Se bem me lembro (XI): Um País de Pessoas

De quem falo nas linhas que se seguem? Amigos talvez não seja a palavra mais adequada, banalizada que foi pelo seu uso vulgar nas chamadas “redes sociais”. Amigo, com efeito, já dizia meu Rosa, é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é… As pessoas que aqui trago podem ser até mais do que isso. Ou, talvez, menos, nem tanto, ou coisa diferente disso. Assim, por exemplo, há alguns a cuja casa nem cheguei a ser convidado; com outros, minha intimidade foi pequena; mas com quase todos tirei grande prazer de estar junto – embora nem sempre repetidamente – ou de tê-los apenas conhecido e com eles convivido. Tem até gente que talvez nunca se soube objeto de minha admiração. Este último sentimento talvez diga tudo: aqui comparecem pessoas a quem eu admiro ou admirei ao longo da vida, por variadas razões, às vezes até, de alguma forma, por ter apreciado apenas a bizarrice do jeito de ser delas. Estão aqui relações novas e antigas. Tios e outros parentes; ex-cunhados; colegas de escola; companheiros de profissão; parceiros de sonhos; ex-alunos, além de gente que a vida me trouxe por outras razões. Trago até mesmo pessoas genéricas ou um tanto abstratas, mas certamente palpáveis para mim, cujo perfil compus livremente, a partir de tipos inesquecíveis com quem eu tenha convivido. Incluo, como não poderia deixar de ser, um rol de personagens-mulheres especiais, que trouxeram para minha vida uma marca inapagável, que em uma simples palavra poderia chamar de Amor. Pessoas essas últimas que realmente fizeram diferença em minha vida e que por isso mesmo se tornaram objeto de minha gratidão e de minha homenagem, sem deixar de mencionar que talvez lhes devesse um pedido formal de perdão pelos males que talvez tenha lhes causado, por sofreguidão ou imaturidade de minha parte.

A ordem seguinte é alfabética. No meu coração estão no mesmo patamar.

Agenor (de quê?)

Se eu algum dia, ao caminhar por algum lugar deserto, topasse com uma lâmpada mágica e dela surgisse um Gênio, a me oferecer a possibilidade de fazer apenas um pedido, que seria o de rever alguém do meu passado, eu não teria dúvidas em apontar Agenor. Se fossem aqueles três pedidos, conforme a versão clássica dessa história, eu poderia também me lembrar de outras pessoas daquela época. Mas o caso real é este e não admite exceções: um só pedido e nada mais… Agenor de quê? Não me lembro ao certo. Fomos colegas de ginásio, no Colégio Estadual central, do qual trago muitas lembranças significativas. Mas este Agenor era especial. Um tanto taciturno à primeira vista, cara de poucos amigos. De minha exata idade, mas figurando mais velho. De mim se aproximou e se tornou amigo e em pouco tempo, confidente. Seu segredo: ele convivia com Marcianos.

Amaro Luiz Alves

Meu colega na Fundação Nacional de Saúde, emérito fotógrafo de aves e memorialista cheio de histórias para contar. Superou preconceitos de raça e conheceu, como poucos, os segredos de uma verdadeira meritocracia. Como todo homem realmente de bem, forte e realizado, Amaro tem a seu lado uma companheira de sua estatura moral e afetiva – embora seja uma mulher pequena, diante dos quase um metro e noventa de altura do Príncipe Etíope que a acompanha. Ela é Dona Márcia, a quem muito admiro também. Pena que divergências políticas vieram a nos separar, no fatídico ano de 2018, apesar de minha tentativa de reconciliação. Fica registrada minha admiração por ele, todavia.

Antônio Cândido de Melo Carvalho

Médico formado pouco antes de mim na UFMG. Um cara notável pela inteligência, cultura e carisma. Professor na nossa Faculdade de Medicina, assim como eu, depois alçado a cargo na administração universitária. Era filho do Dr. Sylvio Carvalho, eminente cardiologista e também docente da faculdade e irmão de Tavito, que tinha sido meu colega no Colégio Estadual e até hoje é lembrado como músico, por ter participado da banda que acompanhou Milton Nascimento nos primeiros tempos, o Som Imaginário. Quem ainda se lembra daquele “sem querer tu me lembras, uma rua e seus ramalhetes”? Todos o conheciam pelo apelido familiar de Cancando, definitivamente um cara brilhante, simpático, bem relacionado, culto como quê, inclusive em termos médicos. Uma perda extraordinária e indesejada, abatido que foi pela Indesejada das Gentes, a bordo de um avião, com pouco mais de 40 anos.

Antônio Carlos Miziara

Meu aluno da Escola de Medicina da UFU nos anos 80, depois monitor, colega de magistério e acima de tudo, amigo. Inteligência, competência clínica, companheirismo e amizade são palavras que ainda não são capazes de dizer tudo sobre ele e seus mansos olhos azuis. Eu o perdi de vista e disso muito lamento. Onde andará Antônio Carlos?

Atheneia

Esta pessoa, em sua generosidade peculiar, mas certamente dotada da percepção consciente (que eu próprio não tivera de forma tão intensa) de que o que vivíamos era realmente algo inédito, raro e profundamente iluminador, sempre me acolheu de volta. E mesmo que se passassem meses ou até anos entre um momento de aproximação e outro, cada encontro ou reencontro sempre se fazia como se fosse o da primeira vez, ou, pelo menos, como uma conversa que tivesse sido interrompida em sua melhor parte, mas apenas no dia da véspera. Um dia ela me escreveu: <<Nem anjo nem demônio, você mesmo. Muitas vezes doce, outras severo. Sempre com opinião sobre tudo. Sabe dizer a vida em versos sempre que alguma coisa desata em seu coração. Recebe com coração e comidinha quente. Tem a casa iluminada na medida certa, nem mais nem menos do que o necessário para se ver o essencial. Sabe guardar as relíquias da vida na memória, que pode ser reativada sempre que a saudade traz lembranças gratificantes. Enfrenta o desafio de “resignificar” a rotina e os pequenos detalhes da vida. É este homem que gosto. Beijos.>> Que lembranças mais significativas e profundas uma pessoa pode guardar na vida?

Bruno Carlos de Almeida Cunha

Marido de minha tia Ângela, pai de Raquel e Altivo Roberto. Farmacêutico, não de balcões, mais do que isso, de refinada ciência bioquímica. Ainda hoje mantenho viva a chama de sua verve, de sua porosidade comunicativa, de sua alegria de viver, sempre bem humorado, em todas as situações. Repito sem medo (e com possibilidades ainda maiores de acerto) o dito que lhe dediquei há muito tempo: Bruno pode ser canonizado ainda em vida. Para ele escrevi uns versos quando partiu, em 2001, tendo como foco a netinha dele, Mariana, inconsolável na ocasião. Começavam assim: Dia de mudança / No olhar de Mariana / verde-azul, tantas lágrimas, / toda tristeza do mundo. / E todos ali reunidos / para estar com nosso Bruno / face ao vale profundo / que de repente se abriu.

Caio Moreira

Meu colega da Faculdade em BH, este aí teve uma carreira médica insólita. Durante todo o curso mostrou forte inclinação pela ciência básica, tendo renunciado à clínica, na qual se destacava, para fazer um mestrado em Parasitologia. E não é que, de repente, dois anos depois, ao defender uma profunda dissertação sobre toxoplasmose, buscou uma nova mudança repentina e inesperada em sua vida, passando a estudar e em seguida clinicar como reumatologista, sendo muito bem-sucedido nisso, chegando mesmo a ocupar postos de direção na sociedade nacional da especialidade, tendo se tornado, inclusive, amigo e colaborador direto de ninguém menos do que Pedro Nava. Admiro neste cara a inteligência, a capacidade clínica, a visão larga da vida, a bizarrice de quem nunca aprendeu a dirigir carro nem usar telefone celular. Admiro, principalmente, a quem sempre e ineditamente beijo quando encontro (e sou correspondido), para dizer em palavras simples, a generosidade que faz par com a amizade.

Carlo Américo Fattini

Este é um dos meus professores notáveis, docente de Anatomia. Na época não teria mais do que trinta e poucos anos, detentor de grande carisma, embora modesto. Uma daquelas pessoas que apenas deixam fluir sua atenção e recebem com tranquilidade e paciência o gesto e a palavra do interlocutor. Além das informações sobre o nervo vago e a veia porta, falava de coisas pouco habituais, evitar o mau hálito e os modos corretos de tratar nossos afetos, dando exemplos concretos, por exemplo, ao receber visitas de Natália, sua noiva, a lhe dar algum recado ou pegar um livro (ela era médica), quando então fazia questão de nos apresentar e falar dela sempre como “minha amada”, “mulher de minha vida” e coisas carinhosas assim. Quando via Eliane e eu conversando nos intervalos ou dissecando o “nosso” cadáver até, já a sós no grande anfiteatro, tinha uma brincadeira que acabou se revelando profética: isso vai acabar em casamento. Ele é muito conhecido por ser autor, com José Geraldo D’Angelo, outro de nossos notáveis professores da época, de um Tratado de Anatomia Humana muito recomendado nas escolas de medicina.

Carlo Zanetti

Fomos colegas no Mestrado da ENSP, entre 1989 e 1990. Eu parecia meio deslocado diante daquela turma de pessoas bem mais jovens do que eu, alguns com praticamente a metade da minha idade. Se eu me sentia deslocado com o resto da turma, com ele a simpatia foi mútua e imediata, apesar de sr 20 anos mais jovem do que eu. Em pouco tempo já nos procurávamos ao final da jornada para juntos irmos pegar o ônibus ou o metrô, na Estação Del Castilho, ali perto. Logo percebi que o meu novo amigo tinha uma inteligência acima da média. Lia aqueles textos áridos, de Marx e cia, com voracidade e sempre tinha algo a dizer sobre eles – é bem verdade que nem sempre de forma que alguém bem entendesse. Mas nisso se equiparava aos respectivos pensadores. Bem no início da era da informática ele já entendia tudo dos devices e gadgets disponíveis no mercado e, para meu pasmo e admiração, sabia operar múltiplos programas em um computador, como se convivesse com tal máquina desde seu nascimento. Tempos depois, fomos colegas na UnB. Fizemos, então, algumas coisas juntos, como consultorias pontuais e participação minha em cursos de especialização coordenados por ele. Às vezes ficamos meses sem nos ver, principalmente depois que deixei de frequentar os corredores da UnB, mas quando nos encontramos é como se tivéssemos nos despedido na véspera. Gentil como poucos, mesmo assim não deixa de deplorar o fato de que ele bem gostaria de ser como eu, que valoriza e procura os amigos, ao contrário dele, que se sente um bicho do mato. Bobagem… Nossa amizade não precisa disso.

Carmen Lucia Soares de Azevedo

Basta de poesia! Pelo menos esta, encarcerada em folhas de papel, livros e telas de computador. Eu quero agora poemas libertos épicos libertinos, nada parnasianos, que subam pelas paredes, preencham as alcovas, escorram pelo chão, ou mais abaixo (por que não?). Odes do céu e do inferno, elegias ao verão e ao inverno, poesia concreta; nem precisa ser discreta, escrita com suor e movimento, que seja feita com muito ou pouco invento, mas tenha gritos, gozo e tesão, cheia de si e recheada de beleza, além de prenhe de nenhuma certeza. Coisa que se cumpre e é escrita fora do papel, em jogos e alfaias de cama e mesa, a deixar suas marcas em algum colchão.

Até que um dia, bem assim como chegou, a Poesia bateu em retirada, sem grandes avisos.

Cid Veloso

Eu o conheci ainda na minha adolescência, frequentando a casa de seus pais por ser amigo de seu irmão mais inovo, Tiago. Foi meu professor de Semiologia. Porém, grandes acontecimentos ainda estavam para acontecer em sua vida: foi o primeiro reitor eleito por voto direto na UFMG. Sua gestão se caracterizou pela inovação, amplitude cultural e interdisciplinar da ação da reitoria e democratização da gestão. Eu já não morava mais em BH, mas acompanhei algumas de suas peripécias na gestão universitária, por exemplo, a negociação pacienciosa com os invasores do antigo Hospital Borges da Costa. O desfecho foi a transformação do velho prédio abandonado em residência universitária. Sem tiros, sem bombas, sem prisões. Além disso, ele trouxe à UFMG, para uma homenagem, ninguém menos do que o Bispo Desmond Tutu, paladino, junto com Mandela, da luta contra o apartheid na África do Sul. Cid, de fato, era uma pessoa que enxergava longe, muito longe. Ele representa uma referência política e de gestão pública em minha vida. 

Cristina Moori Andrade

Cristina é casada com meu primo João Queiroz Andrade, a quem eu chamo de JQ.  Tenho com ela um tipo de afinidade diferente daquele que tenho com o marido, repleto de chistes de machos broncos. Ela é uma pessoa mais do que especial. Sua mãe, aeromoça e separada, casou-se depois que ela nasceu com um japonês legítimo e com ele teve outros filhos. É curioso ver seus retratos de infância, nos quais ela comparece como a única face ocidental, bem branquinha, dentro de uma tribo de olhinhos puxados. Mas de toda forma, a delicadeza, a sensibilidade, o pendor artístico de Cristina tem um DNA “japa”, não tenho dúvidas. João e Cristina compõem, junto com meus filhos, neto e genro que moram aqui em Brasília, meu núcleo familiar legítimo e querido, que valorizo muito.

Dalton Luiz Ferreira Alves

Fomos colegas no Colégio Estadual, depois na faculdade de Medicina, de onde tomamos caminhos diferentes para a vida profissional. Meu amigo, com seu espírito organizado e perscrutador optou pela ciência básica, tendo feito uma sólida formação em Bioquímica, na meca paulistana, USP ou Butantã, não sei bem. Virou cientista. Eu fiquei em BH mais algum tempo, me casei (ele foi meu padrinho de casamento), fiz residência e fui ser médico clínico, me mudando logo para o interior. O resumo da história é: devo tê-lo visto pela última vez logo depois de nossa formatura, em 1971 ou 1972, em escassas ocasiões. Depois, nunca mais. Hoje recebi a notícia de sua morte, ocorrida há menos de 24 horas. Tudo isso que acabo de escrever pode parecer uma memória pouco significativa, recheada de histórias de interesse restrito a mim, que começo a perceber que o passado vai tomando conta de minha vida cada vez mais. Talvez seja isso mesmo. Mas pelo menos quero registrar aqui que me foi dada a honra de ter conhecido, convivido e aprendido com alguém assim: Dalton Luiz Ferreira Alves.

David Capistrano

Este é um cara de grandeza intelectual e política extraordinária, seja em grandes cenários ou apenas na moldura de nossa amizade. Personagem da cena sanitária e política do país, na sua maneira quixotesca ou, quem sabe, brechtiana, de quem formulou projetos que foram seguidos por nós e por muitos outros – epitáfio que nos honraria a todos. Sujeito imprescindível! Deixou suas marcas no movimento estudantil, na Reforma Sanitária, na gestão da Saúde, na criação do SUS, atuando em muitos lugares, por exemplo, no Recife, no Rio, em Bauru, em Santos, em São Paulo, em Brasília. Trajetória que, por si só, diz bem da dimensão de um lutador notável. Um indivíduo que marcou de fato o cenário do SUS, incomodando a alguns; parindo tantas ideias; dedicando sua vida à causa de todos. Como acreditar que poderia ter morrido quem não sucumbiu aos cárceres da ditadura, nem ao câncer? David ainda vive, em sua a visão larga e no compromisso de quem plantou jequitibás, não pés de couve. É por este caminho que seguimos com você, pequeno-grande companheiro!

Dr. Brandão

Conheci muita gente nos meus anos de saúde pública em Uberlândia. Alguns verdadeiros missionários; outros, nem tanto. Certos indivíduos fariam boa figura atrás de alguma grade. O certo é que ainda não havia SUS e eu mesmo não poderia me jactar de já possuir consciência tão apurada. Há um desses, porém, que poderia ser o patrono dos melhores: José Garcia Bandão. Era mais do que o médico chefe do Centro de Saúde em Patrocínio. Era uma figura emblemática, no melhor sentido que esta palavra pode ter, na cidade. Ex-Prefeito, ex-Provedor da Santa Casa, presidente do Lions Clube, vicentino militante – tudo o que faz de um homem em comunidade personalidade prestante e imprescindível, embora sejam coisas às vezes valorizadas (ou mesmo autovalorizadas) de maneira equivocada. Nossa primeira conversa, ele respeitoso comigo, afinal seu supervisor, novidade que ele recebia pela primeira vez depois de décadas de trabalho, já foi marcada pela simpatia mútua. Difícil foi manter a conversa nos trâmites burocráticos. Ali mesmo descobrimos que tínhamos origens familiares comuns, no Oeste de Minas; ele de Iguatama, meu pai e meus avós paternos de Pains e Formiga. Sobre sua filha, Maria Helena, me avisou: você deveria conhecê-la, vai gostar dela, pensa do mesmo jeito que você. Dito e feito, ela e eu nos tornamos grande amigos e também lhe presto homenagem em outra seção desta memória

Duílio de Oliveira Santos

Este tio (avô) era irmão de minha avó materna, Dodora. Acima de tudo, um homem alegre, dado a festas em família. As passagens de ano em sua casa eram inesquecíveis e em uma delas ele conseguiu fazer com que meu avô Altivo, um homem tímido e meio casmurro, dançasse uma valsa com seu cunhado, Arnaldo Cathoud, este de natureza mais pândega. Ali se bebia e se comia à farta, sendo objeto de especial luxúria e cobiça do resto da família, as cestas de natal que os amigos lhe presenteavam. Ele tinha também pendores artísticos, tocando de forma exímia uma harmônica de boca, coisa que era capaz de fazer “até com o nariz”, segundo o folclore familiar. Mas de toda forma não seria por acaso que Xico Marcos, seu segundo ilho, fosse um excelente percussionista e que Cristina, a caçula, tenha sido durante anos uma das bailarinas de maior destaque no Grupo Corpo, de BH. Em 1971, ao chegar à Faculdade para assistir, vi que alguém me chamava do outro lado da rua. Era meu tio Virgílio e seu modo compungido e até certa palidez em seu rosto já me fizeram perceber que havia uma notícia terrível no ar: Duílio acabara de morrer de um infarto fulminante

Eduardo Fernandez Silva

Custei a conhecê-lo, dado que havia entre nós laços possíveis de diversas naturezas: meu pai e o dele se conheceram; estudamos na UFMG na mesma época, ele na Economia, eu na Medicina; ele é primo de meu compadre e amigo Luiz Felipe; participou da mesma bolsa de estudos que eu, nos EUA, graças uma extinta Associação Universitária Interamericana. Passamos a interagir, de fato, nos últimos 15 anos e temos compartilhado ideias, ilusões, reflexões e tiros n’água, desde então, em almoços bissextos. Ele é um misto de filósofo de cotidiano e mergulhador em vários mares do Mundo – o que me parece ter tudo a ver. Podemos ficar meses a fio sem se encontrar, mas a retomada das nossas conversas escorre sempre de forma suave, profunda e principalmente inteligente.

Eduardo Pinheiro Guerra

Um tipo bonachão de quem é uma delícia ser amigo. Tem histórias e piadas para todas as situações, seja de forma presencial ou pela internet. Entre outras coisas, me impressiona muito sua capacidade empreendedora e voltada para coisas coletivas, o que associa com uma vida pessoal plena do afeto da família e dos amigos. Além de presidente do Conselho Regional de Medicina do DF por dois mandatos, foi também diretor de um setor do Ministério da Saúde e Subsecretário de Saúde do DF. Como se não bastasse, formou-se também em Direito e, depois de aposentado, ainda arranjou tempo para assumir um cargo de assessoria no Ministério Público, além da presidência da Associação dos Produtores do Lago Oeste, onde tem sítio e casa. No Ministério Público, para mim, ele representou a possibilidade, confirmada, aliás, de que Suas Excelências não cometam os equívocos que volta e meia se vê por aí. Como disse outro Promotor que conheci, este bem lúcido: gente que levanta à noite para beber água na cozinha e dá uma entrevista, a esmo, quando a luz da geladeira se acende. Mas acima de tudo, Eduardo é um amigo fiel e presente. Tenho com ele muito mais proximidade do que tenho com meus primos (e primos dele) Guerra Andrade. Em janeiro de 2019 tive oportunidade de não só ficar hospedado em sua casa, como também de fazer jornadas memoráveis, a partir de sua nova moradia, em Braga, Portugal.

Eliane Machado Guimarães

Compartilhamos, entre outras peripécias, o gesto corajoso de mudar de cidade, abandonando a BH que já nos oferecia tantas oportunidades. Fomos para o interior e disso, eu pelo menos, nunca me arrependi. E as demais coisas vieram na sequência previsível, um filho, três filhos; construção de uma casa, outra casa; um sítio, uma fazenda; viagens pelas três Américas; um patrimônio material e simbólico sendo erguido com prudência e solidez. Casal mais bem-sucedido, impossível! O final feliz tão augurado não veio. Mas no lugar dele, vinte anos de somas. Como disse Guimarães Rosa, fomos felizes e infelizes, misturadamente. Passados tantos anos reafirmo o que para mim nunca deixou de ser clara certeza: mulher extraordinária esta que comigo esteve! Não sei se a perdi de fato, pois minha admiração por ela nunca se arrefeceu (embora saiba que a recíproca não seja verdadeira). Em todo caso, temos três filhos em comum – e agora três netinhos– isso nos une para sempre!

Erix Curi Mafra

Aos 16 anos de idade eu vivia um permanente “éramos três” em matéria de amigos e isso começou a dar sinais de cansaço. E foi assim que certo dia fui apresentado a um cara da mesma idade que eu, que eu conhecia – e respeitava – de longe – por sentir nele um sujeito importante, um verdadeiro líder no bairro onde eu morava, a Barroca, em BH de uma das turmas de jovens da redondeza. Eu queria mais, em termos de vivências e sintonia com um modo de vida mais mundano e encontrei isso nele. , senti que por ali passava o meu caminho. Erix Curi Mafra residia bem perto de mim e me tratou, desde o início, com condescendência e simpatia e isso logo abriu caminho para uma grande amizade, das maiores que já tive – e que não está perdida. Na ocasião, fiquei sabendo que ele já havia prestado atenção em mim, por me ver sempre com livros debaixo do braço e um dia me disse que também gostava de ler e que se aproximara de mim por me considerar um cara intelectualizado. Não era bem assim, mas eu ia negar? Hoje, depois de nada menos do que seis décadas continuamos nos vendo e tendo assuntos intermináveis para conversar.

Gilson Carvalho

Eu o conheci cerca de 1990, quando eu já havia deixado meu posto de Secretário de Saúde em Uberlândia. Afinidade imediata com aquele sujeito gordinho, com cara de personagem, ou de autor, parecido com Tolstoi como era. Presente aqui e ali nos encontros da saúde; repleto de energia, entusiasmo e graça; didático e convivente como ninguém; mostrando suas ideias em transparências coloridas, carregando uma eterna e surrada pasta marrom. Era impossível não prestar atenção no seu tipo e mesmo deixar de gostar dele. Em 1993 estávamos no Ministério da Saúde, na transição INAMPS – SAS. Ali, durante três anos agitados, levamos muita pancada, mas fizemos alguns gols também. A hoje esquecida, embora muito apreciada no seu tempo, Norma Operacional Básica do SUS de 1993 (NOB 93) é apenas a ponta do iceberg; a regulamentação do repasse fundo a fundo, o desenvolvimento do programa de Saúde da Família, a dimensão nacional do PACS. E o mais importante: havia alguém dos municípios, finalmente, pilotando a imensa nave que antes nos esmagava. Desde esse momento o coração já lhe falhava e, preocupados, o acompanhamos em mais de uma internação em um hospital de Brasília. Ele sempre constrangido de estar em um serviço privado, e ato contínuo já estava em sua sala na SAS, até altas horas e até praticamente pernoitando ali. Em 2013 nos deixou.

Henriqueta Camarotti

Quem não se lembra do Cine Academia em Brasília? Ali era possível ver bons filmes, ouvir boa música ao vivo, tomar um café ou um drink honesto, encontrar pessoas. Como nada é perfeito, tal estabelecimento acabou sendo fechado para pagar dívidas com o Estado, mas mesmo assim deixou saudades em muita gente – o lugar, não seu dono. Eu próprio me senti na orfandade. Sempre gostei dos vários itens ali oferecidos, particularmente dos filmes, mas no quesito “pessoas” ali colhi também ótimas lembranças, uma delas muito especial. Uma noite de maio de 2008 eu fui ao Academia pegar um cineminha e lá encontrei uma Pessoa, muito, muito especial, da qual me apaixonei, com reciprocidade total – assim me pareceu. Nós dois criaturas desgastadas por relacionamentos mal escolhidos e malsucedidos e aquele encontro parecia nos trazer, realmente, as chaves do Paraíso. Nas semanas seguintes acabei de conhecer a médica famosa, a empreendedora, a mulher de espírito indomável, a criadora de um método de trabalho, a líder social. Cidadã honorária de Brasília, um título nunca me parecera tão justificado e isento de cargas politiqueiras como no caso dela. Respeitadíssima em toda parte que íamos, onde eu era apresentado sem maiores rodeios como o companheiro, com todo carinho e certeza. Certezas, certezas, certezas… Participar do cortejo daquela Deusa acho que era desafio para fiéis iniciados, e eu era um tanto gentio, ou profano, pouco afeito a rituais laudatórios em torno de alguém. Comecei a perceber que aquela espécie de divindade não tinha apenas amigos, tinha seguidores, fiéis, escudeiros. E foi assim que um dia a cobrança me chegou, taxativa, por parte dela, de eu não estar demonstrando de forma suficiente e acreditável que Sua Divindade fosse realmente um símbolo forte e significativo para mim. E foi assim que, de repente, não mais que de repente….

Heraldo Santos Andrade

Assim era este sujeito: meio fazendeiro, meio poeta; muito Andrade, mas Drummond na medida; fazendeiro do ar e da terra; um tanto de monge zen, outro tanto de empresário; um contador de histórias que conta o que viveu, mas se por acaso vier a inventar, fará dessas histórias algo ainda mais acreditável; homem portador das armas da palavra fácil e abridora de caminhos; cavaleiro de mulas que não sabem o que é pressa e param a cada esquina. E isso tudo sem esquecer uma porção romântica e ousada que certamente ainda vive nele. A do jovem elegante e bem-querido na BH dos anos 40 e 50, que não titubeia em organizar uma fuga rocambolesca, junto com seu Amor, a bordo de uma perua Peugeot cinquenta e um, pelas malévolas estradas do Brasil, até dar em terras paraguaias! A vida lhe foi ingrata. Um acidente vascular, ainda nos anos 90, emudeceu o contador de histórias e paralisou o ativo empreendedor, sobrevivendo com grande sofrimento por mais de 20 anos.

Uma Ignota Donzela

Um tipo diferente, para dizer o mínimo. Minha ex aluna na UnB nos anos 90. Magra, não muito alta, de seu corpo pouco poderia ser dito, escondido que o mesmo sempre estava dentro de roupas largas e um tanto fora de moda. Alguma beleza tinha, pois na faixa dos vinte anos, como a maioria ali, isso era quase regra geral. Devia ser muito friorenta, pois quase nunca dispensava um xale ou um suéter de lã, às vezes até mesmo um gorro; os cabelos lhe completavam o estilo, presos no alto da cabeça por grossas agulhas de tricô, mas não de forma muito composta, deixando-lhe cair sobre a testa uma ou outra mecha rebelde. Óculos de míope, sempre escorregando nariz abaixo. Ela me conquistou de vez em um seminário regulamentar sobre a política de Saúde Mental, no qual os colegas apresentaram burocráticas; ela, não. Um cilindro de papelão logo desdobrado mostrou sua abordagem, com foco em um poema de Robert Frost: Something there is that doesn’t love a wall… Falou então dos buracos que se podia vislumbrar em tal muro, através do qual o narrador vislumbra “um pomar de maçãs”, mesmo sem poder atravessar tal barreira. E arrematou, interpretando o desfecho do poema: pra quê um muro assim, se boas cercas é que fazem bons vizinhos? Recuperei tal poema na internet mais de vinte anos depois. Mas o que sei é que aquela senhorita tão diferente foi aplaudida pelos colegas e por mim, que, aliás, já deixava escapar algumas lágrimas.

João Amílcar Salgado

Nosso professor de Semiologia na Faculdade, sempre esteve longe de ser uma unanimidade, mas eu fui com a cara dele desde que o conheci. Alguns o criticavam pelo fato de supostamente não tocar nos pacientes, o que não creio ser a inteira verdade. Ele, simplesmente, era partidário radical do raciocínio clínico e das deduções baseadas em evidências. Tinha um conhecimento médico fora do comum, uma memória prodigiosa e enorme capacidade de contar e ilustrar com exemplos curiosos e inusitados suas histórias, fossem elas clínicas ou de vida. Formou-se mais tarde também em Filosofia, opção que era de fato a sua cara. João Amílcar escreveu um livro inspirador, que talvez tenha sido o maior estímulo para eu ter escrito coisas como estas memórias, O Riso Dourado da Vila, com foco antropológico e sociológico profundo, além da forma muito bem-humorada, de sua infância em Nepomuceno, no Sul de Minas, bem como de sua trajetória com estudante de medicina e professor na UFMG. Não bastasse tantas coisas que fez,ainda foi o idealizador e primeiro coordenador do Museu da História da Medicina Mineira, instalado no prédio da nossa velha Faculdade de Medicina. Ele foi seguido de perto por outro cara notável, o meu colega Ajax Ferreira, o “Homem de Lagoa Santa”, infelizmente já falecido, que deu sua vida e seu sangue pelo referido Museu. Nota dez para estes sujeitos!

João Carlos Pinto Dias

Eu o conheci alguns anos antes em BH, através de um acontecimento curioso. Eu saía de BH – pedindo demissão da UFMG – para ir trabalhar como médico no canteiro da obra da usina de São Simão. Ele veio fazer o concurso para minha vaga depois ter passado alguns anos exatamente em um emprego similar, na obra de Ilha Solteira, entre São Paulo e Mato Grosso. Era um dos tais tropicalistas, mas de estirpe. Filho de Emanuel Dias, um dos precursores da pesquisa em Doença de Chagas em Minas, Neto de Ezequiel Dias, outro cientista famoso, que havia sido amigo e colaborador do próprio Carlos Chagas e de Oswaldo Cruz. O pai tinha trabalhado muito anos na região do Triângulo, muito endêmica para o T. cruzi e as diversas espécies de barbeiro, e deixara muito amigos na região. Ele não tinha nascido em Minas, mas sim no Rio de Janeiro, de onde era originária sua família, mas quem o visse conversando teria certeza de estar falando com um mineiro completo, pelo fato concreto de ele ter sido criado, parte de sua vida, em Minas, com a versatilidade e capacidade de adaptação e empatia que eram naturais e espontâneas nele.

João de Queiroz Andrade

João, o quarto evangelista da família, depois de Mateus, Marcos e Lucas (os dois primeiros, infelizmente, falecidos precoce e tragicamente), filhos de meu tio Roberto, que tem lugar de honra nestas páginas e em minha vida.  Ele sempre me conta uma história da qual eu teria sido personagem, embora já não me lembre disso, que certa vez, na Fazenda das Areias, onde morava a família, eu o salvei de um afogamento. Fico feliz se isso tiver feito realmente, mas nunca perco a oportunidade de fazer troça com ele, de uma maneira que nos é peculiar e com a qual quem não nos conhece às vezes se assusta: então, só por isso, tenho que aguentar você a vida toda? Ele me devolve alguma gozação no mesmo tom e fica tudo bem. Ainda dentro do capítulo das brincadeiras, digamos, indecorosas, costumo brindá-lo com a afirmativa que o que ele tem de melhor – e o que salva nossa amizade – é a companheira que a vida lhe trouxe, Cristina, para quem reservei um cantinho nessa memória também.

João Virgilino (um perfil imaginado)

Ele era a demonstração viva de que as coisas podem acontecer, na vida, exatamente ao contrário do que delas se esperaria. Nascera pobre, num fundão do vale do Mucuri ou Jequitinhonha; aprendeu a ler sozinho e ainda ajudou irmãos mais novos e mais velhos a trafegar nas primeiras letras. Saltar tantos obstáculos, tendo tão pouca saúde e sendo mesmo obrigado a se internar com frequência, para esvaziar a barriga do acúmulo de água. Afetado que era pela xistose.  Um professor da Faculdade de Medicina, natural da terra, conhecia seu caso, prestando atenção, inicialmente, mais nas suas varizes esofágicas do que no seu talento levou o rapaz para o hospital da Faculdade, na capital. Sua curiosidade e conhecimentos logo chamaram a atenção de alguns, que passaram a lhe dar atenção especial, lhe fornecendo livros e acendendo a chama do vestibular, o qual, ele decidiu, seria para ser médico. E foi em frente, começou a faculdade ainda internado na enfermaria. Agora era residente. Até onde sei de sua vida, voltou para sua cidade, Teófilo Ottoni, e ali clinicou e se transformou em doutor muito respeitado. Convivi com ele apenas de passagem nos corredores do Hospital das Clínicas da UFMG, eu estudante e ele em ano mais à frente. Mas foi o bastante para me marcar.

Jorge Machado Guimarães

Meu ex-cunhado, com quem tenho convivência geograficamente distante, mas sempre íntima e calorosa. Já nos visitamos diversas vezes, seja em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e mesmo na minha antiga casa Moinho, reencontros abrilhantados, nos últimos anos pela presença de Fafá, pessoa lindamente especial e altamente sintonizada com tal companheiro. E a cada vez a conversa é retomada como se tivesse sido interrompida apenas na véspera. Jorge, para mim, tem o valor de um grande amigo, mas acima de tudo de pessoa que dispõe – e empresta a quem com ele convive um astral extraordinário. Falo por mim e por meus três filhos, seus sobrinhos, todos eles fãs incondicionais daquele a que chamam carinhosamente de Tibas – apelido que, aliás, fui eu quem inventei para ele. Salve Jorge!

José de Oliveira Campos

Foi meu professor de Clínica Médica, no quarto ano. Na verdade, já havia prestado atenção nele antes, quando eu ia almoçar na casa de minha avó Dodora e o tinha como co-passageiro no ônibus Serra. Dez anos mais velho do que eu, muito sério e mesmo sisudo, sempre de paletó e gravata. Mas viajando de ônibus. Dele, o que se dizia é que era um dos caras mais brilhantes de sua área, egresso de uma formação pós-graduada em universidade do Estados Unidos e talvez pouco à vontade com o ambiente meio frouxo que imperava em seu entorno no HC. Quando fui seu aluno não só confirmei como expandi meu bom conceito sobre ele. Sob sua tutela, na residência médica, esta visão só cresceu. Sempre teve como particularidade o fato de ser capaz de discutir a última descoberta de medicina molecular divulgada pelo New England Journal of Medicine e com igual ênfase e propriedade o Livro dos Espíritos, de Alan Kardek. No início dos anos oitenta, eu e alguns companheiros da UFU, que também haviam sido alunos dele na UFMG, soubemos que havia se transferido para a Universidade de Brasília e que não estaria satisfeito com as coisas por lá e assim nos bateu a esperança de que conseguiríamos cooptá-lo para vir trabalhar na UFU. E não é que conseguimos? Shilene sua esposa é uma grande médium e líder espírita em Uberlândia e o casal criou e fez prosperar uma obra social de amparo a crianças e gestantes, de primeira grandeza na cidade.

José Drummond de Andrade

Não. O irmão de Carlos não era o mesmo personagem do poema E agora José. Ele havia morado por algum tempo casa de meu avô (e seu irmão) Altivo, mas imediatamente depois da morte deste, em 1961, voltou à vida de ermitão que sempre levara, num hotel de segunda categoria em BH (antes vivera no melhor estabelecimento da cidade, o Brasil Palace). Meu tio Virgílio, o guardião da família, foi avisado que Zezé havia sofrido um infarto, levou-o ao hospital e assim, fui intimado a participar de um mutirão familiar de acompanhamento a ele. Pude passar algumas noites ao lado dele, mas então, o sujeito comunicativo que eu conhecera já não era o mesmo, inteiramente dominado pela dor ou dopado pelos medicamentos. Uma noite, na cama ao lado, ouvi seu grito e me levantei imediatamente, a tempo de amparar seu corpo, que se erguera penosamente do leito. Ele tinha as mãos contraídas no lado esquerdo do peito e seu olhar já anunciava o pior. Com um grito de dor encerrou sua existência – em minhas pobres mãos de segundanista de medicina… Nos seus dias de internação um dos mistérios de sua vida se esclareceu, graças às visitas frequentes de uma dama, de nome Aída Portugal, digna, nobre, perfumada, bem vestida, majestosa até – bem à altura daquele sujeito extraordinário, um homem que recusou seu amor transformado em mera prisão de dois, contrato entre bocejos e dois pares de chinelo,  como o retratou num poema (A Mesa) seu irmão Carlos

José Marcos Drummond de Andrade

Era o irmão mais novo de minha mãe (depois dele ainda nasceram duas mulheres, Maria Aparecida e Teresa), um desses tios inesquecíveis. Sempre tivemos com ele, nós sobrinhos, uma intimidade especial, bem correspondida. O apelido familiar que lhe demos era Sô Zé, e ele parecia se deliciar em ser chamado assim. Era o rei das piadas e dos chistes, que repetíamos sem parar, encantados com o privilégio de ter alguém como ele na família. Do ímpeto piadista de Sô Zé, lembro-me de uma história insólita. Corria o ano de 1956 (ou 57) e houve a famosa invasão da Hungria pelas tropas soviéticas. Zé Marcos nesta época servia o Exército e nós adorávamos vê-lo fardado, contando lorotas a respeito de uma guerra da qual ele iria participar. Um dia ele nos revelou onde seria a tal guerra: na Hungria. E nos pediu segredo sobre isso, porque por enquanto ainda era uma decisão que só os generais sabiam e ele havia descoberto, por acaso. E nós, que por influência de família temíamos o comunismo, já tínhamos tomado partido na contenda, a favor dos húngaros, claro. E fomos indagar dele ao lado de quem o Brasil entraria na guerra. E a resposta que deu para nós foi terrível: ao lado dos russos, claro; precisamos dar uma surra naqueles hungarianos… A brincadeira não tinha fundo ideológico, certamente, mas fazia parte de seu eterno espírito de nos armar peças. Vovô Altivo, que escutou a conversa, logo veio nos acalmar a respeito daquilo, restabelecendo a verdade.

José Olympio de Freitas Azevedo

Quando cheguei em Uberlândia, caí nas graças dos alunos, que me indicaram, embora informalmente, como candidato deles para a direção da Escola de Medicina. Chegou então aos meus ouvidos, dias depois, que um dos fundadores, José Olympio, que havia se afastado do dia a dia acadêmico por desavenças internas, compareceu à tal reunião em que meu nome foi apresentado. E ele não deixou por menos: quem é esse sujeito que eu nem conheço que vocês já querem indicar para diretor, assim sem mais nem menos? Um de seus adversários, presente, não perdeu a oportunidade de ironizar, criticando-o por ter se afastado das atividades docentes e que, por isso mesmo, nem mesmo saber quem era o jovem professor que os alunos tanto apreciavam.  Tudo teria ficado por isso mesmo, até que um dia J. O. em pessoa me liga, propondo conversarmos, na verdade querendo me pedir desculpas – e eu não conseguia saber exatamente por que. E veio, com cortesia e humildade, admitindo que cometera um erro, mas que tivera informações sobre a minha pessoa. Sei valorizar quem sabe pedir desculpas. Nem sempre tivemos sintonia ideológica. J. O. era simpatizante do velho Partidão, filho de um político pelo mesmo partido na Constituinte de 1946, muito aberto a alianças heterodoxas, mesmo com os inimigos de ontem, se a causa fosse justa. Mas o fato é que entre nós sempre prevaleceu uma relação de amizade e muito respeito. Lamento muito as últimas notícias que tive de José Olympio, preso ao mundo escuro e sem comunicação da Doença de Alzheimer.

José Virgilio Mineiro

Convivi com ele na Escola de Medicina da UFU, em Uberlândia. Tinha o dobro da minha idade, mas mesmo assim muito amigo, em profunda sintonia comigo. Nos anos 70 foi visitar um filho, também médico, que morava nos Estados Unidos e aproveitou para fazer um check-up, quando lhe foi diagnosticado um câncer no intestino. Dentro do proverbial pragmatismo norte-americano, o filho recomendou-lhe cirurgia radical, executada sem maiores delongas, deixando-o colostomizado. De volta à casa, sem maiores garantias de cura, resolveu tomar iniciativas em relação à vida: reformou a casa, construiu um enorme viveiro para colibris, adquiriu equipamento fotográfico de última geração e começou a fotografar aves, paisagens, árvores e pessoas, ganhando sucessivos concursos de fotos artísticas. Poderia ser chamado de “doente” alguém assim? Meu lema a partir de então: ter saúde é ter projetos.

Juca Goulart

O Juca, boticário aposentado, não era exatamente meu tio, mas é como se fosse. Primo em primeiro grau de meu avô Ieieca, faleceu com quase 100 anos, mas ainda prenhe de lucidez e muita sabedoria. Era mineiro de Pains e chegou em Brasília naquela fase da vida em que as pessoas já estão se aposentando, depois de décadas de trabalho, quando vem um certo enfaro dos compromissos e dos horários. É que raiou no Planalto Central a luz da nova capital e ele, graças também ao empenho iluminista e empreendedor de sua Maria do Juca, não resistiu a tal novidade. Chamar o Juca, em minha infância, não tinha nenhuma conotação fisiológica. O Juca sempre acorria, com seu jeito calmo e bondoso, trazendo seu apoio, um afago para nós, pequenos, além das apreciadas caixinhas de sua farmácia, naquele tempo feitas de papelão grosso e armado, muito jeitosas. Durante os anos noventa, pratiquei com constância o hábito de chamar o Juca, visitando-o em sua casa na SHIS 713 e tomando com ele um dedinho de cachaça de Pains, além de usufruir da boa prosa que ele cultivava com simpatia e sabedoria. Ainda hoje, passados tantos anos, convoco-o, sempre que posso, a me servir de modelo para a velhice e me passar sua lição de beirar um século de existência sem perder a dignidade de um cidadão que ao mesmo tempo é de Pains, de Brasília e do Mundo.

Juscelino Kubistchek

Um dia, no final de 1971, quando já nos preparávamos para encerrar as atividades acadêmicas, estávamos um grupo de colegas na porta da Faculdade de Medicina, quando um grupo de senhores sai pela porta principal, alguns deles, velhos professores da faculdade. De repente, um desses homens se adianta aos demais e nos abarca com um abraço imenso, alcançando três ou quatro de nós de uma só vez. E nos dirige a palavra, mostrando no rosto um sorriso que de algum lugar já conhecíamos: então, moçada, será que esta faculdade é tão boa como era no meu tempo? Percebemos, encantados, que quem estava ali era uma pessoa muito especial: ele mesmo, o JK, que visitava a velha escola onde se formara, mais de 40 anos antes. Custamos a encontrar o que dizer. Eu e um outro colega nos antecipamos aos demais, mas a surpresa e a emoção não nos permitiram formular frases muito inteligentes. Estava totalmente fora de circulação agora, constrangido pelos militares, mas quando aparecia em público, era imediatamente reconhecido e honrado.

Karsten Montag

Este aí é um alemão, de quem me tornei amigo. Brasileiramente, acima de tudo, devo admitir que esta amizade tem me enriquecido muito, me tornando cada dia mais culto e informado, sabendo até mesmo apreciar com menos preconceito este pobre país em que nos é dado viver. Mas como a vida dá voltas, Herr Montag cancelou os planos de permanência no Brasil e retornou à Europa em 2018. Um ano depois pude isita-lo, naquele momento em solidão completa, já que sua companheira Sylvia havia retornado à Alemanha. Ali estava ele, em um camping totalmente selvagem na Praia do Amado, Vila do Bispo, Algarve, Portugal. Recentemente ele volta ao Brasil e nossa convivência de novo aconteceu, para minha alegria.

Lauro Goulart

Este era meu tio paterno. Tinha um coração de tamanho diretamente proporcional à sua intempestividade. Certo dia, por exemplo, ao presenciar um carro de um estranho se incendiando à sua frente, desceu imediatamente do seu veículo, tirou o paletó e abafou as chamas. E ele ia para um casamento. Devo a ele, entre outras finuras – e alguns espalhos também – o empréstimo semanal compulsório de um velho Pontiac dos anos cinquenta, semiautomático, carinhosamente apelidado de boi-velho, pelo seu tamanho e lerdeza. Com tal bólido íamos eu e minha namorada Eliane vagar ad hoc, durante o final de semana belorizontino – melhor impossível! E quando por acaso eu não aparecia para buscar a viatura ele me instava para que o fizesse sempre.

Lindioneza Adriano Ribeiro

Minha aluna no curso de Medicina de Uberlândia, nos anos oitenta. Vinha do norte de Goiás, depois Tocantins. Moça pobre, tinha tudo para não chegar a uma universidade pública, como chegou, de maneira brilhante. Trabalhou, na juventude, como doméstica e babá, enquanto estudava. Conquistou-me, especialmente, pelo interesse que tinha naquilo que era a minha nova opção profissional, a saúde pública, embora seu real interesse estivesse em área próxima, a clínica dita “tropical”, um avatar certamente relacionado às suas origens rurais. Fez pós-graduação no Instituto Butantã, com tese de doutorado no tema dos acidentes ofídicos. Quando obtive minha transferência da UFU para a UnB, ela prestou concurso e assumiu a vaga deixada por mim, o que me honrou muito. Na maturidade revelou outra faceta de seu enorme talento: resolveu se dedicar à natação e não foram poucas as medalhas que recebeu na categoria sênior. Talvez tenha atravessado a braçadas, muitas vezes, o seu rio Tocantins atávico. Em 2009 a indesejada das gentes a levou, com parcos cinquenta anos de idade. Como dizia Brecht existem pessoas boas, ótimas e imprescindíveis. Lindioneza fazia parte deste último grupo, com certeza. Saudades.

Lucia Foscarini

Será que não havia também mulheres notáveis na Faculdade de Medicina da UFMG? A primeira conclusão que se pode ter é que a faculdade talvez fosse ainda mais machista que a medicina, naquela época. De fato, eram poucas mulheres médicas e menos ainda docentes universitárias na área. Mas para não ser injusto, quero registrar a presença de pelo menos uma delas: Lucia Foscarini. Ela se tornou nossa amiga, vindo a ser madrinha de minha filha Daniela, algum tempo depois. Lucia era uma pessoa tímida e discreta. Estudiosa como quê! Os amigos brincávamos com ela que a única coisa em que ela não se destacara foi no exame de motorista, tendo tentado o mesmo diversas vezes, sem sucesso. Seu conhecimento clínico era fabuloso. Nossos contatos ocorreram na residência médica, mais precisamente na UTI do quarto andar do HC, onde ela sempre nos surpreendia e encantava com seu conhecimento. Tudo sem alarde, dando sempre ao residente a impressão de que era ele – e não ela – que havia dado a resposta certa ao dilema clínico do momento.

Lucineia Moreli Machado

Uma moça interiorana, tímida e de conversação restrita ao essencial, com uma beleza misteriosa, meio que mediterrânea, misturando, quem sabe, linhas árabes e italianas. A solidão sempre foi má conselheira para mim e quando eu vi já estava armando o laço para ela, minha coleguinha de disciplina de doutorado na UnB. Bem que ela tentou me evitar. Foram alguns meses de labuta para convencê-la até que deu certo. Assim aproveitamos a vida, em viagens, sessões de cinema, jantares, caminhadas. Papos repletos de lugares comuns, de minha parte e da dela. Ideologicamente divergíamos, como era meu costume, ela acreditando em chavões partidários, eu na minha habitual postura gauche, desconfiando das ideologias, dos partidos e, principalmente, dos militantes. Ela, a caminho dos quarenta, queria um filho; eu, com mais de cinquenta e três filhos criados, não. Foram dois anos de encontros e desencontros. No meio deles, uma nova gravidez, agora aceita por mim, com entusiasmo, por sinal. Um convite para trabalhar e morar em outra cidade acabou por nos aproximar, pois experimentamos coabitar, perto da morada de sua família, com maiores facilidades para acompanhamento da gravidez que já ia avançada. Não foi um amor exemplar, mas o resto não interessa. O que sei é que estou ligado a ela pelo resto de minha vida, por ter me dado o grande presente que ilumina minha velhice, os dois filhos mais novos que tanto amo!

Luiz Carlos Prata

Luiz foi secretário de saúde em Manhuaçu, em diversas gestões, tendo sido meu companheiro de lutas quando eu tive o mesmo cargo em Uberlândia. Entre outras qualidades, era um entusiasta da participação social, me dando a oportunidade participar de pelo menos duas conferências municipais de saúde em sua cidade.  Tarefa difícil, não pelo conteúdo da argumentação em si, que eu trazia na ponta da língua e no âmago da alma, mas pela necessidade de tentar trazer algo ainda mais interessante do que a realidade que aquelas pessoas já viviam em seu dia a dia. Tivemos e a inda temos – um pelo outro – grande admiração e amizade. Sua estatura moral: nos anos noventa, quando já tinha criado e praticamente feito a vida seus seis filhos, adotou mais três, órfãos de um irmão e sua mulher, mortos tragicamente num acidente na famigerada BR-262. Luiz e sua mulher Bia poderiam ter transferido o caso para a Justiça, mas não o fizeram. Na ocasião da adoção passei por Manhuaçu e os visitei. O quarto dos recém-chegados mais parecia aquele de Branca de Neve e seus amigos anões: caminhas enfileiradas para abrigar os três adotados e mais uma para a babá.

Luiz Siqueira Filho

Luizinho, um sujeito muito querido por todos ao seu redor. Uberlandense, miúdo, cabelinho cortado rente, olhos vivos e orelhas em abano, sempre preparadas, ao que parecia, para captar o mundo a sua volta. Filho de família modesta, via-se, por seus trajes, fala e hábitos. A vida universitária devia representar um sacrifício material razoável para ele e para os seus. Apareceu também, do nada, para me acompanhar no atendimento, independentemente de qualquer vínculo que não fosse o de colaborar e aprender. Não era um intelectual da medicina, mas o que realmente importasse ao diagnóstico e tratamento de doenças era com ele mesmo. Sabia de tudo! E tinha uma maneira especial de interagir com os pacientes, que viam nele mais do que um doutor, um igual, sem deixar de respeitá-lo e escolhê-lo, entre tantos. Fez concurso na Medicina da UFU e se transformou em professor, na área de Semiologia. Tão poucas palavras talvez não façam justiça a este pequeno grande homem. Mas ele vive na minha memória afetiva e certamente naquela de muitos mais que com ele interagiram e usufruíram de seus conhecimentos, seja como pacientes ou como alunos.

Luiza de Paiva Silva

De uma memória antiga, com sede em Londrina, no Paraná: procuramos um canto mais afastado, uma espécie de jardim interno, ara que a conversa não fosse perturbada pelo ambiente ruidoso. Não havia qualquer intenção de pecado nisso. O maravilhamento era total e nossos olhos estavam postos uns nos outros, sem outra querência que não fosse a de captar cada palavra, cada gesto, cada piscadela ou arregalo, cada sorriso. Encantamento! Eis que encontro a palavra que descreve aquela mágica da qual éramos personagens felizes e assustados. O destino quis que o desfecho dessa história se desse apenas dez anos depois. Mas seus ecos ainda se fazem sentir no momento em que escrevo estas linhas, passados mais de trinta anos daquela jornada extraordinária em Londrina.

Marcos Goulart

Este aí é irmão de meu avô paterno, José Goulart Neto, o Ieieca. História que bem ilustra a verve cômica dele se deu quedo ele foi nos visitar em BH, diante da escultura de bronze de uma mulher nua, voluptuosa, enorme, frente ao antigo Cassino da Pampulha, exclamou espantado: mas parece a muié do Aniba… A Zica, sua esposa, o fulminou com um o olhar que parecia indagar de onde vinha tanta intimidade. E nós rimos a valer com a cena, tanto com seu brilho nos olhos ao dizê-lo como pela cara marota que fez quando foi reprimido pela companheira. Morreu pobre como viveu, mas levando a vida com muita graça, dono de um pequeno lote onde planava d egudo que ele tratava como um latifúndio e a ele se referia como Fazenda. Sobraram, depois dele, em Pains, mais uns três ou quatro parentes do ramo Goulart, que desapareceram, um após o outro, nos anos seguintes. Se há um lugar que merece, também, o epíteto drummondiano relativo a um doloroso retrato na parede, este lugar, para mim, é Pains, o berço dos Paim-Goulart.

Maria Helena Brandão Oliveira

Já falei aqui da minha amizade e devoção á uma figura verdadeiramente paterna para mim, Dr. José Garcia Brandão, de Patrocínio. E também do que ele me dizia de sua filha, que morava na época em BH: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você… Algum tempo depois de fato a conheci, mais precisamente em 1980, quando ela e seu marido vieram morar em Uberlândia e ela acabou por trabalhar junto comigo na Diretoria Regional de Saúde, o que me abriu novos horizontes, pois eu estava recém-chegado de um curso de especialização em planejamento de saúde, na Fiocruz, e já percebia que minha vida de burocrata não seria a mesma, depois de ter sido apresentado a tantas novidades no Rio de Janeiro. Foi assim que começamos freneticamente a pensar coisas novas, muitas delas, realmente impraticáveis, pois estávamos dentro de uma estrutura muito conservadora e rígida. Mas se ter saúde é ter projetos, o problema é que estávamos, ambos, quase que adoecidos de tantos projetos. Realizamos, talvez, menos da metade deles, mas valeu a pena. Mas não é só isso. Devo dizer também que ela foi a pessoa mais coerente que conheci, mesmo que isso às vezes incomodasse a a quem lhe estivesse próximo, e também a mais generosa e disposta a fazer junto, que é uma expressão que ela muito apreciava. Dr. Brandão estava certo, mas eu acrescentaria: pude também pensar com ela muitas coisas. A Indesejada a levou consigo em 2021, abatendo-a em pleno voo, com toda sua inteligência e capacidade. Mas ficaram muitas lembranças.

Mauro Marcio de Oliveira

Mauro é um dos meus amigos mais antigos (mais de seis décadas!) ao lado de Erix Mafra e Eduardo Guerra (ambos já referidos aqui, com honras). Ele começou a estudar engenharia em Belo Horizonte, na velha faculdade da UFMG na rua dos Guaicurus, mas logo viu que sua praia era outra, a Agronomia que ele acabou cursando na tradicional faculdade de Viçosa. Ele, que de roça quase não conhecia nada, aí já demonstrava um pouco de sua ousadia intelectual e existencial. Passamos a morar em cidades diferentes, o que se manteve após sua formatura, quando ele foi trabalhar na Bahia – mas nunca deixamos de ser amigos, mantendo, aliás, uma frequente e produtiva correspondência. Sim, cartas! Não é demais lembrar que não existia internet. Mais tarde, mas bem antes de mim, Mauro mudou-se para Brasília, onde eu passei a hama-lo com frequência, retomando o antigo fluxo da amizade. Entrementes, casou-se com Maria de Nazaré, dama de notável baianidade, de quem me fiz amigo desde o princípio. Erix, com quem fazíamos trinca constante nos anos 60, continua em BH e nos vemos mais esporadicamente. Mas quando nos encontramos, os três, é bem fácil retomarmos papos interrompidos em alguma noite e em algum botequim do circuito da Barroca –Nova Suíça, em BH

Melicégenes Ribeiro Ambrósio

Melicégenes – “gerado no mel” – é uma doçura de pessoa. Médico e pediatra pela USP, em Ribeirão Preto, ao contrário de outros egressos de lá que conhecíamos, tal fato não alterou em nada seu jeito simples, humano e gentilíssimo de tratar as pessoas, fossem colegas, alunos ou pacientes. Tive oportunidade de entregar aos cuidados dele um dos meus filhos, Flavinho, e era confortador assistir sua dedicação e sua parcimônia terapêutica, além de seu talento educativo em relação às famílias das crianças que atendia. Uma rara unanimidade se criou em torno dele na Escola de Medicina da UFU – da variedade do bem! Devo a ele uma fineza especial: quando me separei de Eliane, ele me procurou para saber o que se passava e me deu muitos conselhos (que não atendi…), mas demonstrou assim a intensidade do carinho que dedicava a mim. Para fazer justiça, apenas, outro colega também fez isso – e só ele mais – Samoel de Castro. Melicégenes era sempre homenageado pelas turmas de medicina. De certa feita lhe deram a comenda de “Cruz de Mérito”, que certamente traduzia uma contradição, entre uma matéria que não era apreciada, em definitivo, pelos alunos, e o mestre encantador que a ministrava.

Michele Lessa de Oliveira

Formada em Nutrição na UnB, foi minha monitora em uma das disciplinas da Saúde Coletiva. Curiosa, atenta, dedicada, solidária – para resumir suas variadas qualidades – e muito inteligente também, dotada que era de capacidade incrível de adivinhar meus pensamentos. Ao seu lado um companheiro ideal e tanto: Jorge Oliveira, igualmente solidário e amigo, que ela não titubeava em envolver em suas atividades de monitora, com o que ele aquiescia prontamente. Nos anos 90 me ajudou a realizar a primeira pesquisa sobre a situação de saúde no Entorno do DF, com financiamento da OPAS. Algumas dessas viagens fizemos juntos, mas a maioria foi ela mesmo quem fez, de ônibus ou com a ajuda inestimável do “seu” Jorge. Ajudou-me, também, em horas vagas em muitos outros projetos, até mesmo pessoais. Mas não é só: Michele fez e ainda faz uma carreira brilhante como profissional de nutrição, exercendo cargos na OPAS, na Presidência da República, bem como nos Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social. Agraciada recentemente com menção honrosa da UnB para seus alunos que se distinguiram na sociedade extra acadêmica. Esta moça é a prova viva das palavras de Guimarães Rosa: mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. E como eu aprendi e ainda aprendo com esta moça; salve ela!

Nelson Rodrigues dos Santos

Estávamos todos, ainda jovens e cheios de ilusões – benfazejas ilusões! – na oitava Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, em 1986. Naquele tempo nós, Secretários Municipais de Saúde, ele em Campinas e eu em Uberlândia, ainda não nos conhecíamos, como agora. Ele capitaneou, na ocasião, uma reunião informal, nas arquibancadas, que apesar de sua singeleza e informalidade representou o marco inaugural do movimento municipalista de saúde no Brasil, do qual tive o orgulho de participar. Entre tantas qualidades desse proverbial Nelsão, um termo que mais parece mais preciso, mas também mais abrangente: generosidade, em todos os sentidos possíveis: generosidade política, intelectual, moral, pessoal. Enquanto muitos naqueles anos pesados se refugiaram na crítica necessária, mas cômoda, no seio das academias, Nelsão não. Ele foi à luta. Aceitou cargos em Campinas, no governo estadual de São Paulo e no Ministério da Saúde. Não o fez em nome de projetos pessoais ou de grupos políticos, mas sim como prática de sua generosidade intrínseca.

Oswaldo Costa

Este meu professor de Dermatologia dava aulas imperdíveis e impagáveis, que só encontraram um correspondente, para mim, nas famosas “aulas-espetáculo” de Ariano Suassuna. Contava histórias incríveis sobre a medicina e tudo mais, em uma verve inesgotável. Goleiro do Atlético Mineiro, nos anos 30, conhecido pela alcunha de Perigoso, era reserva e teve que assumir o posto, de forma inesperada, contra o Flamengo, em um jogo no Rio. Neste momento, fechou o gol; no segundo jogo, no qual se decidiria o título, simplesmente aconteceu-lhe algo estranho e inexplicável: ele simplesmente deixou passar dez bolas. Eram famosos seus “shows dermatológicos”, nos quais ele, acompanhado de alunos, nas calçadas que separavam o prédio da Faculdade de Medicina, da Santa Casa, se propunha e alcançava o desafio de diagnosticar algumas dezenas de condições dermatológicas entre os transeuntes no percurso, meio na contramão de boas práticas éticas. Mas de toda forma foi uma persona inesquecível para mim e meus colegas.

Pedro Donati do Prado

Pedro quase virou padre, depois estudou medicina e saiu das montanhas do Sul de MG para os planaltos do Triângulo Mineiro, mais especificamente em Gurinhatã. Uma das histórias dele:  Certo dia conseguiu que um grupo de usuários, associado a pessoas que participavam de uma das Comunidades Eclesiais, acedesse em participar de reunião em que também estariam presentes hansenianos e respectivas famílias. Então, aceitando correr os riscos culturais, mas não os biológicos, por inexistentes, tomou um dos pacientes pelas mãos e o conduziu à linha de frente da reunião. Ali, à maneira de um Cristo, beijou-lhe as faces e as mãos, sabendo que isso poderia, finalmente, desfazer perante as pessoas presentes e através delas ao restante da comunidade, o equívoco das crenças sobre o contágio da lepra. Pedro ficou em Gurinhatã por muitos anos. Virou prefeito, como seria de se esperar – nada mais natural. Foi depois educar os filhos em Ituiutaba, o que também seria algo bastante legítimo, porém sem perder seu vínculo com a cidade, já em condições de abrigar outros médicos permanentes.

Pedro Luiz Tauil

Em meados dos anos 60, logo no meu primeiro ano na Faculdade de Medicina da UFMG, li em uma revista médica a narrativa de alguns jovens médicos formados pela USP que haviam optado por imergir na realidade do Brasil profundo, em Porto Nacional, então Goiás, hoje Tocantins, cidade pequena, remota e acima de tudo, pobre e inculta. Ali se incorporaram ao hospital já existente da extinta Fundação SESP e começaram a lida, onde faziam de tudo, para todas as idades e condições. Em pouco tempo já tinham se articulado com a comunidade, participando de reuniões, cursos, treinamentos, visitas domiciliares e atendimento, tanto na zona urbana como rural, até então não assistida, em uma integração vivencial robusta, embora com dificuldades intensas, entre elas as dificuldades de aceitação pelos próprios médicos que lá estavam, a desconfiança dos políticos, a cultura vigente em relação à saúde e ao trabalho em equipe etc. Eu fiquei encantado, embasbacado com aquilo. Pensava: queria algo assim em minha vida profissional, mas não consegui de imediato. Só posso dizer o seguinte, para resumir a admiração que tenho por Pedro Tauil, um dos jovens daquela turma ousada: muito obrigado ao cientista, ao pesquisador, ao professor, ao gestor e, principalmente ao grande amigo que hoje tenho ao meu lado, depois de compartilhar com ele os corredores da Universidade de Brasília.

Meu tio Ricardo

Ester meu tio repetiu a saga de José Drummond de Andrade, ou seja, por alguma razão, talvez por não desejar repetir sobre a terra o que a terra engolirá, também não se casou, sem que isso significasse castidade ou celibato definitivos – aspectos todavia não declarados ao público em geral. Viveu uma vida de funcionário público modesto, depois de uma carreira interrompida no Banco do Brasil, morando sempre em quartos de hotéis. Esteve em muitos lugares, do interior de Minas à Amazônia, com muitas experiências de vida e de trabalho. Superou um alcoolismo extremo e disso se orgulhou, nos mais de trinta anos que sobreviveu longe do vício, disso dizia, como a arrematar suas desventuras com o álcool: agora só bebo guaraná. Depois de aposentado retornou a Itabira, de onde esteve ausente por muitas décadas, lá encontrando velhos amigos, que inclusive voltaram a hama-lo pelo apelido de infância: Bizodô, ao que consta o nome de um xarope da época. Tentei encontrar o exato significado disso, mas não houve Google ou Yahoo que me ajudasse…

Roberto Santos Andrade, meu Tio e Compadre

Lembrança mais recente de tal patriarca, em seu refúgio nos altiplanos do Fama, entre o Jequitinhonha e o Mucuri: uma vitalidade custava a ceder, parecia não se abalar com o fumo e as muitas cachacinhas. Aos seus pés, um cafezal a perder de vista, mais dois milhões de pés. Toda a tecnologia da agroindústria capitalista presente. Dava gosto vê-lo discorrer sobre os micronutrientes e as tecnologias israelenses de irrigação minimalista. Parecia até que já nascera naquele meio. À noite, as conversas iniciadas na minha juventude, na varanda da Fazenda das Areias, ainda mostravam inesgotável fôlego. Dormia mal e mal, às vezes em um banco de madeira, mas mesmo assim já amanhecia com profunda disposição para retomar a conversa, com a devida vênia para suas discordâncias relativas às tecnologias médicas. Sujeito opinioso! Frase sua, dedicada a alguns amigos, que guardei: não lhe devo obrigações, apenas finezas. De meu Tio Roberto Andrade o que posso dizer é algo semelhante. Cumulou-me de finezas por toda a vida.

Rosani Cunha

Inesquecível pessoa. Eu a conheci nos anos 90, quando trabalhei no Ministério da Saúde, em interação com os estados. Ela em MG, eu em Brasília. Veio depois para Brasília, fez carreira ascendente e virou coordenadora do Bolsa Família; mais do que isso uma das pessoas que participou da ampliação e do aperfeiçoamento do programa. Em 2009, no auge de sua atuação no MDS, já como uma das Secretárias Nacionais da pasta, ela que nunca descansava, aproveitou uma viagem de representação na Argentina para fazer um tour de lazer pelo interior do país. E ali, num fim de tarde fatídico, talvez pela ofuscação pelo sol que se punha no Pampa, o carro onde estava se desgoverna e Rosani, atirada para fora do veículo, nos deixa para sempre, para tristeza minha e de muitos mais. Pequena grande mulher! Tivéssemos meia dúzia como ela, seria possível mudar não um gabinete, uma repartição ou um programa, mas todo um país.

Saulo da Matta Viana Barbosa

Ele fez comigo a quarta série e mais algum outro ano, qual, exatamente, não me lembro mais. E há uma razão muito simples para tanto: ficamos amigos na ocasião e, mais do que isso, voltamos a nos encontrar em Brasília, muito tempo depois, reatando a velha amizade da juventude. Além disso, éramos relativamente vizinhos, ambos habitando o vasto e emblemático território da Barroca, em BH. Isso nos possibilitava voltarmos juntos das aulas, caminhando, apesar da longa distância e em pleno sol de meio dia, bem uns 4 km entre o Santo Antônio, onde ficava o Colégio e o nosso território da Barroca. Eu o revi quando vim para Brasília, nos anos 90 e com ele retomei aquela bela amizade antiga. que me trouxe, entre outras coisas, alguma compensação para um sentimento de falta, relativo a ter pedido de vista quase todos os meus amigos de juventude. Tivemos, durante alguns anos, boas tertúlias e almoços mensais no Beirute, com outros amigos comuns. O Parkinson nos roubou de tal convívio e há cerca de dois anos ele foi embora de vez.

Sérgio Machado Guimarães

Sérgio é irmão de Eliane, com quem fui casado por quase 20 anos. Ele já era na infância e na adolescência e, aliás, continua sendo, o que poderia ser chamado de um curioso profissional, que se interessava por tudo, da psicologia individual aos grandes problemas do mundo. Tinha desde a infância ideias de esquerda, sendo radical nos seus conceitos de igualdade e de democracia. Mesmo me contestando, por vezes, nossa conversa sempre rolava em regime de total sintonia e respeito. Aliás, se há uma lembrança preciosa daqueles tempos era a do respeito que ele tinha pelo meu conhecimento, coisa que nem sempre recebi por parte de meus alunos de verdade. Sérgio acumula hoje, já com mais de 50 anos de idade, as qualidades de dentista do SUS (convictamente favorável ao serviço público) e grande especialista em História, particularmente no que diz respeito à Guerra do Paraguai.

Simone Ardenghi Coelho

Ela era dentista e foi minha aluna no curso de pós-graduação em Odontologia Social coordenado pelo meu amigo Carlo Zanetti. Junta muitas qualidades e mais uma: a maturidade profissional que trazia desde o primeiro momento que nos conhecemos. De forma voluntária me ajudou de forma imensa e desinteressada em várias atividades de consultoria com que estive envolvido. Sempre atenta e altamente especializada em captar rapidamente o que eu estava pensando. Estava ligada ao quadro de uma repartição pública federal em Brasília e, como fruto de sua formação em odontologia social, levou a cabo uma investigação sobre o modus operandi dos serviços odontológicos terceirizados que ali eram prestados. Revelou-se um caso clássico de roubalheira e mistura do interesse público com o privado. Sofreu ameaças diversas e acabou se mudando de Brasília, pedindo remanejamento para a cidade para onde o marido também estava sendo transferido. Perdi o contato com ela, até que, indiretamente, em procura na internet, descobri que Paulo, seu companheiro de vida, era agora credor de um auxílio funeral ou pensão, pois Simone havia falecido. Nunca soube o que aconteceu de verdade, embora tenha tentando descobrir. Certa vez, em visita à casa de uma pessoa da família, no interior do Rio Grande do Sul, prestes a ser demolida, ela resgatou do porão da moradia um velho tratado de medicina familiar, ilustrado e muito bem conservado, que me deu de presente e o qual guardo comigo com todo cuidado. Assim era ela. Viva Simone!

Sonia Terra

Eu a conheci nos anos 80, quando era secretário municipal de saúde em Uberlândia, tentando buscar, no Ministério da Saúde, não tanto recurso, mas apoio técnico e simbólico. E me dei com ela, técnica e afetuosa, disposta a colaborar! Ao longo do tempo tive muitos outros aprendizados com ela. No Ministério da Saúde, no Conasems, na OPAS e, principalmente, na vida. Seis meses por ano ela estava no Quebec, mas ao chegar aqui sempre tinha uma palavra de amizade, confiança e transmissão de conhecimento para os muitos amigos, como eu, que com ela conviveram. Procurando uma palavra, um termo que a pudesse definir, encontrei a seguinte imagem. Sonia Terra, nos anos noventa trabalhava na OPAS e ao ser solicitada para nos apoiar no Ministério da Saúde, em busca de aperfeiçoamento dos instrumentos burocráticos de que dispúnhamos, não deixou por menos: “que tal se vocês pudessem pensar no futuro? Acho que no futuro do SUS isso não mais existirá…”. Dito e feito! Nem sempre foi possível acompanhá-la em sua máquina do tempo. Mas como disse Brecht: ela formulou projetos, nós os seguimos (ou tentamos, digo eu); um epitáfio assim, nos honra a todos.

Virgílio Santos Andrade

Meu tio materno, um dos grandes influenciadores que tive na vida, tanto em termos intelectuais como humanos, simbólicos. Primogênito, como eu. Entre tantas lembranças dele, a importância que ele dava aos mais jovens, ou, pelo menos, a mim, que perto dele sempre me sentia adulto, valorizado, sem que isto significasse perda de ternura com a criança que eu era. Ele era um homem culto. Se meu avô Altivo tinha um “ar letrado de camponês”, como dele falou o irmão Carlos, Virgílio era letrado na essência e na aparência, um humanista e um polemista, acima de tudo, mas ao mesmo tempo uma pessoa simples. Uma marca de seu espírito: ainda nos anos 60, já residindo em BH deblaterava contra a “mordida” que as mineradoras produziam na Serra do Curral, como já o fizera antes com relação à Cia. Vale em sua (nossa) Itabira natal. Contestava assim, na família e também fora dela, algo que o senso-comum da época acreditava ser apenas parte da paisagem e preço razoável para o progresso. Quando meu irmão João Mauricio foi preso pela ditadura, Virgílio levantou-se contra o perigo e nos acudiu de pronto, movimentando influências para apurar a situação do preso e dar-lhe o apoio necessário.

Vitor Machado

Conheci Vitor em Uberlândia, vindo do interior de Goiás, onde trabalhava com um grupo médico ligado à Igreja Católica, sob a proteção de D. Tomaz Balduíno. Numa atitude natural, decorrente da posição militante do mentor do grupo, bem como da maioria de seus membros, aceitou o sacrifício de se candidatar a prefeito da pequena Itapuranga. Não ganhou e ainda foi perseguido. Estava em Uberlândia praticamente como um exilado, com a vantagem de estar próximo da família. Depois disso, em alguns anos ele retornou a Goiás, desta vez com destino a Ceres, ainda integrado no mesmo grupo de antes. Em torno do ano 2.000 nos reencontramos, eu na UnB e ele em Ceres. Já nas primeiras conversas levantei com ele a possibilidade de que nossos alunos do sexto ano de medicina fossem estagiar na cidade goiana. Daí à ação transcorreram poucos meses. Sucesso absoluto, com Vitor na liderança, muito bem acompanhado por algumas pessoas notáveis. O apoio da UnB sempre foi simbólico e inconstante, de maneira que os elogios devem ir, de fato e de direito, para este grupo de abnegados. Vindo mais tarde para Brasília, em2014 foi um dos homenageados principais, fato inédito na história do curso de Medicina, pelo seu trabalho com os alunos em Ceres. Voltando a mim, devo dizer que essa história de Ceres me é muito marcante e me abastece, mesmo passados tantos anos, a autoestima. Aliás, posso dizer que foi a melhor coisa – quase a única! – em que logrei obter real sucesso nos oito anos que passei como docente nas faculdades de Ciências da Saúde e Medicina da UnB.

Zaire Rezende

Este é um médico de Uberlândia, muito bem sucedido como obstetra e que depois de realizado e maduro resolveu entrar para a política local e ganhou uma eleição para prefeito. Partidário de uma esquerda católica, mas acima de tudo humanista e ética. Fui secretário municipal de saúde em seus dois governos e aprendi (e sofri) muito com isso, mas as lições que tive me foram essenciais para a vida, inclusive no contato direto com ele. Zaire resumido em uma única frase: um homem que não precisava de fazer força para ser bom. Ele foi sempre naturalmente bom, sem qualquer esforço ou demagogia, valendo isso para a família, para a política, para administração, para os amigos.

Zé Lapicho

Apelido de José Osmano ou simplesmente Seu Zé foi também uma figura que considero marcante em minha, vizinho e amigo, com quem convivi e aprendi muitas coisas, durante mais de 20 anos de convivência afetuosa e respeitosa, no povoado do Moinho, em Alto Paraiso. Sua história é especial: nascera e fora criado no sertão de Barreiras, na Bahia. Nunca conheceu pai e sua mãe era muito pobre, trabalhando como agregada na propriedade de uma família de posses da região. Ele, criança ainda, vivia como aderente de uma família de posses, sujeito a trabalhos pesados. Escola, nem pensar. De repente, a mãe morre e ele agora vai trabalhar junto à matrona da família, como uma espécie de criado doméstico, em uma situação que certamente se parecia muito com o que Monteiro Lobato narrou no seu pungente conto Negrinha. Faleceu em 2013, com idade ignorada, mas certamente passando bem dos noventa. Não pude levá-lo ao pequeno e tosco cemitério do Moinho e lamentei por isso. Mas Zé Lapicho, mesmo depois de morto, continuou presente: não posso me esquecer da cena, um mês depois de sua morte, em que eu e seu filho Expedito nos abraçamos e choramos, juntos, copiosamente aquela perda tão sentida. É isso aí: as perdas às vezes trazem ganhos dentro de si…

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