E a Medicina, a que será que se destina?

JECA TATU 2Quando vejo esses garotos nos semáforos, pintados de todas as cores, em trajes esmulambados, pedindo uma contribuição para o chope grupal, pelo momentoso fato de terem passado no vestibular de medicina, sinto um arrepio por dentro.

Não tanto por razões moralistas, do tipo “afinal de contas não ficam bem tais atitudes em futuros médicos”. A minha questão é outra: as ilusões de que aqueles jovens se alimentam e, de quebra, a classe média e média-alta a que pertencem. Ilusões, aliás, compartilhadas por toda a sociedade.

A primeira dessas miragens deriva do fato de já termos médicos demais. Aqui e em quase toda parte no Brasil. Em Uberlândia já atingimos os índices cubanos, israelenses e cariocas, sabidamente os maiores de todo o planeta. E nem resta mais o consolo daquela palavra de ordem de décadas passadas – a necessidade da interiorização da medicina. Com o advento do SUS e a decorrente expansão dos serviços de saúde nos municípios, mesmo pequenos, graças a uma bem sucedida política de descentralização (sim, há coisas bem sucedidas na saúde em nosso país), menos de 10% dos municípios brasileiros permanecem sem médicos. E assim como não há médicos ali, não há enfermeiros, dentistas, engenheiros, agências de banco, vídeo-locadoras, enfim, tudo que se associa à vida civilizada ou inserida no mundo do consumo.

O Ministério da Saúde bem que tenta, mas não vem obtendo sucesso, em incentivar com bolsas, cursos e outras facilidades a ida de profissionais de saúde para estes municípios. Parece que o problema é outro: será que estes lugares, o mais das vezes pobres e isolados, deveriam ser, de fato, municípios autônomos? Com a palavra a politicagem nacional, que sempre incentivou este tipo de distorção.

A segunda das ilusões citadas refere-se ao modo como são formados esses profissionais. Aqui fala alguém que militou durante mais de 30 anos no ensino médico, associando sua prática docente durante longos anos à militância paralela na gestão de serviços de saúde. Uma boa pergunta é: eles são formados para qual sistema de saúde? Para o que temos no Brasil certamente que não…

O que os médicos, em sua maioria, estão preparados a fazer é pensar como especialistas, na melhor das hipóteses como especialistas no corpo humano, abstraindo-se dos fatores que o rodeiam, o ambiente ou o modo de vida, por exemplo. Na pior das hipóteses, como operadores de tecnologias voltadas para determinado órgão ou sistema, quando não apenas de moléculas ou outras partículas que compõem a máquina humana. E acima de tudo, praticam um enfoque exclusivo sobre a doença – e não sobre a saúde – de cada pessoa, nem mesmo das pessoas em geral.

Curiosamente (mal comparando), os estudantes de veterinária têm uma formação diferente dos médicos, pois seu estudo das doenças dos animais geralmente se atem a apenas duas disciplinas, às vezes chamadas de “Doenças I” e “Doenças II”. Na carreira médica, não: é só doença durante pelo menos dois terços da carga horária do curso. No primeiro caso é que está em pauta é a saúde do indivíduo (ou no caso presente, a produção animal); no outro, o que importa é a doença, mais do que a saúde. O médico é um profissional da doença, portanto.

O tema é vasto e há muito o que dizer sobre ele. Para resumir e me ater ao espaço que este jornal me faculta, diria que a saúde representa na verdade o produto de quatro condições fundamentais: a biologia da pessoa; o ambiente em que ela vive; os estilos de vida que assume e a oferta de serviços de saúde a que está exposta. Um bom curso de medicina teria, por obrigação, que se dedicar a estes quatro componentes da saúde. Mas o que acontece na realidade é bem diferente disso.

Retomarei o assunto em próxima oportunidade…

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