Se bem me lembro (XII): meu Lado B, sem Filtro

Quando as pessoas resolvem escrever suas memórias – e eu já o fiz – seria natural que valorizassem e dessem primazia às coisas boas que lhes aconteceram na vida. Não fiz diferente em meus registros, mas ao mesmo tempo não deixo de imaginar como seria uma (auto)biografia em que alguém narrasse suas perdas, não suas conquistas ou que omitisse seus erros, privilegiando apenas seus acertos, independentemente da vontade própria do narrador e dos fatores externos a ele. Como todo mundo sabe, a vida – a vida real – absolutamente não funciona de maneira sempre positiva ou triunfante. Reforcei meus pensamentos sobre tais contradições ao ler um poema de Elisabeth Bishop, poeta americana cuja vida teve uma passagem pelo Brasil, intitulado One Art, no qual ela confere à lida com as perdas na vida um estatuto de sabedoria, ou mais: de verdadeira arte. Pensando a minha vida à luz das perdas que experimentei ou, quem sabe, de tudo que deixei de fazer ou que deixei passar a oportunidade para tanto, resolvi narrar – e o faço neste capítulo que pretende ser o encerramento do presente complemento das minhas memórias – que eu chamaria de lado B, face oculta, ou também a história sem filtro de minha existência, sem a pretensão, é claro, de finalmente revelar a totalidade das coisas que ninguém soube de mim, até mesmo porque sempre haverá coisas que nem eu mesmo darei conta de saber a meu respeito. Acredito realmente que, acima de tudo, mais do que sigiloso ou dissimulado, cabe ao indivíduo que resolve falar de si, ser em primeiro lugar modesto, mas também sincero em tal terreno.

Infância

Vim de uma família de classe média verdadeira, que nunca experimentou um déficit material significativo, embota com alto grau de precariedade intelectual e afetiva. Primeiro pela contradição de minha origem, de um com pai e mãe vindos sucessivamente, de um lado, de uma classe dominante ilustrada, iluminista e bem aquinhoada, com meu avô materno advogado e líder político, de outro, um patriarcado rural pouco instruído, no qual o máximo que se conseguiu foi o alcance, mesmo assim limitado a poucos, de uma carreira eclesiástica, em segmento baixo do clero.

Nasci e cresci nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra mundial, sendo parte, portanto, daquele notório baby-boom, durante o qual ocorreram intensas mudanças nas relações sociais e nas próprias visões de mundo, aquilo que Zigmunt Bauman chamou de modernidade líquida, que Marx tinha detectado antes com a famosa frase tudo que é sólido desmancha no ar.

Até aí, nada excepcional. Isso pode ter trazido às pessoas em tal tempo geradas crises materiais, existenciais e de outras naturezas, mas também pode tê-las levado a superar tais óbices de forma a encontrar novas soluções e explicações para os dilemas da vida social. Assim, posso dizer que, por tal ângulo, fui beneficiado e não prejudicado. Isso evidentemente se aplica a toda minha geração e mesmo às que vieram logo em seguida.

Sou quem eu sou, portanto, para o bem e para o mal, com meus erros e meus acertos, como resultado de tal tempo de mudanças em que cresci.

Cabe registrar ainda, sobre tais tempos de solidez liquidificada, de transformações sociais profundas e até revolucionárias (na cultura e na sexualidade, por exemplo), que resultaram em uma modernização acelerada que poderia ser (mal)comparada a algo como se ter a adolescência e a transição para a vida adulta ocorrendo rapidamente, e não durante meia dúzia de anos, como seria normal.  

Neste ambiente de transições diversas e aceleradas é que minha infância se deu. Do ponto de vista material, ela foi marcada pelas atividades exercidas por meu pai, um ex-empregado que sonhava ser patrão e assim vencer na vida em alguma atividade de livre iniciativa, associando-se ao pai e irmãos em empresas de comércio e depois de transporte, na verdade fazendo parte de uma espécie de lumpen-empresariado. Este aí, meu pai, por falta de sorte, de habilidades ou de persistência, acabou não vencendo em tal campo, transformando-se, na maior parte de sua vida, em um desempregado crônico, porém relativamente conformado com tal situação. Um homem em plena idade produtiva que em tardes de meio de semana saía para jogar cartas com o pai e amigos idosos do mesmo. Inculto e violento na medida, também.

Assim, o modo de existir apenas mediano (e também de certa mediocridade) de nossa vida familiar, não só em termos de acesso cultural, mas também de consumo material, sempre foi um fator marcante em minha formação como sujeito social, tendo como fator mais imediato as marcantes restrições de acesso ao consumo a que estive submetido até que consegui me emancipar, muitos anos depois. Só tive acesso a TV e geladeira aos 10 anos de idade e toca discos aos 18, ao contrário de grande parte de meus primos e amigos.

Creio que isso me marcou para o resto da vida.

Não custa lembrar dos velhos modos violentos de educação, em casa e na escola, a que fui submetido. Como exemplo, certo dia cheguei em casa com uma marca na coxa produzida por uma varada que levei de um professor no curso de admissão, motivada por ter errado uma questão quando fui chamado ao quadro negro. O comentário que recebi foi de que alguma coisa eu tivesse feito de errado. As punições a mim e a meus irmãos homens, na infância, eram surras aplicadas com o fio da máquina de costura de minha mãe, com tomada e tudo. Só para dar dois exemplos da tal educação pela violência…  

Tal educação repressiva não parava por aí, estendia a tudo que dissesse respeito ao corpo e à sexualidade, o que sem dúvida afetou muito minha relação com o feminino, que eu via com um misto de culpa e reprimida sensualidade.

Entre as imagens masculinas que pude emular não estava a mais próxima fisicamente a mim, ou seja, a de meu pai, mas sim a de alguns tios e de meu avô materno.

Não posso negar, entretanto, algumas ousadias temerárias, por assim dizer, que eu cometi na infância, como minha ida a Brasília em 1960 (é bem verdade que como consentimento de meus pais) e a posterior ruptura com a religião, quando eu simplesmente me recusei, corajosamente, a abandonar o hábito de ir à missa com a família aos domingos, no que foi seguido por meus irmãos.  

Este é o meu back-ground infantil. Não quero culpar João e Favita, que devem ter tido uma infância ainda pior do que a minha (meu pai, pelo menos). Mas o resultado foi a produção de um indivíduo, ou melhor, um jovem, permanentemente intimidado, temeroso de assumir e expor sua expressão própria, com recurso constante à fantasia e até mesmo à mentira. Claro que eu mentia na infância, para meus pais, principalmente, muitas vezes para me defender de um ambiente hostil e até violento. Porém, mentia para mim mesmo, também.

Escola

Em época de tantas mudanças repetidas, a escola primária que me recebeu estava parada no tempo. O que havia eram varadas, ameaças milenaristas, temor do comunismo, métodos ultrapassados de ensino, afluentes da margem esquerda do rio Solimões, além repressão pura e simples, com poucas e honrosas exceções. Fora dos muros escolares, epidemias de varíola e poliomielite. É mole?  

Meus exemplos domésticos neste campo eram bem pouco significativos. Minha mãe havia cursado apenas o antigo ginásio, para logo ficar noiva e se casar, gerando um pouco depois seu filho mais velho, este aqui que vos fala. Meu pai, alfabetizado à custa de varadas (por ser canhoto), tinha uma formação um pouco mais ampliada, de técnico agrícola, entretanto, não levada adiante, dada sua busca por autonomia no campo do trabalho. Lembro-me dele tentando me ensinar alguma coisa nos deveres de escola, mas quase sempre sem maior sucesso, minha mãe, pobre mulher, nem isso.

De toda forma, o saldo da minha formação nos anos fundamentais foi a consolidação de uma enorme dificuldade com as exatas, tendo, em contrapartida, para minha compensação, o gosto pelas humanas e pela língua, principalmente pela comunicação escrita, campo em que às vezes sou muito elogiado, embora, para meu desgosto, não seja lido de forma correspondente.

Recebi no colégio o apelido de Bossa Nova, com o qual o Dalton, um colega que em acompanhou até a faculdade, me agraciava ainda na idade adulta. O motivo? Uma alusão à canção de Juca Chaves, que falava de JK, o Presidente Bossa Nova, com o refrão voar, voar, voar. Era eu mesmo, um garoto eternamente desatento, que certamente receberia nos dias de hoje algum epíteto clínico correspondente.  Mas não pereci e nem me dei totalmente mal por causa disso. Pra variar, aquele contumaz voador talvez tenha sido, mais uma vez (talvez a primeira), apenas mal compreendido.

Na vida estudantil continuei colhendo consequências da minha, digamos, educação sentimental, em relação ao feminino. No Colégio Estadual a composição do alunado era mista, mas as classes, por alguma razão, certamente ligada aos trâmites conservadores que por lá ainda imperavam, eram separadas por sexo. Ao contrário das escolas primárias públicas, onde eu havia estudado, não havia meninas nas salas de aula dos rapazes – e vice versa. Assim, por exemplo, fui colega de Dilma Rouseff, porém nunca estive perto dela em alguma sala de aula.

Educação sentimental é apenas uma ironia, portanto. Neste quesito não aprendi nada, a não ser tardiamente e por conta própria, o mais das vezes de forma carregada de equívocos.

Cabe uma distinção, se no grupo escolar a escola não era o melhor lugar para se estar, no Colégio Estadual tudo mudou para mim. Não havia portões fechados – e nem mesmo portões – e a liberdade era total. Não poucas vezes fiz companhia a colegas gazeteiros nas ruas e praças do bairro e até mesmo em lugares remotos. Tudo isso para o bem e para o mal, porque penso que isso não deixou de representar, para mim, uma etapa de libertinagem até necessária, para me libertar do bolor repressivo que eu carregava.  

Se tal etapa no Colégio Estadual representou algo de muito positivo para mim, não cabe desconsiderar, entretanto, que em termos de autoestima eu permanecia estacionário, tendo o permanente sentimento de que a moçada realmente rica e bem dotada intelectualmente estudava nos colégios religiosos de elite na época, ou mesmo no terrível Colégio Militar, no qual, de toda forma, eu detestaria estar.

Foi uma fase de sustos e aflições, mas também de descobertas e de conquista de autonomia, cuja consagração foi uma viagem a Sampa que fiz sozinho aos 15 anos, complementando com honras a aventura que foi aquela viagem a Brasília, em sua inauguração, no ano de 1960.

Nas coisas da política, creio ter iniciado a adolescência crendo em posições um tanto conservadoras, herdadas de minha família, por exemplo, a de que os pobres eram pobres por falta de esforço próprio. Mas evoluí, logo nos primeiros anos de ginásio, por influência de alguns colegas – nem tanto de professores – passando a acreditar na autodeterminação dos povos, nos efeitos da luta de classes, no governo Jango, no repúdio ao militarismo, nas reformas de base e outras posições e crenças à esquerda. Tive também uma fase sionista quando assisti emocionado aos filmes Exodus, que enaltecia a fundação de Israel e Ben-Hur, sobre o heroísmo dessa gente. Isso, contudo, acabou se superando, até mesmo porque meus colegas de colégio judeus eram muito arrogantes, quase sem exceções.

O resultado disso para mim foi a consolidação de uma certa mediocridade cultural que me perseguia desde um primeiro momento na infância. A minha baixa autoestima era o componente fundamental. Fui salvo, todavia, por alguns professores do Estadual, estimuladores principalmente em relação à minha capacidade, digamos assim, literária, e me vi definitivamente integrado ao mundo inteligente quando fui estudar no famoso Colégio Universitário da UFMG, em 1966, quando me tornei de fato, um bom aluno, totalmente competitivo para o vestibular que se aproximava.

No campo afetivo, ou seja, na relação com as mulheres, comecei também a perder as amarras que a caretice familiar me impusera na infância.

Talvez esses anos dos meados da década de 60 tenham sido uma decolagem para mim e para minha autoestima, dada a minha performance escolar, pelo menos.

Afetos

Já comentei a minha dificuldade em lidar com o campo feminino, crescendo em um ambiente repressivo, como foi o meu caso. O fato de ter duas irmãs em casa não ajudou muito a superar tais dificuldades, pois a tal repressão nos rodeava a todos, talvez até mais a elas do que a nós, meninos.

Aos 12 ou 13 nos fui passar férias memoráveis em Itabira e lá conheci uma garota um pouco mais velha do que eu, que mesmo sem me conceder maiores intimidades, pelo menos me tratou com certa proximidade, ou como alguém igual, me incentivando inclusive às primeiras incursões amorosas – mas não com ela. Aquilo me tocou e fato, não tanto porque tivesse aspirações de que ela me acolhesse, mas pela verdadeira abertura de portas simbólicas que tal encontro me proporcionou. Não posso negar, entretanto, que no fundo talvez tivesse a esperança de que rolaria entre nós certas intimidades, de índole talvez física, que terminaram por não acontecer, mas o fruto proibido estava mordido.

Na volta à minha casa, resolvi partir para um galanteio e assim surripiei uma embalagem de biscoitos na fábrica de que meu pai era sócio, embrulhei para presente e me preparei para mandar para ela, pelo correio. O resultado imediato (e único) foi que minha mãe achou aquilo entre os meus guardados, confiscou o regalo e me passou uma esculhambação completa e humilhante, referindo-se inclusive aos riscos de buscar certas intimidades com o sexo oposto, citando exemplos terríveis acontecidos com seus próprios irmãos. Não sei se aquilo era verdade, mas diante de tal catástrofe, recolhi-me à minha incapacidade, não sem antes me açoitar espiritualmente.

A essa temporada itabirana, sobrepunham-se as dificuldades com a minha autoimagem adolescente, pois me sentia portador de um perfil meio esquisitão, primeiro gordinho depois magro demais, desengonçado, tímido, com um andar no padrão dez-prás-duas e acima de tudo carente de uma prosa interessante.

Apesar de tudo, devo dizer a meu favor, durante toda a minha vida, mesmo depois de superar traumas de tal amplitude, desenvolvi uma postura contida, respeitosa e não machista – assim acredito – com as mulheres, o que sem dúvida me abriu portas com as mesmas, anos depois. Mas o aprendizado foi severo, para dizer pouco.

Não poderia negar, contudo, que uma boa dose de ilusão e certa capacidade de autoengano já me perseguiam desde então.

Outro fato da minha educação sentimental foi a demora que experimentei em arranjar namorada e a insegurança que isso me trouxe. Tive um rala-rala com uma garota um pouco mais nova do que eu aos dezesseis anos e logo percebi que ela sofria de um incurável déficit intelectual, me fazendo desistir daquilo após duas ou três sessões de amassos, em um namorico que me soou desastroso, até porque a família dela descobriu e proibiu nossos encontros, o que ela em vão tentou contornar, sem que eu a apoiasse, felizmente.

Namorei de novo, desta vem uma garota mais normal, digamos assim, mas tudo não passou de uma série de beijos e amassos na varanda da casa dela, durando alguns meses. Quando entrei para a Faculdade achei que merecia uma coisa mais elevada. E logo encontrei a colega de turma com quem me casei cinco anos depois, tive filhos e construí um belo patrimônio, até que um dia…

Eu me separei dela por julgar ter finalmente encontrado a Princesa dos meus sonhos, mas acabei por perceber, mais uma vez, que estava enganado. A fase seguinte foi de gandaia e irresponsabilidade total. Um amigo meio desbocado me brindou da seguinte maneira: – este aí sabe que não vai c*m*r todas as mulheres do mundo, mas não vai deixar de tentar conseguir isso.  E ele até que tinha uma certa razão, o desgraçado.

Ainda nos anos 80, não é que me orgulhe disso, abriu-se o caminho para a soltura de amarras monogâmicas que eu carregava comigo, trazendo para minha vida uma pessoa marcante, maravilhosa, meu grande Amor, a quem eufemisticamente eu chamo de Atheneia.

Mesmo assim passou a me perseguir o fantasma das escolhas apressadas e que acabavam frustradas, mas nem por isso consegui evitá-las. Sofri e fiz várias pessoas sofrerem (não nessa ordem…), essa é a verdade.

Para a finalização de meu único casamento, sem dúvida precoce com a colega de turma (eu e ela tínhamos então apenas 22 anos), coisa que me deu filhos e me ajudou a construir algum patrimônio, devo dizer que tanto o enlace como o respectivo desenlace tiveram como possível fator gerador uma suposta ânsia pela libertação de amarras que para mim se tornavam insuportáveis. Nisso, aliás, sou como muitos outros, evitarei o auto açoitamento, portanto.

Creio que ao fim e ao cabo, solitário em matéria amorosa, como me vejo agora, estou pagando um preço alto pelos descaminhos de meu prontuário afetivo, mas nem por isso posso negar que tudo foi resultado único e exclusivo de escolhas totalmente minhas, embora por vezes não muito equilibradas e conscientes, pelas quais me responsabilizo. Assim é a vida.

Profissão

Hoje, com quase seis décadas de formado em medicina, ainda me pergunto e tenho dúvidas: será que era isso mesmo que eu queria? Da mesma forma, ter optado pela solução mais cômoda de ter procurado por uma residência em Clínica Médica ainda me é objeto de dúvidas. Eu queria ter me especializado para trabalhar em Saúde Pública. Não o fiz porque na época a minha decisão teve que levar em conta o fato de que eu já formava um casal e assim ter ido procurar algo que atendesse a mim e a minha companheira conjuntamente, portanto, na mesma cidade, já que não tínhamos condições (ou coragem…) para migrarmos – este foi um fator de complexidade que pesou na minha decisão.

Nosso primeiro emprego em Goiás foi revelador, para mim, de um enorme choque com a realidade, que nunca imaginei ser tão áspera e ingrata. Comecei a perceber, tardiamente mais uma vez, que doentes individualizados, ainda mais deitados e queixosos ao vivo, não eram, definitivamente, a minha praia.

Meu encontro vocacional mais forte se deu, inicialmente, com o meu trabalho na Diretoria Regional de Saúde em Uberlândia, e depois com a especialização na amada e criticada Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio de Janeiro, culminando com o enorme privilégio de ter sido escolhido para ser secretário municipal de saúde na cidade onde eu vivia. Com tal atividade, naqueles longos e frutíferos seis anos de mandato, me encontrei de verdade.

Ao mesmo tempo – nada é perfeito – acabei por me afastar e mesmo me tornar crítico aos valores da corporação médica, embora não tenha sido explicitamente hostilizado por isso, salvo em uma ou outra ocasião, por membros mais radicais da mesma, o que não chegou a me provocar marcas profundas, até pelo contrário.

Admito, entretanto, que nunca fui de fato um clínico competente e estudioso, sendo na verdade um profissional que não só odiava plantões como o próprio ambiente e cheiro de hospital. Em resumo, aquele estudante brilhante que eu fora no Colégio Universitário, que foi aprovado no vestibular em terceiro lugar geral, não se continuou no médico, no estudioso da medicina.

Penso que não cheguei a matar ninguém por conta de tal descompasso, mas tenho perfeita consciência dele. Ainda hoje me surpreendo por ter um raciocínio clinico um tanto embotado, para dizer pouco.

Mesmo na saúde pública o sentimento que tenho, depois de ter passado pela Universidade de Brasília como docente de matérias correlatas, penso que não consegui repetir meus feitos intelectuais da mocidade. Minha falta de empatia com os alunos de lá – e vice versa – reforçam tal pensamento. Mas cá entre nós, o pior incompetente deve ser aquele que nem se dá conta disso.

Política

Eu achei que havia chegado lá, ou seja, a um entendimento mais abrangente de tal atividade, depois da experiência de SMS em Uberlândia, através da qual eu tive que lidar, com algum sucesso, aliás, com os dilemas da gestão pública e com o contraditório inerente ao país de pessoas, como disse Guimarães Rosa,

Nada disso aconteceu, entretanto. Logo vi que eu não sabia de nada… Ou, para ser um tanto generoso comigo mesmo, que eu não estava, de fato, interessado naquilo. Era bem outra a minha praia, mais uma vez eu sentia. Mas qual seria ela?  

Não que eu não tenha tentado aderir à política. Aceitei até ser ungido, embora sem muita convicção, por um grupo de pessoas afins, a ser candidato e deputado estadual. Em tal quesito podem até me ridiculizar: Flavio, o Breve… Não faz mal. Aqueles dias foram de marcantes decepções que me fizeram, felizmente, recuar e não insistir no que seria um erro, aliás, o maior erro de uma vida toda ela cheia deles. Aquilo foi o choque com a política como ela é de fato e com isso aprendi mais coisas do que se nela tivesse embrenhado.

Em meio a isso tudo, os anos daquela Nova República Sarney-Tancrediana, que Fernado Brant muito bem descreveu como um sorvete a derreter em pleno sol.

Como me vejo hoje: penso que sou politicamente de Esquerda, porém sem abrir mão de aspectos como: racionalidade, liberdade, apego a evidências, senso crítico, repúdio a teorias conspiratórias, lucidez ideológica, não adesão a ídolos e dogmas, percepção de que a verdade e a razão podem andar por caminhos diversos. Quando interajo com alguns “esquerdistas” de carteirinha minha vontade, às vezes, é dizer a eles: pois estou ainda mais, muito mais, à esquerda do que vocês.

Ainda em termos de crenças políticas devo admitir que mantenho atitudes mais defensivas do que proativas, que me fazem manter afastado de qualquer militância concreta. Seria comodismo de minha parte? Não posso negar, assim como aceito que nesses tempos presentes meus sentimentos em relação à política oscilam entre repúdio, raiva, oposição, indisposição, crítica e que-tais. Mas jamais me consideraria um isentão…

Máximas terminais de FG

  • O que domina meus dias, não posso negar, é a percepção da finitude, inspirado pela situação de meus pais: a longevidade não é uma bênção, mas sim um castigo. Realmente não quero e nem acho que vou ficar velho, desejo morrer antes disso.
  • Não me assusta a morte, mas o modo de morrer (obrigado, Gil), qualquer semelhança com a realidade em minha família não seria mera coincidência.
  • Chego a achar indecente que alguém se apegue à vida intensamente quando já não se tem mais autonomia, depende de terceiros para tudo e ainda vê o patrimônio (e a paciência) da família se esgotar.
  • Li alguma vez que na cultura oriental é comum a capacidade de se (auto) decretar o fim da vida, por se ter vivido demais, por se estar desgostoso com ela, por doença incurável. Quero saber como alcançar algo assim.
  • Meu entorno não entende, definitivamente, minhas posturas face à morte e à decadência, acham que projeto tudo isso na situação de minha mãe e antes disso, de meu pai; mas não é verdade, estou falando é sempre de mim.
  • Família, família… Não basta ser bem intencionado. Tem que parecer bem intencionado.
  • Meus irmãos não compreendem e talvez até me culpem de omissão por ser o único entre os filhos de nossos pais a ter se evadido de BH, fugindo ao epicentro dos problemas deles; eles não entendem que um dos motivos de minha escapada de BH, nos anos 70, foi exatamente pela toxicidade da vida familiar. O pior (não pra mim) é que me dei bem mesmo, sinto muito.
  • Ah, sim, antes só, totalmente só, do que mal acompanhado, mesmo que seja apenas “mais ou menos” mal acompanhado; em tal quesito é tudo ou nada e eu creio que já paguei pena severa pelos meus erros.
  • Dizem que na minha idade o ideal e fazer exercícios, exercícios, exercícios: pois bem, penso que lugar onde se faz careta e se geme e ainda mais onde o suor é profuso, onde se humilha o semelhante com a exibição de bundas e músculos, não pode fazer bem à saúde de alguém.
  • Sim, em que pese tudo isso frequento a tal da Academia, principalmente porque Ivan Penna, meu médico, me recomendou e eu confio nele, embora, pensando bem, o grande benefício seja o de que eu poderia estar pior se não frequentasse tal ambiente.
  • Exercícios? Churchill talvez estivesse certo: melhor evitar; no sports! Não sei se faço a coisa certa nas tais academias de supervisão zero. No pain, no gain – uma ova! E longe de mim competir, comigo mesmo ou com os bombado(a)s que subsistem por lá.
  • Embora a parte realmente aproveitável e entusiasmante em tais ambientes seja a de apreciar o que sói abundar por lá.
  • Apud o Coronel Agenor Mafra: fralda em mim? Não! Jamais! Espero morrer antes. Idem, em ser obrigado a ir ao banheiro acompanhado de alguém.
  • Como jamais teremos eutanásia no Brasil ou eu não viverei tempo bastante para ver tal coisa se realizar, devo declarar que sou favorável a isso e já coloquei algumas considerações pertinentes no documento Diretivas Antecipadas de Vontade, que registrei em cartório. Me respeitem por favor, especialmente os Senhores Médicos Heróis!
  • Devo dizer, adicionalmente, que quando me chegar a minha vez farei tudo que estiver ao meu alcance para fazer valer a tal vontade antecipada; aliás, já estou me preparando para isso desde agora.
  • E por falar nisso, St. Goodman & St. Gillman, socorrei-me com seu alfarrábio! Facultai meu acesso às poções adequadas a um outcome digno, seguro e indolor. Os bons entendedores entenderão.
  • Não custa reiterar: o grande problema é encontrar pela frente um daqueles MHM (médicos-heróis-de-merda), disposto a salvar vidas custe o que custar – espero que meus filhos resistam a isso.
  • Como é comum as pessoas se queixarem de doenças e sintomas! Minha mãe e meu pai, nem se fala, mas também meus irmãos têm sempre uma queixazinha a registrar em suas mensagens no whatsapp, seja uma dorzinha, uma ida ao médico, a algum terapeuta etc. Acho que estão adoecidos pela longevidade de nossa mãe. Comigo não, ninguém vai me ouvir falar de coisas assim.
  • Meus fracassos na vida são exponenciais e dominantes, no amor e nos afetos em geral, na crença de ser um literato, na tentativa de ter influência intelectual, no ajuntamento de dinheiro, na (escassa) profusão de amizades, na faceta de memorialista ou escritor. O mesmo, talvez, na condição de filho, pai, irmão, marido etc. O jeito é conviver com isso, não tenho mais tempo para fazer mudanças quanto a tais coisas.
  • Houve fracassos independentes de minha vontade e também erros que contaram com minha aquiescência consciente, porém lamentável; o maior desses últimos se chamou Maria Moro.
  • Fracasso especial, este totalmente independente de minha vontade, foi ter visto minha relação com Henriqueta ruir em 2024 e novamente em 2025. Creio que não tive culpa.
  • Fracassos também foram as duas ou três tentativas que fiz ultimamente (pós março de 2024) de me aproximar de mulheres, com interesse afetivo. Chego a pensar que o melhor é não tentar mais.
  • Não me arrependi de quase nada que fiz, mas geralmente do que deixei de fazer. Sem esquecer de um arrependimento significativo, hiperbólico, descomunal, bíblico, amazônico, gigantesco: seu outro nome é a ruptura com Luiza Paiva.
  • Cansei de ser diabético, cansei de fazer medidas de glicose que variam a cada momento por razões que nunca consegui compreender direito, aquelas hipo e hiper glicemias inexplicáveis e assim já há algum tempo me guio pela minha sensibilidade, mas realmente não sei dizer se isso está correto e me fará bem a longo prazo.
  • Espiritualidade: creio ter buscado isso de verdade, mas acho que não fui agraciado por de Deus, ou melhor, pela Natureza, com tal capacidade.
  • A mensagem de final de ano de Henriqueta falando em seres de luz, missão divina, cosmos, forças planetárias e do universo, reencarnação, capacidade humana de mudar a realidade, energias vitais e coisas assim me revela que realmente não tivemos esse tipo de ideias compartilhadas.
  • Sobre Henriqueta, uma última palavra: pra mim bastaram a experiências que tive; com ela, pelo menos escapei do risco de repetir a saga Rogério Rayol, seu ex-marido, tratado (ou melhor, tolerado) com polida gentileza, mas em posição absolutamente marginal e subalterna dentro da família.
  • Onde foi que perdi a capacidade de manter um bom relacionamento com meu filho mais velho? Ou melhor, qual foi realmente minha responsabilidade nisso?
  • Não quero falar só de derrotas, tenho algumas vitórias também: minha entrada na UFMG como aluno de Medicina e depois como professor; minha conquista de uma bolsa nos Estados Unidos em 1970; minha ruptura com status quo em BH (junto com Eliane) ao partir para o interior em 1974; minha primeira gestão como Secretário de Saúde em Uberlândia entre 1983-88 (a segunda, não…); a vida e as realizações de cada um dos cinco filhos que gerei. Mais alguma coisa? Acho que mais nada…
  • Depois do meu desfecho, desejo que meus filhos me deem, mesmo postumamente, a honra de lerem minhas memórias e meu blog veredasaude.com. Acho que iriam compreender muita coisa a meu respeito. Mas não faço questão de que se arrependam de não terem lido antes.
  • Há um grande segredo em minha vida que tem por codinome Atheneia, conforme consta de meu livro de memórias. Quem se interessar em saber do que se trata, que remoa tal assunto à exaustão.
  • O conteúdo daquele Vaga, Lembrança e depois em Se bem me lembro (ver veredasaude.com), também presente em alguns de meus “contos” (ver idem) é o relato de nada mais do que uma vida inteira. Nada a esconder. Quem viver e vier a ler, verá. E, quem sabe, entenderá!
  • Enfim, já achei que 70, para mim, seria o bastante. Mudei o patamar para 80. Mas desde que seja com qualidade, total. Não deixarei por menos (nem por mais)! Não estou falando estradas!
  • E assim me vou…

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