A Natureza em Brasília (XI): Um Jardim Botânico em nossa esquina

As noções de Brasília e de Área Verde mantêm entre si uma relação quase pleonásmica (será que existe esta palavra? O corretor do Google diz que não.). Desde a prancheta do Dr. Lucio Costa isso já se encontrava muito bem estabelecido e foi cumprido, creio, até com certo rigor, ao longo das mais de seis décadas de vida de nossa capital. Rigor, de fato, talvez seja um exagero, mas a realidade é que temos direito aqui a esse raro desfrute, algo que se vê em cada vez menos em cidades do Brasil, talvez do mundo. Eu, como frequentador de algumas dessas áreas, caminhante compulsivo das manhãs na Asa Norte, tenho procurado observar aquelas que me são vizinhas, ou seja, das quatrocentas às trezentas, incluindo o Eixão e entre as quadras quinze e as dezesseis, mais seus arredores (que me desculpem os que não são de Brasília, mas o pessoal local me entenderá perfeitamente). Pois bem, há uma pergunta a ser feita: o que vemos hoje como mancha clorofilada guarda alguma afinidade com o que foi projetado nos alvores de nossa cidade? A resposta é necessariamente vaga: até certo ponto sim – e não; há muito verde, sim, mas nem todo ele estaria definido na prancheta do arquiteto Costa ou de Burle Marx. E assim surgem novas perguntas: há algum problema nisso? Seria vantagem ou prejuízo para a natureza e para as pessoas que aqui vivem? Vocês têm um tempinho para ouvir o que tenho a dizer sobre as consequências da falta de maior rigor sobre aquele planejamento oficial da cobertura vegetal nas quadras? Mas atenção, aqui fala um curioso, um amador, não um botânico, paisagista ou ambientalista. Não precisam me levar muito a sério, portanto. Ok assim?

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A Natureza em Brasília (II): Paisagismo “naif”

Onde estariam os quintais em uma cidade como essa em que moro, com a presença tão marcante dos prédios de apartamento? Por incrível que pareça, a ideia de quintais e pomares não é estranha a Brasília. Eles podem ser vistos, de maneira mais óbvia, nos grandes espaços em que Burle Marx – deve ter sido ele – povoou de mangueiras. Quem sabe, foi ele também um nostálgico de pomares de infância? Viva as mangueiras, viva Burle Marx, mas são outros os pomares que me atraem aqui na capital do País. Estes não se exibem de imediato, tem que saber olhar para eles, meio tímidos e até envergonhados de sua modestíssima condição plebeia. Organização, composição paisagística, planejamento, são espécies que neles não floreiam e nem frutificam. Para vê-los, é preciso ir a pé pelo interior das superquadras onde estão bem presentes, exibindo abacateiros, mangueiras, pitangueiras, cítricos diversos e até bananeiras… De onde vêm? Será que alguém os planejou? Quem os plantou e cuida deles? Não parece ser por acaso que tais pomares modestos se situam nas proximidades da entrada do pequeno apartamento onde mora ou se abrigam os porteiros.

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