Onde foi que nossa cidade capotou…?

 Brasilia em obraComo conheci Brasília

Entoando nosso hino, o “Rataplã do Arrebol”, de cujas palavras ignorávamos o exato significado, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, hoje “Milton Campos”, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, talvez, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais.

Era tudo aventura, a começar pelo vento, que já à altura de Sete Lagoas havia destruído o toldo de lona posto sobre o caminhão e dispersado alguns dos chapéus de feltro, o que deixou seus donos inconsoláveis.

Em Três Marias paramos para comer, de marmita, pois naquele tempo não se conhecia fast-food, palavra que, aliás, soaria como um palavrão em língua gringa. Ali constatei, para meu dissabor, que a comida preparada com carinho por minha mãe, de véspera, simplesmente azedara, irremediavelmente. Um colega caridoso me ofereceu uma banana, com a casca já preta, a qual comi com gosto, o que fazer?

Chegamos esbodegados em Paracatu, já a tempo de dormir. Um Grupo Escolar foi nosso abrigo e ali o chão nos serviu de cama, sem direito a travesseiro e chuveiro, além daquela puxadinha de coberta, privilégio que ainda usufruíamos de parte de nossas mães. De madrugada, o planalto mostrou-nos sua inclemência, quase nos congelando.

E aquela estrada, meu Deus! Parecia que por mais que viajássemos, estávamos sempre no mesmo lugar… Repetiam-se, monotonamente, aqueles morrinhos em forma de mesa, o horizonte plano e distante, sem nossas montanhas familiares, a vegetação retorcida do cerrado. Aqui e ali pessoas vendiam frutas estranhas, cascudas, coloridas, de cheiro ativo, que por vezes nos entrava pelas narinas mesmo na carroceria do Chevrolet, a toda velocidade.

Lembrança de Cristalina: filas de carros com os parabrisas quebrados pelo impacto dos cristais do cascalho fino que cobria o asfalto. E filas de vendedores de parabrisas, recém descobridores daquele filão de ganhar dinheiro, coisa rara naquele tempo e naquela região.

Brasília nos recebeu lá pelas onze horas da manhã, num calor de rachar, que nos fez sentir saudades do frio de Paracatu. Com os chapéus restantes e o nosso grito escoteiro – arrê, arrê, arrê – saudamos os Fuzileiros Navais que vinham a pé do Rio de Janeiro. A estátua gigantesca e esquisita, hoje conhecida como “Chifrudo”, na entrada do DF, não nos augurou boa coisa.

Acampamos logo abaixo do Palácio do Planalto, monumento então tingido pela poeira vermelha, no meio do cerrado. Não havia banho. Para as necessidades mais imperiosas, o hediondo WC de uma cervejaria instalada num galpão provisório, ao lado do Palácio. Acabamos descobrindo uma adutora furada, ao lado da qual, meio atolados na lama, lavávamos as panelas, as cuecas e o corpo. No acampamento sem árvores já no primeiro dia estávamos à beira de uma insolação. À noite, um frio siberiano. Como se não bastasse, um “enxame” de carrapatos nos assolou, propiciando o intenso afazer de nos coçarmos, dia e noite.

Por muita teimosia voltei a Brasília – e para morar – muitos anos depois. Na adolescência, entretanto, só não corremos, eu e meus companheiros, de volta ao regaço materno, porque nossa querida BH ficava muito longe do terrível Planalto Central.

Brasília completa agora seus 53 anos. Constato com certa melancolia que muitos planos e ideais dos anos sessenta – tantos nossos como do Brasil – ficaram, definitivamente, para trás. Estar presente na cidade recém nascida e ter vivido tal aventura foram algo épico para mim, que sobrevivi a essa viagem maluca e ainda tenho o lucro de poder contar esta história. Isso me faz pensar também no destino dessa cidade, muito querida, mas por vezes nem tanto… Onde e quando foi que ela capotou? Os anos sessenta nos trouxeram coisas marcantes, como a Bossa Nova, os Beatles, Che Guevara… Algumas que já ficaram esquecidas, como o Renault Gordini… Outras, entretanto, permanecem presentes talvez para nos lembrar que nossos sonhos já foram mais generosos, como esta maltratada e agressiva Brasília de hoje.

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