilhosa e ter tido a oportunidade de vivê-la e cultivar uma amizade assim considero uma das grandes benesses que a vida me trouxe.
Pena que algo tão bacana tenha sucumbido – ou esmorecido – com a recente praga da polarização política no Brasil. Lia é petista de carteirinha, fundadora do partido em Sampa, assim como seu falecido marido e é uma daquelas militantes ferrenhas e inflexíveis, que considera qualquer crítica ao PT como uma apostasia digna, se não da fogueira, do afastamento em relação a quem se arrisca a fazê-la. Sendo assim, interrompemos uma nova fase dessa história, que em breve completaria (mais) dez anos.
Mas tal estado de afastamento e estranheza não durou muito, felizmente. Voltamos a nos relacionar e ela inclusive saiu de São Paulo exclusivamente para me visitar em Brasília quando fiz 70 anos. Uma enorme honraria para mim. E o horror bolsonarista posterior nos fez descobrir que tínhamos muito mais coisas em comum do que divergências.
Um enorme passo para a humanidade
Em julho de 1969 fui passar meu aniversário de 21 anos no Rio. Armamos uma turma para tanto: minha tia Teresa e meus primos Mariza e Chico Marcos. Teresa, na época, começava a namorar o carioca Narciso, psicólogo e depois psicanalista, que viria a ser seu marido e pai de seu único filho, Cristiano. Eliane, a quem eu já namorava havia quase dois anos não compareceu; a família dela não nos permitia intimidades como esta de viajarmos juntos.
O mês de minha maioridade legal não foi um mês qualquer. Foi o momento que o homem pisou na lua, dando aquele enorme passo para a humanidade, como se passou a dizer desde então. E a pisada na lua, naturalmente, exigia comemoração especial. Foi assim que compramos algumas garrafas de Chateau Duvalier, a zurrapa nacional a que tínhamos acesso na ocasião, uns queijinhos e pães mais e rumamos para o apartamento de minha tia Aucélia, em elegante edifício da Visconde de Pirajá, onde eu estava hospedado.
Dois detalhes adicionais: eu estava sozinho no imóvel, estando a proprietária de viagem e Narciso não deixou faltar um pacotinho de boa cannabis, ingrediente bem adequado para o tal grande passo que a humanidade ia dar.
E ali, com a TV ligada, o locutor Jatobá narrando o óbvio, pudemos ver finalmente aquelas pisadas históricas, em imagens tremidas e meio surreais, com vozes dos lunautas parecendo vir de além-túmulo. Deve ser por isso que muita gente acha que aquilo não passou de enganação, embora eu pense que a má qualidade das imagens e dos sons seria prova de veracidade. Mas não deixamos de beber o vinho que tinha nome de ditador haitiano, comer uns queijinhos e dar um tapa naquela marijuana, que nem era lá essas coisas. Mas tal mistura de álcool & alcalóide nos deixou loquazes e engraçados, formando-se logo um clima, do tipo daquele que Gil traduziu como barata pode ser um barato total. Para fundo musical não havia muita coisa, pois o dono da casa, meu tio Roberto Menezes, era chegado apenas aos clássicos. Talvez tenhamos nos conformado em escutar apenas uns rocks na Rádio Mundial, a queridinha da juventude carioca de então.
E estávamos em pleno clima quando a campainha toca… Quem seria, numa hora dessas? Nosso primeiro pensamento foi dedicado aos vizinhos, que certamente não estavam acostumados com aqueles sons e risadas, sendo os moradores as pessoas pacatas que eram meus tios. Ao abrirmos a porta, vimos que o passo histórico de Armstrong era pequeno perto de nosso espanto, pois quem chegava – e de total surpresa – era minha tia Dirce, que morava no Rio e certamente veio até ali para conferir o tipo de estrago que estaríamos, supostamente, fazendo.
Nada de mais, na verdade, acontecia, mas aquela meia dúzia de jovens quase bêbados e falando pastoso certamente deve ter as sustado a minha tia. E ela foi ficando por lá, não se retirando nem mesmo com a falta de assunto e o anticlímax que se instalaram com sua chegada. Aos lunáticos só coube botar a viola no saco e ir curtir ressaca & larica em outra freguesia. Eu acabei ficando, pois já era tarde e eu nem tinha para onde ir, como os demais, pois estava hospedado ali mesmo. Boa noite, tia Dirce…
Na verdade, na tarde do mesmo dia tínhamos vivido outro momento emocionante, um enorme passo para nós também: fomos, em penca, visitar nosso tio Carlos Drummond de Andrade, com quem conversamos alegremente por horas, bebemos uísque e comemos bolo de chocolate preparado por Dolores, sua mulher. Só não ficamos lá para ver a lua, ou melhor, o homem chegando à lua, por já termos ficado durante muito tempo e não querer abusar. Sem dúvida, nosso frisson era por uma comemoração mais descontraída.
Anos depois vejo essa mesma história contada de forma diferente por uma de suas personagens. Minha prima Mariza, de quem nunca consegui ser muito próximo, deu entrevista para um intelectual mineiro, José Maria Cançado, que escreveu nos anos 90 uma biografia de Drummond chamada Os Sapatos de Morfeu. Aliás, uma bela porcaria de biografia, com histórias mal contadas a respeito de fatos da família e mesmo algumas mentiras deslavadas. A prima acrescentou mais um dado inverídico ao contar para Cançado ter passado a referida chegada na lua ao lado do tio. Mas eu estava lá e posso dizer: não foi bem assim…
Minha formação humanística
Minha família não chegava a ser um exemplo acabado de intelectualidade. Mas vamos por partes.
Meu avô Altivo, este sim, tinha luzes. Formou-se advogado no Rio de Janeiro no começo do século XX, chegou a publicar poemas e textos de feição symbollista em revistas literárias, introduziu ao irmão Carlos (segundo o próprio) boas e clássicas leituras. Em sua casa havia livros, muitos livros, particularmente, pelo que me lembro, de jurídica. Mas tive a sorte de pegar alguns para mim quando a casa de minha avó se desfez, na década de 70, e entre o que recolhi havia alguma filosofia e literatura. Mantenho dois desses alfarrábios comigo até hoje: um livro de Hypolite Taine, um filósofo positivista e outro de Maurice Maeterlink, um literato simbolista – ambos franceses.
Na minha infância, lembro de algumas discussões acaloradas, embora amistosas, entre meus tios maternos, com citações literárias e filosóficas disparadas meio a esmo e talvez sem total fundamento. Por exemplo, Schopenhauer, o italiano Pitigrilli, Guerra Junqueiro, além do indefectível Alan Kardek, eram citados de forma habitual. O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, lançado em meados da década de 50, foi muito comentado nas rodas da família, com as devidas ressalvas que deveria ser afastado da curiosidade dos menores (no caso, eu) por ser considerado “impróprio”. Mas certamente tudo isso denunciava que ali se lia alguma coisa.
Já do lado dos Goulart nada disso acontecia. Mas não os reprovo por isso. Herdei deles coisas de outra espécie, mas que valorizo muito também.
Aquelas conversas à mesa dos Andrade eram também ricas em manifestações um tanto conservadoras, do ponto de vista político, mas não fascistóides, é bom que se diga. Meu avô tinha ligações antigas com a União Democrática Nacional (UDN), sendo seu fundador em Itabira e além disso era um anti-varguista convicto. O grande ídolo da família era Carlos Lacerda. Nas eleições de 1960 Jânio Quadros deve ter obtido 100% dos votos do clã, exceção feita a meu pai, adepto de JK e homônimo do então candidato a vice-presidente, Jango, tendo apoiado, naturalmente, o titular da chapa, o Marechal Lott.
Eu, que já tinha uns pendores igualitários e progressistas, era frequentemente criticado por alguns dos meus tios: você quer a igualdade para todos? Veja bem, nem os dedos da mão são iguais! Não posso reclamar; isso era feito de maneira sem dúvida suave e até contribuiu para que eu, diante da irrelevância e do vazio de tal argumento, mais ainda me afastasse para a esquerda – pelo menos em comparação a eles.
Mas não deixava de ser um ambiente amável de discussões, embora um bocado exaltado, por vezes. Mas o fato é que não me lembro de alguém ter rompido com algum irmão ou sobrinho por causa dessas eventuais divergências de opinião. E em tal cenário eu posso me considerar, ainda hoje, um privilegiado, pois era o neto e sobrinho mais velho, a quem era conferida a honra de participar, desde muito cedo, daquelas “conversas de adultos”.
Mas devo dizer – e o faço com bastante convicção – que o ambiente onde minha formação intelectual, do ponto de vista político e humanista de fato evoluiu e se aprofundou foi o do Colégio Estadual de Minas Gerais. Já escrevi sobre isso aqui e não canso de insistir no enorme privilégio de estar ali durante a primeira década dos anos sessenta, ao lado de tantas pessoas que se tornaram notáveis e de professores marcantes, embora alguns, entre uns e outros, nem tanto. Mas no Estadual havia, acima de tudo, um ambiente aberto e ventilado, onde os impulsos de progresso e liberação de costumes já se faziam presentes desde o início da década. É claro que havia também a presença de um “outro lado”, reacionário e conservador, seja por parte de alunos ou, principalmente, de professores, mas sem dúvida este polo era minoritário.
O fato é que eu, até então apenas um garoto, tinha acabado de deixar para trás as proverbiais calças-curtas do Grupo Escolar e adentrava agora em um novo mundo, pleno não só de hormônios, mas também de debates, de contradições, de coexistência com diferenças, no qual se assumir com uma posição política definida fazia diferença. Aliás, era obrigatório. A pior coisa que alguém poderia dizer de outra pessoa, na ocasião, seria lhe aplicar o epiteto de “reacionário”, destinado não só aos conservadores como aos sem-posição de maneira geral.
E eu entrei com total vigor neste universo. Associei-me logo a um grupelho que se dizia “terrorista”, talvez influenciado pela leitura já agora liberada para mim (na verdade, ainda de forma meio clandestina), de O Encontro Marcado, onde Eduardo, Hugo e Mauro assumem algumas atitudes que consideravam de tal gênero. Nossos “atentados” consistiam em deixar em locais ermos do colégio, o portão meio abandonado da rua Antônio de Albuquerque era o preferido, de verdadeiras bombas-relógio, compostas por cigarros (que começávamos a curtir, também de forma clandestina) atochados a bombas “cabeça de negro”, de tal modo que explodiam daí a algum tempo, quando a brasa chegava ao pavio das mesmas. Isso é, quando tal coisa acontecia, porque aqueles mata-ratos infames às vezes nem queimavam por inteiro. E assim, algum tempo depois, em plena aula, vinha aquele estrondo que abalava as estruturas de concreto boladas por Niemeyer, assustando alguns e deixando outros com ar de realização profunda.
Mas aos poucos fomos ganhando mais consequência em nossos atos.
Aí é que entram alguns professores supimpas, embora ao lado de outros nem tanto.
Falemos dos melhores, pois não caberia aqui falar aqui dos reaças consumados que andavam por lá, mesmo que não se lhes possa negar competência escolástica. Muitos deles eram também professores, inclusive alguns catedráticos, da Faculdade de Filosofia da UFMG, situada a poucos quarteirões do Colégio, na rua Carangola.
Mas para citar alguns dos melhores, dos que me ficaram na lembrança, pelo menos, havia gente do calibre de Romilda (Química), Iracy (Português), Clara Grimaldi (Português), De Brot (Francês), Juscelino Paraiso (Geografia), Reis (Ciências), Ernesto (Geografia), Ana Mazur (Francês), Durval (Português), Eder Simões (Português), Zé da Paz (História), Rubens Romanelli (Latim), João Moreira da Rocha, vulgo Joãozinho da Pré-História (História), Barbosinha, supostamente o codificador do futebol de salão no Brasil, além de diversos outros. No polo oposto, Wagner Brandão, Wilton Cardoso, Amaro Xisto (que não tiravam terno e gravata nem para dar aulas a nós adolescentes) e a sobrinha deste último, Maria José de Queiroz, terrivelmente autoritários, mas competentes em suas áreas. Sem esquecer de Alcides e Irineu, que cuidavam da disciplina, mas o faziam em regime de franca camaradagem com os alunos, sem deixarem de ser bem-sucedidos em tal missão civilizatória, O tempo já me fez esquecer muitos nomes. Não que fossem todos de esquerda, mas era gente com perfil de educadores, que sabia estimular os alunos, sendo por nós reconhecidos, alguns deles, pelo menos, como verdadeiros ídolos. E principalmente dos professores de língua e literatura vinham estímulos poderosos para que a gente lesse muito e não se detivesse diante de dificuldades de apreensão – eles estariam ali para nos ajudar.
E o mais importante: naqueles corredores havia total liberdade de expressão, melhor dizendo, um verdadeiro culto a isso, como valor real. Assim, devo ao Colégio Estadual dois pilares da minha formação intelectual, na literatura e na política. Creio que muitos dos que por ali passaram devem ter recebido esta graça, também.
Na literatura, não posso deixar de lembrar a professora Clara Grimaldi, de quem o estímulo nos vinha através não só através das leituras obrigatórias e muito bem selecionadas, mas também de uma sistemática insistência naquelas então denominadas “composições”, depois “redações”, que ela nos impunha como exercício e eram todas devidamente comentadas e analisadas por ela, de forma pública ou mediante notas de rodapé. Para mim, ela disse muitas vezes: você leva jeito para a coisa. Ou algo assim. E isso marcou minha vida e certamente gerou esta minha pretensão de escrever, como faço agora.
E foi assim que comecei com Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e cheguei a Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Humberto de Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga e muitos outros. Para não falar de Drummond, Vinicius, Bandeira, Olegário Mariano, Menotti Del Picchia, João Cabral e tantos mais. A sensação que tenho é que meu ritmo de leituras nesta fase da minha vida, ou seja, dos 12 anos até fazer vestibular, foi infinitamente superior aos anos que vieram depois, pelo menos do ponto de vista quantitativo. Eu me tornei leitor cadastrado da Biblioteca Pública, situada na Praça da Liberdade, não muito distante do Estadual, que passei a frequentar quase que semanalmente, sempre devolvendo um livro para pegar outro.
Mas teve também o germe da política…
Passada a fase terrorista, na qual, aliás, ninguém foi ferido ou magoado, apenas alguns se assustaram, o destino natural foi mergulhar na atmosfera política do Colégio Estadual. Sobre a turma da direita não posso dizer nada, pois não a frequentei e nem tive amigos de tal lado. Mas o fato é que eu logo me identifiquei e me senti mais confortável com os da esquerda. Mas aí começava um grande problema: a “quem” na esquerda deveríamos acompanhar? Por que já eram fragmentados – e inconciliáveis, muitas vezes.
Os opositores principais do pessoal de esquerda, na época, eram os rapazes de uma facção chamada de “Congregados Marianos”, ligado à ala conservadora (e dominante, à época) da Igreja Católica, tendo como liderança máxima o Arcebispo Antônio dos Santos Cabral, o mesmo que impediu a consagração da Igreja da Pampulha, por ser obra do comunista Niemeyer. E com esta turma a esquerda pegava pesado, inclusive fazendo imitações grotescas de suas atitudes pias e recatadas, nas quais o jornalista e escritor Humberto Werneck, meu contemporâneo no Estadual, era mestre insigne.
Creio que a corrente principal na dita esquerda fosse a dos comunistas propriamente ditos, termo que já era palavrão na época. Isso implicava em que quem porventura aderisse a tal grupo mantivesse o bico calado. Já havia se estabelecido a histórica fissura entre os de linha “russa” e “chinesa” e isso tinha alguma implicação na adesão de simpatizantes, no sentido de formarem opção e convicção por uma coisa ou outra. Mas havia também outros grupos se movimentando à esquerda, dispostos a denunciar o estalinismo e tradições autoritárias dos velhos PCB e PCdoB. Naquele momento, portanto, havia esta turma “católica”, que se diferenciava – aliás, radicalmente – daquela dos citados “congregados”. Tais católicos da esquerda política, como se sabe, provinham de certa militância política desde os anos 50, nas famosas “juventudes” estudantis, universitárias e operárias (JEC, JUC e JOC) e acabaram se organizaram sob a denominação de Ação Popular.
Este era o cenário: quem tivesse, entre nós estudantes, inclinações de esquerda, ou pelo menos de oposição ao regime militar, naquele momento (pois 1964 já havia desabado sobre nós) tinha que optar entre uma coisa ou outra (ou mesmo outras mais, que foram surgindo com o tempo). Ou comunista no velho sentido ou católico de esquerda. Eu tinha amigos nos dois lados e fui puxado por eles em ambas as direções, como já comentei antes. Tive um primeiro flerte com os prestistas, russos, o que me exigiu algumas emocionantes sessões de panfletagem pelas noites e madrugadas de BH, mas depois acabei nos baços da AP, onde as relações entre as pessoas me pareceram mais fluidas e transparentes, menos neuróticas, para dizer a verdade. Os primeiros se ouriçaram contra mim; entre os outros, todavia, não sei se cheguei a usufruir de total confiança.
Como se vê, a briga nas esquerdas é antiga. Aliás, bem mais antiga do que mostram estes singelos acontecimentos do início dos anos sessenta, envolvendo mentes e corações ainda mais singelos, ou mesmo simplórios, como era o meu caso e o de muitos militantes da ocasião.
Para ser sincero, as ações políticas possíveis naquela ocasião consistiam basicamente na participação de discussões intermináveis, nas quais, não raramente, os inimigos mais visados eram os membros de outra corrente de esquerda. E mesmo assim, facultados tais debates apenas para os que ascendiam a posições de liderança e comissariado, o que nunca foi o meu caso.
Na faculdade, confesso, minha militância foi também um tanto superficial, mas já sintonizado com o ideário da AP, mas sem me meter mais profundamente nas notas de rodapé que os militantes mais radicais apreciavam levar a sério, em seus debates intermináveis e muitas vezes ferozes, disputando espaço com as correntes rivais. Fui a passeatas, acampei no Palácio da Liberdade, me manifestei nas escadarias de São José, enfrentei a polícia numa absurda invasão da Faculdade de Medicina, dormi debaixo de uma marquise na Av. Afonso Pena para fugir da chuva e da falta de dinheiro para um taxi. Nada de exclusivo, muitos fizeram isso junto comigo e até foram mais além, sendo torturados e até perdendo a vida.
Logo veio 1968 e num dia de dezembro, como já contei, eu acordei com minha mãe, que não se metia em política, avisando a mim e a meus irmãos homens, que já começavam a botar as asinhas de fora, que havia uma ditadura no Brasil agora, e que nós tomássemos muito cuidado. Era o AI-5 chegando.
Na sequência, comecei a trabalhar, primeiro com aulas particulares, depois nos colégios Arnaldo e Champagnat, passei a dar plantões no Pronto Socorro e a namorar firme com Eliane, com intenções sérias e urgentes de casamento. E minha militância, que já era rasteira, se dissolveu. Meus dois irmãos foram presos, João inclusive foi torturado no DOPS e eu carreguei pela vida a fora um sentimento de que talvez eu devesse ter feito mais em termos de militância política.
Um dia, num plantão no hospital militar, fui chamado a atender um rapaz, da minha idade praticamente, que havia sido torturado e tinha ficado paraplégico como resultado das sevícias que sofreu nas mãos da polícia. Naquele dia minha culpa se exorbitou e eu em poucas semanas me coloquei para fora daquela missão intolerável. Revoltado, mas incapaz de alguma reação mais forte.
O que me consola é saber que naveguei num mar de equívocos, seja relativo às dissensões na esquerda, seja em relação à rejeição liminar de quem pensasse de alguma forma diferente, ou mesmo pelo temor em ser preso e torturado pelos agentes daquilo que foi, sem dúvida, o maior equívoco de todos: a ditadura militar. Eu talvez tenha apenas cometido o erro de cuidar da minha vida e procurar corresponder ao investimento que a sociedade e minha família fizeram para que eu chegasse até ali.
Mas não deixo de reverenciar e respeitar aqueles que se arriscaram e se meteram em confusão mais grossa – e muito sofreram por isso – como foi o caso de meu irmão João Mauricio e muitos outros abnegados, sem dúvida mais valentes do que eu.
Faltou cumprir-se o jornalista
Nos anos 60 fui visitado por outro sopro vocacional que não prosperou: o de ser jornalista. Ainda hoje me pergunto se não teria sido mais feliz nesta profissão. Não é à toa que hoje me vejo muito mais como um redator de documentos de sínteses e análises em saúde do que propriamente como médico. Troquei o estetoscópio pela caneta, ou melhor, pelo computador e pelo word…
Foi assim que me envolvi, no ambiente colegial, com a criação de jornaizinhos. Um primeiro, nos anos inaugurais da década, denominado O Flagelo, teve como cúmplice meu colega Ramon Cosenza, que fez carreira na Faculdade de Medicina da UFMG como docente e pesquisador. O jornalismo também não foi seu destino, com certeza, tal como o meu. O jornaleco não flagelou ninguém e se o fez foi por apenas um ou dois números. Lembro-me de ter escrito um texto para ele, uma pequena crônica, descaradamente copiada de Stanislaw Ponte Preta. Confesso…
O segundo destes periódicos veio dois ou três anos depois, quando eu já frequentava o ambiente da “Turma da Barroca”. Chamava-se O Grito (notem os títulos chamativos) e tinha como companheiros de redação dois amigos aos quais me ligaria profundamente, Mauro Marcio e Erix Mafra. Foram três ou quatro edições, duas das quais sobreviveram incólumes, tendo como contribuição mais destacada os textos um tanto surrealistas e poéticos de Mauro. Eu devo ter escrito qualquer coisa, talvez agora com o pudor de não copiar ninguém diretamente, mas sem nenhuma garantia de qualidade.
Meu terceiro jornal, este do tipo “eu sozinho”, chamava-se simplesmente “PH” e foi escrito, em sua única edição, a caneta esferográfica em uma longa folha de papel higiênico barato. Era um mural, afixado em uma pilastra na entrada principal do Colégio Universitário da UFMG, que eu cursava em 1966. Começava, concretamente, com uma matéria chamada ‘Um furo de reportagem”, na qual o que se via era apenas um furo no papel. Mais anarquista e descolado, impossível. Mas faltou tempo para mais, embora este único número tenha me divertido bastante – e aos leitores também, segundo me informou o Ibope informal que me tinha como pesquisador e analista. Além do mais, urgia aproveitar melhor o tempo, sem desvios, pois no horizonte já pairava o fantasma do vestibular.
E assim terminou uma carreira que nem começou.
Uma virada do destino
Um lance de 1970 mudou minha vida, a simple twist of fate, como diz a canção de Bob Dylan. Eu levava uma vida de cão (porém feliz!), com as aulas no Champagnat, os plantões no Amélia Lins, as obrigações da faculdade. Houve disciplinas a que eu nem compareci, já que a lista de chamada não era passada, como era o caso da Oftalmologia, regido pelo luminar da medicina mineira que foi Hilton Rocha. Encontrava tempo livre para namorar, embora muitas vezes eu e Eliane apenas dividíssemos alguma mesa, com livros a mancheia em cima dela. Um belo dia comecei a me dar conta que comecei a sentir muito cansaço nos últimos tempos, que minha vista estava turva ao ponto de não consegui ler o letreiro dos ônibus, que a tarefa de dar aulas seguidas estava cada vez mais pesada, dado que a boca me secava a ponto de eu nem conseguir articular as palavras direito. Havia algo de errado em mim, realmente. Imaginei que fosse stress, inicialmente. Eu e Eliane tínhamos decidido nos casar dentro de um ano e isso certamente colocava nova perspectiva e mais responsabilidades em minha vida. Por conta disso, resolvi comentar a situação com um professor da disciplina que eu então cursava, a Medicina Tropical (onde vim a ser docente depois), com quem eu tinha bastante proximidade. Paulo Kleber Avelar Araujo, vulgo Japão, figura bacana, ex jogador do América, que tinha a esposa diabética e cuidava dela (isso eu soube depois), tomou-se pelo braço e levou-me, no ato, ao laboratório de análises clínicas do Hospital Carlos Chagas, onde era ministrada a disciplina. Não deu outra: minha glicemia passava largamente dos quatrocentos miligramas por cento!
Foi um Deus nos acuda… Relutei até em contar para minha família, mas não consegui esconder de minha avó, durante almoço na casa dela, no mesmo dia. O pai de Eliane chegou até a dizer que era melhor não nos casarmos. Meu pai, em reação semelhante, atribuiu aquilo ao casamento marcado e ao stress que eu provavelmente experimentava. Mas como tudo tem que passar, a angústia também passou, embora eu próprio deva admitir que não consegui ficar tão angustiado como os demais. Eliane também. Ela foi uma companheira muito solidária neste e em outros momentos de minha vida.
Tudo é uma questão de adaptação. Em poucas semanas eu considerava as injeções diárias de insulina como algo da mesma categoria de escovar os dentes, por exemplo. E eram tempos difíceis para os diabéticos. Seringas de vidro, a serem fervidas em estojos de lata; agulhas que precisavam ser amoladas; insulinas meio fedorentas quando escapavam do furo das injeções; reações de Benedict feitas com a urina recém colhida, que faziam uma danada lambança azul por toda parte; riscos diversos de celulite etc. Um dia, errei na dose e tomei a insulina regular na mesma proporção da lenta, NPH. Tive hipoglicemia durante quase 24 horas, mas aproveitei para tomar sorvete e comer um ou mais brigadeiros – ninguém é de ferro, afinal.
A questão alimentar era um sufoco. Não havia rigorosamente nada diet nos supermercados. Minha vontade tomar uma coca cola só foi moderada pela presença no mercado de BH de um famoso “Guaraná Gato Preto”, que tinha uma versão adoçada com sacarina, que eu comprava diretamente na fábrica, na rua Brito Melo, no Barro Preto. Sabem os pedidos matreiros que as pessoas fazem àquelas que viajam para o exterior, particularmente Nova Iorque? Eu não tinha pejo: me traga umas cocas diet, por favor! E quando chegavam as benditas latinhas (até isso era novidade para nós no Brasil), elas eram sorvidas com a unção de Cavaleiros da Távola diante do Santo Gral…
Mas sobrevivi. A gente sempre sobrevive, desde que não morra… E eu continuo vivo e bem, mais por sorte do que por virtude, quase cinquenta anos depois desses acontecimentos!
Apontamentos para uma sociologia da vida estudantil dos anos 60
Comecei a namorar Eliane Guimarães, minha colega de turma, logo em outubro do nosso primeiro na Faculdade. Nossa história evoluiu para noivado três anos depois e para casamento em quatro. Eliane sempre foi uma pessoa muito dedicada aos estudos e às obrigações em geral. Aliás, ela tinha uma capacidade de absorção de conhecimentos digna de um gênio, bem maior que a minha, aliás. Eu havia me transformado em alguém mais ou menos assim depois daquele ano passado no Colégio Universitário, de maneira que nos demos muito bem. Em 1970, já noivos (costumes da época…) tivemos que resolver uma contradição familiar: eu havia ganho uma bolsa para os Estados Unidos, à qual ela concorrera também. Um verdadeiro e insuperável dilema estaria armado caso ela tivesse obtido a bolsa, pois teríamos que casar para viajar juntos. Coisas da época. Com muito custo, havíamos ganhado autorização apenas para visitar uma tia dela, que era Promotora de Justiça em Cambuquira. E olhe lá… Mas resistimos, principalmente graças ao espírito cordato de Eliane com as coisas de família (eu, nem tanto…) e nos casamos em 1971, sendo felizes por muitos anos.
Assim em 1970 entrei na tal seleção de uma Associação Universitária Interamericana (AUI) para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, com direito a seminários em Harvard e, contra todas as expectativas, inclusive as minhas, expectativas, fui aprovado. Isso virou minha cabeça. Até então eu não havia saído do Brasil e nem tomado um avião. Tampouco falava inglês, a não ser rudimentarmente e entendia menos ainda. Mas tudo aconteceu de uma só vez. Vou falar dessa viagem mais adiante. Ela marcou minha vida. A dita viagem aconteceu, na verdade, porque um colega de turma, José Maria Ribeiro Bastos, havia se candidato e conseguido a bolsa no ano anterior. Fazíamos, então parte de um mesmo grupo na faculdade. Mas aqui devo esclarecer que pertencer a grupos nunca fora o meu forte. Havia, sim, alguma sintonia entre eu, Eliane, Zé Maria, Celso Chiari, Dalton Luiz Ferreira Alves (que haviam sido, estes dois últimos, meus colegas no Estadual) e alguns outros. Era um pessoal bastante “cabeça”, com a liderança dividida entre o citado Zé Maria e um outro, Gilberto Schwantes. Zé Maria era um sujeito com voz de barítono, filho de médico e um tanto conservador nas ideias. Bom moço que era, assumiu por conta própria o papel de proteger as colegas de investidas pouco cavalheirescas ou simplesmente assediadoras dos demais machos, o que lhe fez merecer o apelido maldoso de Galo Capão. As próprias vítimas potenciais, contudo, nunca admitiram que lhe tenham delegado formalmente isso, alegando que sabiam se defender (como de fato pareciam saber).
O líder muitas vezes primeiro e único de tal grupo era Gilberto, um paulistano típico, mais velho do que a gente uns bons cinco anos, cheio de experiências na vida – havia sido até soldado da Guarda Presidencial em Brasília – pelo menos era o que nos dizia. Ele era um excêntrico de classe. Morava sozinho em uma pensão modesta da rua Piauí, namorava garotas liberais e geralmente muito cobiçadas e tinha como companheira de quarto uma jibóia, a qual chamava de Yara, não sei se com “Y” ou com “I”. Dedicava-se, às vezes, a dietas radicais, alimentando-se apenas de ovos por grandes períodos. Recolhia-se a misteriosos retiros espirituais, supostamente em grutas remotas, o que não era possível negar ou confirmar. Tocava também, até creio que razoavelmente bem, um violino, sendo o parceiro ideal nas serenatas que às vezes fazíamos para nossas namoradas, formalmente declaradas, como no meu caso, ou nem tanto.
Na minha dificuldade em seguir grupos e líderes, meus contatos com essa turma não eram constantes. Além do mais, suas reuniões, geralmente feitas na casa do homem da cobra, eram cercadas de densa nuvem de uma fumaça que cheirava a corda de cânhamo – hábito a que eu e minha namorada não éramos muito chegados. A experiência americana, facultada pelos adolescentes de Fall River, Massachussets, na casa onde fiquei hospedado, que um dia me apresentaram a tal produto, tinha sido o bastante para mim. Mas de uma forma ou de outra sempre nos víamos. Talvez tenha sido este o grupo que acompanhei mais de perto na faculdade. Pelos outros grupelhos existentes – e como os havia! – eu e Eliane apenas bordejávamos, sem estabelecer laços mais profundos, mas respeitando e sendo respeitados pelos membros.
Pois bem, este grupo liderado pelo homem da jiboia representaria um bom case, de interesse de algum antropólogo ou sociopsicólogo que estivesse a fim de perscrutar a vida universitária dos anos 60, em plena revolução cultural, a partir das relações e costumes grupais dos estudantes. A trajetória dessa turma é notável. Zé Maria pendurou o diploma depois de formado, rompeu um noivado de muitos anos e mergulhou na vida loka, residindo na Holanda, cercado, ao que se sabe, de muita droga e os devidos complementos. Voltou anos depois para BH para continuar sendo o careta de sempre. Chiari, o primeiro lugar no vestibular, dois décimos acima de mim, não conseguiu se encontrar na vida. Começou uma formação em Bioquímica ou Farmacologia, que não concluiu e acabou falecendo em um acidente misterioso na BR-3, que alguns suspeitaram que fosse auto-inflingido. Agnaldo Peres, que ainda não havia entrado na história, voltou para sua terra natal no Sudoeste de Minas, abandonou a faculdade e ninguém nunca mais soube dele.
E Gilberto Schwantes, o paulistano, grande liderança e revolucionário dos costumes? Boa pergunta! Este, fiquei sabendo muito tempo depois, tinha um pai rico, proprietário de clínicas de psiquiatria em São Paulo (com quem tinha, aliás, birras freudianas) e passou a administrar os negócios do pai.
Do convívio com esta turma restou meu aprendizado a respeito de “papos-cabeça”, os quais, depois de muitas tentativas acabei por rejeitar de vez. “Discutir a relação” (DR) uma modalidade amplamente praticada pelos membros referidos, com furor quase esportivo – nem pensar! Mas aquela turma era capaz de passar a noite nisso, principalmente se houvesse muita cerveja e alguma canabis no pedaço.
Mas esta época não deixou de representar também um “abre-cabeça” para mim. Aqueles papos intelectualizados muitas vezes me entediavam, mas ao mesmo tempo me levaram a procurar novos caminhos de conhecimento. Foi assim, por exemplo, que mergulhei na contracultura, lendo Aldous Huxley, Hermann Hesse e, principalmente, um best-seller da ocasião, o romance Cleo e Daniel, do psicanalista e anarquista militante Roberto Freire. Incorporei também como verdadeira trilha sonora existencial o Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquin Rodrigo, em particular seu movimento Andante, imitando nisso os personagens do livro de Freire.
Eu confesso: fui professor aos 21 anos
Em 1969 um médico recém-formado meu amigo, Dirceu Wagner Carvalho Souza, que já tinha alguma experiência docente no Colégio Arnaldo, resolveu me incluir em um grupo de colegas que iria, segundo ele, fazer uma “revolução” no ensino de biologia no estabelecimento. O motivo de ele ter chamado mais três para ajudá-lo, ao invés de assumir a tarefa sozinha era simples: não tinha mais tempo para tanto, já que agora pretendia ser médico de verdade. Assim, eu, Caio Moreira e Benedito Guilherme de Macedo, meus colegas de turma e também ligados a DW, entramos gloriosamente na carreira do magistério. Pela porta dos fundos, devo admitir. Com efeito, qual a qualificação que um estudante de medicina teria para lecionar? Do ponto de vista do conhecimento formal, tudo bem, acabávamos de prestar vestibular e passar num exame difícil, mas daí a dominar técnicas e ser capaz de ensinar como convém à boa pedagogia e à psicologia do aprendizado, certamente a distância é muito grande.
Mas a gente quando é jovem topa todos os desafios, mesmo que o sentimento de responsabilidade deixe a desejar, como aconteceu. Havia quatro turmas de terceiro “científico”, ou colegial, no Arnaldo – e quatro professores de biologia. Para as demais disciplinas não havia tal variação de docentes, o que certamente contribuiria para um aprendizado melhor. Assim me vi, aos 21 anos, dando aulas para alunos três ou quatro anos mais jovens do que eu. Não sei se me saí bem; esses alunos já se dispersaram há muito tempo. O máximo que devo ter feito, acredito, foi não ter arruinado a formação deles.
De toda forma, não deixou de ser uma honra lecionar no colégio que um dia abrigou Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, além de muitos outros intelectuais e lideranças mineiras. Era com respeito e orgulho que eu subia aquelas escadas inclinadas, de madeira de lei, às sete da manhã, para enfrentar os adolescentes que queriam passar no vestibular. Respeito e orgulho que se desfaziam um pouco quando eu enfrentava a imaturidade e o espírito de horda daqueles jovens – mas isso fazia e sempre fez parte dos espinhos da honrosa profissão.
Lembrança da época: no pé da escada o Padre Javier, feroz espanhol, vigiava para que os rapazes e as moças subissem separadamente, pois que as minissaias já grassavam e aquele escada íngreme oferecia visões que deveriam ser evitadas.
Minha vida de professor prosseguiu, no ano seguinte, no Colégio e Cursinho Champagnat, para onde nossa equipe se deslocou. Suspeito que os padres do Arnaldo tenham concluído que precisavam de gente mais experiente e mais disponível ali. O Champagnat era resultado de uma dissidência dos Irmãos Maristas do tradicionalíssimo Colégio Dom Silvério, no bairro do Carmo, e seus mentores parece que foram aperfeiçoar no novo estabelecimento a arte de ganhar dinheiro sem ter que dividir com a congregação, muito numerosa e difusa pelo Brasil a fora. Foi assim que enfrentei, durante quatro anos seguidos, turmas de 50 ou 60 alunos, agora ainda mais famélicos e neuróticos com o vestibular, com o agravamento de não serem mais virgens em tal empreendimento, muitos deles já trabalhando e estudando à noite, inclusive. E eu dava aulas até mesmo nos sábados pela manhã e à tarde. Se eu já não respeitasse bastante aqueles que optam pela carreira de professor, a partir de então dediquei a eles uma admiração abissal.
Mas, alguma coisa melhorou para mim, apesar do excesso de trabalho: eu ganhava um dinheirinho, que me possibilitou comprar um carro e até casar, algum tempo depois. Tinha também agora em mãos uma plateia mais madura e agradável de se lidar. Dirceu já era professor da Faculdade de Medicina, de forma que os demais membros do bando dividíamos as tarefas. Chegamos mesmo a escrever, melhor dizendo: compilar, um texto de ensino da biologia, ilustrado por meu irmão João Maurício. De fato, o pássaro da juventude é doce, porém meio louco e cheio de si…
Anastasia, que foi governador de Minas e Senador da República, foi nosso aluno nessa ocasião, mas por favor creditem a nós apenas os acertos dele, certo? Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, também passou por lá.
Em 1973, terminada a residência médica, já me preparava para embarcar em nova aventura profissional, desta vez em Goiás. Em um dia chuvoso de dezembro, mas que para mim tinha o maior dos sóis a brilhar, dei minha última aula no Champagnat e fui caçar rumo. Na ocasião, ainda ecoava o gesto maluco de Tony Tornado (quem não sabe quem é, que procure no Google), de se atirar em cima da plateia depois de um show. Foi o que me deu vontade de fazer, mas fui detido pelo medo de quebrar o pescoço – o meu ou o de algum aluno das primeiras filas.
E assim, fui… Parti pra outra.
Me in USA
Em 1970 entrei numa seleção de uma tal Associação Universitária Interamericana (AUI) para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, com direito a seminários em Harvard e, contra todas as expectativas, inclusive as minhas, fui aprovado. Isso virou minha cabeça. Até então eu não havia saído do Brasil e nem tomado um avião. Aconteceu tudo de uma vez só. Tampouco falava inglês, a não ser rudimentarmente e entendia menos ainda. Mas me virei por lá e até recebi elogios com as pessoas com que convivi, do tipo fine, handsome, good guy.
Esta AUI organizava estas iniciativas anualmente, desde os anos 60. O que se dizia, na época, é que era um projeto apoiado por fundações americanas, com as bênçãos do New Left abrigado no Partido Democrata, visando “fazer a cabeça” de jovens brasileiros no sentido da boa democracia liberal, que os americanos viam ameaçada em toda a América Latina depois da Revolução Cubana. Entre outros brasileiros ilustres que lá estiveram com a mesma bolsa, em épocas diferentes, cito Marco Maciel, Cristóvão Buarque e Alceu Valença, além de um punhado de pessoas que depois se tornaram ministros, embaixadores, juízes, desembargadores, políticos etc.
Durante os primeiros dez dias, fiquei hospedado na casa de uma família americana, em Fall River, nos arredores de Boston. Junto comigo um outro bolsista, este carioca. Gente boa os nossos hospedeiros, tanto os pais, na faixa dos 35 a 40 anos, como os filhos adolescentes ou pré-adolescentes. Quem não era lá essas coisas, ou melhor, um sacana completo, era o meu companheiro carioca, que dividiu o quarto comigo, e que logo que criou intimidade na casa passou a chamar para se deitar com ele debaixo das cobertas, de manhãzinha, uma das meninas da casa, de no máximo 12 anos. E a inocente atendia. Os pais não viam. Cheguei a falar com ele que isso não estava correto, ia dar bode. O bandido me respondeu algo como: por que não experimenta, você também vai gostar… A questão não teve maiores consequências, visíveis pelo menos, ao que parece, mas me deixou um sentimento ruim. Felizmente, na próxima etapa da viagem, em Cambridge, o safado ficou longe de mim, e sem acesso a meninazinhas como aquela de Fall River, que ele pudesse molestar.
Aqueles garotos de Fall River eram realmente da pá virada. Logo se afeiçoaram aos dois hóspedes brasileiros e passaram a nos acompanhar nos passeios pela cidade, nos apresentando à patota deles como verdadeiros troféus – e eu bem que me divertira com isso. Para me homenagear, roubaram uma placa de rua e me ofereceram. Ela está comigo até hoje e diz: Meadow Road, referindo-se a um nome de pássaro. Na casa vizinha morava uma família portuguesa, bem situada financeiramente (era um bairro de classe média alta), cujo pai se chamava Milton Rodrigues e os filhos, já na faixa dos 15 a 20 anos, tinham nomes portugueses também. O ramo de negócio deles era um Funeral Services e todos os membros davam expediente lá, num regime de total normalidade. Alguém tem que fazer tal serviço, afinal de contas. A curiosidade maior é que apenas Mr. Rodrigues falava português – e mal por sinal – pois já faziam parte, mesmo o chefe da família, de uma geração nascida na América.
Tive a satisfação de conhecer, lamentavelmente apenas de forma superficial, uma lindíssima aeromoça da TAP, esta portuguesa legítima, hospedada com a família.
Nos EUA, eu e meus colegas bolsistas, vindos de todas as partes do Brasil, nos dedicamos a explorar o lado B americano. Bebíamos todas – e alguns de nós foram bem além disso! Mas a verdade é que da primeira Budweiser a gente logo esquece… Experimentei também umas coisinhas menos publicáveis, “fumáveis” em cachimbos de cerâmica, “the grass”. Isso nos era trazido pelos adolescentes da casa onde eu me hospedara nos primeiros dias. Era tudo novidade para mim, pobre mineirinho inocente, inclusive isso! Mas na ocasião, já em Cambridge, tive a cautela e o bom senso de recusar um convite para um mescal party, que seria celebrado num apartamento nas alturas. Voo por voo eu já estava satisfeito com aquele da Varig.
A turma da AUI foi com sede ao pote. Garotas americanas disponíveis não faltavam. Afinal, lá a revolução dita sexual havia se antecipado à nossa em uma década ou mais. Mas havia também uma enorme transação entre nacionais mesmo, levando, inclusive, a algumas garotas bolsistas menos liberadas (ou mais ciosas de sua privacidade), a se assustarem e se revoltarem diante dos estranhos movimentos rítmicos percebidos pelas madrugadas, no outro andar dos beliches que compartilhavam com colegas. De tais tertúlias juro que não participei, não por virtude, talvez, mas por falta de oportunidade. Mas de toda forma fiquei orgulhoso quando duas colegas, uma gaúcha e outra pernambucana, que algumas vezes me chamavam para sairmos juntos, me disseram que o faziam porque viam em mim uma pessoa educada, confiável, além de “civilizada” no quesito assédio. Sem esquecer da fábula da raposa diante das uvas (verdes), afianço que tal afirmativa foi para mim um grande elogio, pois fazia justiça a algo que eu exercia de forma intrinsecamente consciente, sem grande esforço.
Um belo dia, numa festa oferecida a nós por um grupo de brasileiros que já residiam em Boston, uma garota ítalo-americana, meio gordinha, se interessou por mim. E bem que rolaram uns amassos, mas nada mais. Chegando ao Brasil fiz questão de contar tal fato para minha namorada (e até hoje acho que não devia ter contado, pois tive muitos problemas com isso). Muito barulho por nada: Eliane era muito ciumenta.
Nos States conheci de perto o que era consumo. Só para dar um exemplo: na loja Macy’s, de Nova Iorque, me deparei com uma estante de café, com caixinhas de vidro, onde o produto que para nós brasileiros era uma coisa só, ali estava organizado por origem, altitude, grau de torrefação, variedade etc. E tinha umas trinta caixinhas diferentes! Uau! Ali se podia comprar, também, mangas frescas do Himalaia e tâmaras do Egito. Aliás, acho que se podia comprar qualquer coisa que se pensasse.
Aproveitando o impulso, comprei também roupas diversas, dentro do padrão americano, que faziam grande sucesso no Brasil, tipo camisas xadrez, malhas, calça Lewi’s. Em Nova Iorque, adquiri também uma bela bota, de couro camurçado, sola de borracha, de um tipo considerado sofisticado por aqui. Quando fui calçá-lo, já no alojamento da Columbia University, é que vi o selo de fabricação: Made in Brazil, mais exatamente em Franca, São Paulo. Viajar para tão longe para comprar um sapato brasileiro, vejam só…
Entre as minhas peripécias americanas, duas são de se contar para filhos e netos: assisti a um show de Tina & Ike Turner em Boston e, mais importante ainda, do quinteto de Dave Brubeck em pleno Central Park. Para quem nunca havia saído do Brasil…
A viagem, que se estendeu por Boston/Cambridge, onde participei de um seminário de três semanas na Universidade de Harvard, Nova Iorque e Washington, foi de fato uma coisa extraordinária para mim. O certificado que recebi da tradicional instituição há muito orna minha parede, mas muito mais do que isso eu trouxe de lá, que poderia resumir como o contato com um mundo que não era de longe aquele que eu conhecida até então, mal saído da minha BH provinciana. Voltei de lá firmemente decidido a fazer uma pós-graduação no país, mas as circunstâncias me impuseram outros roteiros. Tudo bem, é a vida, é a vida e é a vida.
Trouxe alguma decepção também, não ligada ao American Way of Life diretamente, mas da própria convivência com a verdadeira horda de brasileiros que tive por companhia, para dizer pouco: ruidosos, pouco respeitosos, vandálicos às vezes. E eles se justificavam dizendo que faziam isso para contestar o imperialismo norte-americano. Sem comentários… E aquela nata de gente talvez fosse o que de melhor este pobre país tinha a oferecer, afinal, foram os oitenta que se sobressaíram entre milhares e milhares de inscritos no Edital da AUI. Moralismo à parte.
Foram 40 dias de revelações, surpresas e alegrias. Voltei aos EUA algumas vezes depois, mas aquelas sensações e descobertas de 1970 já não me sorriram tanto. Nada como ter 20 anos para bem aproveitar uma oportunidade assim.
Cinquenta anos em cinco minutos
Um dia desses, por algum motivo (que não sei exatamente qual é, mas é algo que me vem à mente com muita frequência ultimamente), comecei a me lembrar de certa fase da minha vida em que as coisas aconteciam com intensidade incrível, embora nem sempre fossem saboreadas de igual maneira. Se eu soubesse, teria começado a fazer tal exercício de “saboreio” desde então.
Lembrei-me, por exemplo, daquela Copa do Mundo perdida na Inglaterra, coisa que no Brasil ninguém achava possível acontecer, pois afinal de contas nos considerávamos invencíveis, depois de dois campeonatos mundiais sucessivos.
Foi também o momento que decidi deixar de lado uma vida de descuido como estudante medíocre que era, para mergulhar a sério no desafio do vestibular – que acabou me sorrindo ao final, como uma sorte grande. E me despedi da esbórnia da maneira mais adequada: num carnaval de clube, entre louras & morenas, tendo como hino absoluto aquele vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval, recomendação esta que procurei levar a sério.
Consegui arranjar minha primeira namorada, que era bem bonitinha, um pouco mais nova e muito mais baixa do que eu. Para ela cantei em serenatas memoráveis o grande hit da ocasião: se você quer ser minha namorada, de Vinicius e Lira, canção que simplesmente dizia tudo o que um jovem romântico poderia querer dizer para sua amada. Pena que durou pouco…
Eu, que ainda não amava os Beatles e nem conhecia os Rolling Stones mudei completamente de ideia quando fui apresentado ao disco que estourava nas paradas de sucesso daquele momento: Revolver. E troquei aquela “minha namorada”, que já estava ficando batido, por here, there and everywhere.
Para meu desapontamento, entretanto, pude saber que os caras de Liverpool haviam decidido fazer, justo naquele momento, sua despedida das turnês. E embalado por aquele será que um dia eles vêm aqui, cantar as canções que a gente quer ouvir, de meu colega de Colégio Estadual, Tavito, eu, no fundo, esperava um dia poder assisti-los pessoalmente. O show de Paul McCartney que assisti muitos anos depois, em companhia de meia dúzia de adolescentes, entre filhos, sobrinhos e enteados, já terá valido alguma coisa na realização deste sonho.
Da política eu já sabia alguma coisa, por exemplo, que estávamos começando a viver um pesadelo com os militares no poder. Mas naquele ano, qualquer ilusão de volta à normalidade democrática se desfez, quando um general de plantão escolheu outro para substituí-lo, o que fez surgir a expressão popular de que havia, agora, no cenário nacional, um príncipe herdeiro. E não lhe faltaram votos na eleição fajuta que se fez logo depois, quase trezentos, em um Congresso manietado (alguns de muito bom grado, aliás).
Assim, viajando em tais recordações, resolvi fazer uma pesquisa na internet para ver o que mais tinha acontecida na mesma ocasião.
Ah, o Google, não sei como posso ter vivido mais de 40 anos de minha vida sem conhecê-lo…
Já que estou meio musical hoje, esta é um primeiro tema que a pesquisa me trouxe. Aquele ano foi todo pontilhado por lançamentos de long plays e singles que mudaram o rumo do rock e do pop, para sempre. Beatles, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Rolling Stones, Bob Dylan, Beach Boys, Joan Baez, Neil Young, Leonard Cohen, Tom Jones (!), Mammas and the Pappas, além de muitos outros, eram arroz de festa na ocasião. Isso para falar apenas dos principais. Acho que tanta gente boa e duradoura jamais esteve reunida em um só momento antes. Ano glorioso na música, aquele.
Gente que já era “grande” manteve a posição por muitos anos, seja na música ou em outras artes, como Frank Sinatra, Ray Charles, Aretha Franklin, Orson Welles, Nina Simone, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Barbara Streisand, Tony Bennet, Arthur Miller, Ernest Hemingway, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Ellis Regina, Jair Rodrigues, entre outros.
Isso tudo sem esquecer que no Brasil começavam a florescer os famosos Festivais da canção, que nos deram um tipo de cantores-compositores como nunca mais se viu, entre os quais Chico, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, Ivan Lins, Vandré e outros mais. E, de quebra, Elis Regina.
Na política internacional a situação não augurava coisa boa. A Guerra Fria estava no auge e a cada mês explodiam artefatos atômicos, da Sibéria a Utah; dos desertos centrais da Ásia aos atóis do Pacífico.
E o Clube da Bomba se ampliava, com a entrada da França, do Reino Unido e até da China. No Vietnam choviam bombas e napalm, sem nenhuma esperança que aquilo fosse se resolver logo.
Ah, o Vietnam… E pensar que aquele era um cenário quase “romântico” de guerra, em estilo “clássico”, perto do que acontece hoje na Síria, no Iraque, em Gaza, no Afeganistão…
A Guerra Fria se estendia também para o espaço sideral, com os primeiros voos de contorno da Lua e da própria Terra, ainda não tripulados, ou então tripulados por pobres cães e macacos. Alguns dizem – e não deve ser só teoria conspiratória – que os primeiros tripulantes humanos, na verdade, foram e não voltaram. Uma parte das peripécias de então tinha por objetivo somente fazer os artefatos espaciais se esborracharem no pedregoso solo lunar – e já era um sucesso.
Mas em compensação o movimento de direitos civis pipocava nos EUA e em toda parte, tendo como liderança ninguém menos que o Reverendo Martin Luther “I dreamed a dream” King. As grandes marchas civis haviam apenas começado e já tomavam conta do mall de Washington e de muitos outros espaços públicos.
Entrementes, na África do Sul a política de apartheid apertava suas garras, enquanto por aqui ninguém sabia quem era Nelson Mandela. Mas, apesar disso, o primeiro transplante de coração foi realizado neste país. Ainda na África, uma após outra, as colônias britânicas, belgas e francesas foram se transformando em países autônomos – ou nem tanto – persistindo dúvidas, até hoje, se assim lograram melhorar as condições de vida de sua população.
Terremotos, tornados, enchentes, erupções vulcânicas, incêndios, desastres diversos, aconteceram em todo o mundo, não sei se com frequência menor ou maior do que ocorrem hoje. E fiquei impressionado, também, com a quantidade de aviões que caiu, nos cinco continentes, matando algumas centenas de pessoas. Nisso, os avanços tecnológicos relativos às máquinas que voam devem ter sido aprimorados.
Estava lendo e divagando sobre tudo isso quando me dei conta de algo terrível. Tudo isso aconteceu em 1966, ou seja, há exatos cinquenta anos. E, no entanto, parece que foi outro dia mesmo. Oh céus! O que é isso? – eu me perguntei. Eu, naquela ocasião, com esfuziantes 18 anos de idade, dispunha de uma fartura de minutos, horas, dias e meses pela frente. Agora eles me parecem tão escassos…
Esta, de fato, é a pior das notícias que eu não li, mas apenas percebi: a de que a vida passa muito rápido. Melhor então não perder tempo com coisas supérfluas, como pesquisas vãs no Google, por exemplo…
Para mim tal cidade, já há muitos anos (ou décadas) não é mais nem mesmo apenas uma fotografia na parede como disse Drummond. A foto que me ornamentou paredes, feita por mim mesmo em uma câmara pré-histórica, nos anos 60, há muito se perdeu, em algum pacote de mudança ou roída pelos cupins, da mesma forma que fizeram com a maioria das capas de long-plays que eu guardava fervorosamente, sem nunca ouvi-los. Mas voltemos à cidade. Frequentei Itabira, onde nasci em 1948, na minha primeira infância, por volta de 1954 ou 1955, passando dias memoráveis na casa de meus tios Virgílio e Marita. Depois, talvez pelos compromissos de meu pai, iniciando negócios próprios em BH, ficamos- toda a família – por alguns anos sem aparecer por lá.
Em 1961 ou 62, entretanto, lá retornamos. O velho Oldsmobile de meu pai – aliás, nem tão velho assim, talvez nem tivesse uma década de serviços prestados na ocasião – foi convocado e seguimos pela rodovia asfaltada recém-inaugurada, família completa, casal e cinco pimpolhos. Diga-se de passagem, sem cintos de segurança e com pelo menos um ou dois dos menores instalados no largo banco dianteiro da viatura, entre pai e mãe. Era assim que funcionava. A viagem foi sopa, como se dizia então.
Com efeito, as penosas seis ou mesmo oito horas dos tempos antigos, aliás, apenas cinco anos antes, agora pelo asfalto se resolviam em duas horas, ou até menos, dependendo de quão afoito fosse o motorista. Assim, a meros sessenta quilômetros ou pouco mais, menos de uma hora rodada a partir da capital, ao se dobrar a Serra do Espinhaço, no município de Nova União, já era possível avistar lá no fundo, à esquerda, o Pico da Conceição, um dos marcos de Itabira, que a Vale não conseguiu demolir. Daí, a pouco, em pouco mais de meia hora de estrada, já se adentrava em minha cidade natal.
Detalhe importante é que a rodovia, então chamada de BR 262 e depois convertida em 381, não tinha, nem de longe o volume de tráfego que tem hoje, pois ainda não alcançava as terras capixabas e uma parte dos empreendimentos siderúrgicos do chamado Vale do Aço ainda não tinham sido implantados. Era uma viagem tranquila, padrão mamão-com-açúcar em céu (e asfalto) de brigadeiro.
Uma cena de nossa chegada em Itabira naquela ocasião me marcou a memória. Já havíamos passado pela entrada da mina da Conceição, onde meus pais e eu mesmo, com menos de um ano de idade, moramos por algum tempo, quando minha mãe exclamou, ao contemplar o horizonte mais adiante: céus, o Cauê desapareceu! Com efeito, o pico que dominava o cenário da cidade ainda nos anos próximos ao meu nascimento, tinha sido simplesmente sovertido. O que havia em seu lugar era uma vasta plataforma, meio tapada pela poeira levantada pelos poderosos caminhões off-road, em seu afã de remover o minério até depositá-lo estrepitosamente nos longos trens da Vitória-Minas. Tudo em modo titânico.
Mesmo eu, que ainda poucos anos antes estivera várias vezes na cidade, tinha total dificuldade em reconhecê-la. É bem verdade que a casa de meus tios ainda estava como dantes, no mesmo caminho da Água Santa, com seu açude minimalista onde Virgílio criava suas rãs. Mas boa parte daquelas velhas ruas guarnecidas por vistosos casarões, com seus calçamentos de pedras vivas e brutas de hematita, que se enferrujavam depois das chuvas, eram agora asfaltadas. E me impressionei também com o fato de meu pai ainda ser reconhecido por onde passava, pois eu o achava completamente diferente daquelas fotografias que o mostravam nos anos da juventude.
Penso que este foi um marcante reencontro para mim, que havia, bem ou mal, transformado aquela cidade antes remota em algo mais próximo e familiar, idealizando-a romanticamente como aldeia ancestral. Isso talvez já me fizesse falta, por algum traço profundo de personalidade ou por ser um canceriano, cujos nativos, reza a lenda, são muito ligados a coisas assim.
Mas o que poso dizer com certeza é que muito apreciei tal experiência, de tal forma que, nos anos seguintes, já liberado para viajar sozinho e acossado pelos hormônios da adolescência, passei a cultivar de perto e por conta própria as minhas supostas lembranças itabiranas, fazendo da cidade uma praça de convites (ainda conforme Drummond), ou seja, palco de ingênuas namoricos e paqueras, celebrados naquele footing entre o Largo do Batistinha e o Clube Atlético Itabirano.
Mas como acontece quando a realidade da vida se impõe, um dia me cansei daquilo tudo. Eu já tinha meus dezoito anos e agora frequentava Itabira na companhia de dois irmãos, meus amigos, que também ali tinham raízes, pertencentes que eram à família Bretas. Eles eram dois caras vividos, enturmados, namoradores. Iam com frequência à cidade, onde tinham primos e principalmente primas, além de diversos amigos. Na ocasião, eu só tinha ali meu tio Heraldo, com seus filhos, bons primos-amigos, com cuja mãe eu não me dava muito bem. E foi assim que em um jogo de vôlei na rua, com as incontáveis amigas dos Bretas, uma delas se riu com as minhas furadas com a bola, objeto este, aliás, com o qual eu nunca tive qualquer intimidade, fosse com os pés ou com as mãos. E assim eu descobri o que era bullying antes, muito antes, de saber do real significado de tal palavra. Assim ofendido me retirei dali, passei na casa de meu tio, peguei minhas coisas e me mandei para BH, para somente voltar a Itabira muitos e muitos anos depois.
Assim, cerca de 1997 ou 98 fui matar saudades de meu querido Heraldo, o último tio materno ainda a residir na cidade. Levei comigo meu filho, Maurício. Com muito custo encontrei o alvo de minha visita, apesar de tê-lo avisado da ida, pois ele não estava nos altos do Campestre, onde ficava sua casa, mas sim em novo endereço, numa barafunda de ruas, pra lá da Estação Ferroviária. Impressionou-me o cômodo modesto que agora lhe servia de escritório, cozinha e, muitas vezes, aparentemente, também de dormitório. Tudo isso dentro de um terreno de uma serraria desativada. Coisas dele… No tal quartinho, me mostrou uma pasta cheia de escritos, poemas, crônicas, textos filosóficos, utopias – coisas assim. De repente ele me mostra um daqueles papéis onde escrevera um poema, que falava de terras compradas e defendidas com muito orgulho e tenacidade por ele, até que, na finalização, conclui: a terra não era minha, era da onça. Texto forte e sensível, de fazer orgulhosos os numerosos ecologistas da família.
Uma imagem dele, extensiva à cidade, me marcou profundamente nesta viagem. Fomos dar uma volta pelos arredores, passando pela antiga Fazenda Pontal, que foi de meu avô, (agora um autêntico “vale sinistro”, como previra Drummond), alcançando também uma propriedade dele onde havia uma bela cachoeira que lhe tinha despertado a ideia de ali construir um “clube da família”, tendo “viajado” nisso durante longo tempo. Já voltando para a madeireira extinta, em seu Fusca renitente, ao cair da tarde, eu apressado para pegar meu carro e enfrentar a BR 381 na volta para BH, noto que ele praticamente não mais acelerava o carrinho, antes o deixava descer livremente as eventuais ladeiras e depois deixava o mesmo estacar, sem mais nem por quê. Eu, com a pressa que estava, confesso que cheguei a ficar um pouco impaciente. Mas qual! Logo vi o que o movia (ou melhor, o que não o movia…) era a vontade de estender minha companhia e a de Maurício por mais tempo. Voltei para BH já com a noite fechada e não me arrependi.
É esta hoje a maior e melhor lembrança que tenho de Itabira.
Resumo da ópera: Hoje prefiro cultivar esta cidade não mais como uma fotografia na parede, mas sim no impressionismo da memória. Não dói nada, ou melhor, faz a gente se sentir bem através da consciência de ter raízes, mesmo que sejam aéreas e impalpáveis.
