A lavanderia universitária

Desde os meus tempos de professor na Universidade de Brasília confesso que me causava espanto a inclusão em certos portfólios disciplinares de temas polêmicos, sem maior embasamento na velha e boa ciência. Polêmicos, sim – e até aí, tudo bem – mas eu poderia também destacar a respectiva marginalidade em relação a alguma comprovação científica. Nisso aí se incluíam procedimentos psicológicos de autoajuda, derivados de gurus indianos; terapias energéticas (seja lá o que isso signifique…); divulgação de teorias autorreferidas como se tivessem validade ampla; citações em teses e artigos de textos de autores esotéricos; inclusão de temas como mediunidade, clarividência, e psicografia nas pautas de pesquisa, sem os devidos cuidados formais, além de outros. Não que eu achasse que a menção a tais assuntos, por assim dizer extraordinários, devesse ser vetada no ambiente universitário, mas a questão era bem outra, ou seja, sua inclusão em um cardápio de ofertas de disciplinas como se pertencessem à mesma categoria epistêmica da teoria da relatividade de Einstein, da física quântica de Bohr, da genética de Mendel, por exemplo. A palavra “quântico”, por exemplo, era tratada como um achado epistemológico que se aplicaria não apenas ao campo da Física, mas também à Psicologia e à Saúde Mental. Tudo bem, faz parte da dinâmica universitária a liberdade de pensamento e ensino, mas, sinceramente a introdução na pauta curricular de tais temas já me parecia ignorar e desprezar o razoável limite a separar o rigor acadêmico de questões ligadas a um esoterismo não apoiado em evidências reais, aproximando assim a Academia Universitária de uma forma de academia ou talvez de uma espécie de clínica calcada em práticas propostas por gurus diversos e voltada para a busca de um suposto e vago bem-estar. Tais coisas me pareciam – e ainda hoje penso assim – um autêntico processo de lavagem de propostas vulgares, de forma a lhes conferir perfume, brilho, textura e apuro através da Academia. Percebi então que a palavra lavagem, que também significa comida de porcos, havia ultrapassado seu âmbito simbólico original, ou seja, de se ater a mentes e dinheiro, passando a expressar também um tipo de operação, igualmente pouco lisonjeira, desta vez praticada pelas universidades.    

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