Não me envergonho de dizer, venho de uma era na qual o SUS não existia. O mais próximo dele era o sistema da previdência social, que cobria menos da metade da população brasileira, mesmo assim de forma muito desigual. Para acesso ao mesmo tornava-se necessária uma famosa carteirinha, de algum “Instituto”, depois do INPS e finalmente do Inamps. Tenho – e não me canso de afirmar – imenso orgulho ter assistido e viver sob a égide de um sistema de saúde que aboliu a tal carteirinha, que se estendeu a todo o conjunto da população brasileira e que exibe feitos exponenciais – sem deixar de mencionar que ainda tem muitos problemas a serem resolvidos também. Na saúde pública os avanços são tremendos: vim de uma época em que ela se concentrava apenas meia dúzia de ações, nominalmente sobre vacinações, tuberculose, lepra e algumas doenças endêmicas. E só. Mas acreditem, tudo mudou! O Sistema Único de Saúde, carinhosamente conhecido (ou às vezes sem tanto afeto…) como SUS é, de longe, para maior orgulho meu, que participei de sua construção, o objeto que esteve mais presente em minha vida profissional. Com efeito, me envolvi com as lutas de sua criação, nos anos 80, seja como membro de movimentos de secretários municiais de saúde, em Minas Gerais ou no plano nacional, mas também como militante, digamos assim, intelectual, tentando contribuir como pensador ou palestrante – convites não me faltaram. Fui então dirigente das entidades que ajudei a fundar, seja o Conselho de Secretários Municipais de Saúde de Minas (Cosems-MG), ou sua vertente nacional (Conasems). Quando terminei minha gestão em Uberlândia, fui fazer mestrado na Fiocruz e em seguida trabalhei no Ministério da Saúde, como técnico atuante na construção do novo sistema, entre 1991 e 1995. Depois disso, já na Universidade de Brasília, e mesmo depois, produzi algumas dezenas de textos sobre o SUS, em publicações técnicas ou em jornais, ao mesmo tempo que atendia convites para falar sobre aquele ser nascente, urbi et orbi. Dei meus palpites, como consultor, a municipalidades e entidades diversas. Era um momento de construção de algo realmente novo no país e os eventos de apoio técnico e divulgação, numerosos à beça, faziam muito sentido. Eu fiz presença neles, em muitos lugares deste país, muitas mais vezes como convidado do que como alguém que estivesse ali como simples curioso.
Hoje, tantas décadas depois, poucos talvez se lembrem de mim, mas é bem verdade que a recíproca, até certo ponto, é verdadeira. Mas continuo considerando o SUS como parte importante, se não a mais importante, da contribuição que porventura eu tenha feito ao meu tempo, ao meu país, à minha gente. Não preciso de maior reconhecimento, embora confesse, às vezes, que tal coisa me pareça escassa, para mim e para outros batalhadores. Mas eu sei bem onde pisei e, principalmente, tenho total consciência de ter feito o que pude. O SUS representa, portanto, parte da minha história profissional e cidadão – e disso me orgulho muito. Conto tais fatos sem isenção, mas com a paixão de um militante, no link que se segue.
