Se bem me lembro (IX): Tempos problemáticos e febris
Um tango do argentino Discepolo, que conheci através da voz de Caetano Veloso, lamenta (ou, melhor dizendo, lamuria) as mazelas del Siglo Veinte, que o autor considera problematico y febril. O nome da canção é Cambalache e entre outras pérolas mal humoradas diz: que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé; en el quinientos seis y en el dos mil, también… Mas pelo visto, é neste século XXI que a verdadeira porqueria finalmente nos alcançou, e até dá para ter saudades da bonomia e da tranquilidade dos 100 anos anteriores, quando éramos felizes, embora ignorássemos que tal estado iria por água abaixo logo em seguida. Isso tem sido o mote dos meus anos mais recentes, quando eu aposentado, melhor dizendo esquecido, em relação a toda uma época de, digamos assim, glórias no campo profissional e afetivo. Tudo bem, me consola andar febril e adoecido de pequenas realizações e pequenos acontecimentos, tentando fugir, sem obter sucesso, da problemática do país, que assisto, malgrado meu, neste século exageradamente confuso, que passa veloz debaixo de meus olhos. Mas de tudo que vejo, procuro tirar um sentido, alcançar a existência de alguma lógica fazer ou, pelo menos, fazer uma síntese. Para isso, invoco com frequência uma santa muito especial: Santa Coerência, de minha especial devoção, Rainha das remotas paragens da Alta Razônia, Senhora das fronteiras do Cogitum – socorrei-me! Será que estarei somente eu certo diante de um monstruoso sistema de erros? Ou, bem ao contrário, serei apenas um ser equivocado e errático numa terra onde estão todos cobertos de razão? Minha Santa, fazei com que eu seja capaz de perceber a verdade, neste mundo de tanta confusão. E uma vez a conhecendo, que ajude a divulgá-la; e que não espalhe por aí notícias falsas, que ficarão ainda mais falsas ao serem passadas adiante. Protegei-me e defendei-me, minha Santa, da falaciosa ideia de que uma pessoa de bem há que se situar sempre à destra ou à sinistra – mas que existem posições que permitem enxergar melhor os caminhos sem que estejamos presos à suas margens.
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