Pelas Veredas do Grande-Sertão

GRANDE SERTÃO: VEREDAS – EM RESUMIDAS PALAVRAS

Um homem recebe um visitante para uma longa conversa. Deste último, nada se saberá, exceto que vem da cidade, enquanto o anfitrião, também narrador, mora na roça. Mas se aquele se trata de pessoa letrada, com certeza interessada na longa conversa de que participa como bom ouvinte, pois não proferirá palavra, o anfitrião tem prosa rústica, porém articulada e fluida. Ele começa falando de generalidades, como de uns tiros que o visitante teria ouvido um pouco antes de chegar e aproveita para declarar seu gosto pelas armas, mas só para treinar a pontaria, pelo menos nos últimos tempos, pelo que se depreende. Fala das pessoas que lhe são vizinhas, da simplicidade e do modo tosco destas em relação às coisas do mundo; de um compadre que mora distante e que lhe traz inspiração espiritual, em relação à qual é muito respeitoso; de mulheres que ele paga para rezar para ele. Por que este homem precisaria de tantas orações assim? Já nesse momento o leitor começa a penetrar no universo denso e profundo da longa história que se desenrolará. Aqui e ali, já de início, o narrador coloca em pauta algumas dúvidas que tem, por exemplo, da presença de Deus na vida dos homens e também da contrapartida oferecida aos viventes por ninguém menos que o Diabo. Será que este de verdade existe, indaga repetidamente? Deixa no ar, em certo momento, uma frase que repetirá em vários momentos da conversa, a ser esclarecida só ao final: o diabo, na rua, no meio do redemunho.

Aos poucos revela passagens de sua infância. Fala da figura esmaecida de sua mãe; de um padrinho que lhe criou, ao qual não parece prestar grandes homenagens; de homens notáveis, com os quais ele teve oportunidade de conviver, com destaque especial, neste momento, para um cidadão chamado Medeiro Vaz. Uma outra pessoa marcante em sua vida também é lembrada: Diadorim; logo adiante se vai esclarecer de quem se trata. Neste momento, o anfitrião-narrador já se apresentou, sendo Riobaldo o seu nome. A entrada em cena de Medeiro Vaz traz uma primeira luz sobre o passado daquele homem que aprecia armas e tiros, mas se diz pacífico: ele militou em jagunçagens. O território da ação é o Norte do estado de Minas Gerais, mais exatamente no grande vale formado pelo rio São Francisco e seus afluentes, principalmente na margem esquerda. Aos poucos, informações sobre o mister de se ser jagunço aparecem, com foco nas relações de compadrio entre os chefes de bando, latifundiários, lideranças políticas e chefias de menor calibre. O bando de Medeiro Vaz percorre o sertão em missão de ajuste de contas, não se sabe ainda com ou contra quem. Para surpreender um adversário é preciso que o grupo realize uma travessia por demais arriscada, a do Liso do Suçuarão, um lugar que é o mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. O bando esbarra, a duras penas, na natureza de tal lugar e recua; Riobaldo é enviado por Medeiro Vaz em busca de socorro de outros chefes distantes. Neste ínterim, o Chefe sucumbe, de morte morrida. A este tempo, uma nova saga de jagunços se menciona, de passagem, a se desenrolar em tempo futuro, sob a chefia de um outro personagem notável, Zé Bebelo (José Rebelo Adro Antunes), de quem muito ainda se falará.

Neste momento, há uma pausa para o narrador falar de sua vida pregressa, de onde foi criado, da morte de sua mãe, de sua vida com seu Padrinho Selorico que o criou, de suas andanças e amores.  Entre outras lembranças, revive um encontro remoto, na beira do rio São Francisco, com um menino de sua idade – fato que, dá a entender, lhe marcará profundamente depois. Um outro homem notável é apresentado: Joca Ramiro, também chefe de jagunços no mesmo Norte de Minas. Com ele o jovem Riobaldo fica vivamente impressionado, já ansiando por uma vida de aventuras sob o comando de alguém assim, longe do rame-rame sem horizontes daquele Curralinho onde fora criado. Como era relativamente letrado, pelo menos para os padrões sertanejos, Riobaldo vai então em busca de outros ares, para se tornar mestre-escola em lugar distante da fazenda de seu padrinho. Lá descobre que, na verdade, o fazendeiro local que o tinha contratado, buscara seus serviços não exatamente para ministrar aulas para crianças, mas sim para si próprio, eis que este tinha grande sede de saber. Assim retorna à história aquele mesmo Zé Bebelo, o fazendeiro que prezava as letras, que depois chefiará uma expedição de vingança que tem significado especial na obra. Mas neste momento Bebelo joga do lado da Lei – aquela lei dos Homens do Estado, da Política, da Polícia – contra a jagunçada que Riobaldo começava a prezar e ele, por não gostar do papel que lhe é oferecido, foge.

Depois de peripécias diversas Riobaldo revê aquele Menino da beira do São Francisco – e este é Diadorim – agora fazendo parte de um bando de jagunços chefiado por um Hermógenes, ao qual o narrador se incorpora. Diadorim é conhecido no bando como Reinaldo, a razão disso se descobrirá depois. Em momento seguinte, é apresentada de passagem outra personagem central da obra, Otacília, residente na Fazenda Santa Catarina, nos longes do Urucuia, por quem Riobaldo se apaixona, mas de quem se mantem separado, dado seu oficio de jagunço. Na sequência este bando dos Hermógenes, com Riobaldo e Diadorim/Reinaldo já irmãos em armas e lutando juntos, dá combate aos Bebelos, na região da Jaíba. Diadorim revela ser filho de Joca Ramiro, o chefe maior. Aqui entra como aposto o lúgubre e extraordinário caso de Maria Mutema, passado no Sertão Jequitinhão, estranha mulher que seduziu um padre e matou de forma totalmente inusitada seu marido. Entra em cena agora Joca Ramiro, a quem Riobaldo já conhecia.

Em combate, Zé Bebelo é capturado em seguida e vai a julgamento comandado por Joca Ramiro em pleno sertão, na Fazenda Sempre Verde, sendo absolvido pelo chefe máximo, desde que se afastasse do cenário são-franciscano. Hermógenes e Ricardão, dois de seus lugar-tenentes, discordam de tal decisão e, ato contínuo, mandam matar Ramiro. A guerra agora assume outra feição, tendo foco no combate aos assassinos, agora denominados de Os Judas. Na confusão que se segue, Riobaldo descobre algo de que já se suspeitava: Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Mas não era momento para amores: quem estava no encalço deles agora, desfalcados daqueles que preferiram aderir aos Judas, era a própria Polícia do Governo. Zé Bebelo então volta, de forma épica, vindo numa jangada pelo rio Paracatu, para vingar a morte de Joca Ramiro, a quem ele devia a vida. Surgem notícias breves de Otacília. A guerra contra os Judas empurra o bando para a Fazenda dos Tucanos, onde um cerco feroz se instaura, custando muitas vidas e o doloroso fuzilamento dos cavalos, por parte dos façanhosos Hermógenes. Daqui para frente, a narrativa seguirá ordem cronológica. No cerco, Zé Bebelo desenvolve uma estratégia arriscada, de mandar um portador às próprias autoridades, denunciando o bando agressor e Riobaldo, mesmo desconfiando fortemente de tal situação, é encarregado de redigir a petição, que dois ou três companheiros levam para fora do cerco. Mas o fato é que tal estratagema dá certo e eles escapam enquanto os Judas se avêm com a soldadesca.

Na busca de um refrigério onde pudessem recuperar as perdas sofridas, seja de homens ou de animais, encontram um grupo curioso de pessoas, seres de grotesca aparência e muito estranho linguajar, aqueles homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas brenhas. Nesta quadra, Zé Bebelo se vê desacreditado e Riobaldo assume o comando. Passam por outra experiência desagradável, a chegada a um lugarejo devastado pela varíola, o Sucruiú. Seu Habão, um fazendeiro da região, lhes dá apoio, inclusive material, não propriamente por caridade, mas por provável espírito de obter lucro posteriormente. Nas Veredas-Mortas, Riobaldo, o novo chefe, se vê impelido a procurar ajuda do Além – e se torna (duvidando disso, por vezes, posteriormente) pactuário com o Demo, fato que o marcará até a velhice e do qual pretende se livrar com seus questionamentos sobre a existência real do Diabo, presentes desde o início da narrativa. Riobaldo, assumindo sua bizarria de chefe adora o sobrenome de TataranaLagarta de Fogo – e incorpora ao bando duas figuras inesperadas: o cego Borromeu e o menino Guirigó. A narrativa segue em direção aos embates antevistos desde o princípio da narrativa e logo se verá o significado daquele enunciado relativo ao diabo na rua no meio do redemunho. Pequenos acontecimentos se anunciam: Diadorim manda um recado misterioso por portadores tropeiros ocasionais; há uma carta para Otacília, entretanto só entregue muitos anos depois; Riobaldo se vê tentado pelo Tinhoso e quase mata um homem inocente e um leproso escapa por pouco de morrer pelas mãos dele; os urucuianos que haviam se juntado ao bando desertam da luta. No calor de tais acontecimentos, Riobaldo, atormentado pela culpa e pelo desejo: De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Diadorim revela algo muito importante: … quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você.

Na sequência, o Liso do Suçuarão é atravessado pela segunda vez, agora com sucesso. O objetivo é acossar o Hermógenes, de surpresa, em sua fazenda às margens do rio Carinhanha, já em terras da Bahia. Na empreitada é feita prisioneira sua mulher, que passa ter um papel importante na história. Aquela mulher sabia dureza; riscava. Ela discordava de todo destino. Inicia-se uma grande marcha, por sertões de Bahia, Minas e Goiás e a ação se acelera. Riobaldo surpreende uma conversa misteriosa entre Diadorim e a mulher do Hermógenes, parecendo haver nela mais simpatia do que ira ou desprezo. Notícias chegam, informando sobre a vinda do Hermógenes, em obra de vingança e resgate da mulher. São apresentados os baixios do Tamanduá-Tão, de provável localização no município de Buritizeiros-MG, onde também se situa a vila do Paredão, cenário de coisas pavorosas que acontecerão em breve. O cenário da guerra que se aproxima é traçado como se fosse um capítulo de estratégia militar. Um dos Judas, Ricardão, é logo encontrado, cercado e fuzilado no ato por Riobaldo.

Riobaldo percebe, na ocasião: a guerra descambava, fora do meu poder. Não morri e matei. E vi tudo pendurado para o fim. No avanço final, no corpo a corpo, ele vê o que não queria: Diadorim a vir – do topo da rua, punhal em mão, avançar – correndo amouco…[…] Trecheio, aquilo rodou, encarniçados, roldão de tal, dobravam para fora e para dentro, com braços e pernas rodejando, como quem corre, nas entortações. … O diabo na rua, no meio do redemunho… Sangue. Cortavam toucinho debaixo de couro humano, esfaqueavam carnes. Vi camisa de baetilha, e vi as costas de homem remando, no caminho para o chão, como corpo de porco sapecado e rapado… Sofri rezar, e não podia, num cambaleio. Ao ferreio, as facas, vermelhas, no embrulhável. A faca a faca, eles se cortaram até os suspensórios. … O diabo na rua, no meio do redemunho… Assim, ah – mirei e vi – o claro claramente: ai Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes…

O resultado são os dois mortos. Aqui a história se acabou, acabada. Diadorim, na verdade, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor. E encerando a saga: Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.

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