Se bem me lembro (X): Causos…

Comecei meu livro de memórias, o tal Vaga, Lembrança, registrando minha implicância com a palavra “casuística”, muito apreciada pelos médicos, principalmente para demonstrar sabedoria e, principalmente, exibir uma trajetória profissional marcada pela experiência. Radicalizei tal ponto de vista após ter sido apresentado a certas noções de estatística e lógica, que me informaram que as possibilidades de generalizações a partir de dados isolados ou não controlados for­malmente podem ser fonte de enganos, muito, muito mais do que de certezas. Foi assim que adverti, na ocasião, aos meus possíveis leitores: o que vocês lerão agora – atenção! – não é, defi­nitivamente, uma “casuística”, em qualquer das conotações que tal termo possui, mesmo aquela vulgarizada pelos médicos; por isso – e para fazer um trocadilho que espero não seja considerado infame – é que resolvi considerar a presente série de escritos com o neo­logismo de “causuística”, por representar apenas um conjunto de vivências, reflexões, impressões ou, se quiserem, causos, que a vida me mostrou, com a dor e a beleza com que conviveram a criança, o estudante, o médico, o sanitarista, o gestor, ou o homem que obser­va o mundo, simplesmente.

Em suma, até hoje não disponho de casuística, no sentido que os médicos dão ao termo, ou seja, aquele “registro pormenorizado de casos clí­nicos das doenças”. Mas em compensação pude colecionar muitas histórias – os tais causos – em minha vida, nos vários caminhos que percorri, com maior foco naqueles momentos em que lidei com gen­te individualmente e deitada em camas de hospital ou em salas de ambulatório, em “colóquio singular” comigo, ou nas salas de aula que tive que enfrentar, frente a alunos variavelmente atentos ou ausentes em espírito, mas também nas várias instituições ligadas à saúde pública em que militei, cujo foco são pessoas que se contam aos milhares ou milhões, sobre as quais cabe, principalmente, evitar que se dei­tem ou se desgastem por motivo de doença.

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