Pelas Veredas do Grande-Sertão

AS MULHERES DE RIOBALDO

Otacília, esposa consagrada; Nhorinhá, meretriz e amor profano; Ana Duzuza, mãe desta última e feiticeira capaz de ler o futuro das pessoas. São estas as mulheres mais presentes na narrativa de Riobaldo.

Sua mãe, a Bigrí, também se faz presente, mas de forma muito menos constante ou relevante do que as acima. Dela há apenas quatro citações em todo o livro, contra mais de uma centena para Otacília, por exemplo. Dela sabemos pouco: era muito pobre, vivia como agregada de gente mais rica, de suas sobras, por assim dizer. Riobaldo suspeita que seu “padrinho” Selorico era, na verdade, seu pai, expondo uma relação que certamente o envergonhava.

Mas entre aquelas três principais haveria algo que as uniria? Em termos físicos, não. Apenas o fato de Ana e Nhorinhá serem mãe e filha. Otacília esteve sempre apartada delas e não consta que sequer tenha ouvido falar das mesmas. Mas na verdade parece que elas representam diferentes perspectivas na vida do antigo jagunço e atual fazendeiro.

Otacília era a noiva prometida, mulher recatada, amor virginal de primeira visada, herdeira de terras no Urucuia a moça bem-criada para esponsais clássicos, figura de total pureza, sobre a qual Riobaldo não aceitava até mesmo que companheiros tocassem no nome, mesmo sem maldade. As referências a ela são respeitosas, românticas, revestidas mesmo de uma aura de pureza e castidade. O que empana o brilho de sua presença na vida do jagunço, muitas vezes, é a presença simultânea de Diadorim, seu amor de perdição. E há, quase todo o tempo, uma surda luta entre os dois amigos, fortes contradições, entremeando ciúmes e outros sentimentos negativos, que não chegam a ser redimidos por um grande segredo anunciado, mas nunca concretizado em seu esclarecimento.

Nhorinhá era o oposto de Otacília, embora também bonita na aparência. Nada virginal, ao contrário era mulher de muitos homens, de preferência estanhos à terra, por exigência da mãe. Enquanto a outra era daquelas mulheres que certamente baixaria o olhar na presença de outros homens, ela a eles se dirigia, não só com olhares provocativos e sedutores, mas com convites para entrar em sua casa, tomar café e refresco, além de ainda oferecer outros agrados, como aquele dente de jacaré e o bentinho oferecido a beijar para proteção do homem que ela acabara de conhecer.   

Ana Duzuza pertence a outra categoria de relação. Não há atração ou devoção por parte de Riobaldo, mas sim respeito pelas suas capacidades sobrenaturais, de bruxa, feiticeira, Parca sertaneja. Enfim, figura especial de mulher capaz de deslindar o destino dos outros. E isso toca Riobaldo muito intimamente, eis que ele muito se inquiria a respeito dessas coisas do destino de si próprio. O encontro com Duzuza lhe trouxe alguém capaz de penetrar neste território totalmente ignoto.

Embora de naturezas próprias e presenças tão diversas na vida de Robaldo, é notável perceber que, cada uma a sua maneira, ela respeita muito essas mulheres. Elas representam bem uma síntese entre o sagrado, o profano e a inquirição do destino que compõe, na justa medida, as preocupações existenciais ex jagunço. E neste campo, a equação da vida do mesmo se torna ainda mais complexa – e quase irresolvível – pela presença de Diadorim na vida de Riobaldo, que ultrapassa a dimensão do sagrado / profano, para jogá-lo, de fato e de direito, numa encruzilhada tenebrosa, que antepõe o certo com o errado; o permitido com o proibido e, no limite, Deus e o Diabo. E não é por acaso que o desfecho, relativo ao caso de Diadorim, vai se dar no meio da rua, no meio de um redemoinho de poeira e sangue, em luta que fez dois mortos e não teve nem Deus nem o Diabo como vencedores. Restou aquele Homem Humano – e é através dele que Riobaldo se realiza ao final.

Riobaldo salvou a vida de Ana Duzuza e confiou nela mais do que tudo. Dedicou a Otacília sua devoção, fazendo-a de verdadeira santa em altar, além do melhor de seu espírito de homem cuidadoso e provedor, dentro dos trâmites sociais sertanejos. Mas foi para Nhorinhá que ofereceu o que nenhum outro homem poderia ter feito, ou seja, uma fidelidade não estritamente carnal, mas de encantamento e respeito à verdadeira fêmea que ela sempre soube ser, em sua peculiar combinação de ao mesmo tempo ser santa e pecadora. Para Otacília o leito nupcial, de certa forma burocrático e previsível. Para Nhorinhá as alegrias todas de um amor sem peias. Otacília talvez invejasse a pobre meretriz se tivesse conhecido algo parecido.

E é este homem humano (demasiadamente humano…) que vai mostrar sua força em relação a estas três mulheres, numa síntese do que foi, na verdade, toda a sua travessia existencial.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s