Numa expressão duplicada e irônica, para não dizer sarcástica, os Titãs falam de família, da família brasileira, talvez de todas as famílias, mais do que das famílias de si próprios. Tal ironia, no meu caso, até que se justifica, mas quero falar aqui é de um outro lado de tal entidade, aquele que remete a afeto, influências culturais, ancestralidade e boas lembranças, enfim. Devo dizer que minha família deve ser igual todas as outras, com altos e baixos, gente normal ou nem tanto, situações de conflito entremeadas de carinho e amorosidade. Mas não custa lembrar de situações mais peculiares, por exemplo, quando quase perdi minha mãe ainda na infância e a rede familiar, formadas por avó, tios, tias e outros parentes se fechou sobre meus irmãos e a mim com total desvelo, desprendimento e caloroso abrigo. Pouco tempo depois perdemos um tio e um primo num afogamento, quando um tentava salvar o outro – e foi a tal rede que nos salvou. Mais uma morte trágica, quando um primo foi assassinado por um policial ao tentar separar uma briga. Essa foi a parte ruim, todas as famílias certamente conhecem algo assim. Mas houve também memoráveis almoços campestres, na fazenda onde morava um tio, com saudável disputa entre as tias sobre quem fazia um prato mais saboroso. Aliás, acima de tudo, sabíamos, como ninguém fazer comemorações em torno de uma mesa, nisso incluído não só a degustação, mas também altos papos filosóficos e políticos. Vivemos assim, dentro de tal grupo, uma era de marcantes revoluções culturais e sexuais, porém sem maiores sobressaltos, diga-se de passagem. No meu caso específico, creio que posso me caracterizar como fruto não só de uma época espacial, o baby-boom pós Segunda Guerra, como também de ter sido testemunha e participante das tais revoluções e mais ainda, de passar a infância em ambiente de certa disparidade, por ter pai e mãe de extrações culturais desiguais, sem deixarem de ser significativas para minha formação: ela filha de pai intelectual e advogado, educada em colégio de freiras; ele, produto de outra banda do estado, de um patriarcado rural, nem sempre formado por gente totalmente alfabetizada, vivendo da dura lida com lavouras e gado, em propriedades pequenas, numa vida sem grandes perspectivas de consumo, onde não havia nem piano nem colégio de freiras. Assim fui feito e me fiz… Vamos às lembranças.
Família
É um velho livro, este Horas Seraphicas do Officio de N. Senhora Rainha dos Anjos Maria Santíssima, encapado em couro e com as páginas amareladas pela ação do tempo. Por si só, é uma curiosidade rara, tirado que foi em uma quarta impressão mais acrescentada, em Lisboa, na Oficina de certo Miguel Manescal da Costa, Impressor do Santo Ofício, no ano de 1764.
Mais do que seu valor de relíquia, de história certamente acidentada, com as licenças necessarias do Santo Offício, como consta de seu frontispício, o que me toca mais no pequeno breviário é a humilde crônica da vida de uma família do interior de Minas, contada em sua contracapa a lápis e pena de ganso, com a tinta frequentemente esmaecida pela ação do tempo ou, quem sabe, de algumas lágrimas. Vejamos algumas passagens.
«Cazei-me com a Sra. Theresa Maria de Jesus Paixão aos 30 de julho de 1859».
«Aos 16 dias do mez de junho do anno de 1860 nasceo o meu filho Florindo, que foi baptizado aos 26 do mesmo mez. Forão padrinhos Antonio Teixeira da Paixão e Theresa Maria de Jesus. O sacramento foi ministrado pelo Vigário Ignácio J. Nogueira».
«Aos 13 de julho de 1861 falleceo meu sogro faltando 4 dias para completar 82 annos, sendo sepultado no dia 14».
«Aos 7 de dezembro de 1861 nasceo meu filho Antonio, que foi baptizado aos 15 de janeiro de 1862 pelo Vigário Ignácio Joaquim Nogueira.
«Das 2 as 3 da madrugada de 9 de abril de 1863 tremeo a terra».
«A meia noite do dia 16 para 17 de fevereiro de 1864 nasceo meu filho João, foi baptizado aos 19 do mesmo pelo Vigário Ignácio. Aos 18 de abril de 1866 nasceo meu filho Galdino e foi baptizado aos 16 de junho do mesmo anno pelo Vigário Ignácio.20 21
«Aos 10 de maio de 1868 nasceo minha filha Pascoa e foi baptizada pelo Pe. Ignácio aos 9 de junho do mesmo. Na quarta feira 19 de maio falleceo minha mãe deixando 5 filhos».
«Em 17 de agosto de 1878 nasceu minha filha Theresa e foi baptizada aos 6 de outubro do mesmo ano pelo Vigário Cônego João Alves Coelho.
«Aos 26 de abril de 1873 falleceo meu filho João a 11 e ½ horas da manhã e como foi de bexigas enterrou-se as 2 da tarde do mesmo dia, tendo de idade 9 annos, 8 mezes e 10 dias».
«Em 18 de janeiro de 1874 falleceo meu irmão João na Cidade de Ouro Preto e foi sepultado em S. Francisco de Paula a 19 do mesmo mez».
«O Benjamim foi para o Collegio de Congonhas do Campo a 14 de junho de 1890».
Não é pouca coisa: trinta anos de vida, morte, sustos, partidas, celebrações e tudo mais que faz da condição humana este caldo fascinante de dor, alegria e mistério.
Mais família
O livro de orações referido acima me foi dado de presente pela minha avó materna, Dodora, ainda em vida. É realmente uma relíquia de família que, pelo que fiquei sabendo muitos anos depois, por minha mãe, continuava reivindicado por primas distantes dela. Mas minha avó era legítima proprietária ou, pelo menos, guardiã dele, condição que se estendeu à minha pessoa. Sendo assim, não devo nada a ninguém…
Aquela Theresa, nascida em agosto de 1878, era minha bisavó, mãe de Dodora e com ela convivi, de perto, até 1965, quando ela faleceu. De repente me dou conta de que, ter convivido tão proximamente com alguém que nasceu antes da libertação dos escravos, da Proclamação da República, do advento do automóvel e da luz elétrica, isso me torna, de certa forma, embora indiretamente, também uma testemunha da história.
Não tenho muitos detalhes sobre a vida de Theresa, conhecida entre as crianças da família como Vodinha, mas o que sei já faz dela uma personagem notável. Casou-se com um filho de portugueses, Marcos de Oliveira Santos, advogado que concluiu seu curso de direito em Ouro Preto, já pai de três ou quatro filhos e foi ser promotor no Sul de Minas, mais exatamente em Varginha. O nome dos pimpolhos era um primor de latinismo e cultura: Ennius, Publio e Duilio, além das duas moças, de nome mais cristão: Ligia e Maria Auxiliadora.
Em Varginha, pouco tempo depois de instalado, Marcus adoeceu gravemente, com uma provável lesão valvular cardíaca. Um médico foi preciso no prognóstico: senhora, seu marido viverá por no máximo seis meses. E assim aconteceu. Theresa fez a trouxa e carregou os cinco filhos para Belo Horizonte, onde já viviam algumas pessoas de sua família, inclusive aquele Galdino citado nos relatos do livrinho, que lá já tinha se estabelecido como farmacêutico. Para ganhar a vida, abriu pensão e passou a fabricar petiscos para festas. Suas empadas de massa podre ficaram famosas. A vida de quituteira não lhe trouxe fortuna, mas sim algo mais essencial: boas amizades. Minha avó foi estudar interna no tradicional Colégio Santa Maria, que ainda existe no bairro da Floresta, e ali, para ficar dispensada de pagamento dos estudos, ajudava as freiras a tomar conta das demais internas, tendo que se submeter, ainda, a trabalhos pouco adequados, em termos de responsabilidade e peso, à criança que ela ainda era.
Na pensão de dona Theresa apareceu um dia um jovem advogado, iniciando sua carreira na Capital. Este veio a ser meu avô, que se enamorou de Dodora, logo a pediu em casamento e, uma vez casado, rumou para sua terra, Itabira, onde certamente ganhar o pão de cada dia era mais fácil. Vieram daí onze filhos, sendo minha mãe, Favita, a quarta entre eles.
Um dia escrevi sobre meu avô Altivo o seguinte.
<<Do irmão se fala muito, até hoje, mais de 20 anos depois de sua morte. Ele, CDA, por sua vez falou pouco sobre Altivo, mas o bastante para reconhecê-lo como sua grande influência na carreira das letras. Eis sua apresentação na voz do próprio Poeta, conforme se vê em “A Mesa”: Este outro aqui é doutor, / o bacharel da família, / mas suas letras mais doutas, / são as escritas no sangue, / ou sobre a casca das árvores. / Sabe o nome da florzinha / e não esquece o da fruta / mais rara que se prepara / num casamento genético. / Mora nele a nostalgia, / citadino, do ar agreste, / e, camponês, do letrado. / Então vira patriarca.
Nestas linhas quero trazer aos leitores algumas informações sobre tal personagem, ao mesmo tempo agreste, citadino, bacharel e camponês: Altivo Drummond de Andrade, meu avô, que apesar de ser nome de rua em Itabira, continua a ser, meio século depois de sua morte, o que se costuma chamar de “ilustre desconhecido” – não só em Itabira, aliás.
Altivo nasceu em Itabira aos 19 de novembro de 1895, filho de Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Teixeira Drummond, de tradicionais famílias locais. Fez seus estudos iniciais na terra natal e em Ferros, cidade cujo nome por si só indica proximidade e identidade com Itabira. O pai, pouco estudado, mas muito bem-sucedido na vida e nos negócios, queria os filhos doutores. E lá se foi o jovem Altivo estudar medicina na capital. Sentiu-se mal nas primeiras aulas de anatomia e, com a devida licença do pai, mudou-se para o curso de direito, formando-se em 1918, no Rio de Janeiro. De volta a Minas, casou-se com Dodora, que foi sua companheira até a morte. Do casamento nasceram nada menos do que onze filhos.
Em Itabira, sua vida se dividiu entre a advocacia, o magistério, a política e aquilo que seria sua maior paixão: o trato com as plantas, os bichos e a natureza. Herdou do pai, juntamente com o irmão Carlos, a Fazenda do Pontal, ou dos Doze Vinténs, hoje monumento em Itabira, embora fora de sua locação original. Assumiu sua administração na década de 40 e fez com que a antiga propriedade se transformasse em verdadeira fazenda-modelo, repleta de fruteiras raras, com suas terras sabiamente aproveitadas e seu notável casarão sempre muito bem conservado. Sem dúvida, Altivo deixou marcas em Itabira, fundador que foi, junto com outros ilustres conterrâneos, do antigo Ginásio Sul Americano e também da Associação Comercial.
Na década de 30 havia se mudado com a família para Belo Horizonte, para possibilitar maiores oportunidades para os filhos adolescentes. Assumiu, então, o posto de redator no jornal Diário de Minas, que lhe fora oferecido pelo irmão escritor, então de mudança para o Rio. O ímã da política, da terra e das amizades, entretanto, logo o atrairia de volta a Itabira, para onde retorna em 1938. Contam que, por este tempo, ao discursar numa cerimônia de recepção ao ditador Getúlio Vargas, que fora a Itabira lançar a pedra fundamental da Vale, fez um discurso elegante, mas no qual não deixou de cobrar a redemocratização do país. Altivo, com seu perfil intelectual e militante, era amigo pessoal de Milton Campos e de outros líderes que viriam a constituir a antiga UDN, comungando com eles ideais de elitização e moralização da política, junto com a modernização e o anseio de progresso material para o Brasil.
Com mais alguns anos na terra natal, já com a família criada, muda-se definitivamente para Belo Horizonte em 1952, onde se estabelece em um grande casarão da Rua do Ouro, no bairro da Serra, de agradáveis lembranças para seus netos mais velhos. Adquire então uma chácara em Contagem, retomando ali a obra interrompida no Pontal. Divide-se, agora, entre a função de inspetor escolar, o trato com a chácara e os netos, que passam a nascer em sequência anual. A política e a advocacia se transformariam, então, em páginas viradas. Altivo faleceu em junho de 1961, cercado pela legião de amigos e familiares, entre os quais se incluem, hoje, trinta e cinco netos e incontáveis bisnetos.
Foi um homem de seu tempo, acima de tudo. A literatura lhe fez tentações, que afinal cederam, mas que vigoraram o bastante para 24 contagiar o irmão mais novo, que atribuía a ele, sete anos mais velho, sua iniciação literária, inclusive graças a livros que Altivo lhe mandava direto do Rio de Janeiro, onde fazia o curso de Direito. Pouca coisa conhecemos de sua lavra; raro exemplo é uma refinada “Baladilha” simbolista, que saiu no número 12 da Revista Vita, publicação auto-referida como “consagrada á propaganda moral e material do Estado de Minas Geraes”, no longínquo cinco de maio de 1914. O texto chegou às minhas mãos graças a Humberto Werneck – a quem agradeço – que certamente deve tê-lo encontrada em suas pesquisas sobre aquela “rapaziada desatinada” de BH nas primeiras décadas do século 20. Ouçamos Altivo, ou melhor, “Altyvo”, que é como ele assina o texto, no mais puro maneirismo simbolista, cheio de reticências, e no português esquisito da época: “Imagino-te fria, esgalga, velada em mortalha … Faces engelhadas, o corpo escarnado num elance juncal, cabelos limalhados de nimbus argenteos: na fronte – um mysterio de brumas cinereas, nos labios – um rictus funebre de caveira nova…Crépes negros, como azas fatidicas, escondem as tuas formas esqueleticas, o esboço perdido dos teus seios murchos… Os teus olhos são círios azues a arder lagrimas. Andam semi-envoltos em esbatidos de violeta, da côr amarga do martyrio pisado, a avivar tuas olheiras ecchymoticas, rôxas… Julgo-te moça, creio-te octogenaria… Idealizo-te uma virgem, nublada num véo d’espumas de luar, pallida, expectral… a beijar na noite esponsalicia o cadaver do noivo, na alcova de lyrios, no thalamo de núpcias […] E sonho-te mais triste que és, ó monja do claustro d’alma, a desfiar o rosario sem fim da Magua e da Saudade…”.
Uma síntese dessa vida simples, mas de grandeza humana e cidadã nos é dada por Carlos, em uma crônica intitulada “Uma vida”, publicada no livro “A Bolsa e a Vida”: Anos e anos escoados na cidadezinha natal, entre problemas pequenos e grandes que nunca se resolviam. Tentou ajudar a resolvê-los na oposição. No governo era impossível; não tinha paixão bastante para ser injusto ou odioso. Outros disputassem esse ou aquele posto importante, ele nem vereador quis ser. Mudou de terra e de vida. No fim, espectador enjoado, dizia aos políticos: seria melhor que fizessem como eu, indo plantar, tirar formiga, limpar galinheiro.
Mesa dos cem anos
Em 1995, quando meu avô, Altivo Drummond de Andrade faria 100 anos escrevi para ele o seguinte, com inspiração declarada no poema A Mesa, de Drummond, no qual seu irmão Altivo é assim descrito: Este outro aqui é doutor, / o bacharel da família,/ mas suas letras mais doutas,/ são as escritas no sangue, /ou sobre a casca das árvores. / Sabe o nome da florzinha e não esquece o da fruta / mais rara que se prepara / num casamento genético. / Mora nele a nostalgia, / citadino, do ar agreste, / e, camponês, do letrado. / Então vira patriarca.
Acesse o texto referido no link abaixo.
Mesa dos cem anos – Vereda Saúde
Um moço-de-fora em Itabira
Os anos 40 raiavam e tudo começava a ser diferente de antes. No Brasil e no mundo.
Na Europa uma guerra monumental cobrava alto preço em vidas e destruição material. Do lado de cá do Oceano Atlântico as coisas bem ou mal se moviam. Os Estados Unidos tinham abandonado sua neutralidade (relativa…) depois do atentado dos japoneses a Pearl Harbor e se lançavam, finalmente, à maratona que iria mudar de vez o mundo, do jeito que era até então conhecido. Ou, pelo menos, apressar tais mudanças.
O Brasil, entre a contingência de ficar recostado a seu berço esplêndido ou entrar de vez naquela ordem mundial em gestação, optou por esta segunda vertente, porém cobrando seu preço em dólares de investimento, em cessão de território para bases americanas, em ruptura com o Reich, na abertura de mercados para borracha e minério de ferro.
E através deste último quesito se abriram as oportunidades para que eu viesse ao mundo.
Mas antes é preciso dizer que já na década anterior à Grande Guerra, nosso berço nacional era sacudido, através de uma tríade fatal anunciadora de modernidade: urbanização, industrialização, a modernização tecnológica. Entre outras aplicações desta última, as tecnologias agrícolas.
E minha história passa por aí também, dado que o jovem João Ferreira Goulart, criado nas roças de Pains, município de Formiga, teve a chance, improvável em outras circunstâncias, de ir estudar em Viçosa, àquela altura um templo das novas tecnologias na agricultura. Abriu as portas para ele um conterrâneo, pertencente a um estrato mais bem situado naquela sua aldeia pobre e esquecida, e que galgara degraus na escada social, virando professor na Universidade Rural em Viçosa, criada por Arthur Bernardes alguns anos antes.
Por que Viçosa, na Zona da Mata mineira? Outra razão não haveria, além de tal cidade pertencer a uma região onde Bernardes tinha origem e grande influência política. Aliás, se fosse para contemplar uma região de real vocação agrícola, a chamada mata dos Pains, padrão nacional em matéria de terras férteis, teria mais razões para ser escolhida. Mas foi no Brasil que isso ocorreu, e se tudo estava em mudança no país, muita coisa mudava apenas para tudo continuar como dantes, conforme o dito da literatura.
E completada sua formação em técnico agrícola, o jovem João Goulart, sobredito João do Ieieca, em alusão ao apelido familiar do pai, indicado pelo mesmo conterrâneo que o encaminhou para Viçosa, vai fazer uma entrevista, em busca de emprego, na recém fundada Companhia Vale do Rio Doce, empreendimento escorado pelo “esforço de guerra” articulado pelos norte-americanos com a ditadura Vargas. Corria o ano de 1942. Na Vale ele foi atendido pelo presidente da companhia em pessoa, Israel Pinheiro, depois lugar-tenente de JK na construção de Brasília e governador de Minas. Em rito deveras sumário, Israel indagou se ele tinha experiência em horticultura, pois o projeto das instalações de mineração em Itabira incluía a produção de verduras para alimentação dos operários, que já então eram contratados aos milhares, vindos de todas as partes do Brasil. Ele disse que sim e foi contratado na hora.
Poucos dias depois JFG pegava o trem da Central do Brasil rumo a Nova Era e dali, em carona por caminhão, acabaria de chegar a Itabira. Susto maior ele não poderia sofrer. Ao invés dos campos espraiados de seu Oeste natal, o que ele via ali era uma sucessão de montanhas encavaladas, encostas cobertas por Mata Atlântica, não mais aquele cerrado que lhe era tão familiar. E mais frio, chuva, além de nevoeiro, que duravam dias e até semanas. Tudo muito diferente do que ele conhecia.
Só não voltou para o Oeste porque já não tinha jeito.
Mas com tudo o homem se acostuma. Principalmente quando no final do mês se lhe pinga no bolso o sagrado dinheirinho do salário, coisa até então praticamente inédita para ele. De tal forma que do limão que encontrou na chegada ao Mato Dentro de Itabira, talvez não tenha sido difícil fazer um bom refresco.
Naquele ambiente de forasteiros não parecia difícil fazer amizades, pois todos talvez aspirassem um mínimo de camaradagem para suportarem aquele exílio de muita poeira, frio e trabalho pesado. Mas não é que o nosso herói, que de casmurro não tinha nada, acaba se aproximando mesmo é de pessoas da terra. Mesmo que por parte desses nativos houvesse razões, facilmente confirmáveis, aliás, para se desconfiar e até rejeitar os adventícios.
Coisa boa fez João, talvez não de forma consciente, indo morar em uma pensão improvisada em casa de família itabirana legítima. Isso, aliás, deveria ser um evento rotineiro na vida da cidade, pouco acostumada a novas oportunidades de faturar algum dinheiro extra. O fato é que tal ato, associado, sem dúvida, a um temperamento comunicativo por parte do nosso herói, acabou por lhe abrir portas amigáveis naquela cidade tão fechada.
E assim, através de filhos coetâneos daquela família, João acaba se aproximando e ampliando suas amizades com a rapaziada nativa. E, é claro, com abertura também para as primeiras paqueras, que mesmo vistas com alguma desconfiança pelas famílias, representavam algo novo e tentador para as mocinhas-alvo, certamente enfastiadas com o ambiente endogâmico e repressivo que dominava o cenário de Itabira.
E foi sendo incorporado e também incorporando os hábitos da cidade, os quais, com o passar do tempo, talvez lhes tenham parecido familiares, afinal também incluídos no pequeno (e ao mesmo tempo vasto) mundo do Brasil interiorano, do qual faziam parte as suas Formiga e Pains. E entre os costumes comuns certamente a essas comunas, estava o footing das noites em finais de semana. E a chegada das levas de rapazes propiciada pela Cia. Vale certamente deve ter trazido variedade e densidade àquela atividade tão celebrada e, por que não dizer, tão necessária à boa vida social das comunidades. Diferença possível é que enquanto em Formiga e Pains havia pra ças amplas para a passeata da moçada, a exiguidade montanhosa de Itabira fazia com que isso se desse ao longo de uma única rua, estreita por sinal, exigindo dos praticantes não mais um percurso em largos “círculos” (ou retângulos), como nas praças interioranas tradicionais, mas agora linear e curto, com pontos convencionados de meia volta-volver.
E assim, entre o Largo (que de largo não tinha nada) do Batistinha e o Clube Atlético Itabirano, numa extensão que talvez não chegasse a 300 metros, entre casarões centenários, nas tortas ruas calçadas em minério de ferro, dentro da neblina das noites brancas e sem horizontes que então escondiam o finado Pico do Cauê, a mocidade itabirana, fosse nativa ou adventícia, perfazia o ritual do footing nas noites de sábados e domingos, com as devidas restrições, não apenas as geográficas da terra, mas também as derivadas da vigilância estreita da família mineira, principalmente em relação às donzelas.
Numa dessas jornadas, olhares se cruzaram e o ferro das calçadas não empatou, botou ferrugem ou bloqueou certa curiosidade, talvez simpatia, depois amor, a acometer mais de um forasteiro e uma nativa.
Nesta ocasião JFG já estava enturmado em Itabira e um de seus melhores amigos era Heraldo (dos Santos Andrade), filho de Altivo Drummond de Andrade, membro de tradicionalíssima família e um dos reservatórios morais e intelectuais da cidade, na qual, em verdade, do ponto de vista material e financeiro, a posse de numerário em dinheiro e bens já estivesse em outras mãos.
Num daqueles cruzamentos fugidios de olhares, ele resolveu consultar Heraldo sobre quem era a dona daqueles olhos tímidos, mas muito promissores. A resposta surpreendeu a João: é minha irmã! E nisso não parecia haver muita receptividade. Afinal, companheiros de farra que eram, o provável é que tivessem intimidade suficiente para que soubessem de trampolinagens impublicáveis recíprocas. Coisa mais ou menos do tipo: este serve para ser meu bom amigo, mas para cunhado são outros quinhentos. Trocando em miúdos: que não se aproxime de minha irmã! A etiqueta farrista deve ter prevalecido e João resolveu certamente não insistir. Por enquanto.
Ou talvez fosse hora exibir algumas qualidades das quais o amigo Itabirano até então não havia se apercebido. Sair melhor na foto deveria ser o primeiro passo, depois se veria o que fazer.
Mas tudo se acertou, sem muita conversa, mas com algumas atitudes, como convém à boa índole mineira. O fato é que com algumas intermediações de amigos, talvez até com a participação de Heraldo, foi possível o namoro com Favita começar. Com todo respeito, como convinha. Dr. Altivo deve ter sido o último a saber, mas não chegou a causar problemas ao pretendente, pois ele não era disso e certamente deve ter estimado haver boas intenções no moço forasteiro.
Com a futura sogra, teve menos sorte. Quando já havia se tornado mais íntimo da família, já na era do noivado, foi buscar dona Dodora na Fazenda do Pontal, em sua camionete de funcionário da Vale. Um pouco por estar prestando atenção na estrada, mas talvez também por lhe faltar assunto, por assim dizer, “se distraiu” da presença da futura sogra na boleia e quando se deu por achado, simplesmente reparou que ela não estava mais ali e que a porta da direita do veículo abria e fechava no vazio. A pequena roceira que vinha de carona no assento ao lado murmurava, assustada: seu João, dona Dodora, caiu lá atrás... Pelo retrovisor pôde enxergar a enrascada em que estava metido. Lá longe, a senhora futura sogra sacudia a poeira e já vinha caminhando, claudicante e contrafeita, em direção ao carro. Mas se raiva houve, foi só no momento, acabou logo. E tudo não passou de um susto. Mais do que isso, rendeu boas risadas na família por muitos anos.
Aos poucos, assim, acabou João muito bem assimilado pela família, seja por Heraldo, Dr. Altivo, dona Dodora, demais irmãos – e por Favita, naturalmente.
Assim, nada mais natural, interromperam-se os estudos da moça, antes mesmo dos 18 anos e foram, a mãe e ela, nesta ordem, cuidar do enxoval. Para pedi-la em casamento ao Dr. Altivo, imperou a formalidade da época e quem na verdade representou a JFG foi o respeitado engenheiro Pedro Guerra, amigo do futuro sogro e conhecido também – além de simpatizante – do forasteiro. Em outubro de 1947 casaram-se na Igreja Matriz de Itabira e em julho de 48, dentro da marca regulamentar dos nove meses – nunca menos do que isso! – eu nasci.
Nossa vida em Itabira, contudo, durou pouco. Meu pai era manobrado pela sanha da família, com meu avô Ieieca na dianteira, em fazer negócios, com certo desapreço pelo trabalho assalariado comum. Assim, eu com pouco mais de um ano e meu irmão Eugênio já querendo sair da barriga de Favita, mudamos para Belo Horizonte, para cumprir a citada sina.
E por algum tempo os tais negócios foram a compra e venda de cereais e porcos vivos, nas regiões produtoras, geralmente do Norte do Estado e sua entrega aos mercados consumidores, na Capital e até mesmo em cidades maiores, como São Paulo. A JFG cabia pilotar um destemido caminhão Chevrolet Gigante, recebendo uma percentagem nos negócios realizados. Depois veio a fase do transporte urbano, na qual se envolveram além de Ieieca e meu pai, meus tios Lauro e Agnelo. Os dois últimos se deram até bem em tal ramo, embora tenham trabalhado como mouros, até mesmo saindo da cama às cinco da manhã muitas vezes para pegarem, diretamente, o volante dos coletivos. Já meu pai e meu avô logo se enjoaram daquilo – ou acharam demasiadamente trabalhoso – e foram tentar outras atividades. E nunca enriqueceram de verdade. Mas em compensação, Lauro e Agnelo não passaram dos 60 anos, mas meu avô morreu com bem mais de 80 e meu pai conta atualmente com invencíveis 102.
É Belo Horizonte, na prática, minha terra mater, de onde trago minhas melhores lembranças, onde aprendi a ler, a ter gostos, a namorar, a apreciar a vida em família, a ser pai, sendo também o lugar no qual fui menino, adolescente, membro de clube da esquina, acadêmico de medicina e finalmente, médico.
Por parte de Pai
Por parte de meu pai, Joao Ferreira Goulart, minhas raízes vêm de outra direção, do Oeste de Minas. A cidade é Pains e foi fundada por membros de uma família Paim-Goulart, com origem provável em São João Del Rey. Sei, por leituras, que em princípios do século XIX houve uma enorme migração de pessoas a partir da região das minas, já esgotadas ou abandonadas, em direção ao Oeste da Província, em busca de uma vida melhor. Imagino que talvez tenha sido esta a história do clã que me deu origem, por parte de pai.
Em relação a este nome supostamente francês, ainda não me foi possível verificar sua origem real. Minha irmã Myriam, francófila assumida, com muitas passagens por Paris e pela Europa em geral, me relatou que tal nome não se encontra presente nos catálogos telefônicos da Cidade Luz, mas apenas sua forma aproximada Goulard, que significa guloso – coisa bem apropriada para nos descrever, aliás. Conversei, certa vez, com outro Goulart, este nascido e morador na Guatemala, tendo o mesmo me contado que, para ele e sua família, a origem real do nome era Portugal. Pano para manga de historiadores e genealogistas.
Meu avô José Goulart Neto, conhecido como Zezé, ou Ieieca entre seus familiares mais próximos, tinha origem rural e sangue de comerciante. Foi fazendeiro e empresário, mas a principal característica de sua personalidade talvez fosse a inquietação. Casou-se com Ermelinda, uma jovem de Guia Lopes (hoje São Roque, terra do queijo canastra) e com ela teve uma dezena de filhos. Meu pai foi o primogênito.
Convivi com minha avó Ermelinda só até os meus nove anos, quando ela faleceu. Talvez um pouco de sangue indígena corresse em suas veias. Lembro-me de uma mulher pequena, discreta e suave, talvez muito submissa também. Sua cidade de nascença era também a terra do famoso Guia Lopes da Guerra do Paraguai e ela própria tinha o sobrenome Lopes Ferreira. Com isso me sinto autorizado a me afirmar descendente de tal herói brasileiro. Não posso provar, mas provas contrárias também não existem.
Meu avô Ieieca: um homem alto, altaneiro e autoritário; opinioso como ele só. História famosa sua é a de que costumava anunciar à pobre Ermelinda suas mudanças de plano (às vezes de casa e de cidade também) bem às vésperas do prazo fatal – e a coitada tinha que se virar. Para pagar contas grupais corria a lenda que sua mão procurava o dinheiro no longo bolso das calças de linho e jamais o encontrava. Era carinhoso com os netos, mas à sua maneira. Lembro-me, especialmente, da maneira como conduzia, eu e meu irmão Eugênio, ao nosso Jardim de Infância, em pleno centro de Belo Horizonte, caminhando vários passos à nossa frente, enquanto, abismados, tentávamos segui-lo. Mas ninguém matou, ninguém morreu disso.
Ieieca, o intrépido. No final dos anos quarenta, vendeu suas terras e outros negócios no Oeste de Minas e veio para a Capital. Abriu logo um comércio de cereais e em seguida caiu em um ramo onde jamais tinha estado, o de transporte coletivo, se associando a três de seus filhos. Foi por força disso que meu pai, minha mãe e eu, que tinha apenas um ano de idade na ocasião, viemos parar em Belo Horizonte
Ieieca ficou viúvo com menos de sessenta anos (Ermelinda morreu de complicações de esquistossomose, coisa comum naquele tempo e na região) e, na sua inquietação proverbial, tratou logo de arranjar noiva e se casar de novo. É aí que entra em minha história Marina Narciso, filha de imigrantes libaneses, segunda avó que trouxe para mim e para a família em geral, além de muita doçura, um traço árabe que muito prezamos, principalmente na culinária.
Ele viveu até os 87 anos, com relativa saúde, comendo, para espanto de algumas pessoas, carne de porco bem gordurosa na refeição da noite, sem maiores problemas gástricos ou biliares. Mudou-se com Marina para um pequeno apartamento na rua dos Carijós, bem no centro de BH, sendo tal imóvel tudo o que lhe sobrara dos inúmeros negócios em que se meteu pela vida a fora. Ali o casal passou os últimos anos de sua vida, em paz, e provavelmente bastante feliz. Não poucas vezes estive com ele na portaria do prédio, na verdade uma galeria comercial, onde ele passava horas a fio, sentado em uma cadeira emprestada pelos porteiros, apreciando o movimento da rua e puxando assunto com os passantes.
Ao reler os textos acima, dedicados a meus dois avôs, percebo que tem muito mais tinta (ou bytes) naquele dedicado a Altivo. Porém, devo dizer, não há nenhum desdouro a José Goulart Neto. Reconheço que minha personalidade se moldou a partir de características de ambos. De um puxei o gosto pelas letras, pelas plantas, pela terra, por certa visão conservadora. Do outro me veio – mas eu gostaria de ter herdado ainda mais – certa intrepidez e inquietação com as coisas da vida, embora meu talento comercial seja nulo. Acho que isso nos homenageia a todos.
Principalmente nasci em Itabira
Para mim tal cidade, já há muitos anos (ou décadas) não é mais nem mesmo apenas uma fotografia na parede como disse Drummond. A foto que me ornamentou paredes, feita por mim mesmo em uma câmara pré-histórica, nos anos 60, há muito se perdeu, em algum pacote de mudança ou roída pelos cupins, da mesma forma que fizeram com a maioria das capas de long-plays que eu guardava fervorosamente, sem nunca ouvi-los. Mas voltemos à cidade. Frequentei Itabira, onde nasci em 1948, na minha primeira infância, por volta de 1954 ou 1955, passando dias memoráveis na casa de meus tios Virgílio e Marita. Depois, talvez pelos compromissos de meu pai, iniciando negócios próprios em BH, ficamos- toda a família – por alguns anos sem aparecer por lá.
Em 1961 ou 62, entretanto, lá retornamos. O velho Oldsmobile de meu pai – aliás, nem tão velho assim, talvez nem tivesse uma década de serviços prestados na ocasião – foi convocado e seguimos pela rodovia asfaltada recém-inaugurada, família completa, casal e cinco pimpolhos. Diga-se de passagem, sem cintos de segurança e com pelo menos um ou dois dos menores instalados no largo banco dianteiro da viatura, entre pai e mãe. Era assim que funcionava. A viagem foi sopa, como se dizia então.
Com efeito, as penosas seis ou mesmo oito horas dos tempos antigos, aliás, apenas cinco anos antes, agora pelo asfalto se resolviam em duas horas, ou até menos, dependendo de quão afoito fosse o motorista. Assim, a meros sessenta quilômetros ou pouco mais, menos de uma hora rodada a partir da capital, ao se dobrar a Serra do Espinhaço, no município de Nova União, já era possível avistar lá no fundo, à esquerda, o Pico da Conceição, um dos marcos de Itabira, que a Vale não conseguiu demolir. Daí, a pouco, em pouco mais de meia hora de estrada, já se adentrava em minha cidade natal.
Detalhe importante é que a rodovia, então chamada de BR 262 e depois convertida em 381, não tinha, nem de longe o volume de tráfego que tem hoje, pois ainda não alcançava as terras capixabas e uma parte dos empreendimentos siderúrgicos do chamado Vale do Aço ainda não tinham sido implantados. Era uma viagem tranquila, padrão mamão-com-açúcar em céu (e asfalto) de brigadeiro.
Uma cena de nossa chegada em Itabira naquela ocasião me marcou a memória. Já havíamos passado pela entrada da mina da Conceição, onde meus pais e eu mesmo, com menos de um ano de idade, moramos por algum tempo, quando minha mãe exclamou, ao contemplar o horizonte mais adiante: céus, o Cauê desapareceu! Com efeito, o pico que dominava o cenário da cidade ainda nos anos próximos ao meu nascimento, tinha sido simplesmente sovertido. O que havia em seu lugar era uma vasta plataforma, meio tapada pela poeira levantada pelos poderosos caminhões off-road, em seu afã de remover o minério até depositá-lo estrepitosamente nos longos trens da Vitória-Minas. Tudo em modo titânico.
Mesmo eu, que ainda poucos anos antes estivera várias vezes na cidade, tinha total dificuldade em reconhecê-la. É bem verdade que a casa de meus tios ainda estava como dantes, no mesmo caminho da Água Santa, com seu açude minimalista onde Virgílio criava suas rãs. Mas boa parte daquelas velhas ruas guarnecidas por vistosos casarões, com seus calçamentos de pedras vivas e brutas de hematita, que se enferrujavam depois das chuvas, eram agora asfaltadas. E me impressionei também com o fato de meu pai ainda ser reconhecido por onde passava, pois eu o achava completamente diferente daquelas fotografias que o mostravam nos anos da juventude.
Penso que este foi um marcante reencontro para mim, que havia, bem ou mal, transformado aquela cidade antes remota em algo mais próximo e familiar, idealizando-a romanticamente como aldeia ancestral. Isso talvez já me fizesse falta, por algum traço profundo de personalidade ou por ser um canceriano, cujos nativos, reza a lenda, são muito ligados a coisas assim.
Mas o que poso dizer com certeza é que muito apreciei tal experiência, de tal forma que, nos anos seguintes, já liberado para viajar sozinho e acossado pelos hormônios da adolescência, passei a cultivar de perto e por conta própria as minhas supostas lembranças itabiranas, fazendo da cidade uma praça de convites (ainda conforme Drummond), ou seja, palco de ingênuas namoricos e paqueras, celebrados naquele footing entre o Largo do Batistinha e o Clube Atlético Itabirano.
Mas como acontece quando a realidade da vida se impõe, um dia me cansei daquilo tudo. Eu já tinha meus dezoito anos e agora frequentava Itabira na companhia de dois irmãos, meus amigos, que também ali tinham raízes, pertencentes que eram à família Bretas. Eles eram dois caras vividos, enturmados, namoradores. Iam com frequência à cidade, onde tinham primos e principalmente primas, além de diversos amigos. Na ocasião, eu só tinha ali meu tio Heraldo, com seus filhos, bons primos-amigos, com cuja mãe eu não me dava muito bem. E foi assim que em um jogo de vôlei na rua, com as incontáveis amigas dos Bretas, uma delas se riu com as minhas furadas com a bola, objeto este, aliás, com o qual eu nunca tive qualquer intimidade, fosse com os pés ou com as mãos. E assim eu descobri o que era bullying antes, muito antes, de saber do real significado de tal palavra. Assim ofendido me retirei dali, passei na casa de meu tio, peguei minhas coisas e me mandei para BH, para somente voltar a Itabira muitos e muitos anos depois.
Assim, cerca de 1997 ou 98 fui matar saudades de meu querido Heraldo, o último tio materno ainda a residir na cidade. Levei comigo meu filho, Maurício. Com muito custo encontrei o alvo de minha visita, apesar de tê-lo avisado da ida, pois ele não estava nos altos do Campestre, onde ficava sua casa, mas sim em novo endereço, numa barafunda de ruas, pra lá da Estação Ferroviária. Impressionou-me o cômodo modesto que agora lhe servia de escritório, cozinha e, muitas vezes, aparentemente, também de dormitório. Tudo isso dentro de um terreno de uma serraria desativada. Coisas dele… No tal quartinho, me mostrou uma pasta cheia de escritos, poemas, crônicas, textos filosóficos, utopias – coisas assim. De repente ele me mostra um daqueles papéis onde escrevera um poema, que falava de terras compradas e defendidas com muito orgulho e tenacidade por ele, até que, na finalização, conclui: a terra não era minha, era da onça. Texto forte e sensível, de fazer orgulhosos os numerosos ecologistas da família.
Uma imagem dele, extensiva à cidade, me marcou profundamente nesta viagem. Fomos dar uma volta pelos arredores, passando pela antiga Fazenda Pontal, que foi de meu avô, (agora um autêntico “vale sinistro”, como previra Drummond), alcançando também uma propriedade dele onde havia uma bela cachoeira que lhe tinha despertado a ideia de ali construir um “clube da família”, tendo “viajado” nisso durante longo tempo. Já voltando para a madeireira extinta, em seu Fusca renitente, ao cair da tarde, eu apressado para pegar meu carro e enfrentar a BR 381 na volta para BH, noto que ele praticamente não mais acelerava o carrinho, antes o deixava descer livremente as eventuais ladeiras e depois deixava o mesmo estacar, sem mais nem por quê. Eu, com a pressa que estava, confesso que cheguei a ficar um pouco impaciente. Mas qual! Logo vi o que o movia (ou melhor, o que não o movia…) era a vontade de estender minha companhia e a de Maurício por mais tempo. Voltei para BH já com a noite fechada e não me arrependi.
É esta hoje a maior e melhor lembrança que tenho de Itabira.
Resumo da ópera: Hoje prefiro cultivar esta cidade não mais como uma fotografia na parede, mas sim no impressionismo da memória. Não dói nada, ou melhor, faz a gente se sentir bem através da consciência de ter raízes, mesmo que sejam aéreas e impalpáveis.
Uma casa
Lembrança forte daqueles anos: a casa de meus avós maternos na rua do Ouro 750, no Bairro da Serra, em Belo Horizonte, embora tenha sobrevivido por pouco tempo depois que meu avô faleceu, em 1961. Esta casa está até hoje em meus sonhos e nem preciso estar dormindo para que ela venha me encantar. A rua era pacata e silenciosa, pelo menos no tempo que a conheci. Os poucos carros, trafegando em mão dupla não exigiam cuidados especiais em sua travessia a pé. O bairro, por sua vez, não era grande nem movimentado. A cidade, aliás, terminava logo ali, poucos quarteirões rua acima.
Esta é uma casa especial. É preciso conhecê-la em seu ambiente, antes de entrar. O terreno vai de uma rua a outra. A rua dos fundos, aliás, só apareceu depois. Havia, em seu lugar, um córrego 70 71 encachoeirado, modesto em seu cotidiano, mas violento e ruidoso quando caiam chuvas no alto das montanhas, da Serra do Curral, que guarnece a cidade, de onde ele despencava, entre moitas de capim e matacões de minério de ferro. As casas vizinhas, coetâneas desta, têm, todas elas, grandes quintais, dispostos paralelamente, como capitanias hereditárias.
Entremos na casa, para percorrer seus cômodos e corredores, jardins e quintal. À frente um muro baixo, no máximo um metro de altura, fruto de um tempo que ninguém carecia ser barrado. Sua parte superior faz como um parapeito largo, onde se podia sentar, para apreciar a rua. Um portão nos dá entrada ao pequeno jardim, onde pontificam roseiras mais espinhentas do que propriamente florosas. Chega-se, assim, ao alpendre, que é como, naquele tempo, esta parte se denominava. Subamos, então, a pequena escada à nossa frente.
No alpendre duas cadeiras baixas, quase espreguiçadeiras, de alto espaldar, em madeira pintada de cor creme, com almofadas azuis, dando a quem chega a medida da hospitalidade e da bonomia de tal habitação.
Minha casa se abre para o alpendre por duas portas, altas, também de cor creme, encimadas por “bandeiras” arqueadas, onde se encaixam vidros vermelhos e azuis, como também acontece com as janelas da casa. A porta da esquerda conduz a um quarto sem comunicação com o resto da casa, talvez originalmente um escritório, mas agora conhecido como quarto dos rapazes. Quem residiu ali, por um breve tempo, é um tio solteirão, que veio morar com a família quando lhe cansaram os muitos anos passados em hotel. A outra porta, à frente, é que se abre para o interior da casa e por ela entraremos.
Uma ampla sala logo se descortina, com seu assoalho de madeira, sempre bem encerado, que ecoa ao ser palmilhado. Os móveis são de madeira escura, sóbrios, entre eles um armário de portas envidraçadas, conhecido como “o bar”, repleto de cristais azuis, vermelhos e em bico de jaca. Bebidas mesmo, muito poucas. Os donos não bebem e é preciso resguardar a abundância de espíritos de um morador eventual, menos virtuoso neste quesito. Uma dessas garrafas tem como tampa, uma rolha adornada com uma pequena escultura em madeira, representando o busto de um possível bêbado, que nos fita com olhar mortiço e riso debochado, com a boca entortada por um curto cachimbo.
Num lado, abre-se uma segunda sala, prolongamento desta onde estamos, dita “de visitas”. Ali, entre cortinas diáfanas, impõem-se três sofás clássicos e encorpados, revestidos de tecido de cor pérola. A um canto a grande vitrola RCA, em madeira também escura, cujo luxo e solenidade conferem aparência de peça de museu, apesar de ser nova. No outro canto um piano Pleyel, vertical, de procedência francesa, negro e solene também, com seu teclado sustentado por volutas sinuosas, barrocas. Pleyel foi marca usada por ninguém menos que Chopin. Ao abrir-se-lhe o tampo, surge um odor capaz de se fixar na memória de alguém por muitas décadas, lembrando madeira e alcatrão, mas principalmente infância.
Tomemos agora o corredor, que parte da primeira sala. Ele é muito longo e tem altas paredes, com o forro em lambris pintados na cor creme que é apanágio da casa. Em seu lado esquerdo perfilam-se quartos, três ou quatro – é bem longo este corredor. O primeiro deles abre-se também para a sala, obra de uma arquitetura que não separava o íntimo do social. Eles se comunicam uns com os outros, também. São os quartos das moças, naturalmente mais protegidos e mais acessíveis à fiscalização rigorosa de horários, conversas, hábitos. Ainda é o tempo antigo, não nos esqueçamos…
A meio caminho no corredor, de lado oposto aos quartos, abre-se o chamado – este sim – escritório. É um cômodo pequeno, do qual se pode sair por uma porta lateral, que dá para um jardim suspenso, para aproveitar a declividade do terreno. O escritório, onde o dono da casa guarda seus livros e papéis de advogado, está abarrotado. Ali também repousa uma quilométrica Enciclopédia Jackson, além de muita literatura em capa dura. Acima das estantes dois retratos ovais, de personagens circunspectos e até mesmo tristonhos: um homem calvo, de grossos bigodes e uma mulher clara, de maneira altiva, portando um xale. Em uma mesinha baixa o rádio, em madeira envernizada e tela de gorgorão a cobrir-lhe os alto falantes, com seu painel verde fosforescente, quando ligado. Sobre o aparelho a impressionante escultura enegrecida de um índio, apoiado em um dos joelhos, imenso cocar à cabeça, prestes a disparar verossímil flecha.
Não saiamos da casa, por enquanto. Continuemos pelo corredor, que vai ter à sala de refeições, dando também entrada, pela esquerda, para a cozinha. Sala de refeições esta, mais exatamente uma copa, pequena, na verdade, face às dimensões da casa. A mesa ali colocada vem de outro ambiente, maior certamente, e foi colocada com um de seus lados encostado à parede, para facilitar a passagem das pessoas. Do outro lado da mesa o móvel que um dia se chamou buffet, também candidato a um museu olfativo. Seu cheiro de madeira doce, associado a cravo, canela, doces de laranja e de figo, de que a dona da casa é exímia fabricante, também mostra aquela propriedade de se fixar na memória de uma pessoa para sempre, ou, pelo menos, por décadas a fio.
Desta copa se alcança o que fora um dia o terraço, mas que depois veio a receber paredes e telhado, transformando-se em novos quartos da casa, aliás, os principais agora, onde dormem o casal de donos, além da filha caçula e temporã. Por outra porta, no extremo oposto da entrada dos quartos, se alcança o quintal, onde logo estaremos.
A cozinha acompanha a escala da casa, pela sua enormidade. Seu teto, à diferença dos outros cômodos, não tem o forro de lambri oleado, mas sim uma treliça de ripas diagonais, em verde claro. Por cima dos espaços losangulares de tal forro denotam-se vestígios de fuligem antiga, a demonstrar a existência pretérita de um fogão de lenha. Mas isso foi bem antes, com certeza, porque agora o que domina o ambiente é um fogão elétrico sólido, respeitável, de marca Gardini, com seis bocas, talvez – um luxo! A cozinha abriga ainda uma comprida pia de mármore, talvez um pouco desgastado pelo uso, com metais amarelos e bojudos. Um armário dos chamados “guarda-comida”, ao lado, não desperta lembranças olfativas muito agradáveis, pelo seu cheiro de polvilho azedo, que lembra também o cocô de gato. Prestem atenção na geladeira Norge, com seus cantos arredondados, que atravessou décadas em funcionamento perfeito. Já com sua brancura meio encardida, ela se assenta, atarracada, sobre um estrado, certamente para compensar sua estatura baixa; Debaixo desta espécie de palanque a gata da casa se aninha. Para as crianças, o ronronar da gata tinha algo a ver com o funcionamento do motor da geladeira, quem sabe um estranho e mágico caso de mimetismo.
Detenhamo-nos no banheiro, por um momento, pois ele merece nossa admiração, de tão espaçoso e acolhedor que é. Entremos nele por uma porta ao fim do corredor, antes da entrada da copa já visitada. Fácil saber se está ocupado, pela tranca dourada em posição horizontal ou vertical. Vamos por um vestíbulo alongado, espécie de corredor perpendicular ao outro, ao longo do qual se alinham estantes de madeira, também pintadas a óleo, nas cores básicas da casa. Aqui se guardam toalhas, sapatos, vassouras, material de limpeza, urinóis. Ao fundo, finalmente, se descortina o dito cômodo em seu esplendor, podendo ser denominado, sem favor algum, de “sala de banho”. Aqui pontificam as louças e azulejos brancos, os metais bojudos dourados, as maçanetas também de louça, com seu rico filamento azul duplo. Chique demais! Bem no alto, quase se encostando no teto, um basculante com vidros foscos, através do qual ninguém jamais seria capaz de cometer indiscrições. É o único banheiro da casa e ocupá-lo solitariamente é quase um desperdício.
É hora de conhecer o exterior da casa. Voltemos ao portão da entrada principal. Agora não subiremos a escadinha do alpendre, mas sim vamos tomar o caminho das roseiras, por seu lado direito, em suave declive. Por um piso de pedra, paralelo ao corpo da casa, se chega à entrada da garagem, situada mais aos fundos, debaixo do terraço e quartos, aqui já descritos. É uma via rodeada de plantas floridas que também recobrem o intervalo deixado entre as passagens dos pneus do carro. São mirabilis, bocas de lobo, hortênsias, gramíneas decorativas, algumas delas um pouco manchadas e tombadas pela passagem do Jeep Wyllis estacionado mais adiante. De um lado, um arbusto notável, em verde escuro e lustroso, exibe ao longo de todo ano suas pencas de perfumadas e elegantes camélias. Além destas, outro foco de admiração para quem passa na rua é a verdadeira touceira de flores de seda, plantada rente aos alicerces de pedra, que entre maio e junho exibe glamourosamente sua florada rosa e vermelha. Bem perto, a moita de pequenas palmeiras faz aquele canto de jardim lembrar um pequeno oásis.
Mas o jardim ainda nos reserva surpresas, como, mais adiante, o caramanchão. Podemos nos deter um pouco aqui, aproveitando o frescor. À primeira vista acreditamos que tudo tenha sido pintado de verde. Mas é engano! O que domina tudo é o limo verde, aveludado, em estado de luxúria vegetal. O teto, embora tendo uma camada seca por baixo, por cima é pura exuberância, como convém às graciosas trepadeiras de lágrimas de Nossa Senhora. Por toda parte, em disposição confusa e nada planejada, se amontoam as avencas, espadas de São Jorge, costelas de Adão, antúrios, copos de leite e begônias. Nos intervalos o beijo de frade é mais um a desorganizar o que não carece de ordem. Este nem precisa de vasos, cresce até sobre o veludo do musgo. Impaciente em seu mister de ocupar espaço, para fazer jus ao nome que lhe deu a botânica.
Logo atrás do caramanchão já se inicia uma zona mágica e sagrada: o quintal, ou terreiro, como se dizia então. Um pequeno muro separa os dois territórios, que se comunicam por um portãozinho de ripas, meio cai-não-cai. Duas laranjeiras avisam a chegada. Mais adiante a parreira, imensa, debaixo da qual há bancos para se assentar, para prosas em tardes calorentas e até um pequeno espelho dágua, no qual uma libélula mal pode se ver de corpo inteiro, mais exatamente um tanque antigo de cimento, nivelado com o piso. Aqui, por ocasião das festas de fim de ano é possível colher e saborear uvas generosas e sumarentas, em uma vindima suficiente para o consumo da casa e para o agrado natalino aos vizinhos.
Mais adiante da parreira, o jardim reincide, logo à frente da escada que vem da sala de refeições, já visitada, formando canteiros bem demarcados no pátio de cimento. Aqui, rosas variadas em cores e perfumes, às quais a dona da casa dedica especial atenção. Com frequência, um jarro na sala de refeições, exibe orgulhosamente a produção de tal território, obtida à custa de muita adubação, em que pese a oposição das formigas e os arranhões nos braços e nas mãos. Neste outro recanto, ervas de farmácia e cozinha: hortelã, poejo, coentro, erva cidreira, funcho, losna. Não há como deixar de esmagá-las entre os dedos para sentir seus odores sadios, que nos acompanharão por todo o restante da visita. Ainda há outro canteiro, no qual o dono da casa escreve letras sofisticadas, enxertando cítricos, em busca da fruta mais rara e mais doce. As pequenas árvores assim operadas perfilam-se em cestos de taquara, qual em uma enfermaria botânica.
Chega-se, finalmente, ao galinheiro, fronteira última do terreno da casa. Logo na entrada, sua sentinela, a cachorrinha Susy – podemos passar sem sustos, que ela é das mais mansas. Aqui, na moita de bananeiras há uma que chega a dar dois cachos, resultado, com certeza, da curiosidade botânica do dono da casa. Ali, o pé da fruta do conde (ou condessa, como era ali conhecida), que domina quase toda a área do quintal. Ainda não é tempo da fruta e assim não se pode saborear suas doces vísceras translúcidas, cuspir à distância suas sementinhas escuras e lustrosas. Ao redor e mais abaixo os abacateiros, mangueiras, laranjeiras diversas, a lima, o limão vinagreiro e demais habitantes do terreiro. Aqui, no final da tarde, as cigarras chegam a ferir nossos ouvidos com seu zinido destemperado.
Paremos agora para apreciar o córrego, que fecha o terreno nos fundos. Se não é tempo de chuvas, ele é assim, manso, apenas murmurando através da pequena queda dágua logo abaixo. Quando, chove, porém, transforma-se em caudal ruidoso e espumante, capaz de arrastar, com fúria, troncos, moitas inteiras de capim e até mesmo galinhas surpreendidas nos quintais. Uma pequena trança de folhas e gravetos, a certa altura na cerca dos fundos, é a marca de uma enchente nas chuvas passadas. Parece um pouco sujo o córrego, vizinhos negligentes talvez atirem detritos em sua corrente. Até mesmo um cheiro pouco agradável se faz notar. Pensando bem, não é mais possível esconder: o córrego não traz mais apenas a água clara da serra. Ali embaixo, um pequeno vulto rápido, sinistro, quase nos confunde, não fosse a longa cauda. O surgimento de outro ser cinzento, nervoso, olhinhos brilhantes e desconfiados, bigodes perscrutadores, logo confirma nossa lúgubre suspeita. A cidade está crescendo, o córrego já não é o mesmo de poucos anos atrás.
Mudou o córrego, virou rua, já não é possível ouvir seu murmúrio e sentir o frescor úmido de suas margens. Domesticado, ele não extravasa mais. O bairro também mudou, cresceu, se transformou em formigueiro confuso de lojas, prédios de apartamento, ruas movimentadas e barulhentas. Casas, como esta que ainda chamo de minha, são agora raras e abrigam escritórios e lojas, não mais as famílias de antigamente. Feridas se abriram na serra para dar passagem à cidade voraz e à sede de extrair a alma da natureza. Minha casa, o que foi feito dela? Foi vendida, demoliram-na. Agora, em seu lugar, o que subsiste é um prédio de apartamentos, mais um, entre tantos. Aqui mesmo, onde agora estamos, é o estacionamento. As pessoas de antes envelheceram, se mudaram, morreram. Guardemos apenas as imagens da casa, do jardim e do terreiro, assim como lhes revelo, como num sonho. Um dia, tudo existiu, juro; agora só na lembrança. Dou meu testemunho de menino que viveu dias felizes naquelas paragens.
Pois é, estas são as imagens que me restaram da magnifica casa da rua do Ouro, número 750, no bairro da Serra, em Belo Horizonte, onde moraram meus avós Altivo e Dodora, mais diversos filhos deles, meus tios. Ali passei dias felizes de minha infância. Eu diria mesmo que foram os mais felizes de todos que que vivi em toda minha vida.
Cheiro de tangerina
Os dois garotos, pelo menos uma vez por mês, tinham permissão da mãe para acompanhar o avô nas idas ao sitio, em Contagem, que naquele tempo era outra cidade, para a qual, de fato, tinha de se viajar.
Depois de um dia de folguedos e travessuras, suportados, a maior parte das vezes com bonomia pelo avô, cumpriam, então, um ritual ansiosamente esperado: a fogueira de despedida, brincadeira vedada quando os garotos estavam sozinhos. A lenha recolhida debaixo das mangueiras, juntamente com o vasculho do pomar, era organizada por eles mesmos como uma pirâmide irregular, no local onde ainda jaziam cinzas de fogueiras anteriores. Varas do bambu fino, que formava vasta moita junto ao açude, já haviam sido trazidas, para serem queimadas e fazerem às vezes de foguetes, pelo estampido que provocavam ao romper com o calor das chamas. O avô lhes ensinara, também, a queimar os ramos de um pequeno arbusto, de folhas carnosas, que produzia estalidos e lançava fagulhas, fazendo grande efeito pirotécnico.
Terminavam assim o dia, à beira do fogo, agasalhados por recomendação da mãe, para evitar o frio pelas costas. O avô tomava suas últimas providências e não raramente tinha de ceder mais uns minutos aos meninos, que desejavam fazer a queima de uma vara recém encontrada ali por perto, que prometia tiros de arromba.
No caminho da volta, extenuados e calados, mas acima de tudo felizes, amontoavam-se no banco da frente do Jeep, cabeceando para lá e para cá, com o balanço do veículo. O avô, a esta altura, deixava-os quietos, sem puxar as tradicionais brincadeiras e adivinhas, parte obrigatória da viagem, pelo menos na vinda, quando estavam descansados os garotos. Deixava, então, os netos entregues ao sono e às recordações do dia. No ar, impunham-se em estranha mistura, os odores da gasolina, da mexerica enredeira e do limão-cravo, das verduras recém colhidas, da terra fresca aderida às batatas doces e às mandiocas. Mal vedado pela capota de lona do veículo, um friozinho benfazejo fazia sua presença. Lá atrás, o sol se punha entre rosadas nuvens, como se o lençol de capim gordura dos morros tivesse se invertido e cobrisse, agora, o próprio céu.
Para aqueles dois, meu irmão Eugênio e eu, o cheiro de tangerinas, mostarda e terra fresca, o friozinho das tardes de maio, o sol num dossel colorido, o crepitar de lenha em fogueira, o capim gordura manchando os morros, mesmo passados mais de sessenta anos, ainda trazem magicamente as cores, os cheiros, os sons e os sabores de uma meninice luminosa. Quem teve infância por certo entenderá…
Éramos cinco
Rua Niquelina, Belo Horizonte, domingo no final de tarde. Para a maioria são indicativos topográficos e temporais que nada sugerem. Para mim e para meus irmãos, aliás, para muito mais gente da família, era o retrato vivo de uma dor.
Aconteceu em 1961. Nós vínhamos, então, pela velha rua de Santa Efigênia, após a visita semanal a nossa mãe, internada no Hospital da Baleia, lá no final, além dos morros da Pompéia, depois mesmo do Cemitério da Saudade (triste augúrio), longe o bastante para provocar em nós a sensação de que ela agora vivia em outro mundo. Lá estava a pobre Favita, com o corpo quase todo paralisado pela Síndrome de Guillain Barrè, doença ainda hoje misteriosa e especialmente desconhecida naquele tempo. O que mais me impressionava, então, além de ver minha mãe em uma enfermaria, cercada de gente com problemas ainda piores que o dela, era saber que, entre outras torturas, lhe haviam feito vários exames do “líquido da espinha”. Para o coração infantil, não podia haver nada pior!
É bem verdade, tudo tem sua compensação: tínhamos agora bem perto de nós algumas pessoas muito queridas. Além de nossas tias e tios, nossa avó Dodora, recém viúva de meu avô Altivo, cuja morte aumentava mais ainda o nosso desalento. Das tias que vieram cuidar de nós, duas iriam se transformar em figuras familiares essenciais, a quem até hoje dedicamos boas lembranças e carinho: Cicida e Angelita.
O Hospital da Baleia fica num agradável pé de Serra (do Curral), nos fundos do bairro Taquaril. Naquele tempo era mato – e mata atlântica, inclusive. O lado bom termina aí. Hoje, pelo que sei, a região demudou-se em favela e por ela ninguém mais se arrisca a passear. Éramos crianças e apesar do motivo da visita, que durava muito pouco para nossas expectativas filiais, encontrávamos um tempinho para brincar num parquinho, subir em árvores e aproveitarmos o clima de fazenda que ali dominava. Havia patos e carpas num açude. Enfim, como tudo na vida, o bom e o ruim se misturavam. E ali tínhamos contato com gente amputada, paraplégica, em coma. As cadeiras de rodas faziam estranho engarrafamento quando terminava a hora da visita familiar.
Tempos difíceis, agravados pela presença, em nossa casa, de forças do mal. No caso, personificadas numa empregada vinda de Itabira, chamada Dalva, a quem apelidamos Darva, um tanto para imitar sua caipirice, outro para expressar nosso desprezo por ela.
Dá para imaginar cinco crianças obrigadas a se preparar para a escola, se alimentar, tomar banho e tudo o mais sem uma mãe por perto? E o que pior, expropriadas em seu direito de ter alguém que lhes oferecesse, como só as mães sabem fazer, aquela puxadinha no cobertor até a altura do queixo, nas noites frias da BH daquele tempo.
Mas sobrevivemos.
Os anos sessenta assim começaram para os Andrade Goulart. Na sequência desses acontecimentos, quando nossa mãe voltou para casa, já parcialmente recuperada, mudamos para um apartamento para fugir da escadaria de onde até então morávamos. Nos primeiros tempos ela se locomovia em cima de uma cadeira comum, adaptada sobre uma plataforma de madeira, com rodízios de rolamentos – um verdadeiro carrinho de rolimã, com o assento elevado. E assim era ela empurrada alegremente por nós, que até disputávamos a primazia de conduzir aquele estranho veículo.
De uma casa a outra; da mãe ativa que possuíamos até aquela de repente tão dependente; do abandono de uma velha turma de rua ao encontro de um vazio afetivo – uma coisa é certa: a gente se virou e amadureceu meio à força. Eu, pelo menos, chego a dizer que nem tive adolescência, pulei da infância a uma vida quase adulta naquele momento.
Muitos anos depois vi que minha vida nesses anos 60 foi contada no cinema. Acreditam? Podem duvidar, mas é como se fosse. Quem viu o filme sueco “Minha vida de cachorro” teve acesso a cenas completas de minha infância na Lagoinha e no Prado. O menino curioso, meio trapalhão, a mãe doente, a família separada por conta de sua hospitalização, as primeiras descobertas sexuais, o tio barra limpa, o mundo chato dos adultos e as janelas para escapar dele, o início da corrida espacial, com a cadelinha Laika. Está tudo lá, como na minha vida também. Só não fica bem claro quem é o tal cachorro que dá nome ao filme, pois o único animal desta espécie no filme é a cadelinha russa; na minha história houve apenas um Nero, nos tempos da Antonio Carlos, que nunca mordeu ninguém, mas também não chegou a deixar lembranças, nem más nem boas.
Sorte nossa que a rede familiar cuidou de tudo. Eu, com 13 anos, liderava (se é que esta palavra se aplica) uma escadinha de quatro menores; na outra ponta, Cuíca com três ou quatro anos. Mais uma vez, como havia acontecido no nascimento tumultuado de minha irmã mais nova, a tal rede familiar se abriu e nos abrigou. E eu e meus irmãos tivemos a sorte de não termos apenas um tio legal e camarada, mas uma tropa deles, com especial destaque para as irmãs de minha mãe Angelita e Cicida. Mas um singular tio legal estava também muito bem representado pela figura inesquecível do já citado de José Marcos, um dos irmãos mais novos de minha mãe, que poucos anos depois nos deixou, de maneira trágica.
Foi uma época dura aquela, mas enfim, sobrevivemos.
Fazenda das Areias
A cena representa bem um ícone de parte da minha infância e adolescência, no final dos anos cinquenta e início dos sessenta. A família reunida em torno de fartas mesas, em ambiente campestre, conversas animadas por todo lado, parecendo estarmos dentro de um romance de Jane Austen. No centro de tudo o anfitrião, meu tio Roberto Andrade, figura fortemente simbólica em minha vida, a quem já dediquei outras linhas nestas memórias.
Ao mesmo tempo, no Brasil, inauguração de Brasília, vitórias no esporte, anos JK, trazendo a todos a sensação, logo frustrada, de que finalmente o país daria certo…
Fazenda das Areias. Ela ficava (e ainda fica, mas o que aconteceu com ela é outra história) a menos de trinta km de BH e lá residiu, em mais de um período, meu tio e sua família. Ele não era o dono, mas sim empregado de João França Simões, o real proprietário, homem de dinheiro, que semeava seu capital em atividades diversas, que iam do zebu à construção de estradas e obras públicas. Amigo de JK, isso já diz tudo.
Roberto já morara ali no início dos anos cinquenta, como simples gerente, adaptando sua formação de técnico agrícola à lida zebuzeira. Mas ao que parece, logo conquistou a confiança de Simões, que o enviou para fazendas de gado suas em Uberaba e Barretos e em seguida passou a designá-lo para comandar obras em vários cantos do país. Assim, ele esteve em Itabira, no Oeste do Paraná – e sabe-se lá aonde mais. Na época de nossos encontros familiares ele mantinha ali apenas a residência da mulher Tereza e dos dez filhos deles, passando a maior parte do tempo nas empreitadas de seu patrão.
Aqueles encontros debaixo dos eucaliptos, em torno da casa em que moravam meus tios e primos, ou então na mansão senhorial que era a sede da fazenda, eram realmente memoráveis. Ali se comia do bom e do melhor, particularmente os quitutes preparados por minha tia Terezinha, a melhor cozinheira que já conheci, inigualável, como também outras delícias preparadas por minha mãe e minhas tias suas irmãs, cada uma delas se esmerando em uma determinada especialidade. Roberto, nessas ocasiões, nos brindava com seus mots d’esprit, habilidade em que ele teve inúmeros seguidores na família, mas que nunca foram capazes de superá-lo, entretanto. A particularidade de repetir vezes incontáveis a mesma história nunca tirava o brilho delas, porque ele sabia como conduzir um caso com enorme maestria, dando sempre ao mesmo uma vestimenta inaugural.
Personagens também notáveis naqueles convescotes familiares eram meus tios Bruno e Danilo, maridos, respectivamente, de minhas tias Angelita e Clarinha. Cada um à sua maneira, mas nunca ameaçando o protagonismo robertiano, eles eram mestres nos chistes e piadas de improviso, mas sempre de maneira muito refinada e incapaz de ofender quem quer que fosse naquela família tão conservadora em matéria de gestos e palavras.
E aqueles almoços ao ar livre inevitavelmente evoluíam para brincadeiras entre primos e primas, à beira dos açudes da fazenda, nos currais, nos galpões de silagem. Muito namorico de ocasião deve ter rolado ali, mas lamentavelmente não aconteceu nada disso comigo, que até achava algumas daquelas primas, embora um tanto mais novas do que eu, bastante apetecíveis, como era o caso de Rosângela, filha de meu tio Virgílio (a qual, entretanto, não me concedia a mínima bola). E eu nem poderia ser acusado de pedofilia – aquilo seria apenas um simples namorico entre crianças.
Entre tantas alegrias, a Fazenda das Areias também nos ofereceu uma tragédia: o afogamento simultâneo de meu tio Zé Marcos e de meu primo Mateus em 1963, contado por mim aqui em outra parte (Meus tios em Personae). Aliás, este episódio veio a interromper, definitivamente, o circuito das nossas alegrias lá, mostrando a todos nós, particularmente às crianças e adolescentes, a face dura da vida.
Foi também duro o golpe de ter voltado às Areias mais de cinquenta anos depois, como fiz em 2016. A estrada, saindo de Venda Nova e passando pela antiga Campanhã (hoje Justinópolis), outrora bucólica e auspiciosa em relação ao que nos augurava mais adiante, transformou-se hoje em via estreita entre favelas, com esgoto correndo nas ruas e lixo atirado por todo lado. Nas estatísticas tal setor, situado no município de Ribeirão das Neves, é campeão absoluto na violência criminosa. A antiga fazenda ainda está lá, sobrevivendo em meio ao caos, mas as marcas de decadência são evidentes, com os pastos raspados e a antiga aleia de bambus totalmente extinta. Os açudes aparentemente secaram, como se pode depreender da visão do ribeirão das Areias que corta a estrada de acesso: um ralo e poluído fio d’água. O pequeno arraial ainda está lá também, mas nada mais é do que apêndice do horrendo favelão que se estende de Venda Nova até ali.
É a vida… Devia ter ficado quieto em casa, ao invés de me aventurar em tal passeio ao passado.
Minha iniciação espiritual
Sou de família católica, como, aliás, a maioria dos brasileiros que nasceram na mesma época do que eu. Na minha infância e juventude havia também pessoas protestantes, divididas em três ou quatro denominações, com as quais se convivia civilizadamente na escola, na vizinhança, nas opções políticas ou em qualquer outra questão ou lugar. Ainda não tinham prosperado as tais denominações pentecostais em suas diversas variações, muito menos as igrejas-negócio que hoje pululam por toda parte. Vivíamos em estado de paz e tolerância entre todos, fossem calvinistas, kardecistas, animistas das religiões africanas e mesmo comunistas e outros ateus ou agnósticos. Era um mundo mais respeitoso, cortês e suave, sem dúvida. De parte a parte.
Meu catolicismo vem de família, mas mesmo no seio dela sempre houve quem divergisse da norma. Eu tinha tios, por exemplo, que eram espíritas e até mesmo ateus, embora esta última condição não sempre fosse declarada. Na minha casa tínhamos a habito de ir à missa nos domingos, pai, mãe e filhos, todos postos em suas melhores fatiotas. Nas sextas feiras da quaresma comíamos peixe (e bem que comemorávamos aquelas sardinhas fritas à milanesa, consideradas iguarias excepcionais, pelo menos para mim) e na última de tais sextas passávamos o dia em regime de contrição, sem cantarolar algum motivo, ali pelos oito ou nove anos de idade fui acometido de um profundo sentimento místico. Tomei então a iniciativa de me inscrever como coroinha na Igreja de São Cristóvão, a nossa paróquia em Belo Horizonte. Fiz isso por mim mesmo, mas sem deixar de ser apoiado por meus pais. Eu já tinha feito a primeira comunhão e comecei a achar tudo que era ligado à igreja maravilhoso e elevado.
Talvez não conhecesse de verdade um lado escuro da Santa Madre Igreja, vivenciado, frequentemente, por aqueles que estudaram em colégios confessionais. Ali havia, sem dúvida, repressão, intimidações e até mesmo assédio. Mas isso simplesmente não chegava a mim – ou eu não tinha ainda capacidade para entender tais coisas. De toda forma, minha tia Teresa Julieta, quase da minha idade, estudava em colégio católico, o Imaculada Conceição e lá, aparentemente, este tipo de problema não era relevante ou preocupante. Minha mãe e minhas tias, irmãs dela, também tiveram experiências semelhantes, no Colégio Sacré Coeur de Marie, em BH, ou no N. S. das Dores, em Itabira, porém sem maior trauma do que aquele experimentado por minha mãe, de ter sido interna, exilada da família por algum tempo. Imagino que isso deve ser uma experiência devastadora para uma criança, mas naquele tempo era algo aceitável.
Mas o fato é que eu me encantei com o ritual católico e era com enorme emoção que eu vestia a pequena batina vermelha com aquela sobrepeliz branca e rendada que era usada pelas crianças que “ajudavam a missa”. Era descomunal o meu orgulho de me exibir com aquilo e estar junto ao altar, na frente de todos, tocando aquela campainha em determinados momentos (não se podia errar a hora do toque, seria o vexame total…). E o que era mais emocionante: responder, no mais puro latim, às palavras do celebrante. Eu não entendia patavina do que dizia naquele momento, mas muita coisa entrou na memória e não saiu até hoje, por exemplo: dominus vobiscum; et com spiritu tuo; sursum corda; habemus ad dominum; ite missa est; agnus dei quid tolis pecata mindi; dona nobis pacem. Aquilo realmente era chique demais!
Certo dia, tive mesmo a impressão de ser alvo (ou quem sabe causador) de um verdadeiro milagre. Eu tomei emprestada uma das tais batinas, esta preta como a de um padre de verdade, para participar de uma festa junina na escola que eu estudava, vizinha da igreja de São Cristóvão. Quando terminou a festa, eu estava achando uma maravilha estar ali vestido de padre, no meio de meus colegas, certamente alvo de olhares invejosos – ou, pelo menos, assim eu via me sentia. Estiquei aquela sensação prazerosa até onde pude, mas tive que sair para devolver a batina, que o padre Carlos me emprestara com a condição de devolvê-la até certo horário.
E foi assim que saí paramentado pela rua a fora, o que sem dúvida prolongou meu gozo espiritual, já desencadeado entre as paredes da escola. Foi eu sair e o céu se fechou, começando a cair grossas gostas de chuva, o que me preocupou, pois afinal pegaria mal ter que entregar a vestimenta molhada ao padre. Mas para espanto meu, tive a sensação que aquelas gotas não me atingiam, não molhavam a sagrada veste que eu usava! Pronto, pensei: Deus me contempla com um milagre! Só pode ser isso, estou bem começado!
É claro que não me ocorreu, nem de longe, que aquela chuva era muito reles para molhar alguém, nem mesmo um bobo como eu. Mas diante de tal “revelação” achei ter encontrado uma vocação da qual eu não poderia mais fugir. Vi minha ideia reforçada pelo fato de ter chegado à igreja com a roupa completamente seca, esquecendo-me que se o trajeto fosse um pouco maior talvez as coisas se sucedessem de modo bem diferente, e que eu certamente ganharia uma tremenda bronca do senhor vigário por ter molhado os paramentos eclesiais.
Isso durou algum tempo. Espalhei na família que eu queria ser padre, um pouco pelo entusiasmo (aqui tal palavra vale em sua acepção etimológica integral) que eu sentia, um pouco também porque viviam me indagando aquele clássico “o que você quer ser quando crescer” – e eu nunca fui de deixar perguntas sem resposta.
Conheci, na ocasião, um garoto pouco mais velho do que eu, que às vezes também ajudava missa em São Cristóvão. Ele era seminarista, no Caraça, o famigerado instituto religioso encrustado nas montanhas de Minas. Quando eu lhe indagava sobre sua vida no seminário ele se fazia de distante, superior. Mas eu o respeitava mesmo assim. Mas via algo de estranho ali, ele era uma pessoa fechada, e me parecia ser alguém triste também. A isso se juntaram outros sinais: ele tinha uma mancha estranha, branquicenta, no rosto e tresandava um cheiro mais estranho ainda. Aquilo deve ter me encucado. O fato é que aos poucos a ideia da carreira religiosa foi me abandonando, embora eu continuasse católico e papa-hóstias.
Na ocasião, a Paróquia organizou uma sessão de cinema no Cine São Cristóvão, com um clássico espanhol carola chamado Marcelino Pão e Vinho. Quem é da minha geração e teve formação católica certamente já ouviu falar. Como já mencionei, de passagem, antes, lá pelo meio da sessão o senhor vigário veio sentar ao meu lado e danou a me fazer perguntas esquisitas, se eu era um bom menino, se obedecia meus pais, se não batia nos meus irmãos, coisas assim. Não passou disso, mas aquele homem de barba malfeita, de voz grossa, sussurrando coisas quase no meu ouvido me perturbou um pouco. Chegando em casa contei para minha mãe, inocentemente, acho até que justifiquei o ocorrido como uma espécie de entrevista para me promover na função de coroinha. Mas vi que ela ficou preocupada, pois me fez muitas perguntas. E, pelo que me lembro, minha avó Dodora também ficou sabendo da história e mostrou-se preocupada. Eu não entendia bem aquilo, mas de toda forma a minha chama vocacional religiosa já estava em declínio na ocasião. Não passou de um fogo de palha.
O Padre Carlos, nunca mais vi, a não ser nas missas, que eu também logo deixei de frequentar, inclusive por ter mudado de bairro. Ou melhor, quase vinte anos depois, eu já formado em Medicina, trabalhei como plantonista no Hospital Municipal Odilon Behrens, vizinho de minha antiga Igreja de São Cristóvão. Numa noite de plantão fui chamado para atender um paciente agonizante num dos apartamentos privados. Logo o reconheci, era o Padre Carlos. Isso não tem nenhuma relação de causa e efeito com a história acima. Seria apenas uma daquelas coincidências meio sem sentido que a vida nos apronta.
Pois bem, passados mais uns poucos anos, eu me cansei de missas e igrejas. Comuniquei isso de maneira intempestiva a meus pais, que ainda insistiam na frequência dominical familiar coletiva a tais rituais, como convinha a um adolescente rebelde. O mundo quase desabou sobre mim, mas aguentei firme. Um a um, os meus outros irmãos todos tomaram o mesmo rumo, em pouco tempo.
Dando um salto de mais de cinco décadas, voltei a me interessar por ambientes e rituais católicos mais recentemente. Mas aí, no caso, já diferenciando religião de espiritualidade e tendo como foco um local apenas, a graciosa capela do Mosteiro de São Bento em Brasília. Ali assisto esporadicamente a “vésperas” e missas, ligando-me, especialmente, ao cantochão gregoriano, em que pese ser o mesmo executado de forma apenas rudimentar pela dúzia de monges que ali residem.
Uma vida espiritual um tanto carente de substância, como percebem. Mas é o que me foi dado vivenciar.
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