Se bem me lembro (X): Causos…

Comecei meu livro de memórias, o tal Vaga, Lembrança, registrando minha implicância com a palavra “casuística”, muito apreciada pelos médicos, principalmente para demonstrar sabedoria e, principalmente, exibir uma trajetória profissional marcada pela experiência. Radicalizei tal ponto de vista após ter sido apresentado a certas noções de estatística e lógica, que me informaram que as possibilidades de generalizações a partir de dados isolados ou não controlados for­malmente podem ser fonte de enganos, muito, muito mais do que de certezas. Foi assim que adverti, na ocasião, aos meus possíveis leitores: o que vocês lerão agora – atenção! – não é, defi­nitivamente, uma “casuística”, em qualquer das conotações que tal termo possui, mesmo aquela vulgarizada pelos médicos; por isso – e para fazer um trocadilho que espero não seja considerado infame – é que resolvi considerar a presente série de escritos com o neo­logismo de “causuística”, por representar apenas um conjunto de vivências, reflexões, impressões ou, se quiserem, causos, que a vida me mostrou, com a dor e a beleza com que conviveram a criança, o estudante, o médico, o sanitarista, o gestor, ou o homem que obser­va o mundo, simplesmente.

Em suma, até hoje não disponho de casuística, no sentido que os médicos dão ao termo, ou seja, aquele “registro pormenorizado de casos clí­nicos das doenças”. Mas em compensação pude colecionar muitas histórias – os tais causos – em minha vida, nos vários caminhos que percorri, com maior foco naqueles momentos em que lidei com gen­te individualmente e deitada em camas de hospital ou em salas de ambulatório, em “colóquio singular” comigo, ou nas salas de aula que tive que enfrentar, frente a alunos variavelmente atentos ou ausentes em espírito, mas também nas várias instituições ligadas à saúde pública em que militei, cujo foco são pessoas que se contam aos milhares ou milhões, sobre as quais cabe, principalmente, evitar que se dei­tem ou se desgastem por motivo de doença.

Para melhor me justificar, particularmente diante o material que lhes apresento agora, fiz pequena pesquisa sobre a expressão causo. Descobri, como eu já desconfiava, que ela pode representar mais do que uma corruptela, uma riqueza cultural, ou seja, um gênero textual derivado de conversas descontraídas, fruto de uma rica tradição oral das histórias contadas de geração em geração. Taí, gostei! Era mais ou menos isso que eu imaginava e queria transmitir aos meus leitores.

E mais ainda: uma forma de contar histórias, geralmente de maneira informal e descontraída, que visa entreter e transmitir, de maneira leve, através de narrativas frequentemente baseadas em eventos reais, porém narradas de forma exagerada ou pitoresca, com toques de humor e encantamento, mediante linguagem coloquial e expressiva, frequentemente pontuada por expressões regionais, onde estão presentes além da oralidade, o exagero, o humor e até algumas lições de vida.

E não é que a minha narrativa pode ser considerada bem rica em tais aspectos? Ou pelo menos eu assim a considero. Isso posto, trago aqui alguns exemplos de acontecimentos narrados por mim, uma parte deles retirado diretamente de minha vida de médico, todos verdadeiros, nos quais, entretanto, foi impossível abstrair de conteúdos pitorescos, exagerados e engraçados, até mesmo alguma moral da história.

Vamos aos tais causos. Mas não se esqueçam: é tudo verdade! Talvez tenhas exagerado no exagero e na ironia (faz parte…) ao falar de algumas instituições onde militei, mas garanto que foi sin perder la ternura.

Um anjo louro

Corria o final dos anos 50, eu tinha nove ou dez anos e certo dia, ao chegar da escola, dei com o inesperado na sala da casa. Uma famí­lia inteira estava, por assim dizer, acampada ali, com malas, caixas e até mesmo sacos por toda parte. O pai havia saído para tomar providências, só o vi mais tarde e depois falo dele. A mãe era uma matrona loura e corpulenta, de um tipo físico completamente dife­rente do padrão brasileiro, que somente muito depois compreendi ser de natureza germânica ou eslava. Falavam outra língua, pelo menos entre eles. Mas as crianças…

Eram três. Um pequetito, talvez nos seus quatro anos, se muito,

figurava doença aguda, a inspirar permanentes cuidados da ma­trona. Encatarradíssimo, febril, choraminguento, tinha um aspecto miserável, em que pesassem seus cabelos louros, quase brancos e as bochechas muito vermelhas. Vestia um pijaminha de flanela bas­tante puído e sujo, com marcas evidentes da longa viagem que o trouxera até ali.

A menina do meio talvez fosse da minha idade. Por alguma razão me marcou pouco, a não ser pelo linguajar incompreensível, que mantinha com a mãe e os dois irmãos. Se falou alguma coisa em português – pode ser que tenha falado – não me recordo mais. Lem­bro-me apenas que a coitadinha tinha perebas por todo corpo, mas parecia não sofrer e nem mesmo se dar conta disso.

A filha mais velha, esta sim, era uma figura marcante. Loura, alta, esguia. Os cabelos lhe batiam na cintura. Gestos enérgicos de quem dispunha, na família, do estatuto de uma segunda mãe para os ir­mãos mais novos. Teria seus quinze anos, talvez. Vestia-se de chita, bem à brasileira, mas com aquele porte e o longo cabelo louro, lem­78 79

brava uma camponesa europeia, se não uma personagem de contos de fadas. Melhor dizendo, parecia um anjo – e agia como tal, so­correndo e consolando os irmãos mais novos, adoentados. Foi por poucas horas, lamentavelmente, que a vi de perto, mas aquela ima­gem me marcou por muitos anos.

De onde vinha aquela gente, chegada assim tão de repente em nossa casa? Logo minha mãe esclareceu o fato inusitado. Era uma famí­lia estrangeira, cujo chefe era amigo de meu tio Ricardo; tinham trabalhado juntos no passado, em Itabira, e eles, vindos do Norte de Minas, agora rumavam para São Paulo, para tentar uma sorte melhor em outras bandas. Estiveram conosco não mais do que uma parte de manhã e uma tarde, depois seguiram seu destino, pegando o trem noturno da Central do Brasil, que ainda circulava entre BH e Sampa naquela época.

O pai, Jorge, de nome provavelmente aportuguesado, havia morado em Itabira por algum tempo, onde conheceu meu avô e outras pes­soas da família. Eram imigrantes europeus, judeus, talvez; russos, depois se soube. Estariam fugindo do nazismo, do estalinismo ou da grande guerra – não sei dizer. Seu Jorge era agrônomo de profissão e foi nessa condição que arranjou colocação em Itabira, onde, como se sabe, havia diversidade econômica antes que a Vale tomasse conta de tudo e instaurasse a ditadura da mineração. Além de sua formação agrícola, o homem era muito culto, conhecia de tudo um pouco e tinha um lado empreendedor, inquieto, bastante marcante em sua personalidade e que influenciou bastante sua vida. Tanto que saiu de Itabira, foi para o norte, depois para São Paulo. Entre a Rússia e Itabira deve ter tido, certamente, outras tantas passagens.

Pois bem, resumindo a história, nunca mais os vi, pelo menos de perto e tive bem poucas notícias deles. Aqui minha narrativa entra numa espécie de ramificação, mas fiquem tranquilos os leitores que mais adiante os caminhos se encontrarão.

Corriam agora os anos 60. Belo Horizonte começava a tomar ares de metrópole, mas arrastando ainda certos grilhões provincia­nos. Uma dessas coisas anacrônicas era uma espécie de concurso de beleza e simpatia (nada de misses de maiô!), ao qual se dava o colonizado apelido de glamour girl. Na época, eu talvez não me interessasse por colunas sociais, mas já apreciava, bastante, aliás, a visão de uma linda mulher. E em um daqueles anos dourados, ao som dos Beatles e da Bossa Nova, apareceu uma girl especialmente cheia de glamour: loiríssima, muito alta, esbelta, olhos azuis fais­cantes, poliglota, intelectualmente muito articulada, determinada, cheia de personalidade. Não se falava em outra coisa na Belzonte provinciana de então.

Um belo dia, a revelação. Minha mãe, ao ver aquele anjo no jornal ou na TV, comentou: mas esta é a filha de Seu Jorge; vocês se lem­bram, ela esteve conosco, junto com a família, aqui em casa há alguns anos atrás? Caramba, eu que nunca havia visto uma glamour girl, ou qualquer outra celebridade tão de perto quase caí pra trás de susto. Então era ela!

Depois o anjo desapareceu, pelo menos para mim, que não acompa­nhava as notícias do mundo do high society. Já nos anos 80, vendo o programa do Chacrinha, minha mãe mais uma vez me trouxe a revelação: estão vendo aquela lá? Pois é, é a filha de Seu Jorge, aquele amigo da família, que esteve em nossa casa há muitos anjos atrás…

O anjo louro, a adolescente encantada, a mulher de sonho tinha se metamorfoseado mais uma vez, ela era agora Elke Grunupp, dita Elke Maravilha, que todo mundo conhece. Mas eu digo com orgulho: eu a conheci antes de todos; melhor ainda, dentro da minha própria casa! E não me perguntem como é que uma pobre menina imigrante e depois migrante interna pôde chegar à alta burguesia mineira e depois atingir o estrelato na TV. Não tenho informações suficientes e nem sei onde encontrá-las. Como dizia o personagem de Suassuna: só sei que foi assim.

Amarcord de sabores

Quando visitava a casa de João Maurício, durante algum tempo, cumpria um ritual que sempre me dava grande prazer: enfiar a ca­beça na caixa vertical aberta daquele piano Pleyel que nós todos conhecemos e aspirar com sofreguidão o cheiro de madeira velha, tão peculiar, que entrava ano, saía ano, continuava ali guardado. Então me penetravam os sentidos um sem número de aromas e sabores que marcaram minha infância, na rua do Ouro, na casa ancestral de Vovó Dodora e Vovô Altivo, além de outras casas da família. Recordo-me disso, ao iniciar estas linhas, para deixar claro que tenho uma tremenda memória para coisas assim. Dizem que eu tenho uma memória enorme para fatos, não sei bem se é assim, mas das comidas, dos sons e dos cheiros de minha infância, realmente não me esqueço.

Entre outras alegrias, creio que tivemos, meus irmãos e eu, uma in­fância marcada pelas boas comidas e também por bons rituais em torno delas. Uma de minhas lembranças mais antigas é a da fabrica­ção de goiabada na chácara de Contagem, em uma pequena cozinha anexa, na qual um fogão de lenha foi preparado com um tipo de cavidade em formato de bacia, na qual se encaixava perfeitamente o tacho de cobre adequado ao mister. A pasta espessa, de tom mar­rom avermelhado, mexida com longas colheres de pau, em inquieta erupção que formava crateras aqui e ali, logo se desmanchando, compunha um espetáculo inesquecível. Às crianças era permitido, apenas, observar de longe, pelo risco de queimaduras. Mas mes­mo assim, era muito divertido. E melhor ainda ficava quando, ao final, éramos autorizados a degustar a “rapa”, nos próprios tachos já resfriados. Uma história da época: João Maurício, ao ser solicita­do informar qual o doce que mais o deliciava, não teve dúvida: é a rapa!

Mas goiabada era apenas uma das delícias, entre tantas outras. Sempre gostei muito do doce de laranja em calda, iguaria um tan­108 109

to amarga e nem sempre apreciada pelas crianças. Mas eu, desde sempre, amava. Aliás, deve ser por isso que aprendi a fazê-lo (acho que até razoavelmente) e até me meti a poetizar sobre o mesmo. Melhor ainda quando o doce de laranja-da-terra era moído e trans­formado em pasta de se cortar, a laranjada, que anda desaparecida das mesas da família. E neste terreno das frutas, tínhamos do que gabar: doce de banana seja em pasta, em calda queimada, além da tradicional banana frita com canela e açúcar; doce de figo, em calda e em pasta (delícia!); doce de mamão, de espelho, em talhadas, en­roladinho, com rapadura, etc. Aliás, do mamão se fazia doce até do miolo branco do tronco do seu pé. E mais, doce de carambola, geléia de jabuticaba (na Chácara tinha apenas uns trinta ou quarenta pés dela), doce de manga. E se espremer a memória ainda vou me lem­brar de mais especialidades…

Havia também certo tipo de doce, modesto em sua origem, mas igualmente de eterna e adorável lembrança. Era aquele que resulta­va do aproveitamento de determinados alimentos, uma espécie de subproduto dos mesmos, mas que apesar disso era saboreado em clima de festa. Lembro-me, especialmente, do doce de leite talhado – vocês se lembram: encaroçadinho, meio ácido, queimado na me­dida? Uau! E não pode ficar de fora dessa lista a banana em calda, da qual falei acima, uma especialidade de Favita, que dava àqueles pedaços de banana caturra, que de outra forma iriam para a lata de lixo, o auxílio luxuoso de uma calda de açúcar moreno-doura­da. Tinha também o arroz-doce, mas este, coitado, acabou deixando lembranças menos agradáveis, pelo menos para mim, não sei se para meus irmãos…

A história do arroz-doce é a seguinte: Claudia, nossa eterna caçuli­nha, foi acometida durante seus primeiros anos de vida de dores de barriga atrozes (para ela e para os circunstantes…). Assim, a receita da época – e creio que ainda de hoje, que nos confirmem os pedia­tras da família – era ministrar aos pequenos doentes alguns litros de água de arroz por dia. E este produto, como sabem, provém do cozimento do arroz, que sobra no processo. Em nossa casa não so­brava, pois era transformado em arroz doce. E tome arroz doce… Não tínhamos o privilégio, à época, de sobremesa doce todos os dias (Da. Flavia, não se sinta autoritária e ranzinza, isto é um must diete­ticamente correto nos dias de hoje!), mas com o arroz-doce era outra história: podíamos comê-lo à vontade. Só que com pouco tempo, so­brevinha um efeito de overdose e ninguém mais queria saber dele. Mas agora, tantos anos passados, eu daria tudo para comer daquela sobremesa de novo! Portanto, Claudia e Favita, não precisam ter crises de consciência só por causa disso…

E por aí vão minhas memórias gastronômicas… Para ficar no apenas no trivial, evoco aqui as lembranças de rabanadas, ovos ne­vados, pavês, docinhos de damasco, fatias de amendoim, pudim de pão (injustamente alcunhado de engasga-lobo), amor-em-pedaços, broinhas de milho, casadinhos e outros biscoitinhos diversos, além de tanta coisa mais. E olha que meus quilos a mais e a meu pâncreas de menos me dizem que não convém exagerar nos doces! Mas tem também o capítulo dos salgados – não menos refinado e variado, que vai do simpático maneco-sem-jaleco (as novas gerações nem suspeitam do que seja), passa pela proverbial torrada com pasta de espinafre com queijo e ovo (que depois ganharam o nome de bruschetas), até chegar ao grande momento da sopa de bolinhas de queijo, para não falar das costeletas de porco fritas, da canjiquinha, do creme de milho. Ah, sim, não me esqueci da queca de Favita, ape­nas deixei-a para ser homenageada no final: divina, maravilhosa, suculenta, olorosa, sofisticada – cabem nela tantos adjetivos quan­tos são seus ingredientes.

É duro ser diabético nesta família… Ainda bem que a natureza me deu vinte e dois anos para aproveitar tantas comidas condignamente! E eu confesso que não perdi tempo. É bom ter apetite; é bom ter estas comidas ao nosso alcance, inda mais agora com essas Receitas de Favita à mão; é bom pertencer a uma família onde estas coisas são cultivadas e apreciadas e já vão passando através das gerações, como bem o atestam Myrinha, Daniela, Nanda e outros membros 110 111

mais do Clã. Parabéns para Favita! Parabéns para nós todos! Bom apetite!

Pós-escrito: Receitas de Favita foi um livreto produzido por minha filha Nanda, reunindo a vasta, histórica, sabedoria culinária de sua avó Favita, lançado, com honras, no ano 2001 ou 2002.

Lição de Anatomia

Primeiro dia de Faculdade… A aula que assisti é impossível de ser esquecida, magna, na melhor acepção da palavra. Entramos no grande auditório da Faculdade, no antigo prédio da Avenida Al­fredo Balena e lá nos esperava uma penca de professores, vestidos com longos jalecos e até alguns em paletó e gravata. Assistimos uma hora inteira de peroração empostada, que culminou com um teste de conhecimentos médicos e perguntas diretas a membros da pla­teia. Teve gente que tremia, inclusive eu, confesso. De duas dessas perguntas de que ainda me lembro: “como diagnosticar a condição chamada flatus morbidus acutissimus? Qual a indicação terapêutica do hálux? No final, como a potestade que coordenava os trabalhos tinha falado em exercícios a serem cumpridos para uma próxima aula magna, acerquei-me dele cheio de respeito para saber qual seria exatamente a tarefa demandada. A resposta que ouvi foi taxa­tiva e me trouxe de volta à realidade: abre as orelhas, calouro! Cesar Augusto de Barros Vieira era o nome dele; não era professor, mas apenas quintanista e se tornou um grande amigo meu.

Aquilo foi apenas um trote, repetido a cada ano, por sinal, mas no qual ninguém matava, ninguém morria. O que poderia ser chamado hoje de bullying era apenas diversão, das mais engraçadas e sadias. A lição do dia foi aquela que me foi passada pelo “professor” Cesar: é preciso abrir as orelhas e a mente, para tudo, sempre!

Dos primeiros meses de aula duas lembranças eternas. O encontro, ao mesmo tempo desejado e temido, com os cadáveres na disciplina de Anatomia e a presença, que logo me chamou atenção fora do normal, de certa colega de turma.

Comecemos pelos defuntos. Aquele anfiteatro cheio de mesas de mármore ou aço inox, de pé direito alto, aquele cheiro de formol, as palavras cabalísticas gravadas em uma das paredes: hic mors gau­det sucurrere vitae – tudo era coisa de muita pompa e circunstância. Entretanto, se a morte se alegrava em me ajudar, a recíproca não era verdadeira. Eu achava aquilo uma decoreba, uma perda de tem­po. Ali não se dissecava, mas se destruíam corpos. Aliás, alguns já tinham dito a mim – e mesmo os professores da disciplina confir­mavam – que depois era preciso aprender tudo de novo. E mesmo assim só aqueles que fossem se dedicar a certos ramos da medici­na, como a cirurgia ou ao diagnóstico por imagem. Para os outros mortais, bastavam noções gerais, sem cadáveres, sem formol, sem picadinho de gente, sem todo aquele simbolismo horror show.

Mas mesmo assim aquelas aulas de anatomia deixaram fortes lem­branças em mim.

Recentemente reli com a atenção e o sabor de sempre, o conto O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Para quem ainda não o conhece ofereço algumas informações: ele é um escritor mineiro pouco prolífico, mas considerado mestre e pioneiro no gênero li­terário conhecido como realismo fantástico, que teve como outros expoentes latino-americanos Júlio Cortazar e Gabriel Garcia Mar­quez. Produziu suas obras, principalmente contos, entre as décadas de 40 e 50, lado a lado com uma carreira burocrática tradicional.

O conto trata da breve história de Simplício Santana de Alvarenga, conhecido profissionalmente como Zacarias, o pirotécnico, que um dia é atropelado por um automóvel e acaba fazendo companhia, mesmo morto, ao grupo de moços e moças que passeava no veículo. E assim Zacarias passa a circular pelas ruas da cidade, possivel­mente a Belo Horizonte dos anos 40, na condição de cadáver que se recusava a entrar para o mundo dos mortos, preferindo circular entre os vivos.

O que me traz aqui é outro cadáver, este realmente morto, embora genérico, mas que no meu tempo insistiam (ou ainda insistem) em manter vivo nas aulas de anatomia. Já ouvi dizer que isso já está superado alhures, na Europa ou nos Estados Unidos, por exemplo, países civilizados que já baniram o dito cadáver, tal qual o conhece­mos, das aulas de anatomia nos ambientes acadêmicos.

O que afirmo aqui, e que parecerá totalmente desarrazoado, é o seguinte: cadáveres são desnecessários nas aulas sobre o corpo humano, por razões de ética e humanitarismo, em primeiro lugar, mas também por razões pedagógicas. Esperem os leitores que vou me explicar.

Para começar, recorro às palavras de um antigo mestre, na Fa­culdade de Medicina da UFMG, João Amílcar Salgado. Em síntese aproximada, dizia ele que o jovem entra para uma escola de me­dicina aspirando lidar com gente. E de saída lhe dão um cadáver. Mais adiante, o mesmo corpo lhe é oferecido, só que agora corta­do em fatias microscópicas. O estudante não perde as esperanças de ver gente, mas no segundo ano são colocados à sua disposição urina, fezes, sangue e outros líquidos corporais. Mas gente, que é bom, nada… Depois vêm o sapo e o cachorro nas aulas de fisiologia. No terceiro ano o infeliz imagina, mas logo se vê frustrado, que finalmente vai conhecer o raro objeto chamado gente. Agora parece que vai dar certo, pensa ele, mas o que vê são radiografias, imagens, laudos, papéis manuscritos e principalmente livros que falam de tal objeto. Quando, finalmente, ele vislumbra um corpo humano vivo e não decomposto em líquidos, lâminas, chapas, prontuários, etc. entre ele e tal objeto do desejo se coloca o professor, intermediando um contato que ele tanto gostaria que fosse direto e próximo.

É força de expressão, já se vê, mas tem sua sabedoria, certamente.

Para quem nunca assistiu a uma aula de anatomia no estilo cada­vérico, aqui vão algumas informações. Corpos humanos em formol estão para os corpos reais, digamos (com todo respeito) frescos, as­sim como as passas estão para as uvas (ou como as ameixas pretas em conserva para aqueles lindos pomos sumarentos que costuma­mos comer na época do Natal). Imaginem, então, que se ofereça a alguém, que nunca viu uma uva ao vivo (Ivo viu, mas a nossa hipo­tética persona não viu), uma passa seca e se peça a tal pessoa que imagine a fruta como ela é na vida real, nas videiras. Com todo seu sumo, sua casca lisa e acetinada, ou mesmo seu sabor e cheiro, to­talmente diferentes daquele mirrado e enrugado corpinho de uva que ali se apresenta. Missão impossível, não?

Pois é assim que se ensinava – e talvez ainda se ensine – a anatomia: em corpos que estão longe de representar o real.

Eu já pensava coisas como essa há muitos anos, antes de conhecer o processo chamado de plastinização, criado na Alemanha há alguns anos e desenvolvido por uma empresa chinesa, que inclusive expõe corpos humanos perfeitamente dissecados e evidenciados em suas estruturas mais íntimas, em cores vivas e diferenciadas, de forma bastante próxima ao real. Aliás, os leitores já devem até ter com­prado ingresso, para ver uma exposição assim, em algum shopping center.

Confesso, sinceramente, que a anatomia que eu gostaria de ter aprendido nos meus anos de faculdade me seria muito mais dura­doura e eficaz se eu tivesse tido contato com imagens assim, todavia frutos de uma tecnologia que ainda não existia no meu tempo de estudante.

Agora vêm alguns detalhes mórbidos. As tais “passas” de gente são trazidas a um grande anfiteatro, onde um bando de estudantes, como abutres, se debruça sobre eles e começam a picá-los. As carca­ças são duras e muitas de suas estruturas internas mais delicadas, como veias e nervos pequenos e mesmo médios simplesmente se fundem, se engrovinham ou simplesmente desaparecem sob a ação do formol. Mas toca a cortar e a picar assim mesmo. Com algum tempo, a massa informe que se tem em mãos pode ser músculo, gordura, nervo, gânglio ou qualquer outro tecido, mas não é pos­sível identificar o que seja. E como o tédio fatalmente sobrevém, começam as brincadeiras escatológicas, como cortar partes daquele corpo inerte e levar para casa, na melhor das hipóteses, ou colocar na bolsa das incautas colegas, na pior delas.

No final do dia, esgotados e enojados pelo cheiro do formol e pelo dantesco espetáculo da decomposição natural que fatalmente já está presente, os infelizes alunos corriam à biblioteca – ou à inter­130 131

net, nos tempos de hoje – para consultar os livros ou sites, onde as imagens são mais reais e pedagogicamente aceitáveis. E aí, sim, aprendem alguma coisa.

Mas há outra questão, ainda. Frequentar um anfiteatro de anatomia é algo que tem um enorme valor simbólico. Ali se processa um vero rito de passagem, no qual aqueles estudantes, até há pouco tempo nada mais do que adolescentes cheios de vida e alegria, entram na vida adulta sob a égide da morte, da podridão e do mau cheiro. Mas é preciso suportar tudo, assim como cabe aos recrutas militares (ou mesmo aos calouros universitários) se submeter a todo tipo de brin­cadeira e violência por parte dos já iniciados. E a iniciação, agora, tem seus sacerdotes na pessoa dos professores, bedéis e monitores, que costumam não poupar os pobres iniciantes de conversas esca­brosas, quando não de contato íntimo e indesejado com os corpos mortos. Nada disso impede, entretanto, que os trotes e os cadáveres sejam apreciados por alguns, que veem nisso condição necessária e inescapável ao cumprimento do tal ritual de passagem, sem ques­tionar sua racionalidade e sua humanidade.

Não é a toa que os dísticos que costumam ornar as paredes de tais salas são taxativos, em lindo e incompreensível latim: hic mors gau­det succurere vitae. Ou, pior ainda, morituri mortui… Que os mortos se alegram de ajudar a vida, ou então, que anunciam estar esperan­do por aqueles que ainda não morreram. Mais mórbido, impossível, mas bem no estilo dos shows de horrores que ali ocorrem cotidia­namente.

Já nos meus tempos de estudante, costumava ouvir de professores e médicos já formados que todo aquele conhecimento anatômico tinha que ser reavivado alguns anos depois. Outros já diziam que ele era simplesmente dispensável, diante do alto custo e pouco be­nefício de tal estratégia pedagógica.

Vamos aos fatos, e eles são os seguintes. Um conhecimento anatômi­co profundo, no nível de detalhar aquilo que vagueia entre a artéria e a veia (um dito repetido nas missas mórbidas rezadas naqueles anfiteatros de horror), interessa a bem poucas especialidades médicas, tais como, cirurgia ou radiologia e imagens. Para as demais, clínica, pediatria, psiquiatria, por exemplo, bastaria uma visão geral da estrutura do corpo humano, no mesmo nível que geralmente é oferecido aos nutricionistas ou educadores físicos, por exemplo. Mas mesmo para aqueles que têm a anatomia humana no centro de seus interesses, como os cirurgiões, o verdadeiro aprendizado se dá em animais, como o cão ou o porco, bem como no acompanhamento de cirurgias reais (realizadas em pessoas vivas). Algumas informações podem vir das referidas “passas”, mas não no primeiro ano de medicina, mas somente quando o aprofundamento dos estudos cirúrgicos se fizer necessário, isto é, provavelmente apenas na residência médica, alguns anos depois. Para o pessoal da imagem, o verdadeiro aprendizado se dá com imagens (simples assim), a serem confrontadas com a visualização de ilustrações do corpo real, em peças plastinizadas, por exemplo.

Minha diatribe ainda comporta mais uma pequena seção antes de ser encerrada de vez. Alguém já se perguntou de onde vêm os cadá­veres que vão parar nos anfiteatros de anatomia? No meu tempo vinham, em sua maioria, do chamado Hospício de Barbacena, ins­tituição que já de muito faz parte de uma memória de vergonha e horror na saúde do Brasil. Aqueles cadáveres, ou melhor, aquelas pessoas, simplesmente não tinham (ou quem sabe isso não lhes era facultado) quem reclamasse seus corpos. E como, afinal de contas, morriam? Sobre isso, bem pouco era dito… Alguns suspeitavam, inclusive, que a mortalidade crescia em certa época do não, coinci­dente com a abertura do calendário letivo nas escolas de medicina. E desde então já se sabia existir um verdadeiro tráfico de cadáveres, operado não só por funcionários de tais asilos como pelos poderosos bedéis das faculdades – gente que lidava com aquilo que ninguém aceitaria cuidar, por isso mesmo autoconsiderados indivíduos es­peciais e até superiores aos comuns. Estes viam nos pobres corpos nada mais do que uma mercadoria preciosa, sem prestar contas a ninguém.132 133

É preciso argumentar mais?

Meus respeitos aos mortos que compareceram e talvez ainda com­pareçam, por muitas gerações, aos anfiteatros de anatomia para socorrer os vivos e aprendizes. Mas penso que já passou da hora de os liberarmos para uma pós-morte digna.

Ah sim, não precisam me lembrar: a tal da plastinização também utiliza cadáveres, insumo que na China deve ser muito abundante. Há quem diga que lá boa parte dos corpos submetidos a tal método provém de pessoas condenadas a morte, geralmente jovens e ínte­gros. Nada é perfeito…

Valdemar, o barbeiro

Logo que entrei na Faculdade tive meu primeiro emprego na área da saúde, compatível com meu status de universitário. Foi assim: minha tia Marita Guerra, mulher de meu tio Virgilio, que tinha gran­des amizades no serviço público, pois era funcionária de carreira na Secretaria de Educação estadual, conseguiu para mim uma bolsa de estudante, no Hospital Raul Soares, especializado em Doenças Mentais. O Raul Soares era um daqueles velhos nosocômios pré-reforma psiquiátrica, onde ainda se aplicavam choques elétricos, internações compulsórias e castigos diversos aos mais renitentes. Quem assistiu o filme Um estranho no ninho, de Milos Forman, com Jack Nicholson, sabe do que estou falando, mas pode ter certeza que as coisas ali ainda eram piores do que no filme. Apresentei-me bastante assustado, achando que iam me colocar para ajudar em algum daqueles aparelhos de barbaridades que por lá existiam. O diretor que me recebeu foi muito simpático e talvez considerando minha escassa experiência de segundanista, me destinou a um pos­to no laboratório de análises clínicas do hospital, bastante limitado em seu repertório de exames, por sinal. Foi bom para mim, pois os horários eram flexíveis e ali eu fazia exames de fezes, já tendo al­guma experiência nisso, advinda da disciplina de parasitologia na Faculdade.

Para aproveitar meu tempo e aprender alguma coisa nova, me ofe­reci voluntariamente para participar da coleta matinal de sangue dos pacientes, praticamente toda ela vinculada à realização do exa­me chamado VDRL, para sífilis. Antes disso eu tinha que amolar – é isso mesmo, amolar! – as agulhas de punção venosa, que não eram descartáveis e precisavam ser lixadas de vez em quando para man­terem o gume. É isso aí, meninos, já vi muita coisa. Eu que nunca havia puncionado uma veia antes, logo que me tornei exímio no ofí­cio, quando as agulhas ajudavam, claro. Havia também o problema de conter os mais agitados. E então, coisa realmente dramática, os agitados de um dia às vezes voltavam totalmente calmos no outro. A marca vermelha em suas têmporas já dizia tudo…

Certo dia eu estava concentrado em identificar algum ovo de ásca­ris ao microscópio quando o sujeito que fazia a limpeza da sala, um paciente em “laborterapia” (ou, se quiserem, trabalho escravo), se aproximou de mim e indagou: doutor, o senhor não tem medo que algum desses micróbios lhe pule nos olhos? Eu me preparei para dar uma resposta técnica, ao mesmo tempo valorizando o cuidado do

pobre doidinho comigo, mas antes que eu falasse a primeira frase ele já gargalhava do meu lado. Estou só fazendo hora com a sua cara, não vê? Achei graça também e pegamos de papo. Fiquei sabendo que, na verdade, ele cumpria pena recolhido no Raul Soares, admi­tindo com certa candura ter amigos influentes que o livraram de pegar vinte anos de cadeia em espeluncas. Que crime teria aquele homem cometido, para ter pena tão longa? Não precisei perguntar, ele foi logo me contando toda sua história, que havia flagrado a mu­lher com outro homem e a matou, no ato. E ainda dedicou à falecida meia dúzia de palavrões cabeludos.

Valdemar, este era o nome do faxineiro matador, vinha todo dia puxar prosa comigo. Era um sujeito inteligente, divertido e até cul­to; valia a pena gastar tempo com ele. Não raramente me trazia mangas e outras frutas colhidas no grande terreno do hospital. Con­tou-me que era barbeiro de profissão e que havia trabalhado em estabelecimentos que atendiam a elite belorizontina, inclusive em uma barbearia que ficava no andar de baixo do Brasil Palace Hotel, localização realmente notável na ocasião. Daí a ele propor que me atenderia para cortar as madeixas, já que barba eu tinha ainda mui­to pouca, foi um passo. E que o faria de graça! Aceitei logo, proposta melhor não haveria. E passei a frequentar o salão improvisado, de­baixo das mangueiras no grande quintal do Raul Soares, árvores que ainda dão o ar de sua graça, naquela ruazinha fronteira com a atual Câmara de Vereadores de BH. Ele já tinha uma cadeira alta e larga, não daquelas típicas dos salões de barbearia, mas rústica e improvisada, de madeira. E as sessões de tricotomia se prolon­gavam em bate papos intermináveis – e muito agradáveis, diga-se de passagem. Para fazer o “pé” no cabelo ele usava uma navalha especial, guardada em caixinha de baquelite ou material parecido, instrumento que ele tratava com especial deferência, amolando-o em um artifício formado por uma tira de couro liso, sustentada nas duas extremidades de uma espécie de arco de madeira. Me interes­sei pela ferramenta e ele se animou, contando que a mesma era da marca Solingen, alemã, importada, dessas não tinha mais na praça. E completou: foi com ela que matei aquela desgraçada

O arremate da história é o seguinte: neste tempo eu almoçava duas ou três vezes por semana na casa de minha avó Dodora, na rua do Ouro, bairro da Serra, que ficava bem mais perto da Faculdade do que a casa de minha família. Vovó era fã das histórias que eu conta­va sobre o curso, sempre curiosa a respeito das aulas, dos colegas, dos professores e até da bizarrice de certas narrativas, comuns no meio médico. Minha amizade com Valdemar, que eu revelei des­de o início, como um fato curioso, era tratada com recomendações de que eu me cuidasse e não ficasse tão perto dele. Primeiro, que tomasse cuidado com o doido e depois, com real horror: ele é um a-s-s-a-s-s-i-n-o, meu filho, ela me dizia com os olhos arregalados. A história da navalha, dá para imaginar, foi a gota d’água. Provo­cou nela um pânico tão descomunal, que fez com que implorasse, alarmada, que eu me afastasse de alguém tão perigoso. Acabei me afastando, não porque o achasse de fato temível, mas porque mi­nha bolsa acabou e não foi renovada.

O caso Macrino

Macrino era o nome do coitado. Vinha de algum sertão de Minas, certamente dos longes do Jequitinhonha ou do além-Montes Claros, que na época eram os grandes armazéns fornecedores de doentes para o Hospital das Clínicas da UFMG.

Que doença tinha o tal sujeito? Simplesmente todas! Seu coração era uma bola, embora jovem, já devastado possivelmente pelas insi­diosas incursões do Tripanosoma cruzi. O esôfago lhe fazia às vezes de estômago, pela sua dilatação e relativa imobilidade. Como se não bastasse ainda tinha um sopro cardíaco provavelmente associado a uma doença reumática não tratada. Ah, sim, e só ia ao banheiro a custa de lavagens. O rim funcionava como uma máquina maluca, desequilibrando seus eletrólitos como se fosse uma erupção telúri­ca. Tinha também uma anemia intratável…

Com mais de dezoito anos, ou nem isso, seu corpo era ainda o de uma criança e desafiava a nós todos, residentes de Clínica Médica na enfermaria do quarto andar do Hospital das Clínicas da UFMG, com seu acúmulo de problemas e, principalmente, com a evolução tão grave dos mesmos, considerando sua pouca idade.

Macrino estava internado ali há muitos meses. Seu prontuário já não cabia naquelas pastas metálicas, com presilhas flexíveis, que eram típicas dos hospitais da época; ocupava mais de uma caixa daquelas normalmente usadas para arquivar papéis mortos.

Havia um dado que deve ser mencionado: uma das linhas de pes­quisa daquela enfermaria incluía a Doença de Chagas e Macrino era um “caso” excepcional, a ser revirado e explorado mais a fun­do. O problema é que o titular da pesquisa estava fora do Brasil, ou em licença, e não aparecia na enfermaria há tempos. Além disso, aguardava-se a liberação de verbas para aquisição de novos medi­camentos, de acordo com o protocolo da pesquisa. Estranho? Nem tanto. Isso era comum na época e creio que ainda seja nos hospitais universitários

A chegada de novos residentes, entre os quais eu me incluía, não mudou nada na rotina do coitado. Mas nós, jovens e impetuosos, víamos naquele “caso” a chance de demonstrar nossa competên­cia clínica. Certamente devíamos ter pensado que ele só estava ali, por tanto tempo, porque deve ter faltado sabedoria e dedicação por parte de alguém que nos antecedera.

Ledo engano.

Rever seu prontuário já era coisa quase impossível. O que havia nas tais caixas de arquivo era uma maçaroca de papéis, sem qualquer ordem, seja cronológica ou simplesmente “lógica”. O jeito foi fazer toda a bateria de novo, coisa que deve ter sangrado o coitado até a exaustão.

Mudamos os medicamentos radicalmente, dando ombros para a tal pesquisa que nunca acontecia de verdade e seu titular ausente. Ha­ via novos cardiotônicos no mercado, fora do que era padronizado no HC, mas mesmo assim nos viramos, utilizando as boas graças dos propagandistas de laboratórios, que também precisavam de nossa boa vontade em atendê-los nos intervalos das visitas e prescrições.

E vieram os medicamentos, que foram se sucedendo e se alter­nando. Mas resultado que fosse bom, nada… E pior, algumas das funções vitais de Macrino começavam a degringolar.

A sensação que tínhamos era a de que ainda não havia sido encon­trada a verdadeira causa de tantos achaques. Realmente, a regra médica de que é melhor explicar tudo com um único diagnóstico, em Macrino era definitivamente subvertida.

Aos poucos, Macrino foi se incorporando à paisagem, como sempre acontece. Em conversas com um de nós, ele, que era de pouquíssi­mas palavras, disse que não tinha nenhum interesse em voltar para casa. Vinha de uma família miserável que não tinha como cuidar dele e ali, no HC, era como sua casa, aliás, há quase um ano, onde tinha comida, roupa lavada, amigos e até mesmo alguma valoriza­ção, como nós residentes bem ou mal lhe oferecíamos.

Às vezes, em uma corrida de leitos, alguém proferia a palavra fatal: alta. Macrino empalidecia. Mas na prática algo assim era realmente impossível. Como botar fora do hospital, ou mesmo da cama, al­guém que mal parava de pé?

E ele foi ficando. Completou um ano de internação e possivelmente ficou ali muito mais, mesmo com escassas chances de sobrevivên­cia, dono que era de um organismo tão comprometido.

Moral da história: nenhuma… Certas doenças não têm tratamento mesmo, embora seja possível que as novas tecnologias médicas des­sem a Macrino, nos dias de hoje, uma vida mais confortável e mais longa, embora certamente não lhe acrescentassem a dignidade de que tanto carecia, por ser tão pobre.

Seria desejável que tal situação de “doentes moradores” em hos­pitais universitários, ligada a razões “de pesquisa”, regra no meu tempo, possa hoje fazer realmente parte do passado. Mas não me permito muito otimismo nisso, pois ainda nos meus tempos de do­cente da UnB percebia – e certamente isso ainda se mantem – uma visão arraigada de “autonomia” da instituição universitária, que na verdade poderia ser entendida como “soberania”, que era do­minante entre meus colegas. Neste aspecto, creio que ganharíamos muito, não só os pacientes, como os que deles cuidam, como o país como um todo, se nossos hospitais universitários fossem de fato incorporados à rede de serviços de saúde e sobre os quais se apli­cassem exigências de eficiência, de racionalidade, de controle social e de humanismo que são, ou deveriam ser, demandas imperativas na sociedade moderna.

O espírito de Macrino provavelmente continua vivo por aí.

As sete vidas de seu Joaquim

“Esvaziar a enfermaria” era a palavra de ordem que nós residentes de Clínica Médica recebemos ao adentrar na mesma pela primeira vez, um tanto abandonada que estava, por não ter contado com ou­tros residentes no semestre anterior. Tinha virado um bem depósito de pacientes, muitos já quase moradores; outros cuja necessidade de ficarem internados era muito questionável. E pusemos as mãos em tal obra.

Seu Joaquim era um homem de quase 80 anos, corpulento, jovial. Sua cabeça bem conformada e seus cabelos brancos o faziam pa­recido com Dorival Caymmi, não fazendo má figura como tal, apesar da diferença de idade entre ele e o notável baiano ser de uns vinte anos, pelo menos, na ocasião. Era um daqueles pacien­tes colaborativos, que acreditava nos médicos, particularmente em nossa juventude de residentes esforçados, e tudo fazia para atender nossas recomendações e assim, quem sabe, receber sua alta logo e voltar a seus afazeres. Seu grande problema era um coração que batia sem pressa alguma… Trinta e oito, no máximo quarenta bati­mentos por minuto. É que aqueles cabos que transmitem a corrente elétrica de alto a baixo no tal órgão tinham entrado em curto circui­to, mais uma vez por obra e graça do terrível T. cruzi, e seu agente contumaz, o barbeiro. Ela viera parar ali vindo do Pronto Socorro Amélia Lins, vizinho do nosso HC, que volta e meia nos fazia aquela remessa de casos, dada a natureza emergencial exclusiva do mes­mo.

A solução para Seu Joaquim era bem simples, mas ao mesmo tempo quase irrealizável nos tempos idos da saúde no Brasil, com a popula­ção irremediavelmente dividida entre os que tinham a “carteirinha” do INPS e os que não a possuíam. E Joaquim era “Funrural”, que significava o mesmo que ser um despossuído quase absoluto em matéria de saúde. A solução? Um bom marca passo. Porém, fora do sistema previdenciário ou privado, consegui-lo era uma verdadeira façanha, que dependia da autorização de uma penca de burocratas, muitos deles remotamente situados no Rio de Janeiro. E para um paciente como aquele, bons meses podiam se esgotar sem nenhuma decisão a vista.

E ele nos dizia que seu sonho era voltar logo para casa, reencontrar sua mulherzinha (bem mais jovem do que ele, conforme confirma­mos em algumas raras visitas), rever seu burrinho, botar de novo sua carroça para andar e ganhar a vida com algum frete. Um ho­mem de quase oitenta anos e com um bloqueio total do coração, vejam só.

Apesar de ser amparado pelo Funrural, morava na periferia de Belo Horizonte, reproduzindo, com isso, uma situação que era bem comum na época, ou seja, a migração rural-urbana. Hoje, parece, quem tinha que sair da roça, já saiu; tem gente é fazendo o trajeto ao revés…

Mas a palavra de ordem precisava ser cumprida, até porque ha­via pressão na porta de entrada, via Amélia Lins e ambulatórios, para que aquela enfermaria de Cardiologia se abrisse para outros pacientes mais necessitados. Conversa vai, conversa vem, um dos professores conseguiu a promessa de um fabricante de equipamen­tos que o marca-passo adequado para Joaquim estaria disponível em no máximo quarenta dias. Simples, então: era dar alta e pedir que voltasse algumas semanas depois. Mas cabia dar a notícia ao paciente; temíamos que ele tivesse uma crise de ansiedade com aquilo e que, assim, aqueles trinta e tantos batimentos se reduzis­sem ainda mais. Constituímos uma espécie de junta, formada pelos residentes que lhe eram mais próximos e depois de muitos rodeios e promessas a notícia lhe foi finalmente repassada. Ele iria para a casa e seria convocado de volta pelo Serviço Social do hospital quando o precioso equipamento estivesse disponível.

Joaquim sorriu amarelo, mas resignou-se. A frequência cardíaca manteve-se abaixo dos quarenta batimentos regulamentares, mas sem quaisquer sintomas ou sinais preocupantes. Fizemos-lhe vá­rias prescrições e recomendações, principalmente que não fizesse esforços e evitasse contratempos, se isso lhe fosse possível.

E a vida seguiu. Em poucas horas o leito de que Joaquim ocupara durante muitas semanas já tinha outro habitante.

Um belo dia, duas ou três semanas depois da alta, quem vemos sen­tado na sala de espera da enfermaria, em pleno procedimento de admissão por parte da enfermagem? Ele mesmo, o Seu Joaquim, vindo mais uma vez do Pronto Socorro Amélia Lins. Estava mais magro e um pouco abatido. Mas o que chamava a atenção, agora, era um enorme curativo na fronte, tendo todo o crânio rodeado por uma faixa de atadura, na qual ainda havia manchas de sangue.

Ele logo nos explicou o acontecimento. Voltara para casa e chegan­do lá encontrou a mulherzinha nos braços de outro, que lhe havia também subtraído, para vender, aquele querido burro e a respecti­va carroça. Ainda por cima lhe veio com ameaças. Ele correu atrás do Dom Juan com um porrete, mas o mesmo sacou de um revolver e atirou nele, tendo uma das balas lhe alcançado a cabeça. E ele ainda detalhou: me entrou na parte da frente e saiu pela de trás, sem bulir com os miôlo.

E nós com temor de que ele tivesse uma parada cardíaca apenas com a má notícia de que seu marca-passo ainda demoraria mais algumas semanas para chegar…

Traçado

Eu já conhecia o casal das ruas da vila residencial da Cemig, em São Simão; da porta de minha casa, inclusive. Via-os sempre com a carroça puxada por um burro magérrimo, mas valente. Traziam de alguma rocinha por perto, onde moravam, alguns poucos produtos para vender na vila: mandioca, bananas de vez, taiobas, batata doce e o mais disputado: o requeijão moreno. Apreciado especialmente por nós, que vínhamos de outra região, onde tal iguaria, também conhecida como requeijão do Norte de Minas era bastante valoriza­da. Talvez não fosse um primor de fabrico, mas botava gordura pelo ladrão e derretia maravilhosamente na frigideira. Curioso era como a mulher, que cuidava da transação financeira enquanto o mari­do apregoava sua mercadoria nas casas, respondia à indagação da clientela quanto ao preço do produto: “é dez cruzeiro a malmita”. E a tal malmita dizia respeito às fôrmas de lata de cera onde o requei­jão era vertido para se consolidar, ainda quente.

Havia freguesia certa para este tipo de mercadoria em São Simão. A vila não chegava a ser uma cidade de verdade, mais precisamente era um acampamento de obra, no caso, da grande usina hidroelé­trica que estava sendo construída, ao longo dos anos 70, na divisa entre Minas e Goiás. Ali éramos todos estrangeiros. Uma seção bra­sileira, vinda de toda parte do país, se auto denominava “trecheira”, expressão que já decifrei acima. Corriam os anos setenta, apogeu do milagre brasileiro e havia obras por todo lado: estradas, usinas, prédios públicos. Outra parte vinha das estranjas, da Itália em sua maior parte. Eis que a tal obra era tocada em consórcio entre uma empreiteira brasileira, a CR Almeida (já falecida, creio) e uma em­presa italiana, cuja controladora era o grupo Fiat, que atendia pelo vistoso nome de Impresit-Girola-Lodigiani, ou simplesmente Im­pregilo. Esta turma veio para o Brasil como parte da transação que resultou na implantação da fábrica de Fiat em Betim, nos arredores de BH.

Eu e minha mulher éramos dois dos tais trecheiros, embora fosse aquela a nossa primeira (e última) experiência em tal situação. Vi­víamos uma vida boa ali, ganhávamos bem, tínhamos casa, água e luz de graça, além de comida subsidiada. O hospital onde traba­lhávamos era simplório, mas digamos que pelo menos o essencial estava disponível. Um chefe sacana também fazia parte do cenário – nada é perfeito. Nos finais de semana em que não estávamos de plantão, pescávamos no rio Paranaíba, íamos a algum churrasco de vizinhança ou, nos dias que havia disposição para tanto (éramos jovens…), pegávamos um cineminha em Ituiutaba, a meros 100 km de distância. Quanto à qualidade dos filmes, melhor nem comentar. Às vezes tínhamos visita, pois nossa aventura de ir viver em tais pa­ragens atiçou espírito semelhante em outros membros da família, inclusive em meu pai e no avô de Eliane, na época com setenta e muitos anos, o nosso querido e inesquecível Aureslindo Machado.

Voltemos ao requeijão moreno…

Ele é assim escurinho por ser preparado mediante fritura mais carregada da manteiga sobrenadante na pasta de requeijão, que em parte se queima, dando a coloração característica, além de um sabor sui generis, também. Coisa para paladares fortes – e conhe­cedores. Há quem não troque por nada um bom prato (fundo!) do tal requeijão moreno derretido na hora e comido ainda quente, às vezes com farinha de milho! Calorias pra ninguém botar defeito, nos dois sentidos da palavra, térmico e nutricional.180 181

Na verdade, entre os moradores da Vila de São Simão, talvez apenas os brasileiros apreciassem aquele requeijão moreno. Os italianos pareciam continuar mais chegados a um mascarponi, gorgonzola ou grana-padano

O Hospital da Cemig em São Simão atendia também os moradores da região, embora isso não fosse rotina. Um dia me entra pela porta do consultório o tal casal da carroça e do requeijão em malmita. O marido quase a puxar a mulherzinha pela mão. Ele já devia ter uns sessenta ou mais; ela talvez não passasse dos vinte – talvez menos até. Aos sessenta anos, no Brasil, um roceiro já é um velho. Assim, chamava atenção, por pouco convencional, aquele casal com tal disparidade de idade e de aspecto físico. Ele era quase negro, pele gretada pelo sol, cabelos brancos, traços indígenas, um tipo bem goiano. Ela uma daquelas mocinhas que nos sertões nacionais são chamadas de ”roxas”, pele cor de jambo, olhos amendoados e brilhantes; bonita, enfim, dentro dos padrões sertanejos. Provavel­mente ainda não tivesse experimentado a maternidade, o que fazia supor que sua relação fosse recente. Ou por outra razão, mais ínti­ma, sei lá…

E me adentra aquele homem no consultório, goianão como ele só, e vai logo dizendo: dotô, trouxe essa muié pra mode o sinhô fazê um traçado nela.

E eu: como? O que o senhor deseja mesmo?

Ele insistiu: um traçado, seu dotô, um traçado da cabeça.

Como assim?

– É que essa muié não regula bem. Dá muitos ataque. Repuxa todinha, dana a me xingá e não tem ninguém que segura ela. Já até mandei benzê e não arresolveu… Aí me falaram que o dotô tem aí um aparêi de fazê esses traçado.

Foi aí, então, que percebi que ele se referia ao aparelho de eletro­cardiografia que eu possuía, o que naquela época ainda era uma tecnologia que fazia muito sucesso. E eu pude usá-lo em alguns pa­cientes e até mesmo diagnosticar uma angina grave, cujo portador foi logo encaminhado para Ituiutaba ou Uberlândia, em busca de uma unidade coronariana. E tal notícia deve ter se espalhado, che­gando mesmo até aquele homem, perdido nas brenhas ribeirinhas do Paranaíba.

Expliquei para ele que meu aparelho de “traçado” só servia para o coração, mas ele não me pareceu muito satisfeito. Para não deixá-lo muito contrariado, tentei abordar a pobre cabocla sobre seus pro­blemas, mas de sua boca não saiu nada expressivo ou conclusivo, visivelmente empatada que estava com a presença do marido ali do lado. Receitei-lhe umas vitaminas, pois em São Simão não me era possível fazer mais nada. Ituiutaba estava muito remota e mesmo lá não sei o que poderiam fazer por ela. Talvez impregná-la com dia­zepínicos. No caso, o “bom” ou o “mais ou menos” que eu oferecia era certamente antagônico àquele “ótimo” que os serviços de saúde têm a pretensão de prover aos pacientes sem diagnóstico firmado ou portadores de crises de ansiedade ou sofrimento.

Moral da história: até hoje me impressiona o fato de como as pes­soas são influenciadas e se encantam pelas tecnologias. Não é que entre o fabrico de requeijão e a colheita de suas bananas, mandio­cas e batatas doces, aquele homem foi capaz de atentar para o fato que havia um doutor novo na Vila da Cemig, capaz de lhe oferecer, para se ver livre dos “ataques” de sua esposinha, vítima quem sabe, não só dele, mas de todo um contexto social e familiar, aquela tecno­logia tão misteriosa quanto solucionadora de problemas: o traçado.

E nem se pode dizer que isso era produto de alguma internet ou dos fantásticos programas dominicais de TV… Isso nem existia nos anos setenta. É a cabeça das pessoas mesmo…

Nós já resolvemos tudo, doutor

Duas das primeiras pessoas que conheci quando cheguei em São Simão, no finalzinho de 1973, para assumir o posto no serviço de saúde do consórcio construtor da grande usina, foram Nivaldo e Durval. Eram “enfermeiros”, com as aspas devidas, e realmente fa­ziam de tudo um pouco na pequena casa que ainda abrigava os pacientes, já que o hospital definitivo ainda não estava pronto. Ca­ras simpáticos, típicas pessoas do interior do Brasil. Talvez fossem paulistas, pois muita gente que ali fazia o trecho vinha de Ilha Sol­teira, cuja obra, naquela ocasião estava sendo terminada. Naquele tempo, as obras públicas tinham começo, meio e fim… Como mui­tos outros ali, talvez tivessem começado a vida na enxada, depois ascendendo à colher de pedreiro até que progrediram e se transfor­maram em “enfermeiros”.

Quando eu disse faziam de tudo, era a pura verdade. Pois a equi­pe de enfermagem do improvisado hospital tinha apenas uma ou duas pessoas a mais. Mas enfermeira formada em Faculdade, ape­nas uma. Assim, em plantões intermináveis, cabia a esta pequena equipe ministrar medicamentos, trocar pacientes, dar-lhes banho, medir sinais vitais etc. Mas eu não podia imaginar, à primeira vista, que este tudo era quase sem limite…

Logo na primeira semana que chegamos lá, ainda tomando provi­dências quanto ao desencaixotamento da mudança e tramitando os papéis para contratação pelo Consórcio, fomos, eu e Eliane, so­licitados a dar alguma colaboração no hospitalzinho, pois mesmo a equipe medica era muito reduzida, cerca de quatro profissionais dos quais, naquela ocasião, passagem de ano, alguns ainda estavam de licença em função do feriado. E foi assim que numa tarde calma e ensolarada, último dia do ano, solicitaram a presença de um de nós no cenário. Como a informação era de que era uma pequena emergência, fui sozinho, deixando minha mulher cuidando das coi­sas da mudança.

Logo que cheguei vi que não era coisa tão simples como dizia o re­cado que recebi. Numa maca, um adolescente gemia de dor, com o diagnóstico já evidente, um antebraço fraturado que havia se do­brado, bem no meio, em ângulo quase reto. Na janela, que servia de visor de RX, uma radiografia confirmava: radio e ulna fraturados e até separados, com alguns fragmentos de osso, avulsos, comple­tando o quadro. O danado caíra de um telhado, ou algo parecido. Mediquei e fui atrás de meu colega Kleber Luiz da Silva, ortopedis­ta, que supostamente ainda não havia saído para passar o réveillon fora do canteiro.

Naquele tempo não existia celular. Peguei meu fusca e saí em busca do salvador, primeiro em casa, depois em pontos onde ele poderia estar. Ao mesmo tempo a ambulância fazia o mesmo na beira do rio, pois Kleber adorava pescar. Mas nada. Acabei me conformando em enviar o menino para Ituiutaba, que era uma cidade razoavel­mente bem servida por hospitais, atendendo também emergências como aquela. Senti-me um pouco frustrado, mas a verdade é que não sabia lidar com aquilo e, além do mais, a redução da fratura dependeria de anestesia.

Voltei então para o hospital, tentando me resignar com a minha im­potência em resolver casos assim.

Quando entrei na sala, uma hora depois, surpresa! O garoto dormia profundamente, tinha o braço engessado e o “janeloscópio” mos­trava dois ossos perfeitamente alinhados e retificados. Os quase noventa graus tinham se convertido em cento e oitenta, como con­vêm aos ossos do antebraço.

Que coisa boa, pensei, Kleber apareceu e salvou a situação.

Mas qual! Logo me surgem na sala os dois artistas do primeiro pará­grafo. Com a cara mais limpa do mundo me disseram: já resolvemos tudo, doutor. Gostou do serviço?

E eu: como? Kleber esteve por aí?184 185

Não, seu doutor. A gente tacou nele um Inoval, botamos estes ossos no lugar e deu tudo certo…

Antes de prosseguir, uma informação farmacológica. Inoval é o nome comercial de uma combinação de drogas potentes, droperi­dol e fentanil, com atuação no sistema nervoso central, que podem produzir depressão respiratória, bradicardia, rigidez muscular e, no limite, morte…

O que fazer? Em princípio, regozijar, pois em uma coisa Nivaldo e Durval estavam cobertos de razão: tinha dado tudo certo. A fa­mília, ali fora, logo veio me agradecer a atenção e o sucesso do procedimento que a “equipe” do hospital tinha oferecido ao filho traumatizado. E em tal “equipe” eu estava incluído, vejam só… O boliviano diretor do serviço apareceu dali a pouco para dizer que estava tudo certo mesmo.

O que fazer, repito: chamar a polícia? Denunciar o fato ao CRM? Re­pudiar minha formação médica que não me ensinou coisas simples como aquela?

Confesso que não fiz nada disso. Recolhi-me, apenas, à minha per­plexidade, se não à minha incipiência e segui em frente.

A gente às vezes se esquece do nariz…

Cliniquei por alguns anos em Uberlândia. Até que a mosca azul (ou cinzenta, não sei bem) da saúde pública me picou e me deixou tifoso para sempre.

É que eu tinha alguma formação naquilo que se chamava na época de “medicina tropical”, mais tarde “doenças infecciosas e parasitárias”. A chegada da AIDS, nos anos 80, subverteu tudo… Já não era só uma questão de “medicina“ e muito menos “tropical”. O que estava em jogo, agora, eram questões ligadas aos modos de viver, aos comportamentos, às relações sociais (não apenas as “sexuais), coisas assim. Em todos os paralelos e meridianos, não apenas nos famosos e tristes “trópicos”. Bactérias e vírus presentes, sim, mas apenas como variáveis de uma equação muito mais complexa. Nada, enfim, que o arsenal médico tradicional fosse capaz de dar conta, com suas vacinas, antibióticos e outras balas milagrosas e equipamentos, além da empáfia profissional.

Na ocasião eu também ministrava, na Faculdade onde era recém-contratado, uma disciplina com igual nome e nem sempre havia doentes “tropicais” para mostrar aos alunos. É claro que havia sem­pre muitos outros igualmente “tropicais”, mas não no sentido que davam a tal expressão. Quando se internavam casos contagiosos, como de meningite (doença frequente nos anos setenta, censurada pelo regime da época e depois contida graças a medidas de saúde pública), criou-se uma pequena dependência, com três ou quatro leitos, para acolher este tipo de paciente, batizaram-na de isolamen­to e eu fui escolhido para cuidar do que se passasse ali.

Colocavam-se ali alguns casos de tétano, coisa que os médicos de hoje só conhecem nos livros, mas esta doença, além de não ser con­tagiosa, exige ambiente de muita calma, obscuridade e silêncio, para não estimular sensorialmente os pobres pacientes, cujas ter­minações neuromusculares ficam impregnadas da toxina específica do temível Clostridium tetanii. Péssima iniciativa, logo revertida. O tal isolamento, ficava no andar térreo do Hospital de Clínicas e logo ali ao lado estacionavam carros de entrega, inclusive de cilindros de oxigênio (que ao serem movidos fazem uma zoada dos diabos) e trafegavam muitas pessoas, inclusive alunos, com a bulício carac­terístico da juventude. No mais, apenas se via por ali um ou outro caso de meningite, porque aquelas doenças típicas do famoso livro do Veronesi na verdade eram raras. E a AIDS ainda nem era conhe­cida, não havia ainda feito sua estreia no cenário.

Assim, o tal isolamento, mesmo pequeno, logo ficou ocioso, ou me­lhor, passaram a tratá-lo dentro da lógica do “desvio de função”, iniciativa tão presente nas instituições nacionais, aplicável a um sem número de situações, por exemplo, em relação a pessoas e áre as físicas de prédios, passando também pelo uso de equipamentos diversos. Em favor de tais práticas, poderíamos argumentar, sendo apenas piedosos, que se trata da notável e natural “criatividade” dos brasileiros – ou algo assim, o famosíssimo “jeitinho”.

E logo o jeitinho se fez… O tal isolamento, a enfermaria que eu fi­nalmente poderia chamar de minha, passou a abrigar não apenas os contagiosos da vez, mas toda uma penca de pacientes em condi­ções inusitadas, tendo como fundamento da decisão de metê-los ali o simples fato de serem indesejados em outros lugares. Por exem­plo, por falta de asseio, agitação incontrolável por medicamentos, aspecto repugnante ou mesmo, na melhor das hipóteses, falta de vaga…

Um dia ali me chegou o Seu Antônio, um caso que me pareceu ve­ronesiano. O homem tinha um nariz enorme, inchado, vermelho, suculento. Seria um Cyrano de Bergerac, mas bem pouco agradá­vel. O tal nasal parecia uma fruta madura, mas isso não o isentava de se mostrar também repugnante, pois tal pomo minava secreção copiosa e, além do mais, perdoem-me a franqueza que certamente ofenderá aos mais fracos: fedia. E o fazia como a evocar um dito de minha avó, certamente herdado de seu pai português: fedia a cães mortos! E o pobre homem mal tinha quem se encorajasse a se apro­ximar dele, figurava um daqueles leprosos medievais.

A suspeita era de blastomicose, uma doença fúngica que costuma acometer as transições cutaneomucosas. Eu havia lido no Veronesi que o apêndice nasal podia ser acometido e se apresentar com um aspecto como aquele, de pepino ou pimentão passado. A história clí­nica era compatível, dado a visível higiene precária do personagem e sua origem rural, além do curso insidioso. Eu já havia visto, em minha residência médica, no Hospital das Clínicas da UFMG, casos cutâneos e pulmonares, mas nada como aquilo.

Examina daqui, examina dali, colhe-se material, esperam-se resul­tados. E o tempo vai passando. Até que um dia o diagnóstico se fez sozinho. O pobre Antônio começa a eliminar pelas narinas – agora tirem as crianças e as pessoas sensíveis da sala – nada mais nada menos do que uma legião de larvas de mosca de berne. Eca!

A esta altura, a higiene local com líquido de Dakin, nome sofistica­do da popular água sanitária, além da aplicação de compressas de vaselina, que sufoca as tais larvas e as faz cair fora, resolveram a questão em poucos dias. Inclusive a fedentina cedeu.

A história só não tem um final realmente feliz porque Antônio era pobre, muito pobre, e vivia sozinho, quase abandonado. Seus hábi­tos higiênicos eram dignos de um vivente medieval, fosse servo ou senhor. E tendo recebido alta, voltou para sua vida de sempre. Não retornou ao HC, creio, nem para o controle que lhe foi agendado. Nunca mais o vi.

Toda essa história, entre o dramático e o escatológico, é trazida aqui por um aspecto curioso, que reproduzo com todo respeito, espe­rando dar aos leitores um pouco mais de compreensão entre o que é estar doente, na visão dos próprios pacientes, versus a maneira distante e técnica como os veem os médicos e outros membros da equipe de saúde, que apenas perseguem diagnósticos.

Eu indaguei: Seu Antônio do céu, me diga: como isso pôde acontecer com o senhor?

E ele, acanhado, meio se desculpando: pois é seu dotô, não sei não; é que às veiz a gente distrai do nariz…

Pano rápido.

Quem? Eu?

Faz parte do folclore médico aquela expressão de alguns pacien­tes que, ao adentrarem aos consultórios médicos, quando se lhes pergunta o nome ou qualquer outra informação, respondem antes de dizer qualquer outra coisa: quem? Eu? Como se houvesse outras pessoas no recinto, além deles e do médico.188 189

Já soube até de brincadeiras que alguns médicos fazem, talvez de forma não totalmente respeitosa, diante de tais respostas, de se levantarem de suas cadeiras e se porem a procurar, dentro dos ar­mários, banheiros, debaixo das mesas e em outros locais, até que, para espanto dos pacientes, dizem algo como: só pode ser com você com quem estou falando, pois já procurei e não vejo outras pessoas, além de nós dois, nesta sala

Uma vez, no fim de uma consulta, quando o paciente me pediu um atestado irregular, disse para ele aquele mesmo: quem, eu? Como resposta ele apenas me olhou espantado, como se aquilo fosse uma prerrogativa restrita aos pacientes, não aos médicos. Algo assim: aos doutores não caberia este tipo de dúvida, pois eles já saberiam, em princípio e muito bem, quem realmente seriam e que papel lhes caberia no mundo.

Brincadeiras a parte, penso que, além do folclore, isso pode ser ob­jeto pensamentos mais profundos.

Em primeiro lugar, creio que tal expressão é típica de pessoas mais humildes. Jamais vi um intelectual ou indivíduo bem situado na vida falar assim, pelo menos em idênticas circunstâncias. E creio que, entre outros significados, isso poderia ser interpretado como uma estratégia de alguém se compor ou se ajustar ao ambiente. Algo como a revelação de algum espanto de pessoa que “pede um tempo” ao se ver interrogada por alguém de classe social distinta, de outro universo, como é o caso do doutor que ali está. Na mes­ma linha, poderia ser uma espécie de “tique”, semelhante àquele “vou bem e você?”, que dedicamos a um interlocutor recente, ape­nas para iniciar uma conversa, sem que isso signifique que estamos muito interessados em saber como o outro possa estar se sentindo de verdade.

Algumas vezes a coisa assume tais proporções que a cada pergunta que o médico faz, mesmo quando os conteúdos sejam variados, a contrapartida do paciente, também insistente, é: quem? Eu?

Quem? Eu? Quem mais poderia ser? Penso que tal conjunto de ex­pressões pode nos levar, realmente, a pensar em mais coisas, ainda. Por exemplo, a respeito da essência dos dois indivíduos envolvidos em tal colóquio, tão singular e específico. Por exemplo, nos muitos significados que as palavras podem assumir nas interações huma­nas. Eu nem falo em termos apenas léxicos, por exemplo, relativos ao que os pacientes querem dizer com expressões do tipo: me sinto estramonizado, tenho um encalhe de obra, me doem as escadeiras, to­mei um chá de alevante, botaram quebrante nesta criança, vejo umas pirilâmpsias, ou algo parecido. A questão que levanto aqui vai além de considerações de fundo léxico ou dos verbetes dos dicionários.

O buraco, no caso, está mais em baixo ou mais além.

Falo das posições sociais a partir das quais os indivíduos, nos dois lados das mesinhas dos consultórios, fazem seus enunciados ou percebem o que outros enunciam. E que tais posições se constroem a partir de marcas de cultura, de educação, de classe, de acesso a bens, de modos de estar no mundo.

Quem? Eu? Quem sabe isso não poderia ser o ponto de partida para se refletir e se pensar em gestos e ações derivadas das palavras “quem” e “eu”, tais como: o que faço aqui? Que entendimento tem das coisas este outro em minha frente? Será que o que eu entendo corretamente o que ele quer me dizer? Que barreiras há entre ele e eu, que nos impedem de estarmos à vontade um com o outro? Dou respostas de acordo com o que penso ter entendido, mas será isso o que este outro realmente deseja ouvir de mim? Seria possível a mim compreendê-lo, de fato?

Ou até mesmo ir além, em exercício ampliado, em que estejam pre­sentes ingredientes como empatia ou mesmo compaixão? Será que eu poderia ter a capacidade de me colocar não como mero ouvin­te do outro, mas também ter a capacidade de me colocar no lugar dele?

Longa é a arte, numerosas são as perguntas… E é bastante curta, se não a vida, pelo menos o tempo disponível dentro dos consultórios para tantas respostas. Mas saber que existem perguntas a serem respondidas e talvez muitas outras a serem formuladas (e nunca o são) poderia ser um bom começo para a melhoria das relações entre os profissionais de saúde e as pessoas que deles dependem.

Depois de quarenta e cinco anos de formado eu acho que dessa mis­sa ainda não sei nem a metade.

Amém.

Um Kama-Sutra peculiar

Confesso que durante alguns anos de minha carreira de médico clí­nico, que durou apenas dez ou doze anos, diga-se de passagem, me sentia frustrado pela dificuldade em fazer diagnósticos precisos na maioria dos pacientes que atendia nos serviços em que trabalhei. Não estou exagerando, o que ouvia da maioria dos pacientes eram queixas vagas, que muitas vezes não faziam sentido, principal­mente ao ver que os exames que eu pedia vinham absolutamente normais. Nada enfim, que se espelhasse nos livros de medicina que li na faculdade ou com o que convivi mais diretamente na residên­cia médica, ou seja, a realidade de um hospital.

Hospital, é bom lembrar, é um lugar onde realmente se pode en­contrar gente adoecida ou, pelo menos, onde é possível fazer diagnósticos relativamente precisos. Porém nos ambulatórios, nem tanto…

Sofri com isso muitos anos e acredito mesmo que minha migração para a saúde púbica, dez anos depois de formado, tenha sido in­fluenciada pelo estado permanente de desgosto e frustração que me acometia.

Muitos anos depois de parar de clinicar, aprendi com uma grande amiga, Henriqueta Camarotti, que na verdade uma grande questão que mobiliza pacientes, em toda parte e principalmente nos tempos modernos da vida urbana e competitiva, é tão somente o sofri­mento. Tão antigo quanto a humanidade. E que o sofrimento das pessoas é, por natureza, fluido, vago, impreciso, não quantificável e nem mesmo diagnosticável ou classificado em taxonomias. E o que é pior, muitos poucos profissionais de saúde, estando os médicos entre eles, dão conta de lidar com o sofrimento, nem de si próprios e muito menos dos outros. Os médicos conhecem uma fórmula má­gica que lhes é repassada e a repetem como um mantra desde os primeiros dias de faculdade: primeiro diagnosticar com precisão e só então tratar.

Duas questões sérias estão aí colocadas: o que vem a ser um “diag­nóstico preciso” e se realmente todas as condições que as pessoas manifestam têm que ser “tratadas”. Pelo menos dentro do esquema convencional no qual tratamentos incluem sempre medicamentos, intervenções ou, na melhor das hipóteses, terapias mentais.

Lembro-me de um caso específico, acreditando, aliás, que algo se­melhante deve fazer parte do acervo de todo médico clínico.

Eu tratava de uma mulher cheia de queixas. Ela era jovem e apa­rentemente portadora de uma existência estruturada, com marido, casa, filhos, emprego, conforto material. A cada dia ela aparecia com um sintoma novo e me visitava nos ambulatórios da Faculdade pelo menos uma vez por mês. Exames sempre negativos. E falava de dores mutáveis, mal-estar impreciso, febres que não chegavam a ser registradas nos termômetros, desmaios, calafrios, tonteiras. Tudo o que se tem direito.

Um belo dia, o marido também apareceu na consulta, o que ainda não tinha ocorrido. Um homem corpulento, mas de boa aparência, ao que parece pequeno empresário, aparentemente com a vida bem arrumada. Neste dia só este cidadão falou. A mulher, tão lo­quaz normalmente, não conseguiu proferir uma frase inteira. 192 193

O homem, mesmo com cortesia, a interrompia e me passava sua própria versão das moléstias da esposa. E ela, quieta em um can­to. Logo percebi que estava ali um tipo hiperativo, incapaz de um minuto de silêncio e disposto a preencher todo espaço vazio nas conversações, emitindo opiniões que abrangiam não só o campo pessoal, mas também política, futebol, religião, vida social etc. Além do mais, absolutamente dominador em relação àquela pobre cria­tura que ele chamava de esposa.

Expliquei-lhe que realmente estava tendo dificuldade em encontrar um diagnóstico preciso para sua mulher, mas que ia continuar ten­tando. Mas a verdade é que a vinda o homem me abriu portas para entender um pouco melhor a vida daquela paciente. Percebi que, longe de ser uma solução, ali estava um problema para ela.

Na saída, ele voltou um passo atrás, fechou a porta da salinha de atendimento, mantendo a esposa do lado de fora e me pediu um minuto em particular, com o que acedi. E me revelou seu drama, concentrando-se especialmente no total desinteresse que a patroa tinha, já há alguns anos, por qualquer atividade sexual que o envol­vesse também. E então me mostrou fotos do quarto do casal, que havia mandado reformar, de modo a incluir cama redonda, ba­nheira de hidromassagem, TV na parede, teto e paredes espelhadas, luzes estrategicamente distribuídas e outros ingredientes de sensu­alidade e erotismo. Mas tudo em vão, balançava a cabeça o coitado, a se lamentar. Para piorar as coisas, a mulher agora simplesmente se recusava a dormir em tal aposento.

Tentei consolá-lo e pedir paciência, que desse um tempo para a coi­tada da esposa, mas ele mal me ouviu. Aquele era um homem que só falava, pelo visto, jamais ouvia. Já de saída e meio em segredo me pediu que tentasse convencer a mulher, em próxima consulta, a se utilizar das benesses que a tal alcova lhe facultava.

A próxima consulta aconteceu logo, com a paciente comparecen­do desacompanhada. E eu tentei abordar a questão do quarto. A mulher nem me deixou falar; disse que ali não entraria definiti­vamente, porque o marido lhe era infiel, tinha muitas mulheres e, além do mais, tinha copiado aquele projeto de quarto de casal em um motel que frequentava com as amantes.

E foi a vez dela me pedir que o fizesse desistir da ideia de levá-la a tal aposento.

Como eu poderia executar algo assim? A solução não seria a de ela desistir de tal marido? Daria mais certo. Apenas pensei, mas não agi…

Dois pacientes queridos e uma vaca

Cliniquei por poucos anos. Se contar o tempo de residência médi­ca, terei começado no ano de 1972, embora de forma restrita ao ambiente hospitalar. Em 1974 fui trabalhar em São Simão, Goiás, conforme já mencionei aqui e então “tirei o meu atraso” ambulato­rial, pois atendia por dia às vezes mais de oitenta pacientes, entre os exames admissionais e casos leves ou mesmo graves. A partir de 1975, já em Uberlândia, tive consultório próprio (embora por pou­co tempo) e passei a atender regularmente no Hospital de Clínicas, tanto no ambulatório como na emergência, durando esta etapa até 1982, quando passei a me dedicar integralmente à saúde pública, além da docência na Faculdade de Medicina da UFU. Dez anos de prática clínica direta, portanto.

Pelas minhas mãos passaram incontáveis pacientes. De alguns, sal­vei a vida ou a tornei melhor. De outros fui ouvinte paciencioso. Para um punhado encontrei soluções provisórias para os males que traziam. Para a maioria, talvez, fui apenas o doutor que os ou­206 207

viu e despachou, sem diagnóstico e sem perspectiva de algum tipo de fidelização, dentro dos imperativos históricos de uma medicina massificada e avessa a vínculos entre pacientes, médicos e institui­ções.

Mas houve também alguns pacientes que me marcaram e ficaram inesquecíveis. Espero que a recíproca tenha sido verdadeira, pois a maioria desses já deve ter morrido, como é o caso dos dois tipos humanos de que me recordo nessas linhas.

Alcides Alves Pimenta, o Seu Negrinho (que era, na verdade, bran­co), um homem rijo de setenta anos, buscou atendimento comigo no ambulatório da UFU para esclarecer a causa da fraqueza e do emagrecimento que experimentava, de forma inédita em sua vida de pequeno fazendeiro e comerciante. Um simples hemograma es­clareceu o diagnóstico: ele tinha uma leucemia mielóide, doença crônica que já na época, final dos anos setenta, tinha boas perspec­tivas de cura ou pelo menos de controle.

Eu o encaminhei ao oncologista, que iniciou o tratamento com corticosteróides e mais alguma coisa, e o devolveu a mim, para acompanhar o tratamento, que produziu resultado palpável imedia­to, aliás. Ele vinha ao ambulatório mensalmente e logo as consultas se resumiram a um breve exame e algumas perguntas, além de agradáveis dedos de prosa. E assim foi por uns bons três anos.

Em 1980, quando suspendi minhas atividades assistenciais para fazer especialização na Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio, ele ficou inconformado e só se tranquilizou quando eu lhe garanti que em meu lugar ficaria Antonio Carlos Miziara, pessoa de minha total confiança, que me acompanhava nas consultas, à época resi­dente de Clínica Médica e já iniciado na especialidade de oncologia. Falarei também deste sujeito admirável mais adiante. Mas quan­do voltei a Uberlândia, oito meses depois, retomamos o contato e o acompanhamento clínico, até que um ou dois anos depois resolvi parar de vez com a assistência direta a pacientes, pois eu já estava envolvido com atividades de saúde pública que me mobilizavam as energias, no caso a instalação de uma “Unidade Didática Avançada” na periferia da cidade.

Desta vez evitei maior dramatização. Miziara continuou acompa­nhando Seu Negrinho no ambulatório e eu passei a visitá-lo em casa, mais como amigo dele e da família do que como médico. Mas, para agradá-lo, não deixava de lhe medir a pressão, auscultar o pei­to, fazer algumas perguntas e dar uma conferida geral nos últimos exames.

Tudo correu bem por mais algum tempo, mas um dia a invasão leucocitária atípica falou mais alto e Seu Negrinho piorou substan­cialmente. Nas semanas seguintes minhas visitas se multiplicaram e eu, de certa forma, voltei a ser seu médico, embora em caráter mais paliativo do que qualquer outra coisa. Uma noite, cerca de 1984, dona Leta, sua esposa, me telefonou preo­cupada, pois o marido tinha muita falta de ar e estava muito pálido. Cheguei a tempo de seu último suspiro, sem poder fazer nada – e nem era o caso de qualquer heroísmo médico. Assim, o médico se afastou e só ficou o amigo, o que já é muito numa hora dessas. Acompanhei os procedimentos fúnebres iniciais, consolei a família (e fui consolado também) e participei do tradicional café com pão de queijo até a manhã raiar, lado a lado com o corpo de meu amigo.

A morte de Seu Negrinho me deu oportunidade de fazer, por única vez em minha vida e acho que na de muitos médicos, algo prosaico, mas que me abriu para uma nova dimensão do cuidado: eu ajudei o filho e o moço da funerária e lhe vestir o corpo, com direito a terno e gravata, além de leve maquiagem. Não é nada, mas certamente representou uma experiência marcante para mim, que me trouxe de forma intensa um sentimento de fragilidade da vida e do elo que deve existir entre os mortos e os que continuam vivos, bem como entre médicos e pacientes, sabe-se lá até quando, tendo como pano de fundo o momento em que se venha vestir o sujeito para final­mente levá-lo ao caixão. 208 209

Dona Helenita Travaglia me veio encaminhada, como paciente particular, por um colega de Faculdade, Leonardo Diniz, que a aten­dera durante uma longa internação no Hospital Julia Kubitschek de Belo Horizonte. Não era muito idosa, talvez pouco passasse dos sessenta anos, mas tinha um organismo combalido, com insuficiên­cias diversas, particularmente pulmonares, fumante que fora por longos anos. Era casada com Olinto Travaglia, uma figura doce, que me lembrava o Gepetto, o marceneiro que criara o Pinocchio da famosa história.

Helenita me chegara às mãos já nas vésperas de fechar o consultó­rio, de modo que fiz ali seus primeiros atendimentos e depois passei a vê-la em casa, quando chamado. A empatia, assim como na histó­ria anterior, foi imediata, não só envolvendo a paciente como seu simpático companheiro.

A receptividade gentil e generosa da família, constituída apenas pe­los dois anciãos, era comovedora, de modo que também ali comecei a me sentir em casa e passei também a compartilhar, em visitas que nem lhes cobrava mais, uma verdadeira parceria afetiva, sem preço. A intimidade cresceu e em algumas ocasiões levava comigo meu filho Maurício, na época com sete ou oito anos, que também foi muito bem recebido pelos velhinhos, que passaram a cobrar a presença dele, quando por acaso não o levava comigo. Mauricio geralmente ficava na sala, enquanto eu ia ao quarto examinar a pa­ciente, e quase sempre levava no bolso, para se distrair, um ou dois de seus inúmeros carrinhos. E ali, nos sofás, entre montes e vales de almofadas e espaldares, deixava sua imaginação correr solta, em viagens sem fim.

Dona Helenita quase sempre o convocava ao quarto, de onde já não mais saía, de forma que aos poucos o garoto participava de toda a consulta. Um belo dia, enquanto eu auscultava a paciente e fazia algumas perguntas, ele foi se chegando ao leito e, ato contínuo, pas­sou a trilhar novas estradas, no caso, a cama e as pernas de Dona Helenita. Eu bem que tentei afastá-lo, mesmo suavemente, mas a velhinha insistiu que eu o deixasse continuar na viagem, com o que ela se divertia intensamente. Mauricio, por sua vez, tomou-se de intimidade e passou a tratar a dona da casa como “Donanonita”.

Um dia, ao final da consulta, Olinto disse à mulher: fala para o Dr. Flavio aquilo que você está aflita para perguntar. Ela o repreendeu, contrafeita e se negou a falar, não o fazendo mesmo que ele insis­tisse. De minha parte, achei melhor não insistir. Já na porta da rua, Olinto me contou qual era a pergunta que se calava. Ela quer saber se o senhor é de fato médico ou se seria veterinário

Achei muita graça e logo entendi o motivo da dúvida. Eu passara alguns anos coordenando a vacinação contra raiva animal na cida­de, na condição de técnico da Diretoria Regional de Saúde. Como tal, não poucas vezes eu comparecera à TV ou aos jornais, falando sobre cuidados com animais, mordeduras, esquemas e campanhas de vacinação etc. É claro que a dúvida era pertinente…

Já pensaram: alguém se tratar durante alguns anos com um profis­sional cuja formação suspeita que seja a de médico de gatos, cães e cavalos, não de gente… Era grande o dilema de dona Helenita, re­almente. Mas pedi licença ao marido e voltei ao quarto, colocando o assunto em pratos limpos. E achamos todos muito graça naquilo.

E a vaca anunciada no título acima, onde e como entra nessa histó­ria?

Voltemos a Seu Negrinho. Ele havia sido fazendeiro, dos pequenos é verdade, mas mantinha algum gado na fazenda de um filho, pró­xima à cidade. E me fez tal presente. Não se sentiu encorajado em me perguntar se eu queria ou aceitaria algo como uma vaca, mas à moda de minha outra cliente citada acima, pediu à esposa, Dona Leda, que o fizesse. Eu confesso que fui pego de surpresa, mas como tinha um pequeno sítio nos arredores da cidade (e não sou dado a recusar presentes oferecidos de coração), aceitei.

A tal vaca, na verdade, ainda não era vaca, mas apenas uma novilha de um ano. Ir conhecê-la na fazenda do filho de Negrinho foi uma festa para as crianças. Ela era uma “girolanda”, mais holandesa do que indiana, e por isso mesmo bem mansa, permitindo até mes­mo os afagos da meninada. Ato contínuo, ela chegou ao sitio numa camionete, para alegria continuada da família. Quando fomos rece­bê-la no nosso sítio Sagarana, em clima de grande festa, passei em uma casa de produtos agropecuários e comprei um adereço que me pareceu essencial para quem era agora proprietário de uma vaca: um cincerro. Logo se viu que não foi uma boa ideia.

A vaquinha logo ganhou um nome, dado pelas crianças: Camélia. De sino ao pescoço andava incansavelmente pelos dez mil metros quadrados que lhe cabiam na propriedade. O cerrado, entretanto, como se sabe, não é pródigo em gramíneas. Deu-se então que em menos de quinze dias o terreno que já era ralo e devastado ficou totalmente careca. Na vizinhança, situação igual; não havia onde me socorrer com capim. Assim, chegou logo a vez da ração, já um produto muito dispendioso na época. E eram dois ou três sacos por semana. Nas noites que passávamos no Sagarana, praticamente em todos os finais de semana, o que mais se ouvia era o cincerro de Ca­mélia a soar incansavelmente, pra lá e pra cá. Nessum dorma, ainda mais com um barulho daqueles.

Resumo da ópera: a vaca foi um presente honroso, daqueles que fazem parte do folclore da medicina em toda parte e que me deixou muito feliz. Mas felicidade mesmo foi a de quando pudemos reti­rar a mesma do mísero espaço que ela ocupava. Compramos uma propriedade maior, uma verdadeira fazendinha em um município vizinho, na qual os hectares eram bem mais numerosos do que no Sítio Sagarana. Camélia foi transferida para lá, viveu muitos anos e produziu muitos bezerros, além de alguns litros de leite. Quem quiser que conte outra.

Um visitante ilustre em Uberlândia

Fora da turma que um dia pugnou pela chamada Reforma Sanitá­ria brasileira, aquela dos anos 80, talvez pouca gente conheça hoje Carlos Gentile de Mello. Ele era um médico de carreira do antigo Inamps (antes INPS) que se destacou pela sua visão abrangente da saúde, se esmerando, particularmente, na crítica à irracionalidade do sistema de saúde brasileiro, dividido entre a “saúde pública” po­bre e abandonada e a “saúde previdenciária”, bem mais abonada, mas estupidamente gastadeira de recursos, além alcance não uni­versalizado.

Ela era figura carimbada nos anos 70 e 80. Publicou alguns livros e se destacou no combate pela democratização da saúde a partir das trincheiras da grande imprensa, que não raramente abria espa­ço para ele. Além disso, tinha uma personalidade marcante, muito comunicativo e extremamente irônico, sem deixar de ser didáti­co, em suas intervenções públicas. Eu o conheci no Rio de Janeiro, quando fui fazer meu curso de especialização na Escola Nacional de Saúde Pública. Em tal ambiente, ele, ao lado de Sérgio Arouca, Eduardo Costa, Hésio Cordeiro (este na UERJ), além de outros, eram as grandes estrelas das novas propostas que surgiam à esquerda do establishment inampsiano e governista em geral.

Gentile pode ser citado, sem nenhum favor, como um dos inte­lectuais da saúde que mais contribuiu para a utopia da Reforma Sanitária e da criação do SUS, embora para fazer justiça a ele e ou­tros, seria de bom tom perceber que o sistema com que sonharam certamente se tornou bastante diferente com o que a realidade na­cional engendrou.

Gentile estava sempre disponível quando se tratava da cruzada sa­nitária reformista. Assim, resolvi convidá-lo, em meados de 1981, para fazer uma palestra em Uberlândia, não só para meus colegas e alunos da Universidade, como para o público em geral.

Eu já era meio calejado com eventos públicos na cidade, principal­mente se eram de teor político (ou também crítico, como era o caso). Difícil, quase sempre, reunir um bom público. E bem no dia de Gen­tile falar desabou, no final da tarde, um temporal memorável. Mas ele só tinha um dia conosco e, assim, tivemos que tocar o projeto em frente. Esperando a chuva passar, consegui, com uma hora de atraso, reunir uma dúzia de abnegados e amigos.

Como o auditório reservado para o evento era o da Sociedade Médi­ca, de localização central, achamos que o público seria maior, mas isso não aconteceu. Mas, em todo caso, tivemos a “honra” de contar com a presença do presidente da entidade. Coloco tal palavra entre aspas por motivos que logo se verá.

O tal presidente era um daqueles médicos visceralmente liberais, dono de hospital, famoso por suas intervenções desabridas e suas tiradas fora de hora. Era o que poderia ser chamado, nos termos de hoje, de um completo e acabado sem-noção. E ainda chegou vindo de alguma mesa de bar, coisa que seu hálito e seus gestos deno­tavam. Pelo que deu a perceber quando finalmente abriu a boca, tendo custado a fazê-lo por ter chegado atrasado, talvez tentando se inteirar do assunto em pauta, o presidente tinha captado só um detalhe relativo à palestra: Gentile era do Inamps…

E o sem-noção veio com tudo. Iniciou uma arenga interminável, na qual deplorava o valor das US e das GIH, os atrasos de pagamento, as glosas de contas hospitalares.

Detalhe importante: Gentile era um inimigo feroz do processo de pagamento baseado nas tais “US” e “GIH”, na verdade um tipo de pagamento por serviço prestado, que já naquela época havia sido superado em todo o mundo, por se constitui em terrível fonte de corrupção, além de multiplicador artificial de despesas com saúde. Vêm daí as famosas histórias relativas a apêndices operados duas vezes, amígdalas quatro, cesarianas em homens, além de cirurgias de próstata em mulheres.

Gentile era tão visceral em sua crítica a tal sistema de pagamento, que uma brincadeira corrente na ocasião, entre seus amigos, era a de que ela havia gravado em sua secretária eletrônica a seguin­te mensagem, seu verdadeiro mantra: aqui fala Carlos Gentile de Mello; deixe seu recado e não se esqueça: pagamentos por US e GIH são fontes inesgotáveis de corrupção e desvio!

Mas o palestrante tentava acalmar o presidente: mas meu amigo, eu também sou contra isso tudo! Eu defendo outro estado de coisas… E o sem-noção retrucava: mas se o senhor é do Inamps tem que escla­recer, porque aqui nós estamos quase morrendo de fome por falta de pagamento decente…

Para finalizar, não custa revelar que, naquele tempo, a agência do Inamps em Uberlândia tinha cerca de quinze ou dezesseis médicos auditores de contas hospitalares. Desses, apenas dois não eram do­nos ou sócios dos hospitais locais. Sem comentários…

Depois dessa desisti de me meter em tais aventuras.

Da maldade humana

Eu nunca apreciei muito aquelas festas que são feitas de cinco em cinco anos para comemorar a formatura. Como todo mundo sabe, os médicos primam pelo seu cultivo, assim como pela comemora­ção anual do dia de São Lucas, padroeiro da profissão, em 18 de outubro. Para mim, respectivamente, trata-se de saudosismo sem substância ou mesmo de narcisismo descarado.

O tal “Dia do Médico” realmente sempre me deixou impressiona­do… Durante muitos anos, quando ainda tinha ativo o meu registro no CRM, nos dias dezoito de outubro recebia mensagens, postadas por médicos, comemorando… o Dia do Médico. Acho que é realmen­te peculiar na profissão. Giovanni Berlinguer já havia chamado atenção sobre isso em seu livro dos anos 70, “Medicina e Política”. Uma estratégia de ocupação de espaços de poder, segundo ele. Se­ria, a meu ver, o mesmo que os cozinheiros passassem a elogiar seus quitutes, sem ouvir os comensais. Não seria, então, o caso de deixar, primeiro, os pacientes se manifestarem?

Compareci a apenas duas dessas festividades quinquenais: na de cinco anos, quando eu não sabia ao certo o que me aguardava e na de quinze, na qual estive por absoluta insistência de Eliane, tam­bém colega de turma.

Nesta última festa, realizada em Araxá (se aquelas termas falas­sem…), eu tinha pelo menos duas ou três razões sérias para faltar. Primeiro porque eu já tinha ideia do que me aguardava, sendo eu pouco afeito ao uso dos “faróis de ré” passadistas, como disse Pe­dro Nava. Segundo, porque eu havia recém fraturado uma costela em uma infeliz partida de futebol, na qual fui atropelado por um verdadeiro tanque de guerra e, em tal situação, estava portador de uma verdadeira amplexofobia. E eu sabia que os abraços viriam aos montes, com direito àqueles tradicionais tapinhas, melhor dizendo, murros nas costas, habituais entre o público masculino.

Mas a terceira e mais importante razão era outra. Eu na época era Secretário Municipal de Saúde e, dentro de minhas prerrogativas (e com toda razão) havia demitido ninguém menos do que um colega de turma. E isso, para os médicos, é o horror completo, verdadeira traição à classe. Como “eles” costumam dizer colega não entrega e nem persegue colega. Mas o caso era bem outro. Eu não perseguira ninguém, mas sim havia demitido um inadimplente, pouco respon­sável, mau cumpridor de deveres profissionais e não apenas de horários, além de ser um tremendo manipulador, que o tempo todo tentava colocar a comunidade contra a administração municipal.

Sendo assim, fire! E eu nem precisei recorrer a comissões de inqué­rito ou coisa que o valha, pois nossos contratos eram temporários, anteriores à vigência das leis constitucionais que regularam a maté­ria do concurso público e da estabilidade. E para a rua o tal sujeito foi. Ou melhor, para o belo apartamento que a riquíssima família dele tinha em São Paulo. Acho que um dia ele deve até ter me agra­decido por ter, quem sabe, lhe antecipado tal decisão…

E assim eu cheguei à tal festa muito ressabiado. Não sabia se o pior seriam os abraços ou as cobranças de “traição” que fatalmente se despejariam sobre minha pobre cabeça. E entrei na arena como um cristão na cova dos leões.

Depois dos abraços, que me deixaram quase sem fala, algum gaiato levantou o nome do demitido, mas não para me cobrar qualquer coisa, mas apenas para indagar: ele era gay mesmo?

Aliviado eu respondi que sim, mas logo arrematei, antes que algum agente do politicamente correto aproveitasse a deixa: mas não foi por isso que ele foi demitido…

E tudo ficou por isso mesmo. Ou melhor, levantou-se, de novo, uma antiga lebre, com grande entusiasmo nas participações: quem se­riam os gays enrustidos da turma de 1971? Assunto que, na ocasião, comemorava quase 20 anos de pulsação.

A cura da doença de Chagas

Acabei parando de clinicar por vários motivos. O principal era ide­ológico, pois achava de fato que poderia ser mais útil à sociedade se passasse a encarar o processo de trabalho em saúde no plano do coletivo, frente aos determinantes sociais da saúde e da doen­ça. Mas havia outra razão, esta mais íntima e talvez pouco nobre: eu já não suportava mais a quantidade de pessoas que se apresen­tavam nos ambulatórios e emergências com os quadros que um dia eu apelidei de pessoas “SHAI”: somatizadoras, hipocondríacas, auto-indulgentes. É que eu havia sido treinado, nos meus anos de faculdade e residência médica, apenas a fazer diagnósticos e con­duzir tratamentos, nesta ordem. E isso me parecia cada vez mais difícil, correndo mesmo o risco de cair em uma postura clínica (e talvez também cínica) que eu recusava: para sintomas vagos, trata­mentos idem.

Além disso, a vida de gestor público me abrira novos horizontes, nela me realizando muito mais do que na clínica. Mesmo quando eu era abordado, nas ruas da cidade, por antigos pacientes que me perguntavam quando eu iria voltar a atender, não deixava de ficar lisonjeado, embora, sinceramente, nunca tenha deixado de achar que minha opção de abandonar a clínica foi a mais acertada.

Mas na nova vida havia também percalços. Eu agora estava exposto e não raramente recebia pancadas de todo lado. Comecei mesmo até a gostar disso, pois creio ter desenvolvido uma boa capacidade de produzir resposta “à altura” do interlocutor. Lembro-me, de­liciado, por exemplo, da resposta que dei a um vereador que me inquiriu, em uma visita minha (convocada) à Câmara Municipal. Sua Excelência queria saber por que eu não trazia, de antemão, os assuntos da SMS para discutir ali, com os legisladores; se isso não seria mais democrático. E eu não deixei por menos: Excelência, eu votei, no plebiscito de 1994, pelo regime parlamentarista. Mas infe­lizmente perdi… O tal vereador balançou a cabeça contrafeito e me deixou em paz. Aliás, abandonou a inquisição poucos minutos de­pois. Excelências…

Como Secretário não raramente era colocado frente a problemas que estavam inteiramente além de minha capacidade ou respon­sabilidade legal. Neste aspecto, acho que paguei um preço caro por ter sido sempre um sujeito que não teve medo – ou foi ingênuo o 224 225

bastante – em expressar suas opiniões, donde muitos acharem que eu sabia de tudo e de tudo daria conta. Acho que meu prefeito, mes­mo, me via com alguém assim. E tome demandas esquisitas. Por exemplo, o caso do homem que havia descoberto a cura da Doença de Chagas.

Ele me veio encaminhado diretamente do Gabinete de Zaire, com recomendações expressas que lhe fosse dada prioridade no atendi­mento. Chegou meio desconfiado, só começando a interagir comigo depois que viu a porta de entrada fechada por minha secretária. E mesmo assim me pediu para fechar a janela que havia atrás de minha mesa, segundo ele, porque o assunto que lhe trazia até ali era muito sério e envolvia muitos interesses.

E então, em voz baixa, meio que se aproximando de mim, começou a falar. Disse que tinha, finalmente, depois de muitos estudos e pes­quisas, descoberto a fórmula de um medicamento potente, capaz de curar completamente a terrível Doença de Chagas. E me falou de dezenas de pacientes que já haviam recebido o mesmo, com su­cesso comprovado. E me citou o médico que com ele trabalhava, um cardiologista da cidade que eu conhecia de vista, que poderia atestar todas aquelas curas, tendo se tornado um grande entusiasta do revolucionário fármaco.

Neste ponto, meu pé atrás recuou ainda mais. Eu conhecia a histó­ria real de tal médico, figura controversa, havido na cidade como um picareta de marca, muitos duvidando até da veracidade de seus títulos profissionais e científicos. Mas deixei o homem prosseguir, perguntando-lhe em que a Prefeitura poderia ajudar em tão meri­tória empreitada.

Foi o sinal que ele esperava. Abriu finalmente a pastinha de plásti­co que trazia, agarrada, debaixo do braço e se entusiasmou. E me mostrou não fórmulas farmacológicas, mas cifras e mais cifras, relativas à compra de equipamentos, construção de instalações, re­muneração de pessoal. A ideia que trazia era de fazer uma ampla “campanha” para acabar de vez com a Doença de Chagas na cidade, quiçá na região, onde ela era fortemente endêmica.

Sugeri que deixasse os papéis comigo, para analisá-los de forma mais aprofundada, mas ele não permitiu, alegando que ali estavam coisas muito estratégicas e que, além do mais, ele só tinha aquelas cópias.

Para ganhar tempo, perguntei-lhe sobre como tinha chegado àquela fórmula. Neste momento, o homenzinho, depois de breve relutância, voltou à janela, para confirmar se estava fechada de fato. Aproveitando que já estava de pé, aproximou-se ainda mais de mim, quase me sussurrando ao ouvido: ela foi passada a mim por um extraterrestre!

Quando? Como? – aí eu fiquei realmente interessado em ver até onde ia a viagem daquele sujeito.

Doutor, desculpe, eu já lhe disse muito; isso não poderei revelar!

Se um dia descobrirem a cura da Doença de Chagas e provarem que ela realmente veio do espaço sideral, darei, maIs do que minha mão à palmatória, minha cabeça à guilhotina da história…

Feitiço X Feiticeiro

Entre 1981 e 1982 o piauiense Francelino Pereira era o governador de Minas Gerais e as coisas iam de mal a pior na saúde, pelas influ­ências políticas igualmente poderosas e clientelistas, capitaneadas pelo partido do governador – Arena e depois PDS – que ele havia designado imodestamente como “o maior partido do Ocidente”. Em Uberlândia, certa calmaria política consentida no governo anterior, de Aureliano Chaves, ainda manteve os agentes partidários locais sob controle, mas com o desembarque do piauiense no Palácio da Liberdade, em 1979, as coisas mudaram para pior. Afinal a ditadu­ra, apoiada por tais líderes estaduais começava a mostrar marcas de esgotamento e eles se cada vez mais se arvoravam na sustenta­ção da mesma.

Eu trabalhava como supervisor técnico na Diretoria Regional de Saúde de Uberlândia. João Pedro Gustin e Homero Santos eram as duas grandes lideranças locais do PDS. Não que eles não interferis­sem na instituição – certamente o faziam– mas seus contatos eram realizados diretamente com o nosso Diretor, Evandro Souza, indi­cado e mesmo aparentado com um deles, muito mais do que com os mortais comuns, como nós técnicos. Mas a mudança de governo al­terou a rotina. Agora simplesmente tínhamos dois cabos eleitorais de Homero e Gustin nomeados, com direito a cargo de direção, para trabalhar ao nosso lado, cotidianamente. O pior (ou o melhor…) é que eram sujeitos simpáticos, que nunca negaram o que os trazia ali e que cumpririam isso com afinco. De cara foram declinando sua intenção de não interferir nas questões técnicas, promessa que entretanto nunca foi cumprida totalmente. Mas pelo menos mani­festaram tal boa intenção.

Além deles, foi nomeado também um novo diretor, um médico da cidade, meu ex-aluno na Escola de Medicina, que vinha ficando fa­moso por suas peripécias à frente de uma clínica de emagrecimento na qual eram vendidas e aplicadas, mediante internação, verdadei­ras bombas farmacológicas, fabricadas ali mesmo, em um cômodo no quintal da casa que servia de sede para o empreendimento. E tal sujeito, com quatro ou cinco anos de formado, já era dono de um vistoso Mercedes Benz.

A Diretoria Regional ficou movimentada na época, superando certa modorra que ali imperava até então. Os referidos cabos eleitorais, ocupando agora salas nobres no prédio, tinham filas em suas por­tas durante todo dia, geralmente formadas por seus assemelhados e correspondentes das cidades da região, por presidentes de diretó­rios e mesmo vereadores e prefeitos municipais. Conversas longas, muito cafezinho, muita risada e alguns bate-papos com portas fe­chadas eram a regra nesses colóquios. No final quase sempre era liberada uma caixa com medicamentos ou algum equipamento, sempre em doses homeopáticas, contudo. A regra maquiaveliana era praticada por eles com rigor: faça devagar o bem… 242 243

Assim começou a ser quebrada a promessa de não interferência nas questões técnicas. Mas sempre com muita simpatia por parte dos encarregados homero-gustinianos. Anos depois descobri uma frase, atribuída aos colonizadores ingleses, que bem descreve a atuação daqueles dois pelintras, com seus tapinhas nas costas e seus sorri­sos cúmplices: do it, but do it nicely…

Já o Diretor, este se esfalfava… De vereador e prefeito para cima ele fazia questão de receber em seu gabinete, refrigerado até quase que estalactites de gelo pendessem do teto. Fora isso, era chamado em sua clínica-bomba pelo menos três ou quatro vezes ao dia, por algu­ma “urgência” (e era provável que fosse mesmo…), permanecendo por lá por uma ou duas horas em cada chamada. Nos intervalos, atendia a uma permanente fila de senhoritas em trajes, digamos, tentadores, que deviam morrer de frio naquela sala refrigerada. Às vezes saiam de lá com ele para uma volta de Mercedes, talvez para pegar um calorzinho, que afinal ninguém é de ferro.

Aquilo tudo, para boa parte de nós, da equipe técnica, dava engu­lhos no estômago. Outros somente achavam graça, pois afinal a DRS, antes tão pacata, agora era um torvelinho divertido e movi­mentado. Uma parte nem ligava, talvez repetindo intimamente o famoso mantra de que político é assim mesmo.

Foi assim que eu achei que poderia fazer alguma coisa. O que me ocorreu foi procurar um ex-professor meu da UFMG, que agora ti­nha um cargo adjunto, muito próximo ao Secretário de Saúde da época. Meu antigo mestre parecia poderoso, sem dúvida; quem sabe nos ajudaria e dar um basta naquilo?

A execução do plano se deu em rápido passo seguinte. Imbuído, então, das intenções mais cívicas possíveis, peguei um ônibus da Viação Gontijo em Uberlândia e rumei para BH. Eu tinha alguns assuntos a tratar na Secretaria de Estado e não me foi difícil mar­car uma conversa com o meu antigo mestre, que me recebeu muito bem e apenas me pediu paciência, pois estava aguardando um tele­fonema muito importante, pelo que tivesse, talvez, que interromper

nossa conversa por alguns minutos, não mais. Pegamos então aque­le papo básico, ele querendo saber onde estava e o que fazia etc.

Eu, percebendo que meu interlocutor, embora amistoso, demons­trava alguma pressa, resolvi iniciar logo o relato que trazia. Falei dos abusos que presenciava, das interferências nas decisões técni­cas, principalmente no suprimento irregular de material, na ronda interminável de agentes partidários, na bizarrice da atuação do di­retor…

De repente o telefone tocou, ele me fez um sinal com as mãos e aten­deu. A conversa parecia ser sigilosa, já que respondia com “sim” e “não” a maioria das vezes, quase não se alongando. Percebi, en­tretanto, que se falava de uma viagem, para o dia seguinte, ao que parecia, e que a partida se daria nas primeiras horas da manhã. Em algum momento o assunto era relativo a diárias, para o que ele dizia, “sim, pagar aqui pela superintendência”. Despediu-se em poucos minutos, mas percebi que o interlocutor viria pessoalmente falar com ele em poucos minutos.

Quando ele desligou, vi que a afabilidade inicial era substituída pela pressa agora, bem mais perceptível e tendo captado isso comecei a guardar os documentos que trouxera, já preparando a despedida.

Eu já de pé, com os documentos na mão, meio que caindo pelo chão, querendo sair da sala, pois o mestre estava agora realmen­te apurado. Eis que entra o homem que estava ao telefone. E vai logo dizendo, sem perceber que havia visita na sala: então, doutor, para Guarapari temos que ver como abastecer a viatura no meio do caminho, pois não temos convênio de combustível em outro estado; preciso providenciar um adiantamento…

O mestre empalideceu. Dois dias depois era um feriado que prolon­gava o final de semana e Guarapari, para quem não sabe, é (ou era) a praia predileta dos mineiros…

Moral da história? Nenhuma. Recolhi-me ao lugar de onde não de­veria ter saído.

A imorredoura instituição

Na época da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1986 e 1988, eu comecei a circular intensamente pelo país, por mares nunca dantes navegados, pelo menos por mim. Eu já participava do movimento de criação do Conasems, a entidade nacional de SMS, além de fazer parte da Comissão Nacional de Reforma Sanitária, na qual fui admi­tido pela porta da frente – episódio que narrarei em outro capítulo.

Nessas viagens, o comum era fazer o proselitismo municipalista em saúde – e nisso eu fiquei escolado. Às vezes também me chamavam para explicar o conteúdo do tópico da Saúde e Seguridade Social na Constituição que estava sendo elaborada, já que circulava a notícia, verdadeira, aliás, de que eu andava fazendo, junto com outros SMS, um lobby do bem frente aos parlamentares constituintes. Com efei­to, naquela ocasião defendia algumas cláusulas de nosso interesse, principalmente em termos de descentralização e municipalização dos serviços de saúde. Devo dizer que já não sei se sustentaria exa­tamente as mesmas ideias hoje…

De maneira geral eu realizava tais milagres em outras freguesias, pois em Uberlândia meus interlocutores eram mais escassos, no má­ximo os membros da breve e valorosa “CRIS”, ou Comissão Regional Interinstitucional de Saúde, criada por força da implantação da po­lítica de saúde preliminar ao SUS, e também transitória. Até que um dia resolveram prestigiar o santo de casa… E assim fui convidado pelo Agente Local da Previdência Social, com quem eu mantinha uma relação respeitosa, apesar de nossas divergências, a explicar o conteúdo do relatório da saúde da Constituinte aos funcionários da tal Agência. Fui recebido com certa frieza, em um pequeno audi­tório quase lotado e de clima muito abafado, em dois dos sentidos possíveis desta palavra.

Comecei por um voo panorâmico, falando sobre o conceito de Segu­ridade Social, diferente daquele de Seguro Social, que fundamentava a filosofia de ação e o funcionamento dos vários segmentos da Pre­vidência naquele tempo.

Isso posto, abordei mais de perto as mudanças que estavam sendo construídas na saúde, dando ênfase especial à questão do direito universal, que punha por terra todo o suporte normativo que havia dado ao Inamps a prerrogativa de exigir a famosa “carteirinha” de quem quisesse ser atendido em seus serviços. Nesse momento, vi que as fisionomias da audiência começavam a se contrair.

E abordei, já em ambiente que eu percebia como de franca descon­fiança, a possibilidade concreta de que a gestão única dos serviços e ações de saúde passassem a ser da alçada dos governos estaduais e municipais, deixando ao Inamps um papel secundário e até mesmo prenunciando sua extinção.

Passeei então pelos vários conceitos em jogo: descentralização, participação, unificação, regionalização, integralidade… O ar de in­credulidade ficava cada vez mais explícito.

Até que abri para perguntas do auditório. Demorou um pouco, mas elas vieram, meio tímidas, mas anunciando um clima não só de desconfiança, mas também de oposição ao que se discutia em Brasília. As intervenções eram também marcadas por expressões de incredulidade, quase sempre com afirmativas de que o papel da previdência federal era insubstituível no Brasil, e que seu enfraque­cimento certamente levaria o sistema ao caos, não só na assistência à saúde, mas também na prestação das aposentadorias, pensões e demais benefícios sociais. Alguns membros da plateia, visivelmente nervosos, saíram para fumar no corredor em frente e não mais re­tornaram, abrindo, fora daquele auditório onde eu me encontrava, uma nova reunião, de cunho certamente dissidente.

E eu aguentando firme…

Até que veio a indagação fatal, a pergunta mãe de todas as per­guntas, originada de uma senhorinha que vagamente me lembrou aquela Miss Suéter de João Bosco e Aldir Blanc (a digna escriturária do INPS, lembram-se?).

Foi assim: Doutor, mas para isso tudo valer ainda vai ter que passar pela Direção Nacional e ainda ser publicado como Portaria da Presi­dência do Inamps, não é?

Pano rapidíssimo. Poucos meses depois a Constituição Cidadã era promulgada em Brasília, em sessão solene do Congresso Nacional, sem que o famigerado Boletim da Presidência do Inamps tivesse se ocupado dela.

O Inamps, instituição ainda presente na memória de muitos, ainda me trouxe pelo menos mais uma história curiosa, digna de ser pas­sada adiante.

Deu-se o seguinte: quando fui trabalhar em Brasília, em 1991, meu primeiro posto foi no IBAM – Instituto Brasileiro de Administra­ção Municipal, que tinha um convênio de assistência técnica com a recém-criada Fundação Nacional de Saúde, híbrido da fusão da “inteligência” e da “beleza”, conforme o famoso joke de G. Bernard Shaw, que resultou do casamento da antiga Fundação SESP com a Sucam, Superintendência de Campanhas de Saúde Pública. Aliás, por ter repetido a piadinha do genial irlandês em uma reunião de diretores da nova instituição, passei a ser visto com desconfiança desde então, da qual só me livrei quando por força do destino – o que contarei depois – fui demitido e depois admitido em um novo posto no Ministério da Saúde.

E o novo posto estava situado bem no olho de um furacão. Eu fui tra­balhar na Secretaria de Assistência à Saúde, que naquele momento representava uma nova fusão, a do Inamps com o próprio Ministé­rio. Não se deve esquecer que até os anos finais da década de oitenta o Inamps ainda era uma autarquia dentro da esfera do Ministério da Previdência. Mas a nova década já se iniciara e corriam os tem­pos da unificação do sistema de saúde, resultado da Constituição de 1988. E foi assim que, depois de alguma protelação, o velho Instituto de Assistência Médica da Previdência Social deveria finalmente se juntar à administração direta, ou seja, ao MS. Operação complicada aquela, pois o ente a ser incorporado era maior, mais endinheirado e até mais complexo do que aquele que o iria absorver. E foi assim que, entre 1992 e 1995, meu trabalho se deu dentro de uma pingue­la balouçante, com um pé no Ministério da Saúde antigo, outro no Inamps, não muito menos antigo, mas muito mais matreiro. Naque­les tempos ainda se ouviam frases como manda para o Inamps, isso é coisa de lá, ou seu oposto, relativo ao MS, dependendo da natureza do papel ou do processo em curso. Como se não estivessem as duas instituições – e nós, seus pobres servidores – dentro de um sistema orgulhosamente autodefinido como Único.

Mas em 1993, com a chegada ao governo de Itamar Franco e de um ministro um pouco mais corajoso, Jamil Haddad, a extinção do Leviatã foi decretada de vez. Ato contínuo, foi reservado todo um andar, o último, do prédio situado no início da L2 Sul, onde en­tão funcionava a quimera SAS-Inamps, para que ali se instalasse o Grupo de Trabalho que iria cuidar da finalização dos trabalhos do Inamps. Não nos esqueçamos, é bem mais fácil criar um órgão pú­blico do que extingui-lo. E naquelas alturas andar nove se instalou o QG do referido GT, sob a presidência de um notável burocrata do antigo DASP, que passou a ser designado, ironicamente, pelos mortais que lhe quedavam abaixo, como O Extintor. Sua primeira medida foi a vedar o acesso ao nono andar aos comuns, situados nos andares inferiores, para tanto mandando instalar portas com chave na saída dos elevadores e nas escadas que ali davam aceso. Por sorte não houve incêndios na ocasião…

No Natal de 1993 os trabalhos já iam avançados, caixas e caixas de documentos subiam e desciam pelos elevadores, bem como sujeitos engravatados e Margots, escriturárias de variados calibres (ainda a canção de Bosco e Blanc). Foi então que o digno Extintor enunciou a sua pérola máxima, dirigida indistinta e democraticamente a todos os que frequentavam o prédio. O cartão de boas festas que mandara afixar na portaria do prédio e nos elevadores dizia simplesmente o seguinte: Em nome da nossa imorredoura instituição, o Inamps, de­sejamos a todos um Feliz Natal e um próspero ano de 1994.

E aquele homem estava ali para liquidar, de vez, a tal “imorredoura instituição”. Acreditem…

Algum médico a bordo?

Nunca fui de apregoar minha condição de “doutor” médico. Talvez nos primeiros momentos de minha vida profissional cheguei a me orgulhar – ma non troppo – de receber tal tratamento das pessoas que me rodeavam. Mas logo que fiz meu primeiro bloco de receitas e o carimbo correspondente, mandei colocar neles apenas: Flavio A. de Andrade Goulart – Médico. Até hoje me incomoda ver alguns médicos se apresentarem assim, quando atendem o telefone, por exemplo, ou quando se candidatam a um cargo eletivo. Não pou­po de minhas críticas os demais profissionais, que por razões de afirmação em um mercado competitivo dominado simbolicamen­te pelos médicos, também se auto-intitulam “doutor”. Minha mãe, certa vez, ao ver minha empregada me tratar por Seu Flávio (aliás, Frávio) e até às vezes por “você”, me admoestou: meu filho, mas você é um médico, deve exigir ser tratado de forma diferente…

Mas eu queria falar aqui é de outra coisa.

Sabem vocês daquele momento, dentro de um avião em pleno voo, que pelo alto-falante alguém da tripulação indaga se há algum médico a bordo? Pois é, principalmente nessas horas a minha “dou­toridade” pede demissão.

Curioso é que, quando eu era médico de verdade, isso nunca havia acontecido comigo, mas bastou eu começar a trabalhar com saúde pública, e por consequência viajar muito de avião, na proporção em que meus conhecimentos clínicos iam se desvanecendo, tais aconte­cimentos começaram a se repetir de forma incômoda. Em uma das primeiras vezes que aconteceu, logo percebi a causa do chamado: havia um diabinho de três ou quatro anos em apuros, acompanha­do de pai e mãe, logo nas fileiras da frente. Uma criança hiperativa que corria desenfreadamente pelo corredor central do avião e que de repente, ao ser contido pela mãe, com um puxão no braço, come­çou a berrar desesperadamente. Fácil o diagnóstico, feito por mim lá da antepenúltima fileira: luxação ulnar, ou seria cubital? – para alguma coisa as aulas de ortopedia deveriam ter me servido.

Dei uma olhada para ver se ninguém acudia ao chamado e como nada acontecesse, fui eu mesmo, ver se podia fazer alguma coisa. Por sorte, o pouso estava próximo e me coube apenas indicar algo que uma das comissárias já estava providenciando, uma contenção de Velpeau, feita com um pano triangular, unindo junto ao tronco o bracinho lesado. A moça já ia feito a coisa certa, mas como eu era o doutor a bordo, os cumprimentos vieram para mim, que aprovei o procedimento. E para complementar minha sábia participação no caso, recomendei a visita a um ortopedista, logo após a aterrissa­gem.

De outra feita, queriam que eu atestasse se uma grávida, aparente­ mente em seu derradeiro momento antes do parto, já embarcada, poderia prosseguir viagem. Como eu estava nas fileiras da frente, quase ao lado da moça, não pude conferir se havia alguém mais a bordo que se desincumbisse disso. Expliquei que não poderia atestar nada, por desconhecer o estado da gestante e não ter como avaliá-la com uma simples conversa, embora ela garantisse à tripu­lação que seu médico lhe havia dito que havia pelo menos quinze dias livres pela frente e que ela estava viajando exatamente para dar à luz onde estava o marido e outras pessoas da família, ou seja, em Brasília, destino final do voo. No final, como insistissem em mo­lestar a pobre criatura, resolvi me assumir como médico, dizendo que tudo indicava não haver problemas que a impedissem de via­jar. E assim aconteceu. Ao ver a recepção que o maridinho lhe fez em Brasília, duas horas mais tarde, pude perceber que minha intui­ção estava inteiramente correta – não em relação ao momento do parto em si, que continuava sem condições de avaliar, mas quanto à importância da convivência amorosa e familiar, não só para uma gestante, como para qualquer outro ser humano.

Mas o pior mesmo me aconteceu em um voo de Brasília para Rio Branco, no Acre, numa daquelas operações de apartação de brigas. Logo ao entrar no avião eu vi um pobre sujeito, verdadeiro espec­tro magro e pálido, munido de soro, sonda, coletor e tudo mais que se usa nos hospitais para prolongar o sofrimento de pacientes. Era seguramente um daqueles casos desenganados, remetido à origem para morrer em paz, junto à família. E nem havia embarcado em Brasília, onde ocorria apenas a escala de voo nascido em São Paulo.

Lá pelas tantas não deu outra, procuravam um médico a bordo. Dessa vez eu me assentava na fileira trinta e tantos e pude observar se havia alguém disponível nas poltronas à minha frente. Aparen­temente não havia e assim eu caminhei para o sacrifício. Vi logo que não havia nada a fazer, a não ser esperar o pouso e torcer para que uma ambulância estivesse a postos. E estaria, me garantiu a comissária. Fiquei por ali alguns momentos fazendo cera, tomando o pulso do paciente, fazendo-lhe algumas perguntas formais, que ele mal compreendia ou respondia. Eis que me aparece um “cole­ga”, vindo de uma ou duas fileiras atrás, um daqueles que espera para ver se alguém se candidata primeiro. Concordou com minhas observações, aliás, perfeitamente dispensáveis no caso, e retornou a seu lugar de assento, até porque o pouso já se aproximava.

Tal viagem a Rio Branco era para apartar mais uma daquelas famo­sas contendas entre gestor estadual e municipal – eu na condição de “juiz” federal. Logo na descida vi que havia repórteres TV à espera – à minha espera! – já que haviam sido avisados pela turma munici­pal da chegada de uma “autoridade” de Brasília, que viera por fim à sonegação de verbas e informações de que eram vítimas por parte do governo estadual, ao qual o prefeito de Rio Branco, filiado ao PT, fazia oposição. Boa matéria para escândalo, como se vê.

Quando já me preparava para falar, ainda medindo a boa e necessá­ria cautela que o caso requeria, percebi que o “colega” de minutos antes também se aproximava das câmeras e repórteres, sem que lhe tenham dado muita atenção. O que eu não sabia, mas me foi confirmado depois pelos agentes municipais, que aquele era o Se­cretário de Estado da Saúde, figura mafiosa segundo eles, que agia o tempo todo estragando a festa do governo petista que lhe fazia opo­sição. Ao que parece, imaginou que a reportagem seria dedicada a ele e não ao estranho que acabara de desembarcar…

Assim é o Brasil e o Acre nada mais é do que uma parte dele.

Como produzir um ótimo relatório

Meu gosto pela escrita acabou me aproximando de uma atividade que exerci com bastante frequência ao longo de minha vida, às ve­zes de graça, outras vezes pago para tanto. Nos últimos tempos a segunda modalidade tem sido a mais frequente. Falo da elaboração de relatórios de conferências de saúde e outros tipos de reunião, de que o setor é pródigo. Afinal, a turma da saúde gosta de deba­ter, embora mostre certa dificuldade em acrescentar coisas novas no cenário, incorrendo naquele mais do mesmo a que já me referi antes.

Uma dessas tarefas me trouxe especial notoriedade, com grati­ficação financeiramente modesta, mas certamente intelectual e simbólica. Em 1999 eu estava morando no Rio de Janeiro, cursando o Doutorado na Fiocruz e alguém que já conhecia o meu trabalho no campo das relatorias indicou meu nome para a Comissão Orga­nizadora da Conferência Estadual de Saúde daquele ano. Imagino que isso deve ter causado alguma estranheza em muita gente, pois a saúde, não só no Rio como em outros locais, é profundamente marcada pelas simpatias (ou antipatias) ideológicas, partidárias ou simplesmente grupais. E o escolhido era um sujeito que não perten­cia a nenhum grupo ideológico ou de afinidade eletiva local, não era filiado a nenhum partido e além do mais era um cara de fora, totalmente desconhecido pela patota. Assim, fui à luta, sabendo dos riscos que corria, mas ao mesmo tempo tendo a certeza de que meu descolamento da situação local poderia ser fator de sucesso, mais do que de fracasso.

O ambiente era tenso… A tradicional disputa entre brizolistas, petis­tas, comunistas da velha guarda, chaguistas, além de outros “istas” misturava gasolina e fósforo aceso em todos os ambientes, já des­de a fase preparatória, com sinais de detonar e por a perder todo o processo da conferência. Além disso, em pleno evento, um líder da área da enfermagem foi assassinado em um subúrbio carioca, por prováveis disputas por controle sindical. Isso, evidentemente, repercutiu na própria conferência, que alguns chegaram a propor que fosse suspensa.

E eu lá, firme atrás do meu laptop, contando com a ajuda de duas moças minhas colegas na ENSP, ambas dotadas de forte espírito militante, como era de praxe ali. E as tais ajudantes, mesmo me res­peitando como relator oficial, chegaram a me questionar algumas vezes, com preocupação, se não seria adequado ouvirmos, se não ao final de cada dia de trabalho, pelo menos no final do evento, as lideranças para ver se o conteúdo que estávamos registrando seria o mais adequado. Acreditam? E eu: vamos tocar o trabalho sem esse tipo de coisa; o relatório será entregue em duas ou três semanas, de acordo com o contrato firmado e aí, se tiverem questionamentos, mu­darei o que for necessário. Era bem um sinal das expectativas gerais, mas mantive minha decisão. E para evitar maiores contratempos me retirei para Friburgo depois do último dia, na casa de minha tia Teresa, e passei vários dias lá tocando a escrita do documento.

Não foi um trabalho fácil: poderia ser comparado ao ajuntamen­to de cacos de uma garrafa atirada do sétimo andar. Como era de praxe neste tipo de evento, já na ocasião e até hoje, cada grupelho ideológico, se esforçava para colocar nos relatórios intermediários derivados dos grupos suas ideias, às vezes perfeitamente idênticas às dos rivais, mas marcadas por palavras de ordem ou jargões ca­racterísticos de cada facção, com disputas até mesmo em torno de posições das vírgulas em uma frase. Mas eu que já tinha experiên­cia nisso, ou seja, em organizar a miscelânea, fui desconstruindo hipérboles e outras piruetas semânticas, sem descuidar de eliminar as abundantes redundâncias e platitudes, de tal forma que elabo­rei um relatório que tinha como principal qualidade o fato de ser legível, além de enxuto. E que uma vez concluído foi entregue aos contratantes, com abertura para as devidas correções e ajustes – que não aconteceram, simplesmente…

Qualidade minha de escriba? Nem tanto… É do ofício militante agir apenas no calor das batalhas, para depois cuidar de outra coisa, desde que seja também algo forjado em altas temperaturas e que lhes permita a continuar a enxergar o mundo através de uma jane­linha – a sua janelinha – e deixar a vida seguir adiante.

Disse muita coisa sobre o presente tema, mas não disse tudo. Em que consiste um relatório de Conferência de Saúde, seja ela local, es­tadual ou nacional? Cabe esclarecer. Na minha experiência, trata-se apenas de um amontoado de ideias bem-intencionadas, na maioria das vezes, embora algumas sejam totalmente algumas desconexas ou descabidas, além de outras já contempladas na legislação e nas normas – para dizer pouco. Utilidade duvidosa, portanto. Penso que o meu relatório do Rio ficou bem cuidado, do ponto de vista formal, certamente, por refletir com fidelidade o conteúdo que ali se dis­cutiu. Mas quanto a sua aplicação prática, desculpem, tenho sérias dúvidas que tenha servido para alguma coisa.

Minha situação nestes casos é mais ou menos a de um arquiteto que projeta e até constrói moradias onde ninguém vai habitar. Mas a vida segue.

Prefeituras…

Prefeituras? Conheço bem. Trabalhei em uma delas por oito anos e isso só me fez respeitar a lida dos prefeitos, seus secretários e servi­dores em geral, nem sempre bem compreendidos pela população e quase sempre mal compreendidos pelos Promotores e Juízes.

Dizendo assim, de maneira genérica, farei todos acreditarem que sou um defensor intransigente da atuação local e das políticas de descentralização. Mas não é bem assim, defendo alguns princípios relativos a isso, mas ao mesmo tempo a prática me mostrou que eles não podem ser estendidos e replicados sem críticas e, diria mesmo, sem algumas cautelas.

Os bons municipalistas dizem que a gente nasce e vive (e morre também…) em municípios, não no estado ou na Nação. Acho que isso é bastante abstrato, mas certamente vale como figura de estilo e slogan de crença na descentralização das políticas públicas.

No SUS, a expressão A municipalização é o caminho ficou consagra­da, mas na verdade, em minha modesta opinião, este caminho às vezes leva ao abismo – quando não a lugar nenhum.304 305

Além da minha atuação em Uberlândia, como Secretário Municipal de Saúde em dois mandatos, por força de outras atividades que exer­ci, tive múltiplos contatos com municípios, dentro e fora da questão específica da saúde. Com efeito, na minha época de Ministério da Saúde não foram raros meus contatos com Prefeitos e Secretários de Saúde que, aliás, fazia parte de meu ofício, quase sempre em missão de esclarecimento, cooperação técnica e, por que não dizer, também de apartação de brigas. Depois, na UnB, fiz parte de um pe­queno núcleo de assessoria a municípios, dentro do NESP, Núcleo de Estudos em Saúde Pública, tendo a meu lado o insubstituível amigo Carlo Zanetti. Antes disso, por algum tempo, prestei assessoria ao IBAM, Instituto Municipal de Administração Municipal, através do qual, em convênio com a Fundação Nacional de Saúde, realizei um diagnóstico da situação de saúde dos municípios do então recém-criado estado de Tocantins. Por conta disso acabei vindo morar em Brasília. Mesmo em Uberlândia, tinha contatos frequentes com as cidades da região, que se viam muitas vezes empolgadas com as coisas que nós, da cidade grande, fazíamos. Minha tese de douto­rado na ENSP/Fiocruz foi baseada em estudos de casos municipais. Ainda na década dos noventa, realizei, junto com minha inesquecí­vel monitora Michele Lessa, o primeiro estudo relativo à saúde nos municípios do Entorno do DF, tendo visitado e analisado mais de duas dezenas deles.

Por força disso estive em lugares tão variados como Curitiba, Vitó­ria da Conquista, Cidade de Goiás, Crato, Uberaba, Poços de Caldas, Campo Grande, Guaraí de Tocantins, Alto Paraíso de Goiás, São João da Aliança, Ibiá, Formosa, Santa Isabel, Macapá, Ceres, Rio Branco, Manaus, Porto Velho, São João Del Rey, Sete (e Três) Lagoas, Guaru­lhos, Salvador e muitos outros. Difícil dizer o que tais cidades têm em comum, só me arriscaria a afirmar que nenhum deles tinha ad­ministração do PT quando os visitei como consultor-prestador de serviços, pois como todo mundo sabe, petista só contrata petista – o que considero uma injustiça comigo, que votei no Lula quatro ve­zes.

Antes que me perca nas ironias e críticas à gestão municipal, devo reconhecer algumas das suas qualidades. A maior delas, certamen­te, é a proximidade com quem de fato precisa dos serviços públicos, aliada à possibilidade de que os respectivos demandantes batam à porta, real ou literalmente, das autoridades e de seus prepostos. Isso é uma situação única, que jamais ameaça um burocrata na Esplana­da dos Ministérios. Prefeitos roubam do erário? Sim, as evidências são claras e permanentes. Mas, convenhamos, quem seria mais pe­rigoso: um prefeitinho que bem ou mal tem cidadãos e vereadores de oposição por perto, ou algum daqueles burocratas abrigados nas casamatas refrigeradas das capitais dos estados ou de Brasília? Fi­cam assim registrados os princípios de minha simpatia por aqueles que têm sob seu encargo a gestão de qualquer política ou programa no nível local, sem que isso me impeça de também enxergar o outro lado da moeda. Sem esquecer que a corrupção não conhece fron­teiras e que nos ambientes relativamente pouco republicanos das Prefeituras e Câmaras de Vereadores podem acontecer – e aconte­cem – as mutretas mais diversas.

Os gabinetes dos Prefeitos, por exemplo, são ambientes curiosos. Refrigerados ao ponto de escorrerem estalactites de gelo dos tetos. Mau gosto quase sempre presente, nos móveis, nos tapetes, nos de­cotes das secretárias, nos estampados dos sofás. Mas o que espanta mesmo é a quantidade de gente que faz ponto ali. Não sei bem a que se dedicam, se são funcionários com funções definidas ou ape­nas ordenanças, à espera, quem sabe, de uma ordem de cima que nunca se sabe quando virá. Seriam apenas amigos, aderentes, cabos eleitorais? Não se sabe quase nada deles, apenas que geralmente são muitos e constantes, quase sempre do sexo masculino. Já passei manhãs e tardes inteiras em reuniões em tais ambientes e ao entrar e ao sair via todos eles ali, com o ar de quem tinha tarefas sérias a cumprir, olhando para o teto ou para eventuais pernas e quadris femininos que por ali transitassem. Mas para mim sempre foi um mistério saber exatamente a que se dedicam de fato.

As moçoilas de gabinete! Estas, pelo menos, têm com funções mais definidas, por exemplo, de convidar as visitas a entrar para o en­contro com Suas Excelências, ou de servir água e café. Costumam estar presentes em bandos de duas, três ou até mais. Saias justas e curtas, decotes generosos, longas unhas negras, perfumes que se sentem já na esquina, fazem parte do cenário.

Instituição valorizada e constante as Prefeituras de todo o Brasil são os veículos, melhor dizendo, as “aviaturas” chapa-branca. Sua Excelência quase sempre dispõe de uma dessas, geralmente um daqueles carrões de tiozão, que a indústria nacional é pródiga em lançar, embora retire de circulação pouco tempo depois. Os Prefei­tos as utilizam até para ir à esquina, mas gostam mesmo é de viajar à capital – ou sabe-se lá onde – em uma delas. E se a autoridade vai com a cara do visitante, este pode estar certo que será convi­dado, honrosamente, a se mover em uma delas, até mesmo para ser levado ao seu hotel, mesmo que este fique na quadra seguinte à Prefeitura. Como ninguém é de ferro, a importância do auxiliar, adjunto, agregado ou burocrata municipal é dado pelo acesso que o mesmo tem a um dos tais semoventes – mesmo que seja um Fiat 147 dos anos 80, que milagrosamente ainda faz parte da frota de algumas prefeituras pelo Brasil a fora.

E ainda, falando de tais “aviaturas”, uma lição que aprendi em mi­nhas visitas terrestres a prefeituras foi a de jamais aceitar a oferta de veículos do erário municipal para viajar, ou mesmo para me lo­comover na cidade, dado que o risco de se embarcar em um fóssil oitentista é muito grande. Uma das poucas vezes que aceitei, a via­gem, rumo a Diamantina, era noturna e passaram-se algumas horas para que eu descobrisse que todos aqueles faróis altos de caminhões que nos vinham diretamente na cara tinham uma explicação: as lu­zes da vetusta viatura, uma Panorama Fiat pleistocênica, miravam diretamente a copa das árvores na beira da estrada, independente­mente de estarem em modo alto ou baixo.

Trabalhei em municípios grandes e pequenos do interior do Brasil. Eu poderia citar os casos de Uberaba e Poços de Caldas, na primeira categoria, mas o que vou narrar aqui não é prerrogativa deles, mas sim do conjunto. Trata-se do fenômeno dos “Intocáveis”. Eliott Ness veio para o Brasil? Não é bem isso, mas outra coisa. Falo daquelas situações que um consultor detecta como realmente problemáticas e impeditivas de progressos e que precisam ser mudadas rapida­mente para não comprometerem os processos de rearranjo do modelo de gestão ou assistência, mas que são rejeitadas liminar­mente pela Autoridade, sob o argumento de que: com esse aí não posso mexer. E “esse aí”, pode ser o tanto o marido de uma vereado­ra (ou vice-versa), ou um cabo eleitoral, um médico que colaborou na última campanha eleitoral ou simplesmente algum outro intocá­vel, sem que se explicitem razões, digamos, republicanas, para tal qualificação. Nas duas cidades que citei acima, verdadeiros centos metropolitanos de influência regional, pequenas coisas como essa inviabilizaram processo de mudança que poderiam realmente fa­zer a diferença nos respectivos sistemas de saúde. Tudo acabou ficando como dantes, com o pobre o consultor se sentindo como um arquiteto que projeta casas que ninguém chega a construir ou menos ainda habitar. Por essas e por outras parei de brincar disso, ou seja, de prestar consultoria a prefeituras.

Quando fui Secretário de Saúde em Uberlândia, em dois momen­tos, devo admitir que talvez tenha ficado muito mal-acostumado. Já explico: é que eu gozava de total confiança de meu prefeito e autonomia bem grande para tomar muitas decisões sem consultá-lo previamente – é claro que nunca deixando de cientificá-lo posterior­mente, mesmo à custa de serem revertidas eventualmente algumas dessas decisões. Nenhum mérito meu ou dele, apenas penso que isso deveria ser o normal na gestão, seja ela pública ou privada. Não era, contudo, a situação que eu encontrava quando olhava ao redor, desde quando estava em Uberlândia, entre meus pares dos muni­cípios vizinhos, ou mesmo depois, quando assessorei prefeituras pelo Brasil a fora. Aliás, sempre fiquei vivamente impressionado com as limitações de certos secretários, impossibilitados até mes­mo de comparecer a uma reunião fora do município, por conta de restrições de passagens ou diárias, bem como, eventualmente, de 308 309

enviar um simples funcionário à capital para algum treinamento, para não falar em advertir ou punir um funcionário relapso. Com aqueles intocáveis de um lado e esses “despoderados” de outro, fica realmente difícil, se não impossível, fazer alguma coisa que preste. Ainda bem que tem gente que resiste e até insiste, mas este deixou de ser o meu caso.

As notáveis primeiras damas! Aqui é preciso fazer justiça, pois as­sim como a presença de corruptos na administração, isso não seria, nem de longe, uma prerrogativa municipal. Mas que elas existem, existem, e aprontam de tudo, desde terem sala ao lado do marido-prefeito, de onde comandam, formal ou informalmente, segmentos inteiros da máquina pública, até distribuírem, por conta própria, medicamentos adquiridos pela Prefeitura, sabe-se lá mediante quais critérios. Ah, sim, sem esquecer do comando das ambulâncias, aquelas aviaturas que, como se sabe, foram feitas para transportar eleitores, não exatamente pacientes. História sublime sobre essas indefectíveis criaturas da política brasileira: quando trabalhei em Tocantins, no período da criação do estado, me deparei com uma espécie de atlas ou almanaque onde constavam as informações mais importantes sobre os municípios que o compunham, tais como nome do prefeito, partido do mesmo, população, economia local, recursos públicos disponíveis, IDH, orçamentos, instituições locais, área em km2 etc. Uma informação, todavia, era surpreendente: o nome da primeira dama e a data de seu aniversário! Para que se­ria? Os floristas e a fábrica de chocolates Kopenhagen, na melhor das hipóteses, poderiam informar.

Para arrematar esses causos com um toque de humor, para não di­zer de nobreza, além de ser um bom exemplo, aqui vai uma boa história. Em Santa Isabel, município de Goiás onde estive por força de uma matéria que escrevi para a Revista Brasileira de Saúde da Família, cheguei nos dias em que o médico de família local, meu grande amigo Evando Queiroz, estava promovendo uma campa­nha de conscientização masculina sobre o câncer de próstata. E o procedimento que estava sendo divulgado e até mesmo realizado em ritmo de campanha era o toque de próstata. Isso no interior de Goiás, imaginem o rebuliço que corria por ali. Pois acreditem, o primeiro cidadão que se colocou na fila, para dar o exemplo, foi exatamente Sua Excelência, o Prefeito Municipal. Este foi realmen­te um toque de nobreza e de espírito público. Palmas para ele!

Para encerrar, de fato, não custaria nada citar a mim próprio, re­correndo a um texto já publicado há dez anos, no qual expus as contradições do processo de descentralização da saúde no Brasil. É para me defender de acusações de inimigo dos municípios, antes que elas surjam mas vamos lá:

Igualmente, não parece existir uma correlação direta entre des­centralização, eficiência e redução do clientelismo. Sistemas descentralizados, na verdade, podem funcionar como facas de dois gumes, pois por um lado facilitam o controle da sociedade sobre as políticas, mas por outro podem abrir caminho para práticas ainda mais clientelistas e excludentes, além de financeiramente onerosas para o erário público. A eficiência na execução das políticas públicas depende mais da constituição e do grau de amadurecimento das bu­rocracias do aparelho de Estado, além das possibilidades de controle efetivo por parte dos cidadãos sobre a máquina pública, do que pro­priamente da escala ou nível de governo responsável pela execução dos serviços.

O jovem que conhecia ET’s

Se eu algum dia, ao caminhar por algum lugar deserto, topasse com uma lâmpada mágica e dela surgisse um Gênio, a me oferecer a possibilidade de fazer apenas um pedido, que seria o de rever alguém do meu passado, eu não teria dúvidas em apontar Agenor.

Se fossem aqueles três pedidos, conforme a versão clássica dessa história, eu poderia também me lembrar de outras pessoas daquela época. Mas o caso real é este e não admite exceções: um só pedido e nada mais…

Agenor de quê? Não me lembro ao certo. Fomos colegas de ginásio, no Colégio Estadual central, do qual trago muitas lembranças significativas. Mas este Agenor era especial. Um tanto taciturno à primeira vista, cara de poucos amigos. De minha exata idade, mas figurando mais velho. De mim se aproximou e se tornou amigo e em pouco tempo, confidente.

Ele me falava de alguns amigos seus, que o impressionavam muito, e que um dia gostaria de me apresentar, mas que isso dependeria de tempo e de que ele ganhasse confiança em mim. Quando eu lhe cobrava tal contato apenas me dizia: está cedo ainda.

Como aquilo despertasse minha curiosidade, como costuma acontecer com os adolescentes, sempre em busca de mistérios e emoções, ele aos poucos foi me revelando pequenos pormenores de tais amigos. Por exemplo, que eram muito inteligentes, que viviam em comunidade, que tinham uma rede pequena de contatos, à qual poucas pessoas tinham acesso, que andavam de Fusca e eram pessoas do bem. Generalidades desse tipo.

Um dia deixou escapar uma frase misteriosa, alguma coisa como a vida deles aqui na Terra. Aí, não deu para segurar: aqui na terra? Como? Eles não são daqui? Então, Agenor teve que abrir o jogo. Primeiro me chamou para um recanto deserto do Colégio, um portão permanentemente fechado, situado num recôndito desnível, de frente para a rua Antônio de Albuquerque e ali me pediu reserva total a respeito do que iria me revelar. E arrematou: isto lhe trará risco de vida se você o revelar para alguém, ouviu? Isto posto, finalmente me revelou por inteiro o seu segredo.

Seus amigos vinham de fora, não de outra cidade, estado ou país, mas sim de Marte. Sim, do Planeta, também satélite do mesmo Sol que nós da Terra conhecíamos. Estavam aqui para ajudar a humanidade a enfrentar o sério perigo da guerra atômica (era época da famosa crise dos mísseis em Cuba). Entendiam e falavam a língua dos terráqueos? Para eles não era problema, tinham uma forma de inteligência superior, que automaticamente os sintonizava com a fala e a escrita dos lugares onde estivessem. Como se locomoviam? Em carros iguais aos nossos, mas cuja mecânica era completamente diferente por dentro, movidos que eram por algum tipo de combustível completamente desconhecido por aqui.

E haveria alguma coisa em que nós, da Terra, poderíamos ser melhores do que eles? Sim, apenas uma: música. Os marcianos apreciavam, particularmente, a obra de Beethoven. Mas na literatura eles nos achavam muito fracos.

Eu tinha tudo para não acreditar naquelas histórias, evidentemente malucas, mas fui dando corda ao meu amigo, talvez para ver onde ele poderia chegar com aquilo. Mas a verdade é que me divertia bastante com a criatividade dele e com a sua capacidade de não perder o fio da narrativa e nem cair em contradições, mesmo que passássemos uma semana inteira sem falar daquilo, já que ele só o fazia quando nos encontrávamos a sós, pois, coerentemente, ninguém mais poderia compartilhar aquilo.

E assim eu fui me fazendo de crédulo e acho mesmo tê-lo enganado a respeito disso, pois com o tempo as histórias iam se aprofundando e revelando inéditas facetas dos tais marcianos. Em dados momentos eu mesmo me via acreditando de verdade em tudo, pois chegava a debater com ele alguns temas digamos, mais filosóficos, relativos à presença de tal gente entre nós. Em outras palavras: eu fingindo que acreditava nele e ele fingindo que eu realmente acreditava no que ouvia.

Essa diversão séria, embora fantástica, em que o enganador e o enganado se confundiam, mas também se entretinham, durou alguns meses. No final do ano, com as férias, as conversas se interromperam e na volta à escola no ano seguinte, Agenor havia mudado de colégio. Desde então o procuro intensamente, apesar de o mundo não ter se acabado e nem terem aparecido os extraterrestres, como ele previa.

Um dia tive um lampejo de memória a respeito de seu possível nome completo: Agenor Mascarenhas! Corri ao Google e lá encontrei um patusco que ensinava, através de um vídeo didático, a transformar velhas cuecas zorba em bustiês femininos, recortando o fundo dessas e invertendo seu modo de vestir, em parte oposta do corpo. Não fui apresentado ao rosto de tal artesão, mas com a exibição de tanta criatividade, não sei não, talvez se tratasse da mesma pessoa…

O morto que estava vivo

Naquele tempo, anos setenta, eu me esfalfava para fazer coisas marcantes, naquele ímpeto de inovação, às vezes precipitação, de que já falei antes. Uma das manias era trazer a Uberlândia gente que pensasse e falasse algo realmente diferente ou, pelo menos, fora do padrão habitual da cidade e da faculdade. Foi assim que veio ter conosco, por exemplo, Carlos Gentile de Mello, do qual já falei antes.

O personagem de agora é João Carlos Pinto Dias. João Carlos, quem o conhece sabe, é um personagem e tanto. Eu o conheci alguns anos antes em BH, através de um acontecimento curioso. Eu saía de BH – pedindo demissão da UFMG – para ir trabalhar como médico no canteiro da obra da usina de São Simão. Ele veio fazer o concurso para minha vaga depois ter passado alguns anos exatamente em um emprego similar, na obra de Ilha Solteira, entre São Paulo e Mato Grosso.

João Carlos era um tropicalista de estirpe. Filho de Emanuel Dias, um dos precursores da pesquisa em Doença de Chagas em Minas, Neto de Ezequiel Dias, outro cientista famoso na área de doenças tropicais, que havia sido amigo e colaborador do próprio Carlos Chagas e de Oswaldo Cruz. O pai tinha trabalhado muito anos na região do Triângulo, muito endêmica para o T. cruzi e as diversas espécies de barbeiro, e deixara muito amigos na região. Aliás, falecera em um acidente de carro na rodovia entre Uberlândia e Araguari.

João Carlos havia se formado em Ribeirão Preto. Aliás, nem nascera em Minas, mas sim no Rio de Janeiro, de onde era originária a família do pai e do avô. Mas quem o visse ou conversasse com ele teria certeza de estar falando com um mineiro completo, de raízes seculares. Isso se explicaria facilmente, em primeiro lugar, pelo fato concreto de ele ter sido criado, em parte de sua vida, em Minas, inclusive na cidade de Bambuí, onde o pai fora montar uma sucursal do Instituo Oswaldo Cruz, mas também dada a versatilidade e capacidade de adaptação e empatia que eram naturais e espontâneas nele.

A escolha deste amigo para vir a Uberlândia tinha justificativas. Além de suas ligações afetivas com a cidade e com a região, João era portador de um discurso que caia como uma luva nos meus propósitos e dos colegas que o convidamos, pois sabia enunciar, de forma muito articulada e coerente, um discurso onde se juntavam – como se nunca tivessem sido separadas – ciência e política. Nessa ocasião, estávamos em plena ditadura, com Geisel no comando e o famigerado Decreto 477 em vigor. Um passo em falso e uma guilhotina poderia se despencar sobre o pescoço do incauto. Mas o nosso destemido professor e pesquisador não estava nem aí, dava seu recado e pronto! E não nos decepcionou.

O fato curioso que me dispus a narrar aqui foi o seguinte. Após ser apresentado por mim ao público, formado por estudantes e professores da UFU, João Carlos se estendeu nos agradecimentos e reverências aos antigos companheiros de seu pai ali presentes, particularmente Miron de Menezes, cardiologista ainda ativo na cidade e professor da Faculdade. Lembrou-se de outros nomes ausentes, alguns já falecidos, para homenageá-los também. E em tal leva de mortos incluiu José Virgílio Mineiro, que também tinha convivido com o pai e se tornado um grande amigo e colaborador dele.

O problema é que Virgílio não havia falecido… E mais do que isso: estava presente ali no auditório! E quem desfez o equívoco foi o próprio homenageado in memoriam. Gaiato e comunicativo que era, Virgilio levantou de sua poltrona e anunciou, em alto e bom som: eu não morri, eu estou aqui!

Risos gerais.

João Carlos se saiu muito bem: desceu imediatamente do palco, caminhou até Virgílio, na parte de trás do auditório, e o trouxe pelo braço até a mesa, convidando-o a ficar a seu lado durante a palestra, incluindo o convite a Miron também. Pediu muitas desculpas e tudo acabou em risos e confraternização, como convém a pessoas tão especiais.

Um encontro muito especial

Falar de tanta gente notável me obriga a incluir na lista o mais notável dos personagens entre todos que encontrei na vida e na faculdade…

Um dia, no final de 1971, quando já nos preparávamos para encerrar as atividades acadêmicas, estávamos um grupo de colegas na porta da Faculdade de Medicina. Lembro-me, especialmente, de dois deles, que não me deixarão mentir sobre o ocorrido de então: João Luiz Monteiro e Leonardo Diniz. Um grupo de senhores sai pela porta principal, em animada conversa. Alguns deles, velhos professores da faculdade. De repente, um desses homens se adianta aos demais e nos abarca com um abraço imenso, alcançando três ou quatro de nós de uma só vez. E nos dirige a palavra, mostrando no rosto um sorriso que de algum lugar já conhecíamos: então, moçada, será que esta faculdade é tão boa como era no meu tempo?

Percebemos, encantados, que quem estava ali era uma pessoa muito especial: Juscelino Kubitscheck de Oliveira, que visitava a velha escola onde se formara, mais de 40 anos antes. Custamos a encontrar o que dizer. Eu e Leonardo nos antecipamos aos demais, mas a surpresa e a emoção não nos permitiram formular frases muito inteligentes. Era ele, em pessoa! Estava totalmente fora de circulação agora, constrangido pelos militares, mas quando aparecia em público, era consagrado com todas as honras. Não foi um grande momento?

Neste momento, nós caminhávamos para o final, não só do curso de medicina, como da década. Para o Brasil começar a mudar ainda havia muito chão pela frente. Anos trepidantes: entrei neles menino; saí médico.

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