Pelas Veredas do Grande-Sertão

OTACÍLIA

Desde as primeiras páginas da narrativa, Riobaldo já se apresenta como homem casado, de vida feita e estável, conforme as regras e o conceito de família que o Sertão impõem. É bem verdade que não se fala de filhos, talvez eles não tivessem sido concedidos ao casal. Mas há uma mulher amorosa e diligente, muito amada, ao lado do jagunço aposentado, uma casa organizada e suprida, uma vida sem maiores atropelos e inclusive amparada por orações e conselhos espirituais do sempre presente Compadre Quelemem.

E logo se revela que a companheira tem por nome Otacília. Quem é ela, de onde veio? Depois de Diadorim, Otacília é o personagem mais citado na obra. São mais de uma centena de referências a ela, me informa o competente instrumento de busca no programa de computador.

Curiosamente, mas sem deixar de ser certamente proposital, Riobaldo menciona a moça pela primeira vez num momento grave de sua trajetória, a fracassada tentativa de travessia do Liso de Suçuarão, com o grupo de Medeiro Vaz. E nós estávamos perdidos. Nenhum poço não se achava. Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos, arroxeavam as caras. A luz assassinava demais. E a gente dava voltas, os rastreadores farejando, procurando. Já tinha quem beijava os bentinhos, se rezava. De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Na sequência, ele não se lembra da mãe, como seria de costume, nem de outras pessoas marcantes neste momento de sua vida, mas sim dela, da noiva urucuiana já prometida: A saudade que me dependeu foi de Otacília. Moça que dava amor por mim, existia nas Serras dos Gerais – Buritis Altos, cabeceira de vereda – na Fazenda Santa Catarina. Me airei nela, como a diguice duma música, outra água eu provava. Otacília, ela queria viver ou morrer comigo – que a gente se casasse.

Mas logo acrescenta: Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. Meu amor de prata e meu amor de ouro. De doer, minhas vistas bestavam, se embaçavam de renuvem, e não achei acabar para olhar para o céu. E este estado de espírito, tal sombra no pensamento, vão acompanhar a maioria das menções feitas a Otacília, mostrando a co-existência de um amor de ouro e outro de prata; um legal-oficial, outro profano e inconfessável, na vida do jagunço. E esta é uma tensão que se mantem em praticamente todos os eventos que envolvam Otacília, um dilema que somente será resolvido, de forma trágica, aliás, ao final da saga.

Já na sua primeira menção à mulher que lhe é principal na vida, Riobaldo já mostra seus conflitos: Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu variava?. Mas a si promete: Saio daqui com vida, deserteio de jaguncismo, vou e me caso com Otacília!” E se regozija: Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê.

Como tudo na vida, porém, a sombra da dúvida lhe perpassava o coração, já na ocasião em que conhece Otacília: Fui fogo, depois de ser cinza. E não se nega a anunciar a fonte de tais dúvidas: Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que estes gerais são formosos.

Qual é a definição que Riobaldo tem para o Amor, em particular, da forma arrevesada de amor que ele experimenta em sua vida?  O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Ou ainda: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Que “ovos de ferro” seriam estes? Ele logo em seguida esclarece tal metáfora: Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Vê-se, portanto, que o descanso na loucura se alternava, para ele, e muitas vezes, com sofrimento traduzido por insônia, profunda cisma e por querer e não querer – tudo ao mesmo tempo. Os tais ovos de ferro como simbologia de coisas tristes e sem solução.

Há uma visível associação entre a figura de Otacília e a natureza, não apenas aquela implícita, mas também uma outra, profunda e simbólica, do lugar de onde ela vem: os Buritis Altos, a Fazendo Santa Catarina, o Rio Urucuia. Assim e silva, como em outro tempo, adiante, podia flauteado comparecer no Buritis Altos, por conta de Otacília – continuação de amor. Tal frase, que mostra um non-sense (“assim e silva”) próprio dos seres em estado de amorosidade, já mostra bem este tipo de vínculo. Afinal, aquele descanso na loucura não deixa de conter um pouquinho dessa loucura mesma, também.  E mais diz ele ainda, unindo a criatura e seu ambiente de origem: ela eu conheci em conjuntos suaves, tudo dado e clareado, suspendendo, se diz: quando os anjos e o vôo em volta, quase, quase. A Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Otacília, estilo dela, era toda exata, criatura de belezas.

Riobaldo é, inquestionavelmente, um romântico. Mal disfarçado sob a capa dura de jagunço, homem matador e determinado, mas com certeza um romântico – e dos mais típicos e descabelados, verdadeiramente ridículo, como quis Fernando Pessoa. Vejamos algumas pérolas de tal lavra – ele não mede palavras para sua amada! Ah, a mocidade da gente reverte em pé o impossível de qualquer coisa! […]  Otacília. O prêmio feito esse eu merecia? […] Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. […] Que quando só vislumbrei graça de carinha de riso e boca, e os compridos cabelos, num enquadro de janela, por o mal aceso de uma lamparina. […] Otacília eu revi já foi na sobremanhã. Ela apareceu. Ela era risonha e descritiva de bonita; mas, hoje-em-dia, o senhor bem entenderá, nem ficava bem conveniente, me dava pejo de muito dizer. […] Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. Salvo uns risos e silêncios, a tão. […] Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais.

Otacília parece ser realmente superlativa para Riobaldo e o seguinte relato revela e potencializa ao cubo os sentimentos deste ser apaixonado: Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de jardim, com escolha de poucas flores. Das que sobressaíam, era uma flor branca – que fosse caeté, pensei, e parecia um lírio – alteada e muito perfumosa. E essa flor é figurada, o senhor sabe? Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-defazenda. De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu nem sabia. Indaguei o nome da flor. – “Casa-comigo…” – Otacília baixinho me atendeu. E, no dizer, tirou de mim os olhos; mas o tiritozinho de sua voz eu guardei e recebi, porque era de sentimento. Ou não era? Daquele curto lisim de dúvidas foi que minou meu maisquerer. E o nome da flor era o dito, tal, se chamava – mas para os namorados respondido somente.

E mais, num rompante de autoafirmação: Sofreado de minha soberba, e o amor afirmante, eu senti o que queria, conforme declarado: que, no fim, eu casava desposado com Otacília – sol dos rios… Casava, mas que nem um rei. Queria, quis.  

Mas nem tudo foram flores nesta estória. Riobaldo era um homem dividido, como já se sabe. Não é a toa que boa parte das menções a Otacília vão fazer parelha com outras a Diadorim, às vezes tentando conciliar os sentimentos frente a lidar com uma coisa – e outra. Às vezes renegando. Por exemplo, dando sequência ao caso da flor dos enamorados citado acima: Chamei Diadorim – e era um chamado com remorso – e ele veio, se chegou. Aí, por alguma coisa dizer, eu disse: que estávamos falando daquela flor. Não estávamos? E Diadorim reparou e perguntou também que flor era essa, qual sendo? – perguntou inocente. – “Ela se chama é liroliro…” – Otacília respondeu. O que informou, altaneira disse, vi que ela não gostava de Diadorim. Digo ao senhor que alegria que me deu. Ela não gostava de Diadorim – e ele tão bonito moço, tão esmerado e prezável. Aquilo, para mim, semelhava um milagre. Não gostava? Nos olhos dela o que vi foi asco, antipatias, quando em olhar eles dois não se encontraram. E Diadorim? Me fez medo. Ele estava com meia raiva. O que é dose de ódio – que vai buscar outros ódios. Diadorim era mais do ódio do que do amor?

Ódio e amor misturados; costumes e a vida em seu arrepio: contradições sem conta, difíceis realmente de se lidar… Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! […] Desde esse primeiro dia, Diadorim guardou raiva de Otacília. E mesmo eu podia ver que era açoite de ciúme. […] O senhor espere o meu contado. Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro. Que Diadorim tinha ciúme de mim com qualquer mulher, eu já sabia, fazia tempo, até. Quase desde o princípio. […] Por que, meu senhor? Lhe ensino: porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do que senti. […] Mas Diadorim, por onde queria, me levava. Tenho que, quando eu pensava em Otacília, Diadorim adivinhava, sabia, sofria.

E, pelo visto, Diadorim não parecia favorecer a opção de Riobaldo por Otacília, ou por outras mulheres, revelando-se, assim, que ele próprio tinha um plano, o que será anunciado, ainda que de forma misteriosa e incompleta, mais adiante na narrativa: – “Então, que quer mesmo ir, vai. Riobaldo, eu sei que você vai para onde: relembrado de rever a moça clara da cara larga, filha do dono daquela grande fazenda, nos gerais da Serra, na Santa Catarina… Com ela, tu casa. Cês dois assentam bem, como se combinam…”  […] Nem maldisse Diadorim, de que não se calava. A mais, pirraçou: – “Vai-te, pega essa prenda jóia, leva dá para ela, de presente de noivado…”. Percebe-se aqui um Riobaldo de certa forma irado, impaciente, tratando como pirraça algumas reações do amigo, o que em alguns momentos levará a um quase rompimento na relação. Muita contradição para uma só cabeça de macho sertanejo, com certeza.   

Mas de certo havia nas palavras do Reinaldo algo que ainda não se revelara, um segredo de altíssimo quilate, cujo esclarecimento será prometido para depois, quando terminar a sanha de vingança que moviam aqueles homens. E uma vez ele mesmo tinha falado: – “Nós dois, Riobaldo, a gente, você e eu… Por que é que separação é dever tão forte?…” Aquilo de chumbo era. Mas Diadorim pensava em amor, mas Diadorim sentia ódio. Aqui se revela mais uma faceta das contradições que permeiam a mente de Riobaldo, que recrimina o ódio que movia o amigo e ao mesmo tempo se perdoa por ser portador e mesmo agente de sentimento semelhante.

Muitas vezes, dá ao rio-símbolo e à própria natureza foro de participantes da saga de amor proibido e desencontrado em que se vê mergulhado: Confusa é a vida da gente; como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar. Porque, no meio do momento, me virei para onde lá estava Diadorim, e eu urgido quase aflito. […] O Reinaldo era Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e Otacília. Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucuia, mas que é rio de braveza. […] Diadorim, esse, o senhor sabe como um rio é bravo? É, toda a vida, de longe a longe, rolando essas braças águas, de outra parte, de outra parte, de fugida, no sertão. […] Diadorim – ele ia para uma banda, eu para outra, diferente; que nem, dos brejos dos Gerais, sai uma vereda para o nascente e outra para o poente, riachinhos que se apartam de vez, mas correndo, claramente, na sombra de seus buritizais…

Sem dúvidas, era forte esta mulher, a sertaneja Otacília, uma entre outras, como Ana Duzuza, Nhorinhá, Maria Mutema, a serem apresentadas cada uma a seu tempo. Certamente merecedora de tanta homenagem. Conheci que Otacília era moça direta e opiniosa, sensata mas de muita ação. […] No que eu pensava? Em Otacília. Eu parava sempre naquela meia-incerteza, sem saber se ela sim-se. Ao que nós todos pensávamos as mesmas coisas; o que cada um sonhava, quem é que sabia? […] Mas eu cacei melhor coragem, e pedi meu destino a Otacília. E ela, por alegria minha, disse que havia de gostar era só de mim, e que o tempo que carecesse me esperava, até que, para o trato de nosso casamento, eu pudesse vir com jus. Saí de lá aos grandes cantos, tempo-doverde no coração. […] Ah, minha Otacília” – eu gemi em mim. – “Pode que nunca mais você me veja, e então nem viúva minha você não vai ser…” […] E em Otacília, eu não pensava? No escasso, pensei. Nela, para ser minha mulher, aqueles usos-frutos. Um dia, eu voltasse para a Santa Catarina, com ela passeava, no laranjal de lá. Otacília, mel do alecrim. Se ela por mim rezava? Rezava. Hoje sei. E era nessas boas horas que eu virava para a banda da direita, por dormir meu sensato sono por cima de estados escuros. […]

E ele acrescenta até um pingo de erotismo na descrição: Só olhava para a frente da casa-da-fazenda, imaginando Otacília deitada, rezada, feito uma gatazinha branca, no cavo dos lençóis lavados e soltos, ela devia de sonhar assim.

Os sentimentos de Riobaldo, em certo momento, apesar da fixação em Otacília, assumem a característica de um amor geral pela humanidade, talvez aquilo que os gregos chamavam de ágape, amor dado e incondicional, celebrado também pelos primeiros cristãos. E isso enobrece seu portador: Eu levava Diadorim… Mas, de começo, não vi, não fui sentindo que queria poder levar também Otacília, e aquela moça Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, e mesmo a velha Ana Duzuza, e Zé Bebelo, Alaripe, os companheiros todos. Depois, todas as demais pessoas, de meu conhecimento, e as que mal tinha visto, além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa’uarda, a mocinha Miosótis, meu mestre Lucas, dona Dindinha, o comerciante Assis Wababa, o Vupes – Vusps… Todos, e meu padrinho Selorico Mendes.

E não poderia faltar em tal história de amor uma carta. Cartas de amor seriam sempre ridículas, como disse Fernando Pessoa? Ou talvez o sejam, de fato, apenas as criaturas que nunca escreveram coisas desse tipo. Não é dado a conhecer o teor exato de tal carta, mas ela compõe um dos mistérios poéticos da história, produzida de forma relutante e entregue à destinatária muitos anos depois de escrita, depois de vagar pelo sertão em alforjes e bolsos de tropeiros.  Eu vim, eu tinha escolhido para o meu amor o amor de Otacília. Otacília – quando eu pensava nela, era mesmo como estivesse escrevendo uma carta. E uma vez ele mesmo tinha falado: – “Nós dois, Riobaldo, a gente, você e eu… Por que é que separação é dever tão forte?…”

Quem escreve tal carta procura ser cuidadoso, pois afinal a destinatária andava longe e havia alguém por perto – Diadorim – que talvez não gostasse muito da ideia. E, além disso, os portadores poderiam não ser confiáveis, embora fossem os únicos disponíveis. No sertão, com certeza, na ocasião, os serviços públicos de correio ainda seriam praticamente desconhecidos. E Riobaldo, aproveitando para negar algumas coisas sobre si mesmo, sem deixar de lado certa dose de autopromoção, afirma:  E mais disse: que era para entregar, de minha parte, à moça da casa, que Otacília se chamava, a qual era minha sempre noiva. Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos títulos, nem citando chefia de jagunços… Mas somente prezar que eu era Riobaldo, com meus homens, trazendo glória e justiça em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do poente para o nascente vão, desde que o mundo mundo é, enquanto Deus dura!

Mas logo adiante tenta corrigir seus ímpetos de vaidade: . O que eu cogitei de escrever era muito singelo: as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. […] Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: – que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse… Ia. Ah, mas, aí, houve.

E o romântico namorado reaparece: E tive vontade de traçar uns versos também: mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.

E no mesmo teor de lembrança na distância, deu-se a história da pedra de topázio, que mudou de pessoa presenteada, entre Diadorim e Otacília. E isso tem sequência diante da evidência de que também Diadorim está tentando comunicar com Otacília: “Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher…” – “Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha noiva; será?” – “Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?” Riobaldo fica perplexo, pois por um lado pressentia um verdadeiro sentimento de ciúme em Diadorim; por outro, julga o amigo incapaz de traí-lo: Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim?

A fantasia do amante distante agora galopa: Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão… Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens…

Mas o fato é que aquela carta ficou para depois: Amoleci mão antes de coração: não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado – por outras fortes ordens… –; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.

Riobaldo não se julgava merecedor de Otacília e em relação Diadorim só via obstáculos fatais. Mas as boas histórias de amor precisam ter um final feliz. E esta teve, apesar dos muitos contratempos e redemunhos no meio do caminho, particularmente o da tragédia que tirou Diadorim de cena, ou remeteu-o a outra instância “muito mais que linda”. E assim se deu: Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça. Otacília. Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor. Ela tinha vindo com a mãe. E a mãe dela, os parentes, todos se praziam, me davam Otacília, como minha pretendida. Mas eu disse tudo. Declarei muito verdadeiro e grande o amor que eu tinha a ela; mas que, por destino anterior, outro amor, necessário também, fazia pouco eu tinha perdido. O que confessei. E eu, para nojo e emenda, carecia de uns tempos. Otacília me entendeu, aprovou o que eu quisesse. Uns dias ela ainda passou lá, me pagando companhia, formosamente.

Mas ficaram na lembrança os indeléveis acontecimentos, já anunciados muitas páginas atrás: Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão, esfaqueado, tinto todo de seu sangue, e os lábios da boca descorados no branquiço, os olhos dum terminado estilo, meio abertos’ meio fechados? E essa moça de quem o senhor gostou, que era um destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah, Diadorim… E tantos anos já se passaram.

E assim, foram felizes. Para sempre? Não importa. Tudo é travessia e o que existe é o Homem – e a Mulher – humanos: Ela tinha certeza de que eu ia retornar à Santa Catarina, renovar; e trajar terno de sarjão, flor no peito, sendo o da festa de casamento. Eu fui, com o coração feliz, por Otacília eu estava apaixonado. Conforme me casei, não podia ter feito coisa melhor, como até hoje ela é minha muito companheira – o senhor conhece, o senhor sabe. Mas isto foi tantos meses depois, quando deu o verde nos campos.

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