Esperando Bardot

Mulher é comigo mesmo. Já tive muitas – e para falar a verdade ainda me disponho a conhecer mais. Não. Não sou desses caras aí que ficam escondendo o jogo, se fingindo de santinhos. E nem daqueles que não arranjam nada na vida e dão para inventar histórias. Comigo, não. Se perco, faço a volta por cima – e depressa. O que me move é a beleza, a mais verdadeira que possa haver. Corro atrás disso sempre – e não me arrependo.

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Do empreendedorismo

Agora eu acho que me ajeito, a mercadoria parece ser boa de verdade, e o lucro, certo. O Expedito, que viaja todo mês para o Paraguai, me ofereceu um caixote inteiro de carregadores de celular por uma mixaria. Esses vieram direto da China, me afiançou ele. Só exigiu que eu pagasse à vista, coisa de que eu não tenho costume. Mas fazer o quê, não podia perder a oportunidade. Uma coisa pelo menos eu acertei com ele, da próxima vez só vou pagar quando a mercadoria chegar. Porque já me aconteceu de ter feito uma compra dessas, pagando à vista e nunca ter recebido a mercadoria, não foi com ele, é verdade, mas aconteceu. No caso, eram umas sandálias chinesas de primeira qualidade, fáceis de colocar no mercado. Ou, pelo menos, eu acho que eram jeitosas e comerciais, não cheguei a ver ou experimentar.

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Chico Torresmo, o operador de paressiga

Chico Terêncio, por alcunha Chico de Sinhana, por não lhe ser reconhecido um pai com total certeza, ou ainda Chico Torresmo, por razão incerta. O fato é que por esses dias Chico está feliz, pois arranjou um emprego. Já andava cansado de ficar bestando por aí, entre a conversa fiada de sempre, com os amigos, na venda do Genéis, uma roçada contratada em algum lote vazio, uma derrubada de caixa de maribondo em algum canto da vila, uma entrega do requeijão da Sebastiana, sabe-se lá aonde.

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Outras histórias

Histórias, histórias, histórias… Falta de ter o que fazer ou excesso de criatividade. Deixo a critério dos leitores decidirem. Aqui vão mais algumas, sem precisão temática e sem maiores critérios seletivos definidos. Ou melhor, fazem parte da seleção a que denominei Matéria Médica, seja lá o que isso for. Sejam complacentes em sua leitura. Boa sorte, para mim, pelo menos. Esses perus aí vocês logo saberão porque estão presentes.

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As ruínas do Cine Academia

I give her my heart, but she wanted my soul. Don’t think twice, it’s all right. Bob Dylan

Quem não se lembra do Cine Academia? Ali era possível ver bons filmes, ouvir boa música ao vivo, tomar um café ou um drink honesto, encontrar pessoas. Como nada é perfeito, o proprietário era um conhecido trambiqueiro, devedor do fisco e da previdência e seu estabelecimento acabou sendo fechado para pagar dívidas com o Estado, mas mesmo assim deixou saudades em muita gente – o lugar, não seu dono. Edgar, frequentador assíduo do lugar, se sentiu em completa orfandade. Aquele lugar sempre lhe oferecera coisas apetecíveis, filmes, por exemplo, mas não somente isso, pois no quesito “pessoas” ali colheu também ótimas lembranças. Aquela, a qual a mente lhe trazia de volta agora, a mais especial de todas.

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Matéria Médica

Medicina tem a ver com literatura, sem dúvida, no mínimo por fornecer no cotidiano de seus profissionais, principalmente para aqueles que são bons observadores, um manancial imenso de situações que certamente favorecem a produção de textos diversos, sejam romances, novelas crônicas, poemas – ou, em último caso, anamneses. Mas será que a carreira médica impele de fato seus praticantes, mais do que outras profissões, a serem escritores? De fato, há muitos médicos que se transformam em escribas, alguns até exponenciais, como Guimarães Rosa e Miguel Torga, por exemplo, mas há também advogados, engenheiros, professores, para não falar daqueles que não possuem profissão definida ou nem se lembram mais daquela que um dia exerceram, por se sentirem, desde sempre, escritores, pura e simplesmente. Drummond, por exemplo, era farmacêutico, Monteiro Lobato advogado e Jorge Amado nem formado era.  Alguns mais críticos poderiam dizer que os médicos, para além de sua profissão de origem, talvez se interessem mais pelas atividades agropecuárias, pela política, ou pelos negócios em geral, do que propriamente pela literatura.

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A paciente do leito catorze

– Doutor Belisário, a paciente do leito 14 quer falar com o senhor.

Lá vem Dona Julia de novo, ela adora arranjar tarefas para mim, sempre é isso. Aliás, todo mundo aqui no hospital parece que precisa falar comigo… E nesta enfermaria de desenganados é pior ainda. O que será que essas pessoas esperam de um médico? A capacidade de fazer milagres? A verdade é que para alguém que se mete neste raio de especialidade da oncologia, não poderia ser diferente. A culpa é mesmo minha… Bem que a minha mãe dizia, meu filho essa coisa que você escolheu para trabalhar vai acabar lhe fazendo mal, você devia ser ginecologista, ou quem sabe pediatra. De fato, acho que já está me fazendo mal, muito mal, depois de 10 anos inteiros vendo gente morrer. E sofrer. E o que é pior, pessoas chegando a mim como se eu tivesse um poder mágico de lhes restituir a vida, a saúde, a normalidade. Isso é para os fortes e eu começo a ver que não é, definitivamente, o meu caso. E que diabos, a paciente número 14 tem nome! E se chama Letícia…

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Otavita: Vida e Obra (Uma biografia não autorizada)

Nossa, já estou acordada há tanto tempo e nada de aparecer esta moça que vem me trocar. E nem adianta chamar, com a minha própria voz ou com a campainha. Aí é que ela não comparece – nenhuma delas, aliás. Vida difícil aqui. O Jorge Jr, meu filho, outro dia chegou a me dizer que eu reclamo demais, que devia me dar por satisfeita de estar nessa casa de repouso, que é das melhores aqui na cidade, nem adianta procurar por outra melhor. Mas ele, apesar carinhoso comigo, de sempre estar presente e me trazer quase toda vez que vem uns docinhos, umas balas, geleias, empadas e outras coisinhas doces que gosto tanto, não sabe de verdade o que se passa comigo, o tanto que eu sofro. Nem de longe… Ninguém, fora Clara, minha filha mais nova – esta talvez saiba alguma coisa. Aliás, pensando bem, acho que só eu mesmo sou capaz de saber dessas coisas.

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Segredos de Família

Toda família tem segredos, toda família tem histórias, publicáveis ou nem tanto. A minha não foge a tal regra. O caráter ficcional com que encubro as presentes narrativas não pretende encobrir certos pecadilhos revelados e nem exime a ninguém por tê-los cometido. Quem não tem um prontuário assim meio embaçado? Aliás, como saber, de fato, da veracidade de muitas das histórias e das lendas que acompanham qualquer família, qualquer grupamento humano? O tempo, quando passa, faz esta estranha alquimia, de converter narrativas pitorescas em verdades inquestionáveis. Ou vice versa. Sendo assim, não me responsabilizo totalmente pelo que é dito aqui e neste aspecto me apoio em Manoel de Barros: do que conto, boa parte é inventado, a outra parte é mentira mesmo – ou algo assim. Vamos em frente, em busca da essência – não da verdade – de alguns desses possíveis segredos.  

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Amor em tempos de pandemia (e cia.)

Amor, sempre amor. Em tempo de pandemia ou em épocas normais. Apenas imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes. Amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre Amor, sempre o mesmo e sempre diferente. Aqui vão alguns exercícios que fiz, sobre tal tema. Algumas coisas eu confesso que vivi de fato, mas nem tudo é verdade. Minha nudez não mais me assusta e eu a compartilho com vocês.

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