Pelas Veredas do Grande-Sertão

ANA DUZUZA (E SUA FILHA NHORINHÁ)

Ana Duzuza comparece à narrativa em uma cena inicial, quando Riobaldo militava no bando de Medeiro Vaz, já irmão em armas com Diadorim. Ela era uma espécie de bruxa, mulher que adivinhava o futuro, presente na ação antecedida por sua filha, Nhorinhá, meretriz sertaneja, com quem Riobaldo cumpre uma leve estória de amor.  Ela é apresentada como uma velha arregalada, falada de ser filha de ciganos, e dona adivinhadora da boa ou má sorte da gente; naquele sertão essa dispôs de muita virtude. Acrescenta-se quea Duzuzasabia ser mãe de uma mulher pública, disso não se importando, contanto que fosse para servir homens de fora do lugar, fossem jagunços ou tropeiros, dando mesmo para isso seu consentimento.

Ana Duzuza poderia ser a imagem de uma daquelas Parcas, na mitologia romana (ou as Moiras, na correspondente grega), consideradas filhas da noite, ou divindades com poder sobre o destino dos mortais e o próprio curso da vida humana. Para os gregos, eram três irmãs, igualmente poderosas entre os deuses e os humanos, mulheres lúgubres, capazes de fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida.

Riobaldo, susceptível, sem dúvida, à influência dos mitos, preocupado com o fio de sua vida, respeita Ana Duzuza e mesmo vê nela personagem relevante em sua trajetória de jagunço. Já Diadorim mantém com ela uma relação de desconfiança, certamente ensejada pela inclinação erótica de Riobaldo pela filha dela, a pobre prostituta Nhorinhá, que com ela é bastante carinhoso e até respeitoso, a despeito da condição marginalizada da mesma.

As desconfianças de Diadorim se revelam, primeiramente, diante do fato de que Duzuza, nas palavras de Riobaldo, divulgava um forte segredo, que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Suçuarão. A velha, na ocasião, viera ao arranchado do bando, mandada buscar pelo próprio chefe, que buscava profecias quanto ao futuro imediato da empreitada que realizava. E ela confirmava tal chamado, diante da suspeita de Diadorim: Sêo Medeiro Vaz, pois foi ele mesmo próprio quem me contou. Não só Diadorim, mas também Riobaldo, desconfiavam que aquilo poderia ser só uma patranha da feiticeira. E Riobaldo, chegando a se mostrar violento, de início: apertei aquela Ana Duzuza, e ela não agüentou a raiva em meus olhos.

Mas Riobaldo estava mesmo interessado era em sua sina pessoal, não nas guerras que ainda viriam, ele que às vezes tinha reservas em relação à opção de ter virado jagunço, mas principalmente por desejar saber de seu futuro com a noiva que lhe estava prometida no Urucuia, aquela Otacília, ao mesmo tempo que se via enredado em uma trama amorosa com um amigo – homem como ele! E ele queria saber, de fato: uma coisa, de minha, fechada, eu devia de perguntar. Coisa que nem eu comigo não estudava, não tinha a coragem. E se a Duzuza adivinhasse mesmo, conhecesse por detrás o pano do destino? Não perguntei, não tinha perguntado. Quem sabe, podia ser, eu estava enfeitiçado? Me arrependi de não ter pedido o resumo à Ana Duzuza.

E em mais analogia com a natureza do Sertão que o rodeia e confrange, inapelavelmente, considera, diante da extensão de suas dúvidas: Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou, fechando tal reflexão com um dos motes centrais de sua vida: Viver não é muito perigoso?

Já na ocasião, uma cena se arma, com desconfianças por parte de Diadorim:  Ele não indagou donde eu tinha estado, e eu menti que só tinha entrado lá por causa da velha Ana Duzuza, a fim de requerer o significado do meu futuro. Diadorim então se cala, ele gostava de silêncios, e assim, severo e vingativo, destila em seguida um pouco de sua ira e de suas preocupações: Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve… Das perguntas que Medeiro Vaz fez, ela tirou por tino a tenção dele, e não devia de ter falado as pausas… Essa carece de morrer, para não ser leleira.

Riobaldo penetra um pouco mais no modo de ser do amigo, capaz de destilar intenções de amor e ódio, sem se intercalar, mas com ele se avém: Ouvi mal ouvi. Me vim d’águas frias. Diadorim era assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O judas algum? – na faca! Tinha de ser nosso costume. Eu não sabia? Não sou homem de meio-dia com orvalhos, não tenho a fraca natureza.

Mas mesmo assim decide agir contra o amigo, por pura pena daquelaAna Duzuza, cujos olhos saltados, naquele momento ele percebeu, a gente podia pegar nos dedos, embora ainda pense que ali haveria lorotas, ao ponto de desprezá-la, irado: Trem, caco de velha, boca que se fechava aboborosa, de sem dentes. […]. A gente engrossava nojo, salivava. Ele vai defendê-la, em seguida, mas antes se pergunta: Por que é, então, que ela merecia tanto dó?, para logo admitir que as vontades de sua pessoa estavam pertencendo a Diadorim, sendo a razão dele do estilo acinte. Teve medo, todavia, que Diadorim o obrigasse a correr atrás da feiticeira para acabar pessoalmente com ela.Mas de forma relutante aceitou os fatos do momento: Eu não sojigava tudo por sentir. Fazia tempo que eu não olhava Diadorim nos olhos. E seu recuo teve um tanto de compaixão pela velha, mas também de receio de que a sentença abrangesse também a filha Nhorinhá, por quem tinha inclinações erótico-amorosas.  

Riobaldo pega sincero e decidido com o amigo: Bulir com a vida dessa mulher, para a gente dá atraso, recebendo em troca o desdém e o ciúme de um Diadorim seco, quase num chio: já sei que você esteve com a moça filha dela. E este, em seguida: Tem discórdia não, Riobaldo amigo, se acalme. Não é preciso se haver cautela de morte com essa Ana Duzuza. Nem nós vamos com Medeiro Vaz para fazer barbaridade com a mulher e filhos pequenos daquele pior dos dois Judas, tão bem que mereciam, porque ele e os da laia dele têm costumes de proceder assim.

Mas também o amor fala certo por linhas tortas.  Aí, entendi o que pra verdade: que Diadorim me queria tanto bem, que o ciúme dele por mim também se alteava. E assim por vezes se arma a fogueira das maldades, tanto que em seguida, Riobaldo se contradiz, no calor da refrega: depois dum rebate contente, se atrapalhou em mim aquela outra vergonha, um estúrdio asco. E eu quase gritei: – “Aí é a intimação? Pois, fizerem, eu saio do meio de vós, pra todo o nunca. Mais tu há de não me ver!… Diadorim lhe toma a mão e diz com suavidade, embora ainda severo: Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira, e a má-vida da filha dela, aqui neste confim de gerais?!”. E Riobaldo, irado: Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?! […] Ser dono definito de mim, era o que eu queria, queria, arremata, encerrando a conversa.

Assim é o amor, mesmo em tais condições tão adversas… E é neste exato momento que surge a revelação de Diadorim, de ser filho de Joca Ramiro, o que o leva a defender de forma tão extremada sua figura.  Devido o que, abaixou o rosto, para mais perto de mim. Acalmou meu fôlego. Me cerrou aquela surpresa – arremata. E os panos quentes finalmente acontecem: Redigo, Diadorim: estou com você, assente, em todo sistema, e com a memória de seu pai!… […] “Pois, para mim, pra quem ouvir, no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. E, fechando, quase gritei: – “Por mim, pode cheirar que chegue o manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!…”

Boas brigas de amantes, aquelas que terminam em mais amor e ternura: Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.

Tudo isso, não tanto pela bruxa Duzuza, mas porque, afinal, só não podia maltratar era Nhorinhá, que, ao tanto afeto, eu, eu bem-queria. Assim, foi. A natureza da gente é muito segundas e sábados, como disse o mesmo Riobaldo em outro momento de sua narrativa ao visitante.

***

NHORINHÁ

Nhorinhá, como visto antes, esteve com Riobaldo ainda nos tempos de Medeiro Vaz, em lugar chamado de Aroeirinha. Ela era uma mulher moça, vestida de vermelho e se ria. “Ô moço da barba feita…” – ela falou. […] ela quando ria tinha os todos dentes, mostrava em fio. Tão bonita, só. Ele chegava, junto ao bando de Medeiro Vaz, de uma longa cavalgada, escapando do Liso do Suçuarão, trinta léguas em lombo de cavalo, cansado e a desejar carinhos femininos, fosse de quem fosse. Observa que no momento que viu a moça, Diadorim não estava perto, para lhe reprovar e se alegra com isso. Um fuzuê armado pelos companheiros, naquele momento enche o ar de poeira e já lhe desperta a conhecida veia poética, romântica: a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado. Ato contínuo, foi convidado a entrar para tomar um café coado por mão de mulher, e ainda uma limonada de pêra-do-campo. Foi correspondido em sua atenção, pois Nhorinhá lhe recebeu o carinho no cetim do pêlo – alegria que foi, feito casamento, esponsal. Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo, mostrando com isso que não lhe importava muito a vida pregressa da moça. Ganhou dela, ainda, de presente, uma presa de jacaré para ornar o chapéu, como simpatia (talento) contra mordida de cobra; e ela lhe deu para beijar uma estampa de santa. Muito foi, exclama –já enfeitiçado por Nhorinhá, e não renegando isso.

Ele tem para esta moça palavras sinceras, mas carinhosas, lembrando do fato acontecido com Otacília, algum tempo antes, em que uma florzinha foi designada por ela como “casa comigo”, como parte de um consabido jogo amoroso. Consoante, outras, as mulheres livres, dadas, respondem: – “Dorme-comigo… “Assim era que devia de haver de ter de me dizer aquela linda moça Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, nos Gerais confins; e que também gostou de mim e eu dela gostei. Ah, a flor do amor tem muitos nomes. Nhorinhá prostituta, pimenta-branca, boca cheirosa, o bafo de meninopequeno. Confusa é a vida da gente, admite; e compara: como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar.

Esta passagem traz mais uma história de carta que cruza o Sertão, por longo tempo, até chegar nas mãos destinatárias: Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. Essa Nhorinhá tinha lenço curto na cabeça, feito crista de anu-branco. Escreveu, mandou a carta. Mas a carta gastou uns oito anos para me chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo, com linha preta de carretel. Uns não sabiam mais de quem tinham recebido aquilo. Último, que me veio com ela, quase por engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do toque, ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga, logo que chuva chovida.

A tal carta lhe chegou às mãos quando Riobaldo já estava casado. E aproveita para garantir ao visitante: gosto de minha mulher, sempre gostei, e hoje mais. Mas esta Nhorinhá, puta e bela… Ele relembra quando a conheceu de olhos e mãos, já gostando bastante dela, mas apenas no trivial do momento. A referida carta veio a mostrar a ele que a moça de fato estava gostando de sua pessoa e ele de certa forma lamenta que ela estivesse morando mais longe agora, num, provável fim de mundo: magoal, no São Josezinho da Serra – no indo para o Riacho-das Almas e vindo do Morro dos Ofícios. E de forma recíproca, vê que estava gostando dela também, de grande amor em lavaredas; mas gostando de todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela estive, na Aroeirinha, e conheci, concernente amor.

E tantos anos depois, ainda saudoso insiste: Nhorinhá, gosto bom ficado em meus olhos e minha boca. Mas logo se preocupa em saber como o visitante encara tais arroubos tão tardios: Senhor subentende o que isso é? A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha aumentado de ser mais linda. De certo, agora não gostasse mais de mim, quem sabe até tivesse morrido… Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado.

Riobaldo aproveita o ensejo de tal confissão profana para introduzir preocupações mais metafísicas também, aliás, insistentes em toda a sua narrativa, buscando auxílio na sabedoria daquele homem letrado que o honra com sua visita: Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

E sobretudo coloca a pobre meretriz da Aroeirinha em seu panteão amoroso, mesmo antevendo que possa ser mal-entendido pelo interlocutor; e justifica: que realmente a vida não é entendível. Assim, além da atual companheira Otacília, declara: afora esses dois – e aquela mocinha Nhorinhá, da Aroeirinha, filha de Ana Duzuza – eu nunca supri outro amor, nenhum. E Nhorinhá eu deamei no passado, com um retardo custoso. E num rasgo de autocrítica quase feroz: relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa.

Forçosa, desde o início, era a comparação com os sentimentos que Riobaldo mantinha, simultaneamente, por Otacília, como demonstra nesta fala, com imagens entre o bíblico e o profano, além de associadas a seres da natureza e mesmo um tanto misteriosas: E em Otacília eu sempre muito pensei; tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro – jericó, e os lírios todos, os lírios-do-brejo – copos-de-leite, lágrimas-demoça, sãojosés. Mas, Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo. A Nhorinhá – nas Aroeirinhas – filha de Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã… Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga.

Em tempo: itamotinga em tupi-guarani (ou talvez em nhengatu) significa pedra branca. Não sei precisar o significado exato disso na frase, mas certamente é um juízo positivo de valor para Nhorinhá.

Diadorim, como de hábito, provoca sentimentos de contradição em Riobaldo: De ver, eu tinha dó, minha pena sincera de Diadorim, nessas jornadas. Quando ele diz, por exemplo, com desdém e certo ciúme: Ou quem sabe você resolve melhor mandar de dádiva para aquela mulherzinha especial, a da Rama-de-Ouro, filha da feiticeira… Arte que essa mais serve, Riobaldo, ela faz o gozo do mundo, dá açúcar e sal a todo passante… E Riobaldo se indaga: mas, por que era que ele falava no nome de Nhorinhá, com tão cravável lembrança? Ao crer, que soubesse mais do que eu mesmo o que eu produzia no coração, o encoberto e o esquecido. Nhorinhá – florzinha amarela do chão, que diz: – Eu sou bonita!… Diadorim ainda adiciona Otacília na conversa: você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Vocês vão casar, sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor… Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas… A noiva, com o alvo véu de filó. Riobaldo vê que então que tudo neste mundo podia ser beleza, mas Diadorim escolhia era o ódio. Não pela única vez Riobaldo lamenta a capacidade de odiar que o amigo tinha. Mas era mais do que ódio, certamente.

E para explicar, mais uma vez, ao visitante este seu estranho amor, lança mão de imagens elaboradas: de que gostava de Nhorinhá, eu ainda não sabia […] o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda – as águas levam – em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; dai o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo. Mais uma vez, paisagem e sentimentos se entrelaçam. Esta é uma das dinâmicas da obra.

A presença da prostitutriz sertaneja embaraça Riobaldo e, por vezes, ele demonstra mesmo ver nela uma oportunidade perdida de ser feliz. Por exemplo, quando, em jornada de jagunço, esteve a apenas quinze léguas daquele São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá […] assunto que, na ocasião, meu espírito me negou […] dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. […] Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma… E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens? […] Com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. […] devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de apropósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta.

Viver, pelo visto, não é apenas perigoso demais; é deveras duvidoso, também. Mas o ofício, as obrigações da vida falaram mais alto, as injunções do Sertão: Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retroco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.

Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens? – indaga Riobaldo, refletindo consigo, sério e também generoso, a respeito daquela mulher que adquirira papel tão especial em sua vida. Bom, quando há leal, é amor de militriz. Essas entendem de tudo, práticas da bela-vida. Que guardam prazer e alegria para o passante; e, gostar exato das pessoas, a gente só gosta, mesmo, puro, é sem se conhecer demais socialmente. E lembra de outras duas mulheres que o serviram nas mesmas condições: Eu chegasse de noite, e elas estavam com casa alumiada, para me admitir. Como que o amor geral conserva a mocidade, digo – de Nhorinhá, casada com muitos, e que sempre amanheceu flor. E, isto, a torto digo, porque as duas não se comparavam com Nhorinhá, não davam nem para lavar os pés dela.

Há uma passagem que define o ser amoroso que Riobaldo na verdade era. Ele acabava de sair do pavoroso cenário da vila do Sucruiú, onde a miséria fora suplantada pela varíola mortal, com estado de espírito compreensivelmente afetado. Ele saiu de lá sem olhar para trás, para não ver o fim daquilo, em clima vaporoso pardo-azulado, exalante, produzido pelo esterco queimado pelos moradores, no intento de afastar o mal. Naquele momento, Diadorim junto, tudo que ele desejava eram coisas de salvação urgente, sair depressa dali, para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos. E sonha poder levar também tantas pessoas que ele amava, citando Otacília, Nhorinhá, Ana Duzuza, Zé Bebelo, Alaripe e os companheiros todos. E além dessas, todas as demais pessoas, de meu conhecimento, e as que mal tinha visto, tais como Rosa’uarda e Miosótis, namoradas de juventude; seu mestre Lucas; dona Dindinha; seu Assis Wababa, pai de Rosauarda; Vupes, um alemão companheiro de estrada no Sertão. Até mesmo o padrinho Selorico Mendes, de quem ele não gostava, por suspeitar ser seu pai verdadeiro, embora nunca assumido. Todos, que em minha lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. Igual, levava, ah, o povo do Sucruiú, e, agora, o do Pubo – os catrumanos escuros. E Riobaldo arremata: no sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade.

Um bom exemplo do Agape, o amor incondicional por toda a humanidade de que falavam os Gregos.

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