Desde há muito me interesso pelo Haikai, gênero de poema, ou quase isso, sem título, de origem japonesa, de estrutura curta, composto por uma tríade de frases que buscam captar instantes do cotidiano ou da natureza, tendo como foco temático e estrutural determinados parâmetros como concisão, sensorialidade e reflexão filosófica. Consultando a internet vejo que tal palavra representa uma combinação entre “hai” (brincadeira ou gracejo) e “kai” (harmonia, realização) e isso aí diz tudo sobre tal gênero. É bem isso que eu desejava em minha primeira e desastrada tentativa. Há mais informações, mas essas aí me bastam, por ora, pelo menos para admitir que andei praticando ousadias totalmente abusadas ao santo nome do haikai, sem consultar algo mais sério, como faço agora. Peço desculpas, mas apenas parciais, pois ainda assim exponho aqui os meus equívocos, que podem ser devidamente “apreciados” (e também apedrejados) em Haikais de Quintais – Vereda Saúde. Contudo, tentando não persistir no erro, lanço agora uma nova série, a que dei o título de VIDA, MORTE. E DEPOIS? por razões que logo serão esclarecidas aos leitores. No mais, vão desculpando qualquer coisinha.
Vida, Morte. E depois?
Tudo se repete outra vez?
Deus me poupe, ora pois
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Meus dias, na longitude,
Não há porque esconder,
São prenhes de finitude.
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Viver muito não desejo
A longevidade, um castigo
E além disso nada vejo.
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Ao envelhecer, não digo amém
Por mim anteciparia a tal hora
Antes morrer e morrer bem.
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A morte não me assusta
Já o ato de morrer, cruzes!
É o que realmente me custa.
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Chego a achar indecente
Alguém que à vida se agarre
Contra tudo, intensamente.
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A quem perdeu, por uma fresta,
Autonomia, vontade, desejo
Não se pergunta: o que resta?
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Hoje perco a autonomia
Amanhã o patrimônio. O que resta?
Apenas o Grande Dia.
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Eu e ninguém mais decida
A hora, o jeito, o lugar
Onde e como a partida.
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Dizem que no Oriente
Na hora de mais não-ser
Dizem certo, aceito, ciente.
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Desde agora me decreto:
Viver mais, ficar pra quê?
Sobre o momento? É secreto.
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Viver mais, viver muito, destarte,
Seja a vida curta e mais: apreciada,
Com tudo o que lhe faz parte.
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Em meus desgostos com a vida
Aceito que a morte venha
Mas seja eu quem decida.
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Falo da vida e da morte
Declaro por mim, mais ninguém
É questão de minha sorte.
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Vida é morte, é decadência
Não aprendi com os mortos
É dos vivos tal ciência.
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Falando de vida e de morte
Um homem sempre se engana
Também na riqueza e na sorte.
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Filhos de pais centenários
Herdarão tais anos em sobra
Ou não terão tal castigo?
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Mais de cem viveu meu pai
Mãe por pouco lá chegando
Não me caiba tal haikai.
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Família, família, família…
A bordo do Titanic
Ou náufragos em uma ilha?
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Sim, escapei, fugi
Não que me praza a família
Mas não tão perto, ali.
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Antes eu, sozinho, só
Do que mal acompanhado.
É tudo ou nada, sem dó.
***
É tudo ou nada, é a vez?
Longe de mim, entretanto,
O tanto faz como fez.
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Já paguei por erros meus
Há outros ainda a pagar?
Sei que não conto com Deus.
***
Testamento: fralda em mim,
Jamais! Sigo mijado e feliz
Para as plagas do meu fim.
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Se meu pai passou dos cem
Herdarei tais anos em sobra?
Serei castigado também?
***
Eutanásia, que ironia
Jamais te teremos aqui
Se já és paga, dia a dia.
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Minha vontade é declarada
Falta aos heróicos médicos
Fazê-la de fato respeitada,
***
Minha vontade antecipada
Registrada, divulgada,
Será um dia respeitada?
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Médicos, heróis do acaso,
Fazem, aos incautos, promessas
Não seja este o meu caso.
***
Meus santos Goodman & Gillman
Que me entreguem, sem demora,
Alguma poção libertadora
***
Que seja aquele dia, bendito,
Digno, seguro e indolor – está dito
(Para bons entendedores)
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Os anos, em demasia, adoecem
Não somente o vivedor
Mas também quem lhe assiste.
***
Ai meus fracassos na vida,
Crenças, amores, escrita.
Morrerei com tal ferida?
***
Da vida, só trago a raiva,
De um dia ter desprezado
A amada Luiza Paiva
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