Se bem me lembro (XII): meu Lado B, sem Filtro

Quando as pessoas resolvem escrever suas memórias – e eu já o fiz – seria natural que valorizassem e dessem primazia às coisas boas que lhes aconteceram na vida. Não fiz diferente em meus registros, mas ao mesmo tempo não deixo de imaginar como seria uma (auto)biografia em que alguém narrasse suas perdas, não suas conquistas ou que omitisse seus erros, privilegiando apenas seus acertos, independentemente da vontade própria do narrador e dos fatores externos a ele. Como todo mundo sabe, a vida – a vida real – absolutamente não funciona de maneira sempre positiva ou triunfante. Reforcei meus pensamentos sobre tais contradições ao ler um poema de Elisabeth Bishop, poeta americana cuja vida teve uma passagem pelo Brasil, intitulado One Art, no qual ela confere à lida com as perdas na vida um estatuto de sabedoria, ou mais: de verdadeira arte. Pensando a minha vida à luz das perdas que experimentei ou, quem sabe, de tudo que deixei de fazer ou que deixei passar a oportunidade para tanto, resolvi narrar – e o faço neste capítulo que pretende ser o encerramento do presente complemento das minhas memórias – que eu chamaria de lado B, face oculta, ou também a história sem filtro de minha existência, sem a pretensão, é claro, de finalmente revelar a totalidade das coisas que ninguém soube de mim, até mesmo porque sempre haverá coisas que nem eu mesmo darei conta de saber a meu respeito. Acredito realmente que, acima de tudo, mais do que sigiloso ou dissimulado, cabe ao indivíduo que resolve falar de si, ser em primeiro lugar modesto, mas também sincero em tal terreno.

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