Calendário florístico do Planalto: Pequi

O pequi, sem dúvida, divide o mundo em duas parcelas inconciliáveis: a dos que o adoram e a dos que não o suportam. Nisso parece fazer companhia ao coentro, ao pepino, ao pimentão e a outros vegetais menos votados. A carne de porco também é de tal naipe, mas neste caso, trata-se de questão não fisiológica ou bioquímica, mas  geralmente religiosa. A coisa se complica quando atentamos para o fato que tanto árabes como judeus repudiam a carne de porco, do mesmo modo que se odeiam uns aos outros. Ah, a humanidade…

Vamos ao que dizem os tratados. Caryocar brasiliensis é uma espécie do cerrado, cujo nome tem origem no tupi-guarani e tem a ver com algo espinhento.  Sua copa costuma ser frondosa, podendo a 12 metros de altura, mas no cerrado mais fraco costuma não ser tão grande assim. Tem folhas grandes, ovaladas, de bordas serrilhadas, compostas por três grandes folíolos, de cobertura aveludada.

Seu fruto, que é o que mais interessa aqui, possui o tamanho aproximado de um limão, com uma casca verde e dura característica. No interior, um caroço revestido por uma polpa comestível (não para todos) macia, de um amarelo peculiar, muito vivo. Embaixo da polpa mora o perigo: uma camada de espinhos muito finos, que tem levado muitos desavisados, ao tentarem roer o pequi, darem baixa em pronto socorro. Por baixo dos espinhos a coisa melhora, pois existe uma amêndoa macia e saborosa, mas que só pode ser comida quando cozida.

A época de produção dos frutos é de novembro a janeiro. A germinação do nosso personagem é lenta e irregular, podendo demorar até um ano, com menos da metade dos caroços germinando. A florada é típica de setembro e outubro, logo quando começa a estação chuvosa no cerrado. São belas as suas flores. Alguns comparam a estrutura da Catedral de Brasília à disposição dos pistilos florais do pequi, mas creio que Niemeyer nunca confirmou isso.

De todos os frutos nativos do cerrado, o pequi é o mais consumido e comercializado, seja in natura ou sob a forma de conserva. Em Goiás e no Norte de Minas existe forte disputa para saber onde está de fato a “Capital do Pequi”, com Goiânia e Montes Claros empenhadas em renhida peleja. E tome arroz com pequi, frango com pequi, empadão de pequi, licor de pequi, sorvete de pequi e até ração para animais, já que o danado é muito rico em proteínas.

Os ambientalistas que defendem a autossuficiência do cerrado, em termos de produção de alimentos, rejeitando as culturas exóticas, como a da soja e outros grãos se esquecem, entretanto, de um detalhe. Para exportarmos pequi para a China ou para a Europa é preciso convencer os povos de lá a se entregarem a tal delícia exótica. Mas façamos votos que a tal divisão irreversível da humanidade entre comedores e não-comedores de pequi não vigore ao Norte do Equador…

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5 comentários sobre “Calendário florístico do Planalto: Pequi

  1. De meu amigo e fiel leitor Mauro Marcio de Oliveira recebi a seguinte mensagem:
    Desativar para: português

    Flávio,

    Li seus textos e preferi o do pequi ao das eleições. No campo da política, os ‘frutos’ não são dos melhores. Daí, porque passo ao pequi. Vou comentar o primeiro e o último parágrafos.

    No primeiro, você diz: “O pequi, sem dúvida, divide o mundo em duas parcelas inconciliáveis: a dos que o adoram e a dos que não o suportam.” Queria agregar que sendo assim, o mundo tem três partes e não duas como diz você: a dos que adoram, a dos que não suportam e a dos que não o conhecem ou não se manifestam. Proponho três partes na seguinte proporção: 10%, 10% e 80%, esta a da ‘maioria silenciosa’.

    No último, está escrito “Os ambientalistas que defendem a autossuficiência do cerrado, em termos de produção de alimentos, rejeitando as culturas exóticas, como a da soja e outros grãos se esquecem, entretanto, de um detalhe. Para exportarmos pequi para a China ou para a Europa é preciso convencer os povos de lá a se entregarem a tal delícia exótica”.

    a) Confesso minha ignorância: eu não sabia que algum ambientalista defende a autossuficiência (alimentar) do Cerrado;

    b) Que exista, mas não parece coerente defender a autossuficiência e falar em exportação! Creio que autossuficiência é mercado interno.

    c) Ainda assim, se ele quer exportar pequi não deveria exportar a fruta, pois em o fazendo, estaria dando continuidade ao nosso (triste e secular) papel de exportador de produtos in natura. Ficaria melhor se exportasse, por exemplo, o óleo de pequi ou qualquer outro produto da transformação do fruto, como é o foco da Natura, com os frutos da Amazônia: perfumes, cremes, desodorantes, etc.

    Ah! Me esqueci de lhe dizer que Lund, quando passou por São Paulo rumo à Lagoa Santa, identificou pequizeiros que mal chegavam a 1,5 metro de altura. Quando chegou a Lagoa Santa, viu que os pequizeiros mineiros eram bem mais altos. Aliás, pequizeiros baixos me lembram o que já li, mas nunca vi: as ‘florestas anãs’ do Cerrado, que existiram, mas que foram praticamente devastadas. Falando do assunto a um primo distante de Nazaré que mora em Cuiabá, disse-me ele que ainda existe um pouco delas na Chapada dos Guimarães.
    Um abraço,
    Mauro Márcio

  2. E prossegue o debate:
    Meu fiel leitor

    Você talvez não tenha reparado, mas eu deixo sempre um rabinho de fora que é para ver se você realmente anda prestando atenção no que escrevo…
    Quanto às porções exatas dos pequífilos e dos pequífobos, devo dizer que minha conta só alcançou aqueles que conhecem de fato o/a caryocar (carioca não vale…). Sendo assim, creio que 80% é pouco, talvez chegue a 99,9% da humanidade. Mas entre os 0,1% restantes, a divisão é cabal!
    A questão da autossuficência (notou como esta palavra sem hífen ficou de fato autossuficiente?)é reflexo de uma pendência com o Eugênio, meu irmão e seus filhos, ecorradicais que não suportam ver uma touceira de braquiária ou meia dúzia de pés de eucalipto que logo se enquizilam. Gente que defende que o cerrado deve permanecer intocado, independente do lugar do Brasil na orquestra das nações. Talvez aquela não seja a palavra certa, mas essa turma acha que o cerrado, por si só, seria capaz de fornecer alimentos a muita gente. Donde a brincadeira sobre a necessidade de se convencer os chineses a comer arroz com pequi, para que pudéssemos exportá-lo à larga. Mas aí, redutio ad absurdum, eles implicariam com a devastação dos pequizeiros…
    Óleo de pequi, pequi em conserva,licor de pequi e outros produtos aos quais se agrega valor… Mesmo assim precisaria de um bom marqueteiro para convencer os ilustres paladares dos consumidores de outras partes do mundo.
    “Nosso triste e secular papel”. Tudo bem,não dá para exercê-lo com dignidade? Afinal há quem toque apenas tuba nas orquestras e mesmo assim o faz bem feito e é feliz…
    Sobre o tamanho dos pequizeiros. Vi um no Crato, Ceará, que tinha pelo menos 10 metros de altura. Curiosamente, suas frutas tinham menos da metade do diâmetro comum aqui no cerrado. O pequi parece ser um planta paradoxal: no massapé paulista fica pequeno; na caatinga assume proporções hiléicas.
    Em tempo, uma amiga que também leu meu texto (já me contento com dois leitores, desde que sejam de tão boa qualidade)quis saber de mim a qual das duas porções da humanidade eu pertenço. Certamente não é a da fobia mas, talvez, a de uma apreciação moderada.Se ficar 10 anos sem comer, não me fará falta. Aliás, comi pequi pela primeira vez quando já tinha quase trinta anos de idade, em Uberlândia;
    Grande abraço!
    FLAVIO

  3. Volta Mauro:
    Flávio,
    Quando eu introduzi os 80%, que você corrigiu para 99,9%, era para, sutilmente, referir-me à ‘terceira margem do gosto’, já que ficar com quem gosta e com quem não gosta cairia no rio com duas margens…
    Já no caso da autossuficiência ou da conservação do Cerrado, minha posição é que estamos começando a entrar na era do fim da agricultura. Creio que produziremos alimentos em fábricas, em ambientes controlados e que os territórios voltarão a ser apenas e tão somente paisagem. Afinal, já se passaram 10 mil anos de agricultura, o que não é pouco tempo. E, até hoje, a ciência agronômica pensa que a produção agropecuária está ligada ao solo, coisa com que não concordo. Toda e qualquer planta está composta, em peso, de 99,99% de átomos e moléculas que flutuam no ar atmosférico: nitrogênio, oxigênio, hidrogênio, carbono, seja como átomos isolados, seja combinados como H2O ou CO2, entre outros. Estamos para inaugurar a profissão “Fazendeiro do Ar”… Nós não precisamos depender do solo.
    No caso da exportação, não se trata de aceitar um papel modesto, como o de tocador da tuba. O comércio exterior é uma guerra e não dá para entrar no jogo sem caneleira, joelheira, etc. Exportar só matéria prima significa não aumentar a base de empregos, não desenvolver técnicas e processos, não criar mecanismos financeiros e um montão de coisas a mais. Implica renunciar a muita coisa.
    Por fim, no tocante ao pequi sou como você. Não o procuro; se for a algum lugar que seja servido, experimento. Nada mais.
    Um abraço,
    Mauro Márcio

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