Durante um pedaço de minha vida achei quenão gostava de viajar. Hoje vejo que me enganei, ou, pelo menos, passei a ver que as viagens podem ser boas ou más, dependendo de alguns fatores. Começando pela negativa, devo dizer que aquela história de viajar por viajar, visitando uma sequência alucinada de países, cidades, monumentos, museus, vales, montanhas etc, tirar um monte de fotos e depois mostrá-las alegremente para os amigos, decididamente nunca foi a minha praia. Aliás, na minha preferência, melhor que nem haja praia em eventuais viagens. As pessoas a que me refiro na descrição acima me lembram aqueles caçadores (ou quem sabe, jagunços) que fazem uma marca na carabina a cada presa que abatem. Conheci recentemente uma dessas figuras, que fez um périplo por uma dúzia de parques selvagens na África e não foi capaz de me dizer em quais países exatamente esteve, da língua se falava em cada um deles, de como se dava a vida dos nativos ali, de qual era a religião dominante etc. Mas contabilizava com total precisão números de parques, girafas, leões e rinocerontes que foram avistados, além de documentar isso escrupulosamente em centenas de fotos (as quais, felizmente, não fui convidado a apreciar). Com isso, posso dizer com certeza: eis aí um tipo de viagem que não gostaria de fazer ou acompanhar alguém.
Para não ficar apenas nos aspectos negativos, é bem verdade consegui, mais tarde, definir o tipo de viagem que gosto de fazer. E posso falar disso com bastante certeza, porque tive a oportunidade de fazer algumas de tal naipe. O primeiro aspecto que caracteriza minha preferência é ter uma boa companhia. E depois disso, andar com calma e poder parar em recantos interessantes; saber como a gente local vive; conversar com as pessoas; observar a natureza; experimentar a comida que ali se come e a cachaça que se produz; tomar uma cerveja na porta de alguma venda – coisas assim. E nunca – nunquinha! – ser obrigado a atender à convocação de algum guia turístico sobre a premência da hora de embarcar para observar (e fotografar…), este ou aquele monumento enquanto ainda é dia. Cruzes! Afasta! Tô fora!
E foi munido desses princípios que, creio, aprendi a viajar. Ou, pelo menos, parei de rejeitar liminarmente o convite ou a simples menção a viagens. E tomei gosto por registrá-las também, não em sequências infindáveis de fotos, mas principalmente na elaboração de pequenos textos, que sempre me trazem de volta o que vi, de maneira ainda mais fiel do que as fotografias são capazes de operar. Desde então tenho feito viagens que realmente me fizeram muito bem. Trago aqui alguns relatos delas, que tenho dado à luz em meu blog ou mesmo em folhetos que envio à família e alguns amigos, testemunhas da descoberta de um jeito gostoso, e também produtivo, de viajar. Foi assim que descobri em mim um viajante apaixonado e ativo, não alguém que apenas se deixa levar. Em boas viagens como estas tudo começa antes, com o planejamento de rotas, de maneira independente de agências de turismo, obedecendo diretamente ao gosto de quem vai partir e não a esquemas pré-estabelecidos ou a roteiros “top”. E se começa antes, ainda traz a vantagem de terminar depois, não com sessões de fotos que acabam massacrando paciências, mas com lembranças que são convocadas de volta, com intensidade, através da escrita e da leitura. Mas não é só. Devem ser viagens feitas com calma e profundidade. Nisso incluo também a etapa preparatória, com alguma pesquisa em livros de história, geografia ou mesmo romances. Em Portugal, a Viagem de Saramago me foi de grande valia e para o Norte de Minas, nada como Guimarães Rosa. E tais atos perpassam toda a viagem, pois se pode levar o material bibliográfico ou mesmo fazer consultas na internet a respeito do que se está vendo, mas com a certeza que tudo ali é fruto de interesse real de nossa parte, não de algo que vem de fora, na base da ”sovela”, como diria minha mãe. Assim, a viagem ganha duração e profundidade. Fazemos uma viagem dentro e em volta da outra, numa espécie hiperviagem permanente.
E tem mais, algo em que insisto, por ser sumamente importante: as companhias que se tem. Aliás, só tem uma coisa pior do que viajar sozinho: é viajar em companhia desagradável. Em várias dessas jornadas, felizmente, pude contar presenças alegres, inteligentes, participativa, algumas vezes também amorosas, em uma formulação, além de intensa, solidária e cúmplice. Em uma ou outra, nem tanto, mas nada é perfeito neste mundo. O que mais se pode querer?
Vai a seguir um portfolio de minhas viagens mais significativas nos últimos anos, lembrando que só recentemente eu me vi contaminado pela mania de escrever sobre elas e divulgá-las.
Vamos lá leitores? Que tenhamos, todos, ótimas viagens!
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Viagem ao Sul (profundo) de Minas – Vereda Saúde
O Paradoxo Kalunga – Vereda Saúde
Inhotim revisitado – Vereda Saúde
Pelos Sertões do Rio Doce – Vereda Saúde
Mais viagens, entre amigos – Vereda Saúde
Viagem ao Gerês, Portugal, 2025 – Vereda Saúde
Jornada pelas Montanhas de Minas – Março 2025 – Vereda Saúde
Pelos Sertões do Urucuia – Vereda Saúde
O Urucuia em Rosa – Vereda Saúde
Por serras, morros, rios, vales – e História: uma festa em Sabinópolis – Vereda Saúde
Entre chapadões, morros e rios – Vereda Saúde
Sempre Portugal – Vereda Saúde
Uma viagem e tanto… – Vereda Saúde
Crônicas do Bom Viajar – Vereda Saúde
Entre Sertões: de Brasília ao São Francisco e ao Jequitinhonha – Vereda Saúde
Chapada dos Veadeiros – Vereda Saúde
Na velha Inglaterra – Vereda Saúde
O dia em que conheci Brasília – Vereda Saúde
Pela Estrada Real – Vereda Saúde
De novo no Mato Dentro – Vereda Saúde
Viagem ao Brasil Real – Vereda Saúde
Oitenta dias em Portugal – Vereda Saúde
