Pelas Veredas do Grande-Sertão

O QUE É O SERTÃO?

O sertão não está somente no título deste livro. Ele é personagem forte e central no mesmo. Mais do que um lugar, ou uma soma de lugares, ele parece ser mais um estado de espírito, um entorno que dá régua e modula a existência de quem lá vive ou por ele penetra. Às vezes o Sertão é tratado com lirismo, por suas belezas peculiares, nem sempre visíveis aos olhos pouco afeitos a suas belezas; outras vezes ele é fator condicionante da vida dos homens, portador de mistérios terríveis, que uma vez não decifrados levam risco de vida aos que lá se internam ou nele vivem. Sertão é uma instância a ser obedecida, se não tolerada, mas jamais ignorada.

Sertão ou Gerais?

A expressão “Minas Gerais” contêm a palavra, mas com significado diverso, embora seja movimento quase automático associar uma coisa e outra. Um bom achado aforístico seria dizer, de toda uma região cujo limite são as águas vertentes da Serra do Espinhaço, do Leste para o Oeste e no rumo do Norte: aqui terminam as minas e começam os gerais. Mas a expressão portuguesa, ou melhor emboaba, que remonta ao século XVIII, quando diz gerais quer dizer diversas, variadas, espalhadas. Há em JGR uma re-criação de tal palavra, sem dúvida.

O auxílio luxuoso de um bom dicionário pode bem ajudar.  Houaiss considera a palavra gerais como um regionalismo, significando terreno extenso, coberto de vegetação rasteira, especialmente no Planalto Central. Ou ainda: descampado; designativo de lugares longínquos e ermos. No Nordeste do Brasil é expressão regional para campos cobertos de mata. Em Tocantins, na região do Jalapão observei o termo ser utilizado como referência às regiões mais altas, das chapadas abundantes naquele território, sem fugir, naturalmente, da condição de grande extensão coberta por vegetação, como quer Houaiss, certamente mais escassa do que aquela dos vales.

Mas, afinal, os dois termos, ao que parece, se englobam e se complementam em JGR: situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro; gerais corre em volta e eles são sem tamanho. Assim, tudo é Sertão…

Mas pode ser perda de tempo tentar ir além, para definir este lugar sertão de modo claro e escorreito. O próprio autor tem horas que não se atreve: Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas...

No Grande Livro o Sertão se apresenta em diferentes exegeses: como cultura, como fator determinante na vida social, como paisagem, além de outras visões mais simbólicas ou abstratas.

Assim, uma chamada imediata é para o Sertão-Paisagem, Sertão-Natureza, assim visto: Situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia; é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador.  E em tal paisagem há belezas, evidentes:  bonito em muito comparecer, como o céu de estrelas, por meados de fevereiro! Sertão é bonito por ele próprio, mas também pelo que o rodeia: De noite, se é de ser, o céu embola um brilho. Cabeça da gente quase esbarra nelas.

São coisas vastas, de muitas nomeadas, nem sempre fáceis de perceber, ou que saltem à vista sem mais explicações. Ou, nem tanto:  tanta explicação dou, porque muito ribeirão e vereda, nos contornados por aí, redobra nome. Quando um ainda não aprendeu, se atrapalha, faz raiva. Só Preto, já molhei mão nuns dez. Verde, uns dez. Do Pacari, uns cinco. Da Ponte, muitos. Do Boi, ou da Vaca, também. E uns sete por nome de Formoso. São Pedro, Tamboril, Santa Catarina, uma porção.

Seu tamanho é coisa de não se medir em léguas e toesas. Réguas, que sejam de alguma feição especial, inservível para o correr simples da vida. O sertão é do tamanho do mundo. Madrugada essa boa claridade. Luar que só o sertão viu. Vim dele. […] O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles. […] O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles.

O Sertão também pode ser traduzido por sua cultura e pelos costumes que impõe a seus moradores e visitantes: É onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade […] Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! […] É onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. […] No sertão, até enterro simples é festa. […] Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. […] Ah, a vida vera é outra, do cidadão do sertão. Política! Tudo política, e potentes chefias. […] Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo. […] Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade deles. O sertão nunca dá notícia.

Se viver é muito perigoso, como não cansa de repetir Riobaldo, o Sertão é lugar de muitos e inesperados perigos. Por lá, sucuri geme. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura. […] É noite de muito volume. Treva toda do sertão, sempre me fez mal. […] Os aleijões e feiezas estejam bem convenientemente repartidos, nos recantos dos lugares. O sertão está cheio desses. Só quando se jornadeia de jagunço, no teso das marchas, praxe de ir em movimento, não se nota tanto: o estatuto de misérias e enfermidades. […] Estes gerais enormes, em ventos, danando em raios, e fúria, o armar do trovão, as feias onças. O sertão tem medo de tudo.

Não faltam perigos, eles vêm de todos os lados. Tudo por culpa de quem? Dos malguardos do sertão. Ali ninguém não tinha mãe? Redigo ao senhor: quando o raio, quando arraso, o Gerais responde com esses urros. […] Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela.

Mas, sem dúvida, no Sertão também se pressente que o fim pode chegar: Ah, tempo de jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão. Acaba?

Sertão não só dos perigos, mas também de muitos mistérios, que não se explicam na clareza da luz do sol, com certeza decorrência natural do estatuto de tal lugar. Afinal, viver é muito perigoso. O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum? […] A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro. […] Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. […]Sertão é quando menos se espera. Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juizo! Sertão é o sozinho. […] Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. […] Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela. […] Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: – … ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo. […] Porque o sertão se sabe só por alto. Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito desastroso.

E o povo do Sertão? Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão. Sertão: é dentro da gente. […] Mas, adiante, por aí arriba, ainda fazendeiro graúdo se reina mandador – todos donos de agregados valentes, turmas de cabras do trabuco e na carabina escopetada! […] Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. […] Medeiro Vaz, antes de sair pelos Gerais com mão de justiça, botou fogo em sua casa, nem das cinzas carecia a possessão.  […] Composto homem volumoso, de meças. Se gordo próprio não era, isso só por no sertão não se ver nenhum homem gordo. […] Mas, no existir dessa gente do sertão, então não houvesse, por bem dizer, um homem mais homem? Os outros, o resto, essas criaturas. […] O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado…” – ele seo Ornelas dizia. – “O sertão é confusão em grande demasiado sossego…” […] Sertanejos, mire veja: o sertão é uma espera enorme. […] O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca… O senhor crê minha narração? […] De chapéu desabado, avantes passos, veio vindo, acompanhado de seus cinco cabras. Pelos modos, pelas roupas, aqueles eram gente do Alto Urucuia. Catrumanos dos gerais. Pobres, mas atravessados de armas, e com cheias cartucheiras. […] Sertanejos, mire veja: o sertão é uma espera enorme. […] A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos…

Deus está no Sertão, mas anda armado e nem ele vacila, pois de todo lado vagueia o Diabo: Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. […] O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho? […] Nossa Senhora da Abadia! Ah, só Ela me vale; mas vale por um mar sem fim… Sertão. […] Travessia, Deus no meio. Quando foi que eu tive minha culpa? Sertão é o sozinho. […] Só que tem os depois – e Deus, junto. […] Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. […] Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. […] Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta… […] O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…

E o Diabo?Por certo vagueia também por ali, na poeira daquelas estradas, no meio de redemunhos:  Meu sertão, meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia: – “Tento, cautela, toma tento, Riobaldo: que o diabo fincou pé de governar tua decisão!.. […] Será – mal pergunto eu ao senhor – que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio?

Riobaldo vê o Sertão com respeito, quer entendê-lo, mas nem sempre acha a palavra ou a ideia certa para definir o que vai em sua mente. Aliás, percebe que este objeto é tão variado e complicado que não seria fácil, para ninguém, tentar uma definição para ele. Assim: O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade.  Mas ao que parece, se dá por vencido em suas indagações: Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso…

Sertão, sertões: O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quer ir mais fundo: O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte. […] Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros? Ao antes – a um, ao Chapadão do Urucuia – aonde tanto boi berra… Ou o mais  longe: vaqueiros do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quinaus: cavalo deles conversa  cochicho – que se diz – para dar sisado conselho ao cavaleiro, quando não tem mais ninguém perto, capaz de escutar. Creio e não creio. Tem coisa e cousa, e o ó da raposa… Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia – que os dois, de dois, se dão as costas. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Por lá, sucuri geme. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura. Com medo de mãe-cobra, se vê muito bicho retardar ponderado, paz de hora de poder água beber, esses escondidos atrás das touceiras de buritirana.

Os caminhos que o Sertão oferece são também descaminhos. Suas chuvas, seu sol, seus ventos, sua secura, a lixivia de suas areias e argilas, suas noites frias, criam e destroem uma natureza sempre presente, para bem e para o mal. E que se invente um idioma para falar de tudo isso! As chuvas já estavam esquecidas, e o miolo mal do sertão residia ali, era um sol em vazios. A gente progredia dumas poucas braças, e calcava o reafundo do areião – areia que escapulia, sem firmeza, puxando os cascos dos cavalos para trás. Depois, se repraçava um entranço de vice-versa, com espinhos e restolho de graviá, de áspera raça, verde-preto cor de cobra. Caminho não se havendo. Daí, trasla um duro chão rosado ou cinzento, gretoso e escabro – no desentender aquilo os cavalos arupanavam.

Afinal, o sertão é do tamanho do mundo. E como se safar de tal labirinto? A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro… […] Redeando, rumamos, em tralha e torto, por aquele afora – a gente ia investir o sertão, os mares de calor. Os córregos estavam sujos. Aí, depois, cada rio roncava cheio, as várzeas embrejavam, e tantas cordas de chuva esfriavam a cacunda daquelas serras. […] Travessia, Deus no meio. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia? Estive nessas vilas, velhas, altas cidades… Sertão é o sozinho. Um ugar assim a todos torna estranhos, até de si mesmos: minha terra era longe dali, no restante do mundo. O sertão é sem lugar. Mas será que é razoável movimento procurar caminhos em um lugar assim? A estrada de todos os cotovelos. Sertão, – se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem. Mas, aonde lá, era o sertão churro, o próprio, mesmo. Ia fazendo receios, perfazendo indagação.

Caminhos que não acabam, confluem em si mesmos … Coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia. Só aquele sol, a assaz claridade – o mundo limpava que nem um tremer d’água. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de gado.

Ah, as noites do Sertão! Íamos por um plaino de varjas; lua lá vinha. Alimpo de lua. Vizinhança do sertão – esse Alto-Norte brabo começava. – Estes rios têm de correr bem! – eu de mim dei. Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo. Dia da lua. O luar que põe a noite inchada. […] Bonito em muito comparecer, como o céu de estrelas, por meados de fevereiro! Mas, em deslua, no escuro feito, é um escurão, que peia e pega. […] Estes gerais enormes, em ventos, danando em raios, e fúria, o armar do trovão, as feias onças. O sertão tem medo de tudo. […] Madrugada essa boa claridade. Luar que só o sertão viu. Vim dele.

Sertão: as eternas perguntas: Eu tinha vindo para ali, para o sertão do Norte, como todos uma hora vêm. Eu tinha vindo quase sem mesmo notar que vinha – mas presado, precisão de agenciar um resto melhor para a minha vida. Agora me expulsassem? […] Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. […] Ali era bom? Sossegava. Mas, tem horas em que me pergunto: se melhor não seja a gente tivesse de sair nunca do sertão. Ali era bonito, sim senhor. Não se tinha perigos em vista, não se carecia de fazer nada. O narrador éassim sempre um que procura o “quem” das coisas no Sertão: Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se arraçoam. […] A liberdade é assim, movimentação. E bastantes morreram, no final. Esse sertão, esta terra. […] E eu não concordava com nenhuma tristeza. Só remontei um pasmo e um consolo expedito; porque a guerra era o constante mexer do sertão, e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais.

O que é o Sertão, afinal? Tema que Zé Bebelo anuncia, em seu julgamento por Joca Ramiro: – “O senhor não é do sertão. Não é da terra…” – “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!”. E o próprio Narrador complementa: Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juizo! E mais: Pediram notícias do sertão. Essa gente estava tão devolvida de tudo, que eu não pude adivinhar a honestidade deles. O sertão nunca dá notícia. […] Sertão: é dentro da gente. […]O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa… […] O sertão é grande ocultado demais.[…] Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: – … ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo. […] O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente… E – mesmo – possível o que não foi. […] O senhor tenha na ordem seu quinhão de boa alegria, que até o sertão ermo satisfaz. […] O senhor não creia na quietação do ar. Porque o sertão se sabe só por alto. Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito desastroso.

E mais ainda é o Sertão: Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele…[…] Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas…

Sei o grande sertão? A pergunta de Riobaldo fica no ar. Quem sabe algum daqueles urubus, gaviões ou outra qualidade de pássaro seja capaz de responder. O mais é Travessia.

***

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s