Não. Eu ainda não fui assistir ao filme Odisseia, de Christopher Nolan, talvez por preguiça, porque filmes com mais de três horas de duração têm que me garantir qualidade e entretenimento totais para que eu me anime a sair de casa, enfrentar um shopping, talvez com filas ou engarrafamento, para não falar de eventuais multidões. Mas os temas ali tratados, sem dúvida, me interessam, se não à própria humanidade. A própria palavra “odisseia”, confesso que me chama a atenção há muitos anos, mesmo antes de compreender o exato significado de sua raiz grega. Eu fazia dela uma analogia com “ódio”, mas há muito descobri que não é disso que se trata. Sem dúvida, o tema narrado por Homero é particularmente provocativo, essa história de acontecimentos extraordinários, difíceis ou inesperados, sejam viagens, realizações pessoais, investigações, processos de aprendizado, superação de obstáculos – para o bem e para o mal. Assim, aprendi que uma “odisseia” pode não ser somente aquela narrativa de aventuras, mas também – e acima de tudo – uma metáfora de ousadias, resiliência, coragem e desenvolvimento pessoal. Daí, recorrendo a boa dose de coragem, resolvi cometer mais uma ousadia, a de colocar à luz uma daquelas famigeradas e (re)contadas histórias de segunda mão, com que volta e meio presenteio meus generosos leitores. Aí seguem, assim, as aventuras de Ulisses em seu retorno ao seu reino em Ítaca, ou melhor, de Ulício voltando a sua aldeia natal de Itacari, não mais nas ilhas gregas, mas nos sertões brasileiros, depois de alguns anos de ausência. Ao final um pequeno glossário explicativo.
Ulício em Itacari: o retorno
Penélia, também conhecida como Nelinha, passava mais um dia desacorçoada, na pequena cidade de Itacari, nos perdidos sertões do Centro-Oeste do país. Já havia mais de ano que seu companheiro, quase um marido, Ulício, partira dali e ainda não voltara – e nem dava notícias. Com a pobreza do lugar, agravada pelo fato que fora despedido de um emprego na agropecuária Água Limpa, ele foi atrás do que era a meta de muitos homens naquele lugar: encontrar um emprego fixo. E havia bons indícios que em outros sertões, bem mais ao norte, havia agora uma novidade, que se não prometia fortuna, pelo menos garantia trabalho com carteira assinada e tudo, além de casa, melhor dizendo alojamento coletivo e comida.
É que lá nesses sertões nortistas se encontrara, no fundo das grotas, um tipo raro de terra, mais exatamente um minério conhecido como lítio, pelo qual a gente estrangeira agora era capaz de pagar qualquer preço. Tanto que comprara a maioria das terras disponíveis, cavava buracos e subvertia a paisagem, de forma nunca vista, revirando árvores pelas raízes, transformando montanhas em vales e vales em montanhas. Isso tudo à custa de muita dinamite e máquinas poderosas, além de gente sem conta, trazida para ali trabalhar, como Ulício e muitos outros, vindos de distâncias enormes.
Da mesma forma, Telécio, conhecido pelos amigos como Telê, filho adolescente de Ulício e Nelinha, nos intervalos de suas aulas na escola local, entre uma pelada e outra, se dava conta que lhe faltava um pai. Não que fosse coisa rara em Itacari, muito pelo contrário. Uma parte das mulheres dali viam seus pares partirem para tentar a vida fora, sem nunca mais voltarem para casa. Havia também aqueles que continuavam na vida de peões de fazenda e ficavam por Itacari mesmo, enquanto outros apenas arranjavam mulheres aqui e ali, não raro engravidando-as, do que davam provas alguns dos amigos de Telê. O fato é que pais fixos e responsáveis era difícil encontrar naquelas quebradas.
A vida de Nelinha, certamente, como sempre ocorre em casos assim, não era fácil. Para sustentar a si e ao filho, trabalhava em casas de família, enquanto esperava uma vaga de faxineira na mesma empresa da qual o companheiro fora demitido. Sua renda, se é que pudesse ser denominada assim, era constituída por uma pensão do INSS que o pai lhe deixara, mas que era paga com inconstância, por razões que ela ignorava.
Vida ruim? Com certeza. Mas o pior era o assédio de alguns gaviões locais, entre eles o Tino, colega de infância de Ulício, que depois de alguns anos fora da vila voltara montado num caminhão velho e agora se achava o rei do pedaço.
Nelinha tinha como seu maior apoio uma mulher chamada Lena, uma espécie de feiticeira e vidente, hostilizada pela maioria evangélica da vila, que a chamava de macumbeira. Mas o fato é que tal amiga foi a única pessoa dali a se preocupar com ela, fazendo rezas e outros esforços para descobrir o paradeiro de Ulício. Um homem, viajante comercial, que era meio namorado de Lena, um dia havia trazido notícias, um tanto imprecisas na verdade, do Ulício, dando a ela a impressão de que ele de fato desaparecera e talvez nem estivesse vivo, lá pelos sertões do norte. Suas palavras foram trágicas, fatais: – ali no Norte muita gente some, desaparece do nada, de não mais se saber dela.
Nalinha, desempregada, resolveu aprender com as freiras do colégio de Nossa Senhora a tecer xales e tapetes, passando seus dias em tal mister. Entretanto, jamais conseguiu vender uma só peça de seu trabalho, não só por falta de compradores, mas também porque, perfeccionista que era, se esmerava em desmanchar, no final do dia, toda a tecitura que a ocupara nos dias e horas anteriores.
Ela estava, também, particularmente desassossegada, porque Telécio a atazanava com insistência, querendo saber notícias do pai e até mesmo ameaçando se embrenhar no mundo à procura dele.
A pobre mulher, vivia, de fato, um momento complicado em sua vida. Começou a acreditar que talvez Ulício já não mais estivesse vivo ou, na pior das hipóteses, que teria arranjado outra mulher, devota de outras rezas e fiel a outros santos, naquelas lonjuras onde se metera.
Mas Ulício, na verdade por onde andava? É uma longa história…
Ele quase se afogara em um rio, enfrentara malandros de beira-estrada, foi cativado por uma mulher cheia de amor para oferecer, afastou-se dela, foi salvo por outra mulher, novamente enfrentou travessias difíceis, doenças e traições de gente ruim. Mas, com calma se contará tudo, uma coisa de cada vez.
Foi assim no começo: a proposta de trabalho na mina Morro Alto era perfeita demais para ser totalmente verdadeira. Lá chegando, Ulício em pouco tempo percebeu que na verdade aquilo o prendia numa armadilha. O trabalho se dava em condições terríveis, com poeira e explosões de dinamite por todo lado. As acomodações, piores ainda, com camas quase sem colchão e cobertas, banheiros sujos e imprestáveis, comida que mais parecia a de porcos ou cães, lixo, insetos e cobras por todo lado. De cara teve que assinar alguns papéis que ele só depois percebeu serem amarrações severas, incluindo aí uma dívida pelo equipamento de segurança que ele recebeu, embora com a justificativa de que o montante lhe seria devolvido ao final do contrato de trabalho, desde que o tal equipamento não estivesse perdido ou danificado. As compras no armazém e na farmácia, pertencentes à companhia, seriam registradas numa caderneta para serem debitadas depois. Não havia menção a horas extras trabalhadas e ele logo nos primeiros dias percebeu que as jornadas de dez ou mais horas por dia eram obrigatórias ali.
– Aqui é bem difícil de chegar, mas para sair é um inferno – foi o aviso lúgubre que um velho, muito acabado no corpo e na cara, lhe passou logo ali na fila de entrada da seção de pessoal da empresa, quando Ulício ali apresentava seus documentos. Algum tempo depois Ulício ficou sabendo que se tratava de um empregado antigo, que há meses tentava ser liberado para voltar a sua terra, mas era impedido pela burocracia da empresa, sob a alegação de dívidas não resgatadas.
Como deu para amealhar algo mais satisfatório nos primeiros meses, Ulício foi ficando por ali, à espera de que conseguisse juntar algum dinheiro mais. Não prestou atenção no fato de que nos primeiros salários recebidos não havia nenhum desconto relativo às coisas que tinha comprado nas lojas da companhia. Achou aquilo normal, quem sabe o acerto viria em momento seguinte.
O tempo foi passando, a rotina era dura, sem deixar de ser aceitável, principalmente para alguém, como ele, que passara uns bons anos de sua vida agarrado a um cabo de enxada. O salário lhe vinha pontual, mas como não havia quase nada em que gastar ali naquele fundão de mundo ele resolveu depositar seu dinheiro numa de poupança, em uma espécie um banco que a empresa mantinha, que lhe garantia – foi o que lhe afiançaram – rendimentos de tantos por cento a cada mês. Todos faziam isso e assim não havia como ele, embora um tanto desconfiado, deixasse de fazê-lo.
A rotina dura permanecia, ou melhor, continuava a cada dia mais extrema, ele nem se lembrava que seu dia no muque começava ainda no escuro e muitas vezes terminava da mesma forma. – Horas extras? Um dia se lembrou de reclamar com o encarregado e este lhe disse simplesmente: – tá achando que aqui tem moleza, rapaz? A companhia sabe o que faz… É pra isso que aqui tem o prêmio de produtividade. Comentou a história com um companheiro de alojamento e este lhe contou que um colega, que insistia na mesma história de horas extras, fora demitido de repente e nunca mais se soube dele. Quanto à tal da produtividade, muito se falava daquilo, mas ficava sempre como uma promessa para o futuro, sempre impreciso.
O tempo ia passando, as horas, os dias, as semanas, os meses, com uma rapidez de espantar. Ulício passou a sentir falta dos carinhos de sua Nelinha, de jogar bola com os companheiros de Telécio nos finais de semana. Então decidiu pedir as contas e finalmente rever a família.
Na seção de pessoal seu desapontamento não poderia ser maior:
– Sim, você tem um crédito a receber, mas para calcular direitinho precisamos ver agora quanto chegam suas contas no armazém, na farmácia, no bar… E não se esqueça de trazer seu equipamento de segurança para vermos o estado dele.
Uma carga de dinamite a lhe explodir sobre a cabeça ou um caminhão fora de estrada a lhe passar por cima não teria provocado efeito maior em Ulício quando ele, finalmente, foi apresentado ao extrato de sua conta na empresa. Aquilo era pouco, muito pouco, muitas vezes menos do que ele imaginara receber quando se demitisse. E pior: mesmo descontado o valor que ele mantinha no tal “banco” da empresa.
Decidiu ficar mais algum tempo, para ver se recuperava um montante que lhe fizesse justiça. Foram alguns meses até que ele percebeu terem se passado três anos que estava ali, naquele ambiente empoeirado, barulhento, dormindo e comendo mal para economizar e sem ter qualquer certeza a respeito de seu destino, sem nada saber de sua família e sem dar notícias a ela.
Ulício acabou disposto a pedir as contas, pensando ter chegado a hora de encerrar aquela parte de sua vida, nem que tivesse prejuízo. Depois de algum tempo voltou a pedir as contas e viu que o crédito que detinha era apenas uma merreca a mais do que aquela de algum tempo antes. Resolveu quitar seu contrato assim mesmo e no escritório lhe avisaram que teria que esperar alguns dias, até que a companhia enviasse dinheiro vivo da sede.
Enquanto isso, a rotina de vida ali mantinha seu padrão, a guerra permanente contra os mosquitos e os percevejos, a solidão, a ausência da família, as chefias arrogantes e insensíveis, os castigos físicos aplicados por capatazes a colegas mais rebeldes, as noites que ia dormir com fome, a boia infame, o desconforto cada vez maior dos lençóis de aniagem, a poeira. E mais aquela dívida que só crescia e o atormentava.
Voltou ao escritório duas, três, quatro vezes e o que lhe diziam, sempre, era que o dinheiro deveria chegar a qualquer momento.
Um belo dia a sirene de alarme, usada como aviso das explosões, tocou em momento inesperado. Gaspar, o encarregado geral, já empoleirado na boleia da camionete que lhe servia, avisava a todos que a companhia havia entrado em recuperação judicial e o melhor era que cada um cuidasse de sua vida enquanto os advogados faziam o que fosse necessário. Sem esperar qualquer comentário ou dar maiores explicações, sumiu-se numa nuvem de poeira.
E assim, Ulício e todos os demais ali na mina do Morro Alto, se viram sem salário, sem poupança, sem armazém ou farmácia e até mesmo – esta era a parte boa – sem ter mais contas a pagar. A empresa, que iria exportar o tal do lítio para o mundo todo, simplesmente explodira, desaparecida na poeira. Alguns operários correram ao escritório, ao armazém e às instalações para ver se pegavam algum equipamento como compensação, mas o que restava era apenas prateleiras vazias e uma sucata imprestável.
Fazer o quê? Pegar a estrada, abatido e humilhado, era o que se dispunha para ele, mal sabendo que muitos de seus problemas apenas começavam naquele momento.
A bem da verdade, ali não havia estradas, a não ser para uma ou outra corrutela mais próxima. Os sórdidos lotações que por ali circulavam quando a mina ainda estava em funcionamento, já tinham sido também desativados, acompanhando a decadência geral experimentada pelo lugar, afetando não só as instalações próprias da empresa, como também supermercado, farmácia, botecos, puteiros e o que mais houvesse. Saída, agora, só pelo rio e este, devido à estiagem era agora um reles canalzinho barrento, a dar passagem a pouco mais do que eventuais e precárias canoas.
Ulício resolveu encarar tais perigos e desafios, sabendo que havia pela frente, além daquelas viagens em canoas imprevisíveis, longas jornada por outros rios traiçoeiros, estradas barrentas, através de florestas fechadas e brejos sem fim, com perigos que iam desde atoleiros intransponíveis, envenenamento por cobras e aranhas e até mesmo a possibilidade de flechadas certeiras.
Mais dia menos dia, Ulício tinha certeza, seria acolhido de volta pelo seu cerrado natal, de caminhos mais secos e seguros e, mais do que isso, pela família e pela gente de sua Itacari, que ele tanto queria ver e sentir.
Enquanto isso, em sua cidade, Nelinha começava a se sentir cansada, por achar inútil sua busca pelo marido. Tino, aquele colega de infância de Ulício, não se cansava de bajulá-la, cada vez mais, ora propondo ajudar nos trabalhos e nas compras de casa, ora levando-lhe alimentos frescos de sua própria horta, ou então lhe oferecendo carona no velho caminhão para ela ir ao trabalho, ao médico, à feira. Além do mais tratando ao Telê com a maior consideração, até mesmo jogando futebol com ele de vez em quando.
Foi assim que Nelinha, desamparada e carente de um homem por perto, aos poucos se tornava mais acessível a ele, no começo aceitando as ofertas e até oferecendo um café com bolinhos ou uma limonada ao pretendente. Até que um dia, depois de uma dessas sessões de conforto na cozinha, entre um sorvo de café e um pão de queijo, veio uma enorme tempestade e Tino por ali foi ficando, até acabar vencido pelo sono. Recolheu-se ele até o meio da noite no sofá da sala, depois, com aquiescência dela, ficaram juntos, na cama de casal, ouvindo a trovoada rugir lá fora. Ela sabia que Tino era mulherengo e talvez até meio violento, mas acolheu-o como um remédio amargo, nem que fosse também para conter as façanhas de outros machos do lugar, sequiosos em se aproximar de qualquer mulher sem marido.
Ulício, enquanto isso, continuava tentando tentava voltar pra casa. Logo de saída, buscou atravessar o rio em uma das tais canoas que havia por ali. Havia chovido nesse dia e o rio havia crescido, transformando-se de simples riacho a caudal violento. Um pé de vento faz a canoa virar e afundar, no meio da travessia. Por sorte, uma moça ribeirinha, Nazica, que andava pela margem se atirou n’água e como era boa nadadora ajudou Ulício a escapar, levando-o à outra margem, onde não havia morador, mas apenas uma estradinha que desembocava na barranca do rio. Nazica, sua salvadora lhe disse que alguém certamente passaria por ali para ajudá-lo, ela não, já que precisava cuidar da mãe doente, em casa. Isso custou a Ulício uma noite inteira de pasto para os carapanãs, mas por sorte dele, na manhã seguinte, uma Toyota chegou até ali, e assim ele conseguiu que o levassem até outro ponto na floresta, onde havia algum trânsito de caminhões de madeireiras. Foi assim, quase um dia inteiro mais tarde, que ele chegou a um posto de gasolina na BR, onde as possibilidades de transporte e apoio se multiplicavam.
Na despedida, Nazica tentou ser gentil – o senhor, como é a sua graça mesmo? Ulício, angustiado, só foi capaz de dizer – meu nome é ninguém! A moça o fitou espantada, mas aquilo acabou socorrendo-a quando o pai, inquirindo-a por sua demora e o fato de chegar molhada em casa, insistindo em saber com quem ela estivera, recebeu como resposta – foi ninguém.
No posto, enquanto Ulício esperava por uma nova carona, reconheceu um antigo conhecido de sua terra, o Assunto, ou coisa assim, mas de alcunha Totó, o qual, no entanto, não o identificou a princípio. Conversa vai, conversa vem, entretanto, lembrou-se de Ulício, mas admitiu que o julgava morto, era o que se dizia lá em Itacari. – E minha gente lá? quis saber o pobre ausente. – Não sei de nada, faz muito tempo que não ando por ali, respondeu o outro.
Alguma coisa na cara de susto mal disfarçado que lhe mostrou Totó, deixou Ulício com uma sensação de mau agouro, inferindo que se ele era julgado como morto lá no lugarejo, certamente aquilo poderia ter gerado consequências e a mais terrível de todas seria a de que Nelinha, dando como certa sua viuvez, tivesse encontrado outro companheiro. Para piorar notou que o tal sujeito não queria dar muita atenção a ele e logo despareceu atrás de alguns caminhões ali estacionados, sob o pretexto de que deveria procurar ali um determinado motorista para lhe levar um recado, urgente, sobre uma carga disponível mais adiante na estrada. A Ulício aquilo pareceu um escape e assim se conformou em deixá-lo partir, sem mais perguntas.
Do outro lado da pista, porém havia algo mais animador, um singular estabelecimento, o Bar, Dancing e Motel Calypso, que lhe pareceu ser um bom abrigo para aquele seu contato inicial com a liberdade. Um ambiente pintado de azul escuro, quase roxo, com uma ou duas lâmpadas de luz branca apenas a iluminar um salão enorme, uma radiola velha na qual uma dupla de sertanejos dava tudo de si. A Ulício, contudo, o ambiente pareceu acolhedor pois, afinal, tudo era novidade naqueles primeiros momentos de reencontrar o mundo que um dia conhecera, finalmente livre e fora das regas e dos aperreios da já quase esquecida mina de Morro Alto.
Lá dentro, uma grande surpresa o acolheu: Caly, a dona do local. Ela lhe era familiar, pois se lembrava que tal mulher ela já mantivera em Itacari um estabelecimento similar, chamado Danubiazul, que Ulício conhecia apenas de nome, não ousando frequentá-lo na ocasião, por ser muito jovem e também porque já estava de rolo com a Nelinha, que não aprovaria uma sem-vergonhice daquelas.
Mas aquela Caly ainda ia lhe dar pano para mangas e muito mais. Era uma mulher de uns 40 anos, mas com a vitalidade e um furor interior verdadeiramente selvagens. Logo de saída, não deu muita atenção ao recém chegado, mas já na hora de fechar a casa, resolveu sentar-se com ele para especular um pouco sobre sua vida. Caly que era muito curiosa e queria saber de tudo, explicou então ao recém chegado que não dava atenção a qualquer um, e assim o fazia porque o achara com pinta de gente boa. Ulício estava meio maltratado pelo tempo, já começando a ficar grisalho e com algumas rugas no rosto, mas ainda mantendo de um corpo bem proporcionado, com aquele olhar meio sonhador e um nariz de Cristo na igreja e isso interessou aos instintos de fêmea, ou talvez maternais, de tal mulher.
Não, ela não se lembrava de Ulício em sua antiga passagem por Itacari, nos tempos da Danubiazul.
Ali estava um homem cansado e desiludido, mas animado pela tremenda força sensual que ele via diante de si, coisa amplificada pelos três anos, ou mais, passados longe de uma mulher. Aquilo era apenas e tão somente a conhecida associação entre a fome e a vontade de comer. E assim, algumas horas depois, já pela noite, aconteceu o que era previsível. Na manhã seguinte Caly não deixou Ulício partir, oferecendo-lhe uma espécie de emprego – embora ele não pedisse isso – ou, pelo menos, uma proposta de que ele a ajudasse no negócio do Calypso, que começava a prosperar. Mas que ele se sentisse livre, quando quisesse partir era seguir em frente.
Uma coisa, entretanto, era falar, outra era fazer. Ulício não se esquecia do que o trouxera até ali, àquela casa de prazeres, deveria ser apenas uma parada, ou uma passagem, mas passavam os dias e as semanas e ele apenas queria permanecer na Calypso, onde era servido, no corpo e na alma, de dia e de noite, como um verdadeiro Rei, que era como ela lhe chamava, sentindo-se assim ao lado de uma verdadeira rainha, aquela bela e atrativa Caly. Ele às vezes falava, entre suspiros saudosos – minha gente anda tão longe, ao que logo sua rainha de pronto respondia – mas o que lhe faz falta aqui, meu bem? E insistia pressurosa e cheia de dengo – diga logo do que você ainda precisa e eu mandarei buscar, seja onde for, você é meu homem agora. Eu nem queria uma coisa dessas, mas aconteceu. Fazer o quê? E mais – meu corpinho, meus carinhos, minhas proezas na cama já não te interessam mais; já sei, estás à procura de uma mulher mais novinha do que eu. – Não, não, não diziao pobre moço, mas a cada dia sentia que lhe faltava convicção.
Neste tempo ocorreu um imprevisto que obrigou Ulício a ficar hospedado no Calypso por mais algum tempo. Polifêmio, também conhecido como Popó, o pastor da Igreja Luz de Deus na Terra, um antigo concorrente de Caly, com seu bordel Faz de Conta, que ele acabou fechando por não aguentar a concorrência com o Calypso e também porque a polícia localizara ali um movimentado ponto de drogas, abriu uma guerra ferrenha contra o estabelecimento da Caly. Este Popó estava recomeçando sua vida empresarial, agora com a tal igreja de crentes, e passou a usar seu púlpito, na verdade em um alto-falante aos berros, poucos metros acima do Calypso, para acusar Caly de levar vida suja e promíscua, na companhia de um homem que ninguém por ali conhecia, bem provavelmente um fugitivo – e que aquilo era uma afronta à moral daquela vila, que mesmo sendo pequena e humilde, à beira de uma rodovia, ainda assim abrigava pessoas de bem.
Caly, de boba não tinha nada, mas privava com amigos influentes. Foi atrás do delegado, na cidade, e conseguiu com ele documentos e matérias de jornal que mostravam o passado de Popó, como tendo sido preso por estupro de uma menina de 12 anos, além de ser suposto traficante de drogas, várias vezes autuado. Feito isso chamou Ulício para irem juntos à casa do desafeto, mostrando de cara seus trunfos e dizendo que ele que se não se calasse iria se arrepender – e muito.
Popó se calou e talvez por tal motivo tão clamoroso a lhe ameaçar a paz, fechou a sua Luz de Deus na Terra em poucas semanas, abrindo, em seu lugar, como negócio, uma borracharia associada a uma sorveteria em um posto de gasolina situado alguns km adiante daquele lugar onde fora tão mal sucedido.
O fato é que depois de tal peripécia as coisas se acalmaram para Caly e Ulício.
Dirce, uma amiga mais idosa de Caly, que lhe frequentava a casa e se tomou de simpatia por Ulício, um dia, vendo-o a sós, o abordou sem maior cautela – vejo que você não está nada bem, posso ajudar em alguma coisa?
Aquilo fez se abrirem comportas em Ulício e ele assim narrou a tal amiga toda a fieira de seus sofrimentos e suas atribulações. Se por um lado amava loucamente a Caly, por outro tinha ânsias de rever Penélia, sua mulher desde sempre prometida e principalmente seu filho Telécio, que ele temia nem ser mais capaz de reconhecê-lo. Para agravar sua situação, passou a sonhar quase todas as noites com sua mãe e em tais sonhos ela lhe pedia com muita angústia na face e no olhar – volte logo para casa meu filho, não posso morrer sem tornar a ver você!
Dirce era matreira, tinha soluções para tudo e prometeu ir atrás de uma pessoa de sua confiança, que poderia, ao longo de no máximo um dia ou uma noite, levá-lo para bem longe dali, daquela Caly que lhe atormentava com sua cama e sua casa de prazeres, na direção exata para onde seu coração palpitava. De quebra falou para Ulício: – aquilo ali é uma boa alma, mas não pode ver homem, ainda mais garboso como o senhor, que ela é uma feiticeira. Ulício não sabia que qualidade era essa de ser garboso, mas percebeu que devia ser um elogio a ele – e não deixou de ficar feliz. Quanto aos feitiços de Caly ele admitia, de fato, serem reais – e bem que lamentava perdê-los – mas carecia de seguir em frente.
Dois dias depois ela lhe avisou que seu amigo Hermes, motorista de ambulância ia passar por ali e ele podia finalmente sair, no meio da madrugada, disfarçado de paciente.
Ulício aceitou aquilo de bom grado, entre suspiros aliviados, embora pesarosos, sentindo que cumpria abandonar a boa vida que levava ao lado da amante. Logo percebe, entretanto, que sua alegria teria pouca duração. A ambulância de Hermes era uma lata velha, adquirida depois de ser descartada por uma prefeitura ali próxima. Em cima dela, bem ou mal, Hermes ia ganhando sua vida, levando doentes ao hospital da região, trazendo-os de volta, além de transitar com encomendas para lá e para cá, entre elas remédios, secos e molhados, peças de veículos, latões de querosene e alimentos para o gado e para gente. E a tal lata velha de Hermes, depois de alguns km, deu de si. Ulício já estava acostumado com os infortúnios, como carapanãs e outras coisas malévolas, mas ali na beira da estrada passou, na companhia de Hermes, uma noite infernal: foram abordados e rendidos por uns bandidos de beira de estrada, que quase não encontram pertences e dinheiro para levar, mas mesmo assim os deixaram amarrados dentro da lata velha, como se fosse para se vingar da frustração de um assalto tão mal sucedido como aquele.
Felizmente, quando o dia clareou, apareceu um carro da PM e os libertou, mas o Sargento Irineu já foi avisando que não valia pena dar parte, pois essa turma de malandros andava por ali há tempos e sua prisão acabaria sendo logo revertida, por conta de uns advogados, uns bandidos pior do que aqueles, que assim logo cairiam de volta no crime, pois era a única coisa que sabiam fazer.
Irineu lhes deu carona de volta à BR e ali Hermes partiu em busca de um guincho; Ulício, de novo, prosseguiu na sua via sacra. Desta vez teve mais sorte, pois depois de duas ou três tentativas de pedir carona lhe surge, dentro de uma reluzente Scania, um caminhoneiro boa praça, o Alcindo, que estava de viagem para a capital do estado e se compromete a deixar o caroneiro em algum ponto próximo à estação rodoviária, de onde finalmente ele poderia pegar um ônibus que o levasse ao destino. Ulício percebeu que finalmente a sorte lhe sorria.
Mas cadê o dinheiro para comprar a passagem ou até mesmo para comer um pastel e tomar um caldo de cana na Rodoviária? O otimismo de Ulício aos poucos lhe escapava, até que ele descobriu que havia ali uma repartição do governo que ajudava, com dinheiro e alimentação, as pessoas que queriam voltar para sua origem. É que terminara ali a estação da colheita de alguma coisa e aqueles milhares que vinham ali trabalhar acabavam por ficar zanzando pela cidade, à espera de que alguma coisa acontecesse. E Ulício soube tirar proveito disso, ganhando uma boa marmita, com carne e tudo, além de uma passagem de ônibus, e o que é melhor: para o mesmo dia.
Sua sensação de sorte voltou a aumentar ainda mais quando ele entrou no ônibus e percebeu que o motorista era um antigo conhecido de Itacari, melhor ainda, um grande amigo desde a infância, o Elmiro, de alcunha Miro-Bom-de-Bola, dada sua habilidade no futebol. Nem bem botou os olhos em Ulício, ele o saudou com sinais de amizade firme, aplicando-lhe um valente murro nas costelas, ao que Ulício se contorceu em caretas, mais de prazer do que de dor verdadeira. Finalmente ele viu que seu mundo começava a brotar de novo, depois de tanta dor e confusão.
Aproveitou a primeira parada do ônibus para indagar de Elmiro aquilo que lhe abafava o coração – você tem notícias de Nelinha? O amigo o olhou com espanto e alguma reserva, pigarreou repetido, olhou em volta e respondeu – por que, você andou sabendo de alguma coisa diferente a respeito dela? Ulício disfarçou, porém sem maior convicção – não, não sei de nada não… Miro, como bom amigo, lhe revelou a verdade, Penélia vivia agora, melhor dizendo estava amigada, com ninguém menos que o Tino.
– Não acredito! Logo aquele filho de uma égua?
O amigo lhe acalmou, dizendo que no fundo todo mundo em Itacari achava que aquela amigação era coisa passageira, não tinha como dar certo e que se um dia Ulício voltasse (embora a maioria duvidasse de que tal coisa acontecesse) o coração de Penélia seria dele, de Ulício, novamente: – Não perca as esperanças, meu chapa, tenha fé, eu acho que a sorte pode chegar é pra você no final das contas!
Fosse o que os céus quisessem, não seria mais possível voltar atrás.
Ele se despediu do amigo, ainda insistente em lhe desejar boa sorte, e desembarcou, finalmente, na sua Itacari de sempre.
– O que lhe aguardaria? O que Deus reservasse para ele…
Como suas roupas estivessem muito sujas e rasgadas, a barba lhe crescera quase um palmo, a barriguinha maneira que um dia ostentara havia murchado, depois de tanta fome e dissabores, Ulício resolveu manter tal aparência, que era a de um verdadeiro mendigo, até que alguma luz lhe viesse para solucionar um caso tão grave como o seu. Foi até as imediações de sua antiga morada e dali pôde ver a amada estender roupas no varal. O coração, então, lhe figurava como um potro xucro, sem qualquer freio ou brida.
Para aumentar mais ainda sua felicidade, mas também um tanto de sua angústia, Argos, seu velho cão logo o pressentiu por ali e veio lhe lamber as mãos, com indisfarçáveis ganidos de satisfação. Por sorte, percebeu que pelo menos o Tino não andava por ali naquele momento. O desgraçado era caminhoneiro e também o seu velho Mercedes não era visto em nenhuma parte.
Passados alguns dias, Ulício criou coragem e abordou Nelinha quando ela saía da igreja. Ela quase caiu para trás, não tanto por revê-lo, mas por ter diante de sai aquela figura suja e andrajosa, que lhe provocou, de início, o sentimento de que aquele ali não era e nem poderia ser Ulício, que afinal de contas era dado como morto pelos sertões do Norte.
Ulício então lhe falou de coisas muito particulares entre os dois. Um anel de pedra azul, que ele lhe dera de presente, alguns anos antes; uma cama que ele montara certa vez na varanda, para fugir do calor, em cima da qual perfizeram grandes noitadas amorosas que resultaram até mesmo na concepção de Telécio.
– E aquele sujeito? quis saber ele, evitando pronunciar o nome de Tino. – Aquilo é um traste, foi para uma pescaria com uns malandros aí, amigos dele, e já faz quase um mês que nem dá notícias. Já estou pensando em lhe aplicar mesmo é um bom pé na bunda. E vai ser agora!
Nessa hora, Telécio veio chegando devagarinho e quando viu que era o pai que estava ali, o abraçou longamente. Não era tão cheiroso e bonito como aquele pai que o deixara fazia mais de três anos, mas com certeza era ele mesmo. Clea, a boa vizinha e uma espécie de protetora de Telécio e da família, logo o reconheceu e veio abraçá-lo também.
– Ai! Pensou Ulício, agora a sorte me chegou mesmo!
Naquela noite não houve cama na varanda, porque o Tino, enciumado, vendera aquela que estava ali. Não houve nem lençóis nem travesseiros, mas a velha rede de linha de algodão por pouco não se desfez, com o peso em cima dela de dois corpos em compassado movimento.
Ulício, no dia seguinte, já se entregava a pensamentos profundos: Tanta confusão, tanto perigo tanto sofrimento: teria valido a pena? Aquilo não seria somente uma pausa até que se iniciassem novos perigos, novas provações, na necessidade de luta brava pela vida que nunca o abandonara? Por todo o sempre em sua vida teria que enfrentar coisas assim? Era um prêmio verdadeiro o que recebia agora e seria merecido ou era pura dobra do destino, frente a qual ele não teria participado e usado sua vontade em nada, nadinha? Tudo aquilo lhe pareciam momentos que logo fugiriam. Certo mesmo é que agora, na sua volta a Itacari, nada mais era como fora três anos antes, nem ali, nem no resto do mundo. E ele se sentia fraco e inseguro, percebia que Nelinha perdera um bom pedaço de seu viço, Telécio já era quase um homem, Itacari nem parecia mais o lugar em que nascera e crescera. Queria chorar, mas não, não, não, havia que enfrentar a vida, mesmo torta como ela se apresentava. Sem dúvida, ele tinha recuperado as coisas mais importantes de sua vida, mas o que deveria fazer agora e daqui pra frente? Simplesmente não tinha quaisquer respostas para isso. Ah, se pudesse saber o que o destino ainda lhe haveria de oferecer… Será que de fato alcançara um objetivo importante? Ou não? Voltar assim ainda mais pobre e estropiado para junto dos seus… O que teria lhe faltado: perseverança? Inteligência? Consciência das consequências de cada escolha que fizera? Mas se consolava ao perceber que voltar a Itacari, o começo de tudo, não era apenas a questão de chegar a algum lugar físico, mas acima de tudo ter conseguido arranjar de novo seus laços com quem bem lhe queria e assim recuperar sua vida mais autêntica, reconhecendo, entendendo e até aceitando de bom grado tudo aquilo o que tinha mudado durante sua ausência.
Não havia leite derramado ou tempo perdido, Ulício prosseguia em suas cismas, mas eram coisas da vida, simplesmente, que escorriam do jeito que tem que ser, para todas as pessoas neste mundão de Deus. Quem era ele para pensar que poderia ser diferente?
E assim adormeceu e sonhou o herói desta história, deixando momentaneamente de lado suas preocupações, embalado pela brisa noturna do cerrado.
***
Tenho que admitir, amigos, que este final não parece coerente com história do pobre Ulício, uma pessoa aparentemente incapaz de tais reflexões assim meio filosóficas, um tanto abstratas e cheia de porquês existenciais. Mas aqui e agora quem fala, em primeira pessoa e em nome do personagem, é o autor, não mais a narrar as peripécias do daquele, mas sim, digamos, compondo um final que faça justiça ao digno e resiliente Ulício. Sendo assim, leitores, transfiram o ponto de vista de um (eu) para o outro (ele, Ulício) e não levem a mal se este final mesmo assim não se revelar em sintonia com a narrativa que o antecede.
***
Para quem não viu o filme e nem leu a Odisseia (é o meu caso, novamente confesso…) aqui vai um pequeno glossário:
- Ulício representa Odisseu ou Ulisses: protagonista da obra, destacando-se pela resiliência, coragem e habilidade.
- Penélia (Nelinha) é Penélope, esposa de Ulício/Odisseu, que mesmo assediada por outro homem, permanece fiel ao marido.
- Telê ou Telécio é Telêmaco: filho de Ulício/Odisseu e Penélope/Penélia, que amadurece ao procurar notícias do pai e finalmente encontrá-lo.
- Itacari é Ítaca, não mais ilha da Hélade mas uma pequena cidade nos sertões do Brasil onde vive a família de Ulício e Penélia.
- Lena, vizinha e protetora da família representa Atena, deusa da sabedoria na Grécia antiga.
- Caly, a dona de um bordel onde Ulício se refugia é Calipso, a ninfa que mantém Odisseu em seu refúgio deseja torná-lo seu amante permanente.
- Dirce, na obra de Homero, Circe, é uma espécie de feiticeira que protege Ulício do furor uterino de Caly.
- Popó, um pastor evangélico vilão, que representa Polifemo, um forte inimigo de Ulisses.
- Nazica é Nausícaa, que resgata Ulício após um naufrágio e o ajuda se safar das armadilhas da floresta amazônica.
- Alcindo (Alcínoo) um motorista de caminhão responsável por oferecer hospitalidade e transporte ao protagonista.
- Antínoo (Tino) um dos pretendentes mais violentos e arrogantes de Penélope, que a constrange a viver ao lado dele.
- Elmiro (Eumeu, na obra) um porqueiro leal a Odisseu, que o acolhe sem reconhecer inicialmente sua identidade que aqui é um motorista de ônibus que conduz o herói finalmente a Itacari.
- Cleia: (Ericleia) é uma antiga amiga que acolhe Ulício em seu retorno a cidade natal.
- Argos: cão de Ulício/Ulisses, que reconhece o dono mesmo depois de anos de ausência.
