Vaga, lembrança…

RECHERCHE“Casuística” é palavra muito apreciada pelos médicos. Quando querem demonstrar sabedoria e, principalmente, exibir uma trajetória profissional marcada pela experiência, inflam o peito e logo proferem uma frase manjada: pois na minha casuística…

Não nos deixemos enganar, vamos logo ao dicionário. Mestre Houaiss, por exemplo, sentencia que este é um termo que tem suas aplicações principais nos campos da ética, da religião e da teologia, o que nos faz suspeitar que talvez os doutores estejam usando a tal palavra sem as devidas licenças. Assim, se vê a seguinte definição para sua acepção principal: “exame minucioso de casos particulares e cotidianos em que se apresentam dilemas morais, nascidos da contraposição entre regras e leis universais prescritas por doutrinas filosóficas ou religiosas, e as inúmeras circunstâncias concretas que cercam a aplicação prática destes princípios. É termo comum a culturas e circunstâncias históricas heterogêneas, manifesta-se na filosofia estóica e confuciana, no talmudismo hebraico, nos comentários do Corão, na filosofia escolástica, na teologia católica”.

Mas vemos também que o termo se oferece a outros significados. Por exemplo, por extensão de sentido, em Pascal e nos chamados jansenistas, refere-se a “reflexão moral oportunista e enganosa por abdicar dos princípios fundamentais da moralidade cristã em função de circunstâncias empíricas e cotidianas”, crítica esta voltada em especial contra o domínio dos Jesuítas, de influências muito secularizadas na ocasião. Pode ser também “argumentação que utiliza a simulação para justificar ou legitimar qualquer ato ou circunstância”; ou ainda “discussão e análise de problemas filosóficos, morais ou sociais por meio de sutilezas especiosas e artifícios sofísticos”. No Direito, pode ser a “aceitação passiva e acrítica de solução anteriormente dada para um caso jurídico semelhante ao que se busca atualmente analisar, em detrimento de uma análise acurada do texto legal”, o mesmo que “jurisprudência”, talvez.

Finalmente, na Medicina, embora seja considerado um regionalismo brasileiro, representa o registro pormenorizado de casos clínicos das doenças. Ponto.

Minha implicância com a tal “casuística” médica vem de longa data. Aprofundou-se ainda mais depois que aprendi certas noções de estatística e lógica, que me informaram que as possibilidades de generalizações a partir de dados isolados ou não controlados formalmente podem ser fonte de enganos, muito, muito mais do que de certezas.

Passo a duas histórias ilustrativas.

Quando fui trabalhar na Faculdade de Medicina de Uberlândia, em 1975, fiz como a maioria dos médicos, lá e em toda parte, na ocasião e ainda agora: arranjei um segundo emprego. Nada irregular nem indigno, embora na faculdade eu tivesse um contrato de “tempo integral”, mas não de dedicação exclusiva. Mas o salário… Assim eu fui trabalhar como supervisor da rede de serviços da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, lotado no recém criado Centro (depois Diretoria) Regional de Saúde do Triangulo Mineiro (depois só de Uberlândia e região).

No referido CRS, uma das minhas tarefas iniciais foi organizar a coleta de informações sobre as doenças de notificação obrigatória legal na cidade. Aliás, ninguém havia feito isso antes. De posse dos primeiros dados, ainda muito precários e seguramente sub-notificados e pouco valorizados pelos “colegas”, organizei-os em gráficos e tabelas e fui mostrá-los em seletas platéias de homens de branco. Estes, de maneira geral, me cumprimentavam e elogiavam, porém sem deixarem de me olhar como se eu fosse um marciano recém ingressado na atmosfera terrestre. Na ocasião, cheguei a ouvir alguns dizerem que aqueles casos de difteria expostos em meu material não deveriam ser verdadeiros, pois “a casuística” de alguém indicava que tal doença nunca tinha grassado em Uberlândia.

Tive que me calar, porque os dados eram pouco confiáveis mesmo, pelo menos naquele momento, mas a palavrinha me fazia cócegas… O mínimo que eu tinha desejo era perguntar como é que o digno doutor organizava a tal “casuística’ e que comparação ele poderia fazer com aquela dos demais colegas de profissão. Mas deixei passar.

Mais adiante, houve mudanças no esquema nacional de imunizações, já não me lembro se acrescentando ou retirando vacinas tradicionais, ou alterando o número de doses. Desta vez, além de reuniões, fui procurar diretamente alguns dos principais pediatras da cidade em seus consultórios. Hoje eles se contam às centenas, mas naquele tempo, meados dos anos setenta, talvez fossem apenas pouco mais de uma dúzia. De modo geral, eu era bem recebido e ouvido atentamente, todos demonstrando real interesse na novidade que eu trazia.

Até que um dia a palavra surgiu de novo… Eu falava com outro docente da Faculdade de Medicina, um sujeito formado em Ribeirão Preto. A referência a tal cidade não é preconceituosa, mas o fato é que todos sabíamos, em Uberlândia, que a “turma de Ribeirão”, formada por egressos da famosa escola de medicina da USP lá existente, era, para dizer tudo em uma única palavra, um tanto arrogante. Foi aí que o tal sujeito me sapecou esta pérola: minha casuística revela que estas mudanças no calendário de vacinas são desnecessárias…

Foi assim que fiquei irremediavelmente implicante quando ouço tal palavra. Depois de estudar alguma coisa de lógica e consultar o  Dicionário do Houaiss, então, nem se fala!

Então, resumindo. O que vocês lerão agora – atenção! – não se trata de uma “casuística”, em qualquer das conotações que tal termo possui, mesmo aquela vulgarizada pelos médicos. Por isso – e para fazer um trocadilho que espero não seja considerado infame – é que resolvi considerar a presente série de escritos com o neologismo de “causuística”, porque o que apresento aqui são apenas vivências, reflexões, impressões ou, se quiserem, causos, que a vida me mostrou, com a dor e a beleza com que a criança, o estudante, o médico, o sanitarista, o gestor, o homem que observa, simplesmente, são obrigados a conviver e sobreviver.

Vamos combinar: esta não é uma obra de ficção, embora às vezes tenha tido a tentação de que assim fosse, mas algumas das histórias que conto – todas verdadeiras, diga-se de passagem – terminam às vezes explicitamente com uma “moral da história”. Mas isso não se aplica a todas as narrativas. Em algumas delas, confesso, não sei até hoje se possuem alguma “moral” ou até mesmo algum sentido ou explicação. Mas como estou bem acompanhado por você, gentil leitor, lhe convido o refletir e tentar descobrir algo sobre tal falha, dotado que é da clarividência e da distância crítica que me escapam.

Em suma não disponho de casuística, no sentido que os médicos dão ao termo, ou seja, aquele “registro pormenorizado de casos clínicos das doenças”. Mas em compensação pude colecionar muitas histórias – os tais causos – em minha vida, nos vários caminhos que percorri desde a infância, com maior foco naqueles momentos em que lidei com gente individualmente e deitada em camas de hospital ou em salas de ambulatório, em “colóquio singular” comigo, ou nas salas de aula que tive que enfrentar, frente a alunos variavelmente atentos ou ausentes em espírito. E também nas várias frentes e instituições ligadas à saúde pública em que militei, onde as pessoas se contam aos milhares ou milhões e cabe, principalmente, evitar que se deitem ou se desgastem por motivo de doença.

E encerro, em seção que intitulei Torre de Vigia, com reflexões que a idade e a experiência me permitiram expor, talvez com alguma falta de pudor também.

Boa leitura. Abraços a todos. Obrigado pela generosidade de me lerem!

****

E aqui vai, para quem se interessar (ou pelo menos para ficar registrado em algum lugar, à espera de leitores futuros…) este meu exercício memorialístico, cujo prazer em tê-lo escrito espero que seja proporcional ao dos que o lerão um dia…

TEXTO FINAL PDF

 

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