Categoria: Confesso que escrevi
«Amarcord» de sabores
Quando visito a casa de João Maurício, cumpro um ritual que sempre me dá grande prazer: enfiar a cabeça na caixa aberta daquele piano Pleyel que nós todos conhecemos e aspirar com sofreguidão o cheiro de madeira velha, tão peculiar, que entra ano, sai ano, continua ali guardado. Então me penetram os sentidos um sem número de aromas e sabores que marcaram minha infância, na rua do Ouro, na casa ancestral de Vovó Dodora e Vovô Altivo, além de outras casas da família. Recordo-me disso, ao iniciar estas linhas, para deixar claro que tenho uma tremenda memória para essas coisas. Dizem que eu tenho uma memória enorme para fatos, não sei bem se é assim, mas das comidas e dos perfumes de minha infância, realmente não me esqueço. Continuar lendo “«Amarcord» de sabores”
Causo
“Seus seis e mais seis … É truco, safado!”
A última partida da noite terminara. Estavam alí desde a seis da tarde e já era quase madrugada. Hora de ir embora, uns trabalhavam no dia seguinte e outros tinham mulher brava a esperar em casa. Porém, faltava algo para completar a noitada. Continuar lendo “Causo”
Infância
Um moço muito branco (tema rosiano)
que se mostra tão altivo,
mas de maneiras gentis,
parece mesmo um menino,
anda sempre ao Deus dará
ninguém sabe seu destino. Continuar lendo “Um moço muito branco (tema rosiano)”
De quintais e pomares
Tem lembranças que a gente traz da infância e carrega consigo pela vida a fora. Amigos, moradas, brinquedos, comidas, quintais. Comigo não é diferente, mas de uma dessas tantas coisas tenho especial lembrança – e acho mesmo que ao longo de
minha vida adulta não fiz mais do que tentar resgatá-la e reconstruí-la…
Falo dos quintais, ou melhor, dos pomares da meninice.
Em primeiro lugar, eles se faziam presentes por todo lado. Em um tempo em que os prédios de apartamentos não eram tão predominantes na paisagem, não era difícil dar de cara com um bom quintal, fosse no próprio fundo da casa da gente, na de parentes ou mesmo ali, do lado, na esquina, em toda parte, enfim.
Minha vida de cachorro
Minha vida nos anos 50 foi contada no cinema. Acreditam? Podem duvidar, mas é como se fosse. Quem viu o filme sueco “Minha vida de cachorro” teve acesso a cenas completas de minha infância . O menino curioso, meio trapalhão, a mãe doente, a família separada por conta de sua hospitalização, as primeiras descobertas sexuais, o tio barra limpa, o mundo chato dos adultos e … Continuar lendo Minha vida de cachorro
Ode a Manoel de Barros
de ares
de nuvens
de folhas
de pássaros
de flores
de bichos
de barros. Continuar lendo “Ode a Manoel de Barros”
O Brasil é mais complicado do que alguns imaginam…
Seu Zé é analfabeto e mora longe da cidade, no fundão de Goiás. Para conseguir atendimento médico na sede do município, tem que pegar carona, viajar uma hora inteira e esperar às vezes mais de um dia inteiro fora de casa, alimentado a biscoitos de polvilho. Mas tem outro lado nessa história: seu Zé é aposentado pelo INSS, percebendo um dos tais “benefícios de prestação … Continuar lendo O Brasil é mais complicado do que alguns imaginam…
Sinfonia em ré…
Sinceramente, quando constato, horrorizado, estas cenas que o cotidiano nacional nos oferece, por exemplo, de gente amarrada em postes, de mulheres sendo apedrejadas por suspeita de bruxaria ou, para “pensar grande”, na rendição incondicional do país aos ditames do lucrobol na versão FIFA, tenho um desânimo danado com este país. Mais do que nunca, vejo a ironia de Nelson Rodrigues, a respeito de nosso “complexo … Continuar lendo Sinfonia em ré…




