Se bem me lembro (IX): Tempos problemáticos e febris

Um tango do argentino Discepolo, que conheci através da voz de Caetano Veloso, lamenta (ou, melhor dizendo, lamuria) as mazelas del Siglo Veinte, que o autor considera problematico y febril. O nome da canção é Cambalache e entre outras pérolas mal humoradas diz: que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé; en el quinientos seis y en el dos mil, también… Mas pelo visto, é neste século XXI que a verdadeira porqueria finalmente nos alcançou, e até dá para ter saudades da bonomia e da tranquilidade dos 100 anos anteriores, quando éramos felizes, embora ignorássemos que tal estado iria por água abaixo logo em seguida. Isso tem sido o mote dos meus anos mais recentes, quando eu aposentado, melhor dizendo esquecido, em relação a toda uma época de, digamos assim, glórias no campo profissional e afetivo. Tudo bem, me consola andar febril e adoecido de pequenas realizações e pequenos acontecimentos, tentando fugir, sem obter sucesso, da problemática do país, que assisto, malgrado meu, neste século exageradamente confuso, que passa veloz debaixo de meus olhos. Mas de tudo que vejo, procuro tirar um sentido, alcançar a existência de alguma lógica fazer ou, pelo menos, fazer uma síntese. Para isso, invoco com frequência uma santa muito especial: Santa Coerência, de minha especial devoção, Rainha das remotas paragens da Alta Razônia, Senhora das fronteiras do Cogitum – socorrei-me! Será que estarei somente eu certo diante de um monstruoso sistema de erros? Ou, bem ao contrário, serei apenas um ser equivocado e errático numa terra onde estão todos cobertos de razão? Minha Santa, fazei com que eu seja capaz de perceber a verdade, neste mundo de tanta confusão. E uma vez a conhecendo, que ajude a divulgá-la; e que não espalhe por aí notícias falsas, que ficarão ainda mais falsas ao serem passadas adiante. Protegei-me e defendei-me, minha Santa, da falaciosa ideia de que uma pessoa de bem há que se situar sempre à destra ou à sinistra – mas que existem posições que permitem enxergar melhor os caminhos sem que estejamos presos à suas margens.

O mais é um desfile de tenebrosas constatações, conforme se vê em seguida. Mas atenção: tratam-se de textos datados, para dizer pouco, muitos deles produzidos ainda na vertiginosa segunda década do século 21. Portanto, devem ser analisados diante de tal perspectiva.

Panorama visto da Torre

A gente vai ficando velho, mas tem a compensação de ficar mais sábio. Será? Já dizia Cicero em ‘De Senectude’ que os velhos, no teatro da vida, se sentam nas últimas fileiras de um teatro e assim podem apreciar melhor a apresentação que acontece no palco, com a vantagem adicional de se divertirem também com a plateia à sua frente. Ou algo assim. A tal apresentação, admito, às vezes pode trazer enfado, por vulgar e repetitiva. O público, iludido ou confundido pela peça de qualidade muitas vezes duvidosa, não lhe ficaria atrás. Então, sem nenhuma pretensão de adicionar conteúdo de filosofia ao que disse o velho escriba romano, eu diria que o melhor mesmo da velhice é a gente poder contar com certo beneplácito dos circunstantes ao proferir o que nos vem à cabeça, sem maiores restrições ou censura.

Mas mesmo isso pode ser perigoso nos dias de hoje, em que ‘homens partidos’ se estraçalham até pela posição das vírgulas nas frases e pelas palavras mal interpretadas de quem se dedica a ter opiniões próprias. Aqui vai, apesar de tudo, a expressão de algumas liberdades que resolvi tomar, amparado pelos meus mais de setenta anos de idade, em relação a alguns fatos da vida social e política no panorama brasileiro e mundial. Coisas que poderiam ser categorizadas em uma simples frase de minha especial preferência: a unanimidade faz mal à saúde (e ao resto, diga-se de passagem). É assim que seguem, do alto de uma espécie de Torre de Vigia (obrigado Dylan), algumas opiniões minhas sobre temas tão diversos quanto a política, a sociedade, a saúde, a medicina, a educação, os costumes, as religiões, todos eles constituindo territórios de mudanças profundas nos últimos anos, principalmente na década que vai de 2010 a 2020. Foco especial nos dois últimos anos, quando o nosso país virou de ponta-cabeça, mudando para pior, sem dúvida.

É claro que me meter em tantos assuntos poderá me trazer a pecha de pretensioso, mas afirmo que, mesmo assim, minha maior verdade é a de saber que nada sei. Faço isso assumindo também o risco em analisar os fatos tão a quente. Ser mais cauteloso, entretanto, poderia implicar que diante do esfriamento de tais acontecimentos, eu próprio venha a lhes fazer companhia, em termos termodinâmicos. Sendo assim, prefiro me antecipar. Mas de toda forma, ‘em cima do muro’ é lugar que não conheço…

Tudo tem um lado bom…

Mas para não ficar só no lado ruim, em termos pessoais, pelo menos, diria que o novo século para mim foi um tanto febril, também. Senão, vejamos. Em 2000 com o término do meu doutorado na Fiocruz, recolhi-me a Brasília, onde, com muitas passagens pela minha querida casa no Moinho escrevi minha tese, sendo aprovado com boas recomendações na banca a que me submeti em 2002. Neste momento conheci Lucineia, que na sequência veio a me presentear com algo muito melhor e mais significativo do que uma tese, ou seja, estas duas figuras que lustram e valorizam minha velhice, Flavinho e Sophia. Em 2003 me aposentei na UnB e retornei a Uberlândia para ser, de novo, Secretário de Saúde, compartilhando o pão que o diabo amassou, com Zaire Rezende e outros companheiros.

De volta a Brasília, em 2005 e a partir daí tive oportunidade de viver um grande momento em minha carreira de consultor, sendo chamado sucessivamente para trabalhos no Banco Mundial, OPAS, Conass e algumas Prefeituras, como Poço de Caldas e Uberaba. Realizei, numa dessas consultorias, junto ao Banco Mundial, um grande sonho, viajar pela Amazônia profunda, por lugares tão diferentes como Maués, Tabatinga, Atalaia do Norte e Benjamim Constant, onde (nada sendo perfeito) uma gastroenterite quase me liquidou. Entre 2010 e 2011 estive ligado diretamente à OPAS, prestando assessoria ao Conselho Nacional de Saúde, onde a então coordenadora quis recusar minha presença alegando que eu “não acreditava em controle social”. Mostrei para ela um trabalho que havia publicado alguns anos antes, no qual eu demonstrava o contrário, porém sendo crítico ao modelito vigente, calcado em conteúdo da legislação (Lei 8142/90) a meu ver superado. Fui perdoado, mas com certa desconfiança, até que me cansei das formalidades e da burocracia da OPAS e passei, a partir de 2011, a prestar apenas serviços temporários e sob encomenda.

Em 2007 e 2011 lancei dois livros, respectivamente Saúde da Família: boas práticas e círculos virtuosos e a Unanimidade faz mal à saúde, ambos pela Editora de minha antiga universidade, em Uberlândia, a EDUFU.

Neste meio tempo, dispondo de um cabedal razoável amealhado nos meus anos de consultor, como já contei, construí uma casa no Condomínio Verde, Zona Leste de Brasília. Próximo ao rio São Bartolomeu. Para ela me mudei em maio de 2011. Pensei em fazer deste lugar o derradeiro de minha vida e, no momento que escrevo, quase dez anos depois de ter me mudado para cá, creio que isso está se concretizando. Mas nada posso garantir para o futuro, dada a minha proverbial inquietação. Mas de toda forma, este é um lugar de que gosto, com a natureza por perto, dois cães que me idolatram, Flavinho e Sophia frequentemente presentes (e curtindo também o ambiente), além de plantas e mais plantas que me entretêm e me fazem orgulhoso de meus dotes de jardineiro. Das pessoas daqui não sei dizer se gosto muito; às vezes me parecem ser gente que gostaria, de verdade, morar no Lago Sul, não neste fim de mundo, próximo demais à pobrezinha São Sebastião. Praticamente não visito ninguém e não sou visitado e para mal dos pecados, três das amizades que fiz por aqui, gente da minha idade ou pouco mais velha, já faleceram.

Nestes anos de Condomínio Verde, meus projetos foram poucos, mas creio que substanciais, com destaque especial para a redação destas memórias e algumas viagens. Fiz três delas a Portugal, com especial ênfase nas duas últimas, nas quais tive as companhias de Carmen Azevedo e de mim mesmo, respectivamente, que motivaram textos que me deram grande prazer em escrever, conforme se vê mais adiante nestas memórias (Viagens). Fora isso, vou ocasionalmente a Belo Horizonte, para ver pai, mãe, filha, genro e netos. Vejo por lá alguns amigos também, desde sempre muito poucos. Destaco especialmente Maria Helena Brandão e Erix Curi Mafra, que figuram nestas memórias como personagens.

Outra de minhas escapadas de Brasília tem como destino Nova Friburgo, para ver minha eterna tia – irmã Teresa Julieta. Faço isso uma vez por ano e sempre tenho muito prazer em estar com ela e curtir aquele ambiente de florestas e montanhas. Em uma dessas idas ao Rio aproveitei para conhecer a pousada que meu primo Cristiano, filho de Teresa, junto com a esposa Mônica e o pirralho Otto, estão tocando em outro recanto de Serra, desta vez na Mantiqueira, no povoado de Mirantão, município de Bocaina de Minas, na divisa de Minas e RJ. Gostei demais de lá e quero muito voltar.

Programei uma viagem à Itália neste ano de 2020, junto com Daniela, Francisco, Flavinho e Sophia, mas tive que cancelá-la em função desta maldita pandemia. Quem sabe no ano que vem? Mas em termos de exterior, tenho vontade mesmo é de voltar, ainda uma vez ou mais, a Portugal, onde tenho agora a receptividade de meu amigo Eduardo Guerra e sua mulher, Célia.

Minha vida de aposentado no Condomínio Verde não tem sido, absolutamente, vazia. Caminho muito, faço outros tipos de exercícios, cuido de dois cães e de jardins, recebo com honras meus dois filhos pequenos (ocasionalmente os grandes e o neto também) e além disso montei uma pequena marcenaria (ou algo parecido) onde confecciono objetos diversos, verdadeiros inutensílios, como dizia Manoel de Barros. Isso me transformou em consumidor quase compulsivo de ferramentas, pela internet, embora algumas delas, confesso, ainda estejam à espera da comprovação de que sejam realmente úteis.

Enfim, daqui desta colina, sobranceira ao Vale do ribeirão Taboquinhas, nascido nos altiplanos a leste de Brasília e tributário do São Bartolomeu, assisto a vida passar, interagindo modestamente com o que me é dado aproximar. Aqui me sinto uma espécie de observador em uma atalaia ou Watch Tower, prestando atenção na política, nos costumes, na natureza, nas pessoas (entretanto sem exagerar nos contatos), bem como na família, que é a parte com que mais vale a pena gastar energia, sem dúvida.

A fábula é nova, mas o sabor é antigo…

Vana fora incumbida de levar seu povo à Terra das Promessas. E tal líder passara anos de sua vida preparando-se para tanto. Mas logo começada a longa caminhada, um grande obstáculo surgiu: um profundo desfiladeiro sobre o qual se perfilava uma ponte muito frágil. Vana não era de fazer consultas, mas resolveu ouvir dois de seus principais companheiros de jornada, Rationibus e Practicus. O primeiro, apelando para o que era seu atributo principal, a Razão, ponderou que o melhor era não se arriscar e procurar um caminho alternativo, pois certamente o haveria. O segundo, com seu tradicional senso prático, recomendou, de pronto: vamos por aqui. E ir “por aqui” significava encarar aquela pequena ponte, cheia de perigos, sempre prestes a lançar os ousados caminhantes ao abismo. E Practicus ainda arrematou: certamente teremos o apoio dos povos dos penhascos vizinhos, logo designando alguns deles, em quem tinha confiança. E feito isso, procurou, aos gritos, clamar pelos velhos amigos e novos sócios na empreitada de ir à Terra das Promessas. E foi assim que Cunheus, Calheus, Sarneus e Migueus logo mostraram suas hostes de entremeio aos penhascos e fizeram sinais amistosos de “venham, estamos com vocês”. E Vana então chamou seu povo e foram pela terrível ponte, que acabou por não resistir ao peso de tanta gente e se partiu, lançando todos ao abismo. No fragor da queda houve quem visse alguns dos Migueus acenar-lhes com palavras soezes, do tipo “adeus, queridos” e houve mesmo quem percebesse que um deles ostentava nas mãos um machado, certamente o agente principal da queda da pinguela.

Qual seria a moral da história?

Esperem aí, a história pode ter outros finais, por exemplo, se Vana tivesse ouvido o sensato Rationibus. E teria sido assim: foram procurar outro caminho para vencer o desfiladeiro. Estava difícil encontrar, ladearam o abismo por vários lados – e nada. Mas Rationibus não se deu por vencido e falou: vamos procurar o apoio de um povo que já foi nosso amigo e que mora nas planícies mais aquém de onde estamos, os Psoleus, além de outros, chegados a eles. E mandaram emissários às planícies, que foram tão bem sucedidos em sua missão que até conseguiram arregimentar apoio de outros povos, os Neutralius, por exemplo, que até então não haviam entrado na fábula, ocupados que estavam com seus afazeres cotidianos, sem tempo para grandes aventuras como aquela. Mas vieram assim mesmo.

Para encurtar esta fábula, que fábula é melhor quando curtinha, os liderados de Vana, ajudados pelos Psoleus, Neutralius e Sinistrius (outra gente que se ajuntou aos novos aliados no caminho), acabaram por transpor o desfiladeiro em um vale, mais abaixo. É certo que foram hostilizados pela gente dos penhascos, mas a esta altura já eram tantos que botaram para correr os Migueus, Calheus, Cunheus, Sarneus, além de seus asseclas.

Final feliz? Nem tanto. Nem bem conquistaram a primeira beirada da Terra das Promessas, os liderados de Vana descobriram que mais adiante havia outro desfiladeiro, com outra ponte perigosa, outros inimigos cavilosos. Mas foram mais felizes assim. Esta é (ou deveria ser) a Moral desta pequena história.

A serpente e seu ovo

Começou em 2013 um período tremendamente perturbador na vida nacional. Ainda não terminou, por certo. Tivemos os “rolezinhos” nos shoppings de São Paulo; as manifestações de rua em várias capitais contra o governo Dilma, o 1 x 7 contra a Alemanha, as malandragens da Eduardo Cunha; mais manifestações contra e a favor do governo; o processo e o impeachment de Dilma; o governo Temer; o caso Joesley; a prisão de Lula e de outras personalidades da vida empresarial e política; aquela simbólica mala de dinheiro; o assassinato de Marielle; a inauguração de uma era de polarização selvagem no país etc. etc. etc.

Assisti tudo isso, como cidadão – e como muita gente no Brasil, aliás – entre estarrecido e estupidificado. O desenrolar desses acontecimentos parecia nunca ter fim. E quando o desfecho veio, foi para piorar a situação, com as eleições de 2018. Nesta ocasião, adentrei ao Facebook e ali comecei a registrar minhas preocupações, na expectativa de atrair para elas algum tipo de debate, ou pelo menos que valessem como desabafos mesmo. Da tal rede social logo me cansei, mas aquele apanhado de manifestações que lá deixei, às dezenas, com certeza me fazem recordar hoje as sombras daqueles tempos pantanosos.

Mas mesmo no escuro e no lodo a gente sempre aprende alguma coisa… Hoje, quando olho pelo retrovisor, percebo que para mim também havia mudanças em curso. Eu acabara de encerrar um contrato na OPAS, mais por desejo próprio do que por uma demissão forçada. O povo de lá me acenava, então, com a possibilidade de um contrato pontual, renovável depois de algum tempo de “quarentena” e eu achei mais vantajoso tal sistema, ao invés de continuar assinando ponto e ter que me submeter a chatíssimas reuniões de planejamento e avaliação, das quais eu sempre esquecia a hora, talvez para escapar do tédio que me provocavam. O novo regime, é certo, me permitiu alguns picos de trabalho intensivo, com uma remuneração menor do que a de antes, mas que eu modestamente penso que foi merecida.

As mudanças que ocorreram para mim foram boas e ruins, misturadamente.

A parte boa foi a casa que construí quase na zona rural de Brasília, no Condomínio Verde e a minha mudança para lá, em 2011. Ali pude acompanhar de perto, nem que fosse nos finais de semana, o crescimento de meus filhos pequenos, Flavinho e Sophia e exercer a alegria de tê-los próximos a mim, em caminhadas, banhos de rio, pescarias e outras aventuras. Se ter filhos em plena maturidade eu sempre considerei um privilégio enorme, a presença deles na casa que eu construí à minha imagem e semelhança, mediante competente projeto de meu irmão João Mauricio e meu filho Mauricio, foi por assim dizer, uma cereja no meu bolo. Nesta situação, de pai e morador na roça, creio ter sido mais feliz do que em qualquer outro momento de minha vida. E assim continua sendo, aliás.

A parte ruim durou três longos anos e resultou da minha incapacidade, pelo menos na ocasião, de encarar uma vida totalmente em solidão, desacasalado. Foi assim que meus impulsos falaram mais alto e de repente me vi envolvido em uma relação daninha, que até hoje me provoca arrepios, quando dela por algum motivo me recordo. Mas como tudo tem de passar, tal nuvem maligna foi embora também. E fica assim registrado este pormenor desagradável de minha vida, o grande erro do qual ainda me penitencio. Dele não falarei mais nestas páginas.

Se para mim apenas certas coisas não foram boas, no país elas desandavam geral. Em 2013, as tais manifestações, ataques de black-blocs e rolês. Na época, adverti um amigo que se regozijava acreditando que ali estava nascendo um novo modo, mais efetivo, de fazer política, que aquilo poderia não ser nada o que ele estimava. E até usei a música Pelas Tabelas de Chico Buarque para ilustrar: não era “ela” afinal que vinha para redimir a massa, mas sim um “homem que olhava as favelas”. Premonitório do que viria depois, a meu ver. Grande Chico!

Em 2014, Alemanha sete, Brasil um. Mas dessa parte eu até gostei. Venceu quem podia e a justiça foi feita. Futebol nunca foi o meu forte, dos dois lados do alambrado, aliás. Daí para frente foi tudo fermentação, com a amarga destilação que se conhece.

Em 2016 o impeachment de Dilma me revoltou, mas não me mobilizou para nada mais do eu isso: revolta. Não votei na figura e não simpatizava com ela, e menos ainda achava que Temer fosse coisa que prestasse e que valesse sua inclusão na turma petista. Depois, a prisão de Lula, antecedendo a pior parte: o réptil já trincava a casca do ovo!

E nada foi como antes. E nem sei se voltará a ser. No momento que escrevo a fera está solta: bolsonarismo, polarização, ódios disseminados, recessão econômica, pandemia, conflitos anunciados, miséria em ascensão, descrédito do país, negociatas políticas, aniquilação aparente de qualquer movimento de repudio a tudo isso. Não bastasse isso tudo, quase quinhentos mil cadáveres já nos observam. Onde vamos parar?

Sinto muito, mas este é o clima que abre essa seção, formada por textos meus que recolhi, “encolhi” e adaptei, vindos diretamente de meu período feicebuqueano. São mais de uma dezena de páginas, assim mesmo depois de um processo intenso de desidratação (podem acreditar). Desculpem, assim, a possível prolixidade, mas a intensidade, a gravidade e a diversificação dos assuntos que surgiram assim o exigiram. Mas se quiserem podem saltar essas páginas tão infelizes e seguir adiante. Não culparei ninguém por isso.

Política e políticos: o triunfo de Jerônimo Fogueteiro

Escutei, certa vez, um deputado distrital daqui do DF se defendendo das acusações de nepotismo e empreguismo. Seu argumento: há muito desemprego na cidade, precisamos ajudar a minimizá-lo…

Enquanto espero que a Santa me ilumine, tento entender o Legislativo, embora tenha pouca esperança que alguma razão viesse dali. Lógica, sim – ali há muita lógica, aliás. Eu tinha ouvido falar dos três “B” que orientam as principais bancadas no Congresso Nacional: Bala, Boi e Bíblia. Mas olhando bem, percebi a necessidade de acrescentar algo mais – ainda no capítulo da letra “B”. A Bancada da Bola, por exemplo, muito em evidência depois que o ex da CBF Marin conheceu o banco de reservas na Suíça e nos EUA; esta continua fazendo e desfazendo; mandando e desmandando; apitando e cobrando o pênalte. Afinal, aqui é o pais do futebol. A Bancada da Bolada tem nome parecido – e práticas idem. Ela sempre existiu, pujante, mas tem sido muito iluminada pelos holofotes nesses tempos de Lava Jato e Zelotes (para não falar de Vorcaro, que veio depois). Para escapar da pressão, utiliza muito bem as tecnologias modernas, principalmente aquelas que facultam transferências de valores para o exterior, por sistemas paralelos. É formada por gente que, na prática, deve e até treme, mas não paga.

A Bancada da Bomba, que teve como patrono Eduardo Cunha, atualmente em estado de férias prolongadas em Bangu, mas deixou legítimos sucessores naquele vasto e amorfo centro político, como é o caso atual de Alcolumbre. A Bancada dos Bonzinhos,aqueles que sentam em cima da própria cauda e juram não ter nada a ver com tudo isso que está aí e que jamais apoiaram, em tempo algum, coisas como essas que se vê hoje. A Bancada do Bônus, daqueles que desejam nada mais, nada menos do que levar vantagem em tudo, cujo lema é: primeiro o meu! Bancada do Basta (atencção: basta com “a’ e não com “o”), aqueles sujeitos condescendentes no passado, incendiários hoje. Bancada dos Brother, se é para defender um par, um irmão, um igual, são capazes de atropelar a razão e mover mundos e fundos – acreditam que Judas, por exemplo, não foi traidor, apenas teve um lapso de memória e deve ter uma nova chance. Bancada da Boa-Vida: trabalham de terça a quinta, quatro meses de férias por ano, ponte englobando em todos os feriados – mesmo que caiam na quarta feira – e não perdem o São João, o Bumba Meu Boi, a Festa da Uva, o Festival da Cachaça de Pintópolis e outros festejos igualmente relevantes. Bancada da Birosca: os que estão por lá como não querem nada, estão sempre ficam calados, apostando no pior ou fingindo de mortos, mas de olho no incêndio que toma conta do circo.

Grande questão neste início de século (ou desde sempre), regida pelo mote de que governar é um negócio como outro qualquer, é a seguinte: a Besta está de volta! Ou quem sabe ela nunca foi embora? Falo do grande fantasma que ronda o mundo, especialmente presente no Brasil de hoje e de sempre – seu nome é governabilidade. Para todos os usos, para quaisquer circunstâncias. Ao preço que for preciso pagar. A governabilidade é a Vaca, melhor dizendo, a Besta Sagrada que ultimamente tem ocupado o lugar do bom senso, da ética, da respeitabilidade, da desvanecida credibilidade dos agentes políticos. Ah, essas alianças com o Cremulhão, com o Centrão, com o Não-sei-o-que-diga, com o Tinhoso, com o Capeta, com Demônio e o Diabo à quarta potência.

Aqui nas Taboquinhas eles por acaso não entram? Entram sim – é só ligar a TV… Mas a verdade é que, em certa idade, como a que me encontro e, principalmente, vivendo no mundo em que vivemos – e mesmo aqui neste retiro – a gente acaba por abandonar e até menosprezar os antigos rótulos de “esquerda” e “direita”, “progressista” e “conservador”, “politicamente correto” ou “incorreto”, em troca de algo que pode não ser nada operacional, mas nos permite um pouco de paz com a consciência: tentar ver o mundo de forma independente, com olhos abertos e a mente liberta dos rótulos e dos preconceitos.

Assim, em junho de 2013 eu já observava as ruas do país, daqui da minha Torre. Alguns analistas e mesmo amigos meus viam nos movimentos de então uma renaissance da sociedade brasileira. Eu botei o pé atrás e o tempo não deixou de me dar razão. Aqueles mocinhos e mocinhas que até a véspera estavam em um shopping da Faria Lima ou adjacências não sabiam ao certo ao que vieram. E sabiam menos ainda das coisas os tais vândalos black-blocs, se é que eles existiam de verdade, gente que não explicaria direito nem o corriqueiro das coisas, tendo que corresponder às expectativas tão portentosas de alguns. Quanto a mim, sendo bastante modesto, ou talvez socrático, dizia: sei é que nada sei

Mas ainda sobre esta história de ruas que falam… não adianta ser simplista. Eu bem que queria aquele porviroscópio inventado por Monteiro Lobato, que me mostrasse não o futuro remoto, mas, digamos, pelo menos o final da próxima quinzena. Mas me arrisquei a um prognóstico na ocasião: quase ninguém estará nas ruas; ou quase ninguém se lembrará do que aconteceu, dentro de no máximo um mês. Mas era curioso aquele movimento sem políticos, sem partidos, sem política e, ao que parecia, até mesmo sem lideranças.

Mas era trágico também, porque já tínhamos muito a temer (sem trocadilhos) de movimentos assim tão amorfos, que se esgotam como um fósforo queimado ou descambam para outra coisa… Essa falta de propostas concretas, traduzidas por liberdade, igualdade, fraternidade, passe livre, sei não, parece filme que já passou. Assim, eu ficava, tu ficavas, nós todos ficávamos aguardando os acontecimentos que viriam… Como cachorros vira-latas caídos do caminhão de mudanças.

O trágico, de verdade, no Brasil desta década confusa, é talvez o fato de não se dispor de líderes, partidos e da boa e velha política… Infeliz do povo que precisa de heróis, mas essa massa amorfa dirigida por outras tantas mentes amorfas, para não dizer outra coisa – isso não pode dar certo. Se der certo, o Brasil dará errado. Eu como não sou nada rousseauniano ao tentar entender o ser humano, fico em posição pessimista mesmo. E pergunto: as tais ruas não teriam por trás de si, como no filme Matrix, algo como um bando de hackers manipulando as multidões através das “redes sociais”, sentados confortavelmente e empunhando seus teclados? Estes não vão às ruas levar balaços de goma e cheirar pimenta. E os caras que quebram, apedrejam, tocam fogo, agridem e não mostram o rosto, será que fazem parte dos que têm alguma consciência de seus atos? Não seriam o embrião malévolo dentro de um ovo de serpente que sempre acompanhou a história da humanidade ou, pelo menos, das multidões.

Mas de uma coisa tinha certeza: por trás de tudo não estaria a Rede Globo, nem a Veja, nem aquelas “elites”, de que falam com tanta certeza Lula e outros condiottieri das esquerdas. O buraco deve ser realmente mais para baixo. Nietzsche é quem explica, não exatamente Marx ou Noam Chomsky.

E a calmaria dessas encostas das Taboquinhas me indica a pergunta: haveria vida inteligente em algum lugar? Não, amigos, não estou preocupado com o fato de termos, ou não, companhia em outros planetas ou galáxias… Meus pés estão no chão – e no Brasil. Refiro-me ao verdadeiro exílio da inteligência que ora nos assola, com esta inenarrável disputa (ideológica ou fisiológica, nem sei…) entre coxinhas, de um lado e petralhas de outro; camisas amarelas contra o resto… Será que não dá para refinar os argumentos? Usar um mínimo de racionalidade e bom senso? Respeitar a inteligência de quem prefere escapar de facções? Não existiria um caminho do meio para o que mobilizar tanto as energias dos cidadãos atualmente? De um lado, só erros; do outro só acertos – ou vice-versa? Confesso que estou farto! Acho que vou me exilar dos jornais e da internet. Mas em todo caso prefiro acreditar que exista vida inteligente alhures – ou em outra era, ainda por ser alcançada por nós.

Minha avó Dodora tinha uma curiosa expressão para desqualificar a prosa de alguém, por repetitiva, sem substância ou “repertório”, como ela também dizia: conversa de Jerônimo Fogueteiro. Talvez tenha trazido isso de Varginha, no Sul de Minas, onde passou parte da infância. Pois é, quando abro os jornais atualmente fico com a sensação de que o tal mestre de fogos de artifício está hoje redivivo …

Muito falatório dos políticos, mas escassa relevância e menos ainda, consequência! De duas uma: ou está faltando matéria para a mídia ou o que acontece está realmente começando a se repetir, como naquele filme do Dia da Toupeira (título apropriado, aliás, para a realidade brasileira). Ou uma terceira: o nível moral e intelectual do país chegou definitivamente ao volume morto. Mídia, políticos, cidadãos – alguém deve estar errado nessa história… Mas uma coisa é certa: o pirotécnico Jerônimo triunfou!

Meu voto no PT

Votei em Lula quatro vezes, convictamente, aliás. Com Dilma, a comandanta, não embarquei. Não sei se votaria no Grande Timoneiro outras tantas vezes, a não ser para derrotar algum desses energúmenos alçados ao topo da cadeia alimentar da política por obra e graça desse eleitorado ignaro e dotado do mais profundo analfabetismo político.

Como me lembro da posse da Lula, em 2002; quantas esperanças, meu Deus! Mas não se pode negar as boas obras do PT, nas políticas sociais, principalmente. Talvez tenha repetido a velha máxima do “rouba, mas faz”. Mas penso que teve gente que roubou (e permitiu que se roubasse) muito mais. A política brasileira está cheia de santos do pau oco.

Mas o PT criou o Programa Mais Médicos, apregoarão os militantes. A pergunta que não quer calar é: mais? Do mesmo? Da mesma forma, a questão nunca esclarecida da sustentabilidade do programa, até que a peste bolsônica passou a caterpillar por cima. Mas acho que no geral os resultados do PMM foram positivos, no mínimo por ter representado um pontapé na porta da corporação médica. O que os doutores brasileiros abominam é motivo para eu aplaudir. A discussão sobre a interiorização e a periferização da medicina ganhou qualidade e profundidade. Eu coloco sem sombra de dúvida o Mais Médicos entre os acertos dos governos do PT.

Teve também o outro lado da moeda, não se pode negar, por exemplo: quem não foi impedido de trabalhar, viajar ou simplesmente trafegar em sua cidade por força de obstrução nas vias públicas por “movimentos” de todo tipo? Isso o PT e seu Guia Espiritual não inventaram, certamente, mas foram extremamente lenientes, transformando o cotidiano de muitos cidadãos em um inferno. Muita gente morreu dentro de ambulâncias por causa disso; muitas consultas marcadas com meses de antecedência foram perdidas. O grevismo de muitas categorias, quase sempre de servidores públicos, afetando setores essenciais de acesso a uma vida social digna, na saúde, na educação, na segurança pública, na previdência social, prejudicou a todos, mas principalmente aos menos favorecidos política e economicamente. Enquanto isso, vimos a polícia, devidamente sindicalizada, como mera expectadora dos acontecimentos, longe de garantir o direito de ir e vir das pessoas. Para outros, pretos e pobres, por exemplo, se prendia e se arrebentava. O problema, longe de ser atenuado, foi cultivado em banho-maria pelos governos e pelos seus estimados associados, os sindicatos de todo naipe (quando isso lhes interessava).

Ah, as greves… Quando fui professor, seja na UFU ou na UnB, nunca votei a favor de greves. Fui discriminado por isso, principalmente em Brasília, onde a ideologia tem mais “pega”. As greves, penso eu, foram uma invenção do século XIX, naquele tempo em que Capital era Capital e Trabalho era Trabalho. Marx, profeta dessa era, foi capaz de explicar tudo, fazendo puxarem o trem da história as locomotivas da luta de classes, da contradição entre capital e trabalho e da luta opressores x oprimidos. Mas parece que alguma coisa mudou nesta gangorra e os sindicalistas do serviço público modernos não percebem. Primeiro, porque não se trata de alguma luta de capital contra o trabalho, mas sim envolvendo a produção de ações sociais cujo foco são os cidadãos.

Do outro lado da mesa, no setor privado, o Capital, animal covarde, se transnacionalizou e já não se sabe em que plagas reside, e nem como ofendê-lo de fato. Assim é que as greves, como aquelas tão frequentes até outro dia mesmo e que me afetam diretamente como afetam a milhões de pessoas, direta ou indiretamente, mostram dois focos principais: primeiro o serviço público, onde a estabilidade é garantida, as aposentadorias são melhores, as horas de jornada são menores e os dias parados em greve não costumam ser descontados; depois as empresas cujos trabalhadores são mais organizados e usufruem de melhores condições laborais. Com efeito, ainda não vi greve de desempregados ou de pessoas vinculadas à informalidade econômica, que se contam às dezenas de milhões no Brasil – e estes são os verdadeiros desprotegidos.

Ainda falando do Capital: quando vejo algumas pessoas, geralmente comerciantes ou prestadores de serviços, reclamarem de Lula ou do PT e inclusive terem votado em Bolsonaro porque a esquerda não lhes trouxe reais benefícios econômicos, gosto de lembrar a eles: vocês nunca ganharam tanto dinheiro como dos anos Lula. Por acaso foi pouco, queriam ainda mais?

Minha implicância com o que chamo de leniência dos governos petistas se refere, essencialmente, à falta de contenção daqueles que bloqueavam estradas e avenidas, como aos que invadiam prédios públicos, com os vândalos de diversas naturezas. Eu refugo e me coloco fora disso e digo em alto e bom som, sem medo de ser politicamente incorreto: sou contra! Conferi ao Estado e assim me foi garantida pela antiga ideia do contrato social a prerrogativa de usar em meu nome a força que inibe os inimigos da democracia e que me garante, entre outras coisas, o direito de ir e vir, além da preservação do patrimônio coletivo. E quero mais é que o Estado corresponda às minhas expectativas e deixe de lado a complacência que não tem correspondência em nenhum país democrático do mundo. Mas a verdade é que até os seixos rolados do ribeirão Taboquinhas e o cascalho das estradas do Cerrado sabem dessas coisas.

O PT tem algo a ver com isso? Diretamente, talvez, pouco. Mas penso que seus dirigentes e intelectuais incentivaram ao longo de seus governos uma lógica de militância, que não tem muito a ver com o interesse coletivo real. Isso em si poderia ser um fato auspicioso, que nos remete a exemplos históricos espetaculares. O problema é que tal lógica divide o mundo em pedaços e, a partir daí, confunde “o mundo”, em sua totalidade, com cada “pedacinho” que se cria a partir dele… Essa turma não costuma admitir meios-termos e nem ver, ainda, o “outro lado” que existe em quase tudo que seja obra humana.

Mas tudo bem, não dá para condenar o PT em um cenário onde inexistem santos verdadeiros. Tucanos, por exemplo, já tiveram que engolir de seu próprio veneno, nas peripécias do Rodo Anel e do metrô se São Paulo, suas contas da Suíça. Os da camisa amarela ainda serão julgados pela história, embora isso, talvez, ainda vá demorar, para nossa infelicidade. Partidos políticos já não têm nenhuma importância no Brasil; estão atordoados, chegam sempre atrasados e nem têm o que dizer, silenciados pela vaia geral. O que estava para vir – e veio em 2018 – vai se mostrando cada vez pior em relação ao que se teve em 2016. Por enquanto, é tempo de missa de corpo presente. Depois virá o sétimo dia. Depois, ninguém sabe.

O que já está para lá de ruim poderia ficar muito pior? É esperar para ver… A porteira continuará aberta para Moros e outros salvadores da pátria?

Eu escrevi essas coisas entre 2016 e 2017, com expectativas medrosas de que o depois poderia ser pior, como acabou acontecendo. Como dizia Brecht: infeliz do povo que precisa de heróis. Principalmente quando escolhe um herói estupidamente equivocado…

Perplexidades e incertezas

Problemática, febril e também repleta de perplexidades e incertezas – pelo menos por parte de quem é capaz de tê-las, como eu – assim têm sido a última quadra da vida nacional os últimos anos. De minha parte, digo que nas Taboquinhas eu poderia não me sentir afetado e nem ficar tão perplexo. Mas isso tem sido impossível…

Por exemplo, quando vejo cenas daquelas pessoas nas ruas, de camisa amarela, me vem à cabeça a canção de Chico, Pelas Tabelas (Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela / Eu achei que era ela puxando o cordão). “Ela”, quem, afinal? Um objeto de amor frustrado, puxando um cordão de alegria, enquanto o pobre apaixonado morre em sua tristeza? Que nada! Parece haver algo anormal neste carnaval em que panelas são batidas enquanto um homem “olha” as favelas. Sobre este é caso de se perguntar: será membro de alguma milícia? E o povo pedindo a cabeça de alguém, que história é essa? “Ela”, na cabeça de Chico, deveria representar a esperança de tempos melhores, mas ele logo se vê enganado. Pelas tabelas se vê que o desejo daquelas pessoas nas ruas, o objeto real de suas aspirações, tem outro sentido. “Ela” definitivamente não é a democracia, a liberdade, a laicidade do Estado, a aceitação de quem pensa ou é diferente. A realidade brasileira está mostrando coisa bem diversa.

E olhando daqui da minha torre de atalaia, não propriamente as favelas, mas as ruas comuns do país, na minha incerteza ainda faço perguntas que se recusam calar, com respostas que ninguém dá, embora certamente alguns desconfiem. O que desejam, afinal, esses movimentos que fazem da infâmia sua arma, que ameaçam a Justiça, que querem se impor no grito, se não na base do trabuco? Aí, minha perplexidade só aumenta e no diálogo constante com meus cães e nos gestos das árvores tortas (mas corretas) do Cerrado não obtenho, também, nenhuma resposta.

Um texto que me “aconteceu” em 2016, após o impeachment de Dilma, a que chamei de Diário de Cândido Inocêncio, em referência a um personagem de Voltaire. Como diria Elio Gaspari, Cândido é um perfeito idiota político. Mas acho que ele antecipou as coisas que vemos hoje, esta turma de camisa amarela nas ruas, por exemplo.

Vejam só: <<Ah, acordei tão bem hoje! Depois desse domingo inesquecível percebo que tudo vai mudar em meu país! Agora sim, as coisas vão acontecer. Vamos ficar livre da corrupção e, de quebra, do comunismo. Este último eu não sei bem o que é, mas dizem que é a religião de certas pessoas que comem criancinhas e que tem alguns defensores no Brasil, vestidos de roupas vermelhas e que geralmente usam barbas e andam de bicicletas em faixas pintadas de vermelho, só para eles… Felizmente tem aquele deputado valentão que é contra… E também um sujeito que já morreu, mas que tinha um nome inspirador: Brilhante! Obrigado deputados! Obrigado Cunha! Obrigado Tiririca! Devo muito a vocês. Grato para sempre. Fiquei feliz por mim, por vovó e vovô, por minha mãezinha, meus irmãos, meus primos, meu cachorro, meu papagaio e até mesmo pelas baratas de minha cozinha e pelos percevejos de minha cama! Sim, sim, sim!>>

Já naquele momento, ao longo de 2016, eu temia pelo aparecimento de um cadáver (ou talvez mais de um) nas ruas que já se enchiam, embora com gente em camisas não apenas amarelas, mas de cores variadas. Isso seria combustível que faltava para se somar ao fósforo acesso da intolerância política e da incivilidade geral que infelizmente tomavam conta do Brasil. Se essa morte ocorresse entre as hostes contrárias ou favoráveis o estrago seria o mesmo, com o governo – qualquer governo – sendo acusado de ditatorial. Seriam procurados culpados entre os “fascistas” (palavra que voltou à moda em dias recentes) ou entre a “polícia assassina”. Mas o fato é que havia uma centelha prestes a ser disparada, seja por parte da turba de fanáticos de camisa amarela, seja das polícias, cada vez mais parecidas com as milícias, “olhando” não só as favelas, mas as cidades como um todo. O Brasil, já tão distante da normalidade civil, certamente entraria em chamas – e a questão não era “se”, mas “quando”, como disse um ilustre intelectual, filho do atual Presidente da República. E o pior: não haver no país alguma liderança moral capaz de ser ouvida – para nosso azar, o Papa Francisco é argentino. Chegáramos, creio, a um ponto de não-retorno. Confesso, apud Drummond, que desta hora tive e tenho muito medo

Mas o pano de fundo de tudo isso era apenas um ovo em estado de choco. De meu poleiro nas Taboquinhas eu apenas suspeitava disso, pensando ser apenas um sonho ruim, um pressentimento que não se concretizaria. Mas, que nada!

Uma pitada de minha visão gauche, má conselheira em clima de perplexidades e incertezas. Corria o ano de 2017 quando li nos jornais que a Gol iria indenizar, por “danos espirituais”, no valor de quatro milhões de reais, os indígenas Kaiapós, supostamente prejudicados pela queda do avião da empresa, em Peixoto de Azevedo-MT, em 2006. Eles se sentiram prejudicados porque naquelas terras onde morreram tantas pessoas ficaram impedidos “espiritualmente” de caçar, pescar e plantar. Isso me faz lembrar dos índios ou supostos índios que ocupavam terras na expansão Noroeste de Brasília, para os quais também se alegou motivações “espirituais” e “sagradas” para que não fossem retirados, embora para outros que estavam por ali, catadores de sucata igualmente pobres, não houvesse qualquer contemplação. Isso seria justiça de fato ou reles manobra de advogados chicaneiros? Aliás, convenhamos: dano espiritual de verdade foram as quase duzentas vidas perdidas, o sofrimento de parentes e amigos, o desgaste homérico de quem esteve lá para recolher corpos…

E vimos também, por esta ocasião, aqueles sujeitos – ilustríssimos desconhecidos até então – que agrediram Chico Buarque numa rua do Leblon. Famosos agora, não é? Aliás, estamos em tempos de gente famosa. Ou melhor, gente que quer ser famosa a qualquer custo. Gente obscura, mas que se alimenta de grandes pretensões. Gente que não sabe de nada, mas se julga a reencarnação de Sócrates ou Platão. Convenhamos: parece que há algo de podre neste país… Chico, mesmo que se discorde dele (o que não é o meu caso), é uma pessoa pública, sujeito notável, um patrimônio verdadeiro do nosso pobre país, capaz de mostrar sua cara à luz do dia. Já seus agressores, gente totalmente ignota e ignara, que percebe, num lampejo, que agredir alguém realmente famoso é a melhor maneira de alcançar aqueles quinze minutos de fama de que falava Andy Warhool.  E só assim sai de obscuridade e da insignificância a que está condenada. Dizia Alberto Roberto, personagem de Chico Anysio, ator canastrão e medíocre, que se julgava famoso, rei da cocada, príncipe das artes cênicas, ao se dirigir a interlocutores, geralmente artistas famosos (e reais) do teatro, do cinema e da TV: você é o famoso quem? Nada melhor para caracterizar estes frustrados que se realizam em achincalhar pessoas de valor, como Chico Buarque. Sabe-se lá se a sanha desses pigmeus de shopping center vai passar…

Só Deus para nos ajudar, Ele que realmente está em toda parte. Haja vista as citações abundantes que nossos políticos fazem de Seu Sagrado Nome. O fato é que vivemos hoje no País, uma desagradável febre de imposição de fé aos outros. Isso não só é contra as leis como está em desacordo com as normas históricas de convivência entre verdadeiros cidadãos. Parece até que alguns grupos desejam fazer do Brasil uma república balcânica, um Irã, uma Irlanda, um Alabama, lugares de guerra étnica ou religiosa permanente… Nem Deus, nem seu Filho – creio – ficariam felizes ao ver seus nomes tomados em vão dessa maneira…

É que nos falta Educação… Mas ela está também pelas tabelas. Penso que crash da educação no Brasil tem algo em comum com acidentes aéreos, como este que dizimou em novembro de 2016 a pobre equipe de futebol da Chapecoense, ou seja, não adianta querer explicá-los por causas simples e isoladas, mas sim por uma série de fenômenos que acontecem em rede. Os professores e seus sindicatos colocarão a culpa nos governos (quaisquer governos); as famílias dirão que a culpa é dos professores e das escolas; os governantes, que sempre acham que fazem tudo pela educação, lamentarão que isso não seja reconhecido pelos professores, mais interessados em greves; já os estudantes talvez não saberão explicitar o motivo exato, salvo mencionar vagamente a tal “PEC”, que não sabem o que é, mas de toda forma indicam o remédio para combatê-la: invadir as escolas…

A turma da direita dirá que a culpa é dos governos petistas, do método Paulo Freire utilizado e das escolas partidarizadas. Já os da esquerda talvez digam que estava tudo indo muito bem até que veio este governo golpista e decretou a extinção da educação no Brasil, através dessa “PEC” fatal… Mas no meu entendimento, o avião da educação brasileira foi ao chão por variados motivos: governos que não valorizam a educação; famílias que não a colocam no devido lugar de honra na lista das prioridades domésticas; estudantes impregnados pelo consumismo e pela rebeldia-sem-causa peculiar aos tempos sombrios em que vivemos; professores que, no fundo, se cansaram de tudo e gostariam de ter outra vida, longe das salas de aula (sem perder as prerrogativas da profissão, claro); dirigentes educacionais eleitos ou escolhidos mais pelo interesse corporativo do que pelo compromisso com a educação; sindicalistas partidarizados que por qualquer motivo estimulam e obtêm greves repetidas, das quais resultam “reposições” que se assemelham a verdadeiras salsicharias (se alguém visse, de perto, como funcionam, não aceitaria seus produtos).

Pausa de refrigério: tenho o privilégio – insisto: o Privilégio verdadeiro – de ter filhos – todos, sem exceção, de Daniela a Sophia – que não me dão e nem me deram nenhum trabalho e preocupações em seu contato com o sistema educacional, item de política pública essencial à vida, ao sucesso individual e à cidadania.

Uma pitada a mais em minhas perplexidades: Olimpíadas, 2016 (ou Copa de 2014, tanto faz). Para que haveriam de servir mesmo? Dizem que são festas de congraçamento dos povos, rara oportunidade de a humanidade esquecer suas desavenças. Talvez pensassem assim os gregos antigos, mas o que se vê na atualidade são disputas políticas, jogos de vaidade, competitividade visceralmente exacerbada, oportunidade para ameaças e atos de terror e, principalmente, rolagem de dinheiro, muito dinheiro. Estão aí a Nike e a Adidas que não me deixam mentir. Ah, sim, sem esquecer das empreiteiras, das empresas de comunicação, de prestação de serviços de segurança, dos eternos políticos movidos a propinas. Olim-piadas – de muito mau gosto, aliás.

E para não dizer que não falei de futebol. Brasil um, Alemanha, sete. Quem sabe, poderíamos descer deste salto “sete” e sorver algumas lições? Primeiro, a de que futebol é como a vida: se você faz por onde e cumpre a sua parte no trato do negócio, suas chances de sucesso aumentam. Segundo que trabalhar em equipe – palavra tão cara ao mundo do futebol – não é apenas estar juntos aqui e ali, sob as ordens de um venerável sinhozinho. É também uma questão de planejamento e de cumprimento de metas – e isso nos remete à blitzkrieg germânica, de novo. Perseverança e maturidade também fazem bem e isso não tem nada a ver com o chororó e o estrelismo individualista que marcaram a passagem desse time, que a história sepultaria se não fosse tão “inesquecível”.

Ideologia: eu quero uma pra viver

Política, polícia, governo, esquerda, direita, corrupção, movimentos sociais, educação, saúde, sexualidades. Como é que se explica, ideologicamente, o Brasil? Felizmente não sou daqueles – aliás, a maioria das pessoas sensatas assim o faz – que acham que Ideologia é coisa que obscurece a visão; ou então que só a vê nos outros, não em si mesmo.

O Brasil mais parece um animal mitológico de muitas cabeças. Cada uma pensando ou agindo diferente da outra. Se não, vejamos o momento atual (2016, quando escrevi isso): governo ilegítimo; sociedade amorfa; Congresso desacreditado; Judiciário desmoralizado. Que combinação! E tem mais: Polícia e Ministério Público sem controle social de nenhuma espécie, agindo autonomamente, quase sempre em busca da luz de holofotes. Uma imprensa facciosa, à destra e à sinistra.

O Judiciário merece capítulo especial: além de cego, é surdo e mudo (a não ser quando lhe convém botar a boca no trombone, em questões salariais interna corporis, por exemplo). Diante de algo assim é que proliferam as mentalidades daqueles juízes e promotores de primeira (e única) instância, incluindo ignotos delegados, cada qual querendo consertar a pátria à sua maneira, ao arrepio da lei e, principalmente, do bom senso.

Direita ou esquerda: quem teria a resposta? Sempre me considerei de esquerda. Desde meus tempos de Colégio Estadual e quase-militância na AP, nos anos 60. Mas hoje, aliás, há vários anos, ando pensando: a Esquerda tem futuro? Ou, pelo menos, tem cura? Já teria cumprido seu papel histórico? Não seria possível pensar em novas forças e novas maneiras de se fazer política? Instâncias onde as pessoas aprendessem a pensar, não a repetir chavões de lideranças; onde a autocrítica fosse bem vinda e não interpretada como sinal de fraqueza e entrega de pontos ao inimigo; os dogmas rejeitados em troca das evidências; a sensibilidade ao sofrimento dos mais pobres e às vítimas dos totalitarismos não fosse abandonada ao sabor das circunstâncias eleitoreiras ou de composições escusas; a vaca sagrada da “governabilidade” pastasse longe; dilapidar o patrimônio público não fosse justificado por razões utilitárias “pela causa”? Finalmente, que não fosse alguma igreja em que somente os seus fiéis são dignos da salvação.

Indo além: que importância e peso poderiam ter, na atualidade do mundo, os milhares de sindicatos ditos “de esquerda”, supostos defensores dos direitos (e privilégios também) dos trabalhadores, num cenário em que a realidade impõe os mais pobres – os neo-pobres – justamente aqueles que nem sabem o que é ter emprego e direitos trabalhistas.

Já os governos, ah os governos… Eles são vistos como a verdadeira “Geni” do processo de deterioração da educação, da saúde e de tudo mais no Brasil. Na Educação, como em outras questões ligadas a políticas públicas malsucedidas, a questão central é a de reconhecer uma cadeia de responsabilidades, ao contrário da prática habitual da fulanização, do mais do mesmo, do apagamento tardio de incêndios. Os elos de tal cadeia são variados, é bom lembrar: políticos, dirigentes eleitos, gestores, mestres, alunos, sindicatos, sociedade. O famoso Conde Afonso Celso, já declarara: uma boa dosagem de vergonha na cara não seria também necessária? Tal ingrediente, convenhamos, é bem mal distribuído por aqui. Ou, quem sabe, este é um componente essencial da ideologia? Vergonha na cara podendo significar acreditar em algo, defender ideias, ter convicções, argumentar racionalmente, ouvir e ponderar sobre o que os outros pensam.

Mas, bah! O que fazer deste eterno acordo de elites que nos assola no Brasil. Por exemplo, fazendo com que a justificativa de combate à corrupção seja usada tão somente para camuflar e escamotear as prerrogativas do estado de direito, que pode não ser lá essas coisas no Brasil, mas é sempre melhor do que uma ditadura. E nós que já vivemos os anos de chumbo do governo dos milicos começamos a perceber que existem formas mais sutis de ditadura, por exemplo, esta que vem disfarçada de judicialização, de ritos sumários, de “convicção”, substituindo investigação e provas, de shows midiáticos protagonizados por juízes e promotores, Moros e Dalagnois, de leis draconianas que, com a justificativa de combater a corrupção, retiram dos cidadãos, sejam eles bons ou maus, alguns direitos fundamentais.

Alguém já disse: as democracias já não morrem mais por tiros e explosões, mas em simples suspiros. A situação atual no Brasil me faz lembrar a reflexão de Vargas Llosa sobre as décadas do domínio do PRI no México: é a ditadura perfeita; tem tudo de democracia – Congresso, Judiciário, eleições, instituições diversas, mas está longe disso, sin más. No caso, com a força daqueles que, em nome da Justiça, cometem as maiores injustiças. Enquanto a turba aplaude.

E a polícia, meu Deus! Enquanto escrevo já deve ter uma dezena ou mais de pretos pobres sendo eliminada no país. Sem tergiversações: existem poucas instituições violentas e corruptas como a polícia brasileira. Mas o principal adjetivo para ela, creio, ainda é pouco utilizado: em sua versão civil ou militar, a polícia é, acima de tudo, despreparada e incompetente, para dizer pouco. Mas mesmo assim, não custa nada exercitarmos a busca daquele famoso “outro lado das coisas”, como sempre nos é indicado pelo bom senso. Assim, poderia também servir de mote para reflexão: haveria um lado bom na polícia, mesmo numa instituição tão criticada como ela, no Brasil?

É sempre bom lembrar que polícia faz parte de um processo civilizatório, aquele tão decantado Contrato Social, que retirava do cidadão comum o direito à violência – que ademais transformaria a vida social em irremediável todos contra todos, para não dizer “nós” contra “eles”, ao gosto dos grupos que se revezam no poder. A boa prática civilizatória manda, gostemos ou não, entregar este atributo, aliás, sob a forma de monopólio, ao Estado. Aí vem o Estado, ou sua polícia (dá no mesmo) e comanda o morticínio de pretos e pobres.

Para mim, a questão central não é a de ter ou não ter polícia; nem mesmo a de uma polícia ruim ser pior do que ausência de polícia. Temos que ter polícia boa; e ponto. E polícia boa é aquela que defende os cidadãos dos atos de outros cidadãos, ao mesmo tempo em que defende o Estado, principalmente quando este é lesado materialmente, no que devemos considerar que o patrimônio estatal é patrimônio do conjunto dos cidadãos. Mas nada que se aproxime dessa polícia truculenta e incompetente, moldada pelo modus operandi da ditadura militar, que tratava os dissidentes e mesmo os cidadãos em geral como meros “inimigos” da lei e da ordem.

Certa vez, quando meu filho Flavinho tinha dois ou três anos de idade, eu percebi que ele falava de polícia com um ar de temor. Certamente uma influência das babás – não era para menos – as pessoas da periferia dominam este assunto. Aproveitei um momento em que passeava com ele pela nossa quadra e me aproximei de uma dupla de PM, para puxar conversa e mostrar a ele que eles eram gente como nós. Me arrependi, porque os dois meganhas não só me negaram atenção, como foram incapazes de dizer a ele qualquer palavra amistosa. Para eles nós éramos “os outros, os inimigos, os suspeitos”, nada mais, gente a quem a missão dada era a de desconfiar e, se facilitasse, prender e arrebentar.

Se a polícia é assim, a sociedade às vezes reage parecido. Sabem aquela história de invasão, digo ocupação, de escolas, comum em meados da presente década? Vou dizer o que penso, mesmo correndo o risco de infringir todos os artigos, parágrafos e incisos da Lei do Politicamente Correto. Se invadir fosse solução por que não ampliar tal tipo de ação? Invadamos os hospitais e postos de saúde, que sabidamente não funcionam. E da mesma forma que os atuais invasores, vamos colocar os pacientes para gerir a instituição e, quem sabe, realizar os atendimentos de emergência e as cirurgias. No transporte público vamos entregar a direção dos veículos, dos taxis e até do metrô, às mãos dos ilustres passageiros. Polícia? Então, para quê polícia? Deixemos que os cidadãos mesmo se vigiem e se punam…

E que tal se também esses mesmos cidadãos cuidassem da distribuição de renda, ocupando as delegacias da Receita Federal? Ah, e que não se esqueçam do Palácio do Planalto e das torres & cuias gêmeas da Praça dos Três Poderes.

Hobbes, do Leviatã e o tal Rousseau, do Contrato Social, não sabiam mesmo de nada! Aux armes citoyen! Parece o lema das manifestações referidas acima – que que trazem desdobramentos ainda hoje, anos depois. O que é mais assustador é assistir, como ocorreu e pode acontecer de novo, até mesmo diretores de unidades escolares defenderem as tais invasões, explicitamente. É uma questão de direitos, bem o sei. Mas indago: e o direito de quem quer estudar ou dar aulas, para não falar dos pais que têm expectativas diferentes em relação ao verdadeiro papel da escola onde seus filhos estudam. Não me importa ser politicamente correto, prefiro ser responsavelmente correto.

Mas o certo é que depois veio a pandemia, as escolas foram totalmente esvaziadas, ninguém fez movimentos para reocupá-las e apesar de tudo vida seguiu, placidamente, como geralmente acontece neste país grande, bobo e, acima de tudo, pobre de espírito.

Não acabou ainda minha cota de bizarrices politicamente questionáveis! Homofobia de fato existe. Mas o que dizer da “fobia” contra pobres, contra negros, contra os diferentes e divergentes em geral, que é real em nossa sociedade? A meu ver, a sociedade brasileira não é homofóbica; é violenta! Ou pelo menos compactua serena e plácida e cordialmente com a violência. Há uma lei contra a homofobia, mas para as outras formas de “fobia” haveria, para cada uma delas, a necessidade de um pacote normativo específico? Não existiriam leis suficientemente abrangentes na penalização da violência, seja ela contra brancos ou negros; ricos ou pobres; gente da zona sul ou da periferia; hetero ou homoafetivos; jovens ou velhos; mulheres ou homens; sulistas ou nordestinos etc?

O problema é que, por algum motivo, o poder de vocalização de alguns grupos é imensamente maior do que o de outros – e isso nada tem a ver com a dimensão quantitativa da “minoria” a que pertencem.

Quem me dera abranger toda essa mixórdia num único e vasto sistema de pensamento. Realmente, a ideologia é necessária para quem pensa seriamente na vida, na sua e na dos demais.

Da intolerância religiosa

Existiria intolerância religiosa no Brasil de hoje? Assunto que parecia morto nas dobras da História de repente volta à tona. Não sem motivos, pois aqui e ali eclodem casos concretos. Isso, forçosamente, nos leva a tentar fazer comparações com o racismo. No Brasil, até mesmo por interpretações apressadas e equivocadas da obra de Sérgio Buarque de Holanda, muito se fala daquela suposta “cordialidade” inata ao brasileiro. Na questão racial, entretanto, nada mais falso. É nossa maneira de dizer que não somos exatamente racistas, mas preferimos que os não brancos reconheçam e permaneçam cientes e zelosos daquela especial posição que a cor da pele lhes impõe, ou seja, no andar de baixo.

Na questão religiosa a questão, a meu ver, é bem outra. Essencialmente, somos um país tolerante no quesito das crenças. Nossa formação miscigenada luso-negra-índia algum benefício nos terá trazido. É claro que ao longo de nossa história, judeus, maçons, protestantes e praticantes do candomblé, sentiram o peso do catolicismo ibérico e inquisitório. Mas isso foi no passado, já remoto.

Hoje, contudo, intolerância religiosa tem nome, cpf, fator rh e endereço… Seu objeto são as religiões afro e seus agentes são, quase sem exceção, membros da miríade de igrejas-negócio neopentecostais que se espalham pelo Brasil a fora. Poderosíssimas, por sinal, detentoras até mesmo de redes de TV e de uma “bancada evangélica” no Congresso Nacional. Gente que prega, além da prosperidade (para quem contribui com o dízimo), teses tão arcaicas como a negação do casamento homoafetivo, a proibição do aborto, o cerceamento da liberdade de crença, a rejeição aos cultos Afro, ao mesmo tempo que aderem ao governo – qualquer governo – desde que lhes sejam contempladas as crenças e ideologias, além das facilidades fiscais, é claro. Principalmente no que diz respeito à manutenção do status quo e ao culta da prosperidade – dos pastores e de seus representantes.

E o pior, nem é só Bolsonaro que baba para esta gente. É bom lembrar que Dilma, Alckmin e outros não só participaram de tais cultos “neo” e inclusive compareceram alegremente à inauguração salomônica do grande templo da Igreja Universal em São Paulo, monumento erigido a uma suposta “teologia da prosperidade”, mas a meu ver, principalmente em reverência ao mau gosto.

Bem fazem os portugueses que parecem ter proibido à seita de Edir Macedo utilizar o nome de “Igreja” no país. Pelo que vi por lá seus locais de reunião da IURD são denominados apenas “centros de apoio”, ou algo assim.

Que Deus (não o deles) nos ajude!

Islamofóbico, eu?

E por falar em religião, tenho visto pessoas, digamos progressistas, como alguns amigos meus (por suposto, de esquerda, mas cabe lembrar que este termo está muito desgastado), tentarem justificar os atos de terror perpetrados por fiéis do islamismo como resposta compreensível, dadas as muitas perversidades que as chamadas potências ocidentais, Israel incluído, fizeram e fazem contra os mesmos ao longo dos séculos. Divirjo: acho que não tem nada de compreensível nem de justificável nesses atentados. Não creio ser necessário ter parentes mortos no Bataclan de Paris, na Universidade do Kenia, nas areias do Sinai, nos cafundós da Nigéria ou sei lá onde mais para não aceitar tal raciocínio.

Os atos violentos do autoproclamado “Estado Islâmico”, hoje em decadência, felizmente, já foram muitas vezes classificados apenas como gestos de seguidores mais radicais de certas passagens do Corão, de fundo milenarista, que anteveem o fim do mundo para breve, sentindo-se assim na obrigação moral e religiosa de antecipá-lo. Na minha opinião, longe de serem radicais sinceros, eles não passam de fanáticos, delinquentes, psicopatas, assassinos. Dar nome correto às coisas é um bom começo para contestá-las. Eu sinceramente penso que o terrorismo islâmico é de fundo cultural, está impregnado nas civilizações que cresceram e frutificaram à sombra do Corão. Em toda parte e em toda a história deles o que se vê é: xiitas x sunitas; clericais x seculares; baath x monarquias; persas x árabes; “nós” x “os outros”; “fiéis” x “infiéis”. Eles se constroem no combate, na perseguição aos inimigos da fé, na desconfiança em relação a quem lhes é diferente. E como matam em nome disso!

Não nego que o mundo ocidental já cometeu e continua cometendo muitas barbaridades. Não o defendo, absolutamente! Mas o terrorismo islâmico é muito mais fruto de uma cultura religiosa perversa do que das intervenções colonialistas. O EI não precisou de bombardeios americanos ou russos para exercer seu especial primado de violência delinquente. Neste ponto, seria interessante indagar quem matou mais até hoje: as lutas tribais islâmicas ou as invasões e intervenções ocidentais?

Cabe ainda indagar: em que nação islâmica, onde fé e política são inseparáveis, se respeitam os direitos humanos? Onde as mulheres são tratadas como seres portadores de direitos? Onde a liberdade de expressão e crença é respeitada? E mais: em quais dos países islâmicos, entre os quais estão os mais ricos do mundo, houve distribuição de riqueza, mesmo mínima? O Irã é considerado o mais democrático dos países islâmicos – dá para imaginar o resto?

Aqui entre nós, a civilização ocidental tão odiada por eles, ainda é mais aceitável do que aquela que se desenvolveu debaixo das barbas do Profeta. Mesmo que lado de cá tenha produzido um Hitler, um Stalin, um Milosevic, toda uma corja de trumps & orbans & bolso-ignaros, além da inquisição e do consumismo desenfreado, foi debaixo da cultura do Ocidente que foi possível amealhar para a Humanidade uma série de conquistas, como os direitos femininos; a separação entre Religião e Estado; o estado de bem estar social; os direitos humanos e coletivos; a música de Bach, Mozart e Beethoven; os Beatles; o respeito às crenças e a liberdade de expressão.

Os nossos tiranos, pelo menos podem ser considerados exceções; os deles (Saddam, Al Assad, Mubarak, Gadafi, Khomeini, Ibn Saud, Ahmadinejad, Erdogan e outros), são parte da paisagem

Se há uma lição que o Ocidente já devia ter aprendido, em sua faina de “consertar” o Oriente Médio, é a seguinte: o santo remédio da democracia não funciona ali. Com efeito, é no caos quase permanente das lutas tribais que eles encontram seu equilíbrio. Assim, melhor deixá-los entregues ao seu destino, no qual tiranos nada esclarecidos fazem parte da vida social normal e representam mais do que um problema, a solução para o tribalismo que carece de tais despotismos para não se fragmentar e se danar de vez.

Nada de diplomacia, negociação ou relativismo cultural. Que se dane o politicamente correto, tão ao gosto do Ocidente (porque lá isso nunca vigorou…). Nada disso funciona para eles. Infelizmente a melhor solução para os fanáticos psicopatas do EI é facilitar-lhes o encontro com aquelas 40 virgens que lhes prometeu o Profeta. E que façam bom proveito! Maktub!

Mundo que não muda, só vai ficando piorzinho…

Disse Joao Guimarães Rosa: o mundo não muda nunca, só de hora em hora piora. Vale para todos os Sertões, claro, mas é coisa especialmente presente em certas partes do Planeta. Da Síria ao Alabama; de Israel à Rússia; da Noruega à Turquia; do Afeganistão ao Anglistão; DE Beirute a Gaza; do Trumpistão ao resto do mundo – sem esquecer do Brasil, claro…

Para começar: aos que deploram, como eu, os mísseis americanos atirados sobre a Síria e outros lugares, lembro: tenham também uma palavra, um adjetivo, uma lágrima que seja para os que morrem sob as bombas de Putin, sob as rajadas do Estado Islâmico, sob os foguetes e as bombas químicas de Al-Assad. E que, principalmente, entendam que nesta guerra estúpida não tem mocinhos contra bandidos e que suas principais vítimas são a verdade e os pobres civis.

Mas será que o Tio Sam deve ser realmente a Polícia do Mundo? Como produtos dos Estados Unidos da América, aprecio a música, a literatura, o cinema e outras formas de cultura. Mas é claro que nem tudo são flores no paraíso ianque, como aqueles dementes que sempre aparecem praticando matanças coletivas, que constituem quase um símbolo do país, ao lado da Estátua da Liberdade e dos arranha-céus de Nova Iorque. A riqueza, ali, como se sabe, não é para todos. Por mim, preferiria viver em um mundo que não carecesse de qualquer forma de polícia internacional.

Mas tudo acaba sendo uma questão de escolha. Entre a expansão religiosa fanática do islamismo; a avalanche econômica totalitária chinesa; a histórica e reiterada barbárie eslava; o domínio policial intervencionista dos americanos – com quem ficar? Se a escolha for apenas entre essas possibilidades, um dia pensei que preferia ficar com o policiamento estadunidense mesmo, até que surgiram Trump e o Maga, embora, de verdade, esperasse que a humanidade tome tento e um dia encontre a fórmula da convivência pacífica e respeitosa entre os povos. Não sei se viverei o bastante para isso. Desconfio que não.

O fato é que seria ótimo viver em um mundo em que não houvesse tantos conflitos étnicos, religiosos, culturais e econômicos. Um mundo sem terrorismo. Ou, pelo menos, em que não se fizessem presentes argumentos de que os homens e caminhões-bomba são apenas uma resposta aos longos anos de dominação a que os islâmicos e outros povos foram submetidos pelas malévolas potências ocidentais. Estaria justificada a matança criminosa de inocentes, como hoje acontece em toda parte, como resposta política de oprimidos, que não deixa de ser legítima? O mundo de meus sonhos, infelizmente, não é este em que vivemos.

Mas analisando bem a situação se pode ver, simplesmente, que o grosso da matança entre os islâmicos é deles contra eles mesmos. Como, aliás, sempre fizeram ao longo de muitos séculos. Russos, americanos e ocidentais em geral também contribuem para a mortandade, mas de forma mais modesta, perto do que é capaz a rivalidade tribal, política e religiosa que impera sob as barbas do Profeta. E por essa hecatombe, eu que faço parte do mundo branco, judaico, cristão, ocidental, me recuso a ser responsabilizado. Talvez um dia a história absolva a cultura e a religião islâmicas de coisas assim, mostrando que eles são pacíficos e inocentes, não partidários de violência. Que isso é coisa “apenas” de círculos mais radicais. Que são apenas povos vítimas de preconceitos e má compreensão por parte da civilização ocidental… Será que é isso mesmo? Parece longe de poder ser aceito como verdade. Enquanto isso, sinceramente, não há como confiar integralmente em tal tipo de gente.

Mudando um pouco de assunto, leio nos jornais que os analistas olímpicos especializados julgam notável o fato de que a Índia, com seus mais de um bilhão de almas, tenha um desempenho histórico pífio nas diversas olimpíadas realizadas até hoje. Seria falta de tradição esportiva? Adesão irrestrita do país a uma única modalidade esportiva, o críquete? Pobreza e pelas divisões internas extremas? Arrisco meu palpite: seria uma questão é de fundo cultural. Vai ver que os indianos, portadores que são de uma colossal bagagem espiritual, não valorizem coisinhas insignificantes, do tipo: chegar com alguns milissegundos de dianteira na corrida de cem metros ou na natação; pular dois centímetros a mais, graças a uma vara mais tecnológica que a do adversário; montar um cavalo inteligente, capaz de pulos magistrais; jogar uma bola ou um disco de ferro até certa distância; receber do júri alguns décimos de nota extra, por ter realizado uma performance acrobática de patinação no gelo, aliás, muito mais arte do que esporte e, portanto, não sujeita a notas… Enfim, para os conterrâneos de Gandhi, talvez, subir no pódio seria algo risível, que só faria sentido se fosse no plano da espiritualidade. Fazer isso apenas por ter vencido uma reles disputa entre mortais… Por Buda e por Brahma, não tem nada a ver!

Ainda girando pelo mundo… Creio que a União Europeia é, acima de tudo, um símbolo, um marco de evolução da Humanidade. Primeiro o macaco desceu das árvores, depois se fez um ser em sociedade, que por sua vez evoluiu, das tribos, às cidades e às nações. E a União Europeia representou a superação de todas essas etapas, o embrião, quem sabe, de um novo e harmônico concerto das Nações. Coisa assim só podia ter surgido mesmo na Europa, continente em que milhões perderam a vida ao longo do século XIX, exatamente porque a organização da humanidade em nações isoladas já não servia mais. Agora, a terra de Shakespeare e Engels, o país que abrigou Haendel, Marx, Freud e outros insignes membros da humanidade, engata esta marcha a ré na história. É bom olhar no resto da Europa e em outros países para ver quem se regozijou com tal feito. Entre outros, a família Le Pen, Donald Trump, os neonazistas austríacos e, certamente, os bolsonaros genéricos. É preciso dizer mais?

Ainda o Brexit. Falar em uma marcha ao tribalismo pode parecer exagerado, mas de certa forma é para isso que o plebiscito inglês aponta ao refletir a opinião não de uma minoria, mas de uma maioria pífia. Gente medrosa, xenófoba e egoísta, que teme o diferente, o estrangeiro, as conquistas sociais, os direitos das minorias. E é ruim pensar que aqui no Brasil os recentes embates dos partidários de um e de outro lado, travando batalhas que se resumem, monocordicamente, a um isso ou aquilo parecem também apontar o mesmo caminho. Em suma: o que não somos capazes de entender ou absorver, rejeitamos. Isso quando não tentamos, simplesmente, liquidar o nosso adversário. O Azerbaidjão, o Kazaquistão, o Tadjiquistão e o Afeganistão já se preparam para receber um novo membro da sociedade tribal de onde eles nunca conseguiram escapar: o Anglistão. Pérfida Albyon, como da Inglaterra se dizia antigamente…

E já que me meto a analista internacional, emendo: Noam Chomsky é demais. Linguista, filósofo, matemático e como se não bastasse tudo isso, militante de esquerda. Suas críticas à política externa e interna, bem como ao way of life dos americanos (do Norte) são poderosas; recebem respeito e admiração em todo o mundo. Nada é perfeito, contudo. Para mim, ele seria melhor ainda se afirmasse após cada uma de suas diatribes antiamericanas e antiocidentais: tudo bem pessoal, eu acredito em tudo isso que disse, mas devo admitir, também, que se tivesse nascido ou vivesse na Arábia Saudita, no Irã, ou mesmo na China não poderia estar dizendo essas coisas. Simples assim…

Tempos partidos

Entre outubro e novembro de 2018, o que era até então um assombroso presságio, se transformou em realidade. Nós, a multidão de brasileiros que amávamos a democracia, a liberdade, o Estado laico, o respeito pelas diferenças, a valorização da vida, a não-violência, as políticas sociais compensatórias e tantas coisas mais, indicadoras de civilização e de humanidade, vimo-nos abismados pela tragédia com que fomos presenteados por mais de 50 milhões de compatriotas nossos.

Eu, e tantos mais, que havíamos vivido sob uma ditadura por duas décadas e também havíamos lutado para superá-la, da noite para o dia tivemos que lidar com trevosas incertezas. Agora, porém, ao contrário de 1964, quando tínhamos em quem depositar nosso protesto e (arriscadas) ações de repúdio, o enfrentamento era de 57 milhões de eleitores, que votaram na nefasta figura. Alguns deles nossos vizinhos, muitas vezes. Preferiria usar a palavra “inimigo” para estes; adversário a gente respeita. Mas realmente penso que o voto em Bolsonaro é uma mais do uma questão de opinião legítima, mas sim de caráter.

Em uma frase só: se este projeto der certo é porque o Brasil deu errado.

Mas o que fazer com aquele amigo que votou em Bolsonaro? Em primeiro lugar, como dizia Vinicius de Moraes, “melhor não tê-los…” Mas uma vez tendo-os, o que fazer? Para esgotar logo a parte pior, como todo mundo abriga um pequeno bolsonaro dentro de si, começo por ele, usando ele contra ele mesmo. Vou conjugar e fazer valer (mentalmente…) aqueles verbos que fazem parte do vocabulário habitual do coisa-ruim, de seus filhos e demais asseclas: torturar, fuzilar, matar, perseguir, estuprar, banir, humilhar, rejeitar etc etc. Agora que gastei minha energia negativa, à maneira de quem esmurra aqueles sacos de areia usados no treinamento dos boxeadores, volto ao ponto de partida: o que fazer com aquele amigo que vota em Bolsonaro? Devo tratá-lo meramente com alguém que está usando o seu direito de ter uma opinião política? Alguém que apenas se desviou do bom caminho? Devo contemplá-lo com a ótica cristã do perdão, dando a ele o estatuto de “quem não sabe o que faz”? Deveria simplesmente ignorá-lo? Espero passar as eleições para então voltar a conversar com ele e mesmo visitá-lo ou receber sua visita? Deveria ouvir atentamente seus argumentos e quem sabe me convencer de que ele talvez esteja certo? Ou, quem sabe, a melhor estratégia é tentar convencê-lo de que está no caminho errado, na contramão da história e da democracia? Acho, realmente, que nada disso funcionaria.

Tenho pensado muito nisso, porque infelizmente há pessoas (bem poucas na verdade, mas incômodas) em meu círculo de relacionamentos que fizeram esta opção eleitoral e às vezes me jogam indiretas (ou nem tanto) de que eu estou me iludindo com as “mentiras” que falam do capitão e me iludindo mais ainda ao acreditar que a esquerda tem soluções para os problemas do país. Pois bem as “mentiras” que falam sobre o capitão, uma a uma, eu passei a acreditar nelas porquanto as tenha ouvido da própria boca do mesmo.

Quanto às virtudes da esquerda, confesso que também tenho algumas dúvidas, principalmente levando em conta as inconveniências que o lulopetismo impôs ao Brasil e o que é pior: sua recusa em fazer qualquer tipo de autocrítica. Mas esta não é apenas uma clássica luta do mal contra o bem. É a luta do mal absoluto contra, digamos, o mal relativo, o mal mais ou menos. Mas mesmo se no lugar do mais ou menos estivesse o cachorro da esquina, ou o próprio poste da esquina, eu não arriscaria meu voto em pessoa truculenta e tão infensa ao diálogo, que demonstra menosprezar a democracia, vociferando em toda sua trajetória aquele rico vocabulário que inclui torturar, fuzilar, matar, perseguir, estuprar, banir, humilhar, rejeitar.

Meu repúdio ao bolsonarismo não é uma questão meramente partidária ou ideológica. É muito mais. É algo de fundo moral, ético e até estético… Votar em tal sujeito é concordar com tudo isso. E com gente assim, não quero conversa, definitivamente, nunca!

Sete de outubro de 2018, primeiro turno das eleições para presidente. Poderia ser para o bem, mas parece, infelizmente, não ser o caso – acho que as portas do inferno se abrirão para o país. Nós brasileiros não merecíamos… Depois de ver a Nova República, o momento otimista e inédito do Plano Real e o projeto do PT se derreterem, nós que achávamos que o pior já tinha ficado para trás, que sentimentos e esperanças podemos ter agora? Assim, vou para as urnas sem ter conseguido dar apoio resoluto a um candidato, mas pelo menos consigo saber muito bem do que não quero, dilema pelo qual passo com certeza junto com muitos brasileiros.

Mas sei bem do que não quero: dar meu voto a pessoas que acham graça e praticam ideias truculentas, mesmo que se justifiquem como apenas “brincadeiras”, o que inclui gente que tenha apoiado no passado ou apoie, no presente, alguém com o perfil acima. Desconfio, também, e não apoiaria aqueles que já passaram por mais de três partidos, de qualquer natureza ideológica; os que estão na política como pastores ou se anunciam como representantes de religiões, principalmente evangélicos pentecostais, que invocam o nome de Deus e seu filho como seus aliados. Estendo minha repulsa aos que fazem parte de partidos corruptos, nos quais ninguém é expulso ou denunciado internamente; aos que são a favor da pena de morte e da liberação do porte de armas; àqueles que em seus mandatos eletivos nunca apresentaram projetos importantes ou, pelo menos, consequentes, bem como aos que só enxergam “ideologia” nos outros. Sem querer ser cínico: quem sabe, sendo otimista, uma passagem pelo inferno é a pena e o preço necessários para que, um dia, se possa ver a esperança voltar a este desgraçado país?

Enfim, é muita tinta e muito byte para um só indivíduo. Chega….

Ideias bizarras

Ah, a política! Quem um dia votou no PT – como eu – corre sério risco de fazer como o bêbado da anedota: esperar sua casa passar, já que o mundo todo está rodando, para então introduzir a chave na fechadura e abri-la de vez. Disso, pelo menos, acho que desisti, há muito tempo. Prefiro correr atrás da tal casa, ou do prejuízo, digo, dos fatos. Mas a lógica atual parece questionar o que valem os fatos – eles que se danem, na versão do pateta Donald, copiada por seu concorrente tropical.

Concordo com Frei Betto, petista de carteirinha e quase de nascença, que diz ter sido o PT apenas um inquilino no governo, até que tomou um pé na bunda do verdadeiro dono da casa. Para ele, independente das qualidades dos governos da sigla, há que se reconhecer que cometeram equívocos fatais, particularmente em relação a princípios primordiais da esquerda, pelo menos o de ser um modo de organização da classe trabalhadora, bem como da promoção da ética e da construção do socialismo, por meio de reformas, não de violência e luta armada. Enfim, o partido foi vítima de algo que não conseguiu fazer, ou seja, uma bela reforma política. Chegou apenas ao governo; não ao poder.

Aliás, acho que a aventura do PT no poder da República pode compará-lo àquele aprendiz de feiticeiro que um dia abriu a porta que lhe era vedada, tomando uma surra de vassouras mágicas lá guardadas. Já vimos isso com Mickey no papel principal.

Mas será que a tal Esquerda, agora com Maiúscula, tem cura – ou futuro? Ando refletindo sobre isso. Que tal se os dogmas fossem rejeitados em troca das evidências? “Dogmas são as pedras com que se constrói a sepultura da liberdade”, como disse Juan Arias, brilhante jornalista espanhol. E que as composições escusas, em nome da vaca sagrada da “governabilidade”, sejam sempre denunciadas e neutralizadas. E vamos combinar: dilapidar patrimônio público não é coisa de direita nem de esquerda, mas apenas sintoma de marginalidade, a ser corrigida com os rigores das leis (embora, na prática, entre a intenção de quem as aplique e a justificativa factual para tanto vá uma distância muito grande).

Fico pensando, também, no peso e na importância que teriam, no mundo de hoje, aqueles prolíficos sindicatos de esquerda, supostos defensores dos direitos dos trabalhadores, com os “novos pobres” pululando em toda parte, sendo eles justamente os sem-emprego e os grupos muitas vezes perseguidos, que nunca tiveram acesso à cultura? Quem se preocupa com eles?

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