E a Medicina, a que será que se destina?

Ao começar a escrever esta memória, lembrei-me de uma letra de música de autoria do grande Aldir Blanc, que aliás usei em meu convite de aniversário quando completei 50 anos idade, em 1998. Chama-se 50 anos – Bodas de Sangue e foi musicada pelo pianista Cristóvão Bastos, se não me engano. Dizia assim: Eu vim aqui prestar contas / De poucos acertos / De erros sem fim / Eu tropecei tanto as tontas / Que acabei chegando no fundo de mim / O filme da vida não quer despedida / E me indica: ache a saída. Posso até relativizar esta história de erros e acertos, tropeços, despedidas, sangue, prestação de contas. Não quero ser dramático. Mas de fato, aquilo que o também médico Aldir escreveu me leva a pensar no filme de minha vida, particularmente diante dos 50 anos que completei na prática de medicina – de uma determinada modalidade, mas sempre Medicina. Mas vamos lá.

Continuar lendo “E a Medicina, a que será que se destina?”

Triste (mas nem tanto) Horizonte

Drummond se indagava: “por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua, branda: Volta lá.” Sem maiores pretensões de querer me comparar com o poeta-maior, devo admitir que às vezes tal pergunta também me passa pela cabeça. Assim como ele, vivi um tempo na cidade e depois me mudei, para voltar ali apenas esporadicamente. Neste aspecto, contudo, levo por assim dizer uma vantagem sobre ele, que viveu lá, ao que me parece, no máximo uma década, quando eu ali passei os primeiros 22 anos de minha vida. E, ao contrário dele, volto lá no mínimo duas ou três vezes ao ano, sem me fazer de rogado, por ainda ter na cidade filha, netos, irmãos, sobrinhos, e principalmente uma mãe. De modo que não me seria coerente proferir como ele um carrancudo: Não. Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser. Confesso que às vezes me sinto assim, meio gauche com a cidade, portador de duas alegrias quando vou até lá: a de chegar e a de sair, não sei qual das duas a mais significativa. Mas não posso negar que ali passei anos bem felizes, mas não somente isso, foi nela que pude fazer toda minha formação escolar, profissional, intelectual, amorosa, espiritual. No meu caso particular, com efeito, não dá para esquecer aquela urbe provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas e para tanto, realmente, nem preciso me esforçar. Penso que um pouco de minha sintonia (não direi admiração e nem mesmo amor…) com Belo Horizonte pude trazer à luz em meu livro de memórias Vaga, lembrança (ver link) e resgato aqui alguns trechos que falam da minha relação com esta cidade, afinal, detentora de um horizonte que definitivamente não me traz tristeza e muito menos algum amor mal resolvido ou destroçado. Aqui vai…

Continuar lendo “Triste (mas nem tanto) Horizonte”

Três Marias

A primeira delas é personagem da minha infância. Convivi com ela pelo menos até os dez anos de idade. Era uma daquelas pobres garotas nascidas na roça, negra ainda por cima, que alguma pessoa da cidade, supostamente bondosa, ou caridosa, pegava “para criar”. Tal foi o caso dela, sobre o qual minha mãe, que via em tal atitude algo muito honroso para si, não se furtava a dizer algumas vezes: “sei que me dá muito trabalho criar uma menina que nem é da família, mas é o que posso fazer por gente tão pobre”. E por falar em trabalho, vale a pena lembrar a quem isso afetava de verdade. Ela acordava antes de nós todos, para preparar o Toddy matinal, passar margarina nas fatias de pão, fiscalizar a nossa escovação de dentes, nos aprontar para a escola ou nos deixar prontos para começar o dia com roupas trocadas, fraldas retiradas, boca limpa. Não era pouca coisa, éramos quatro na ocasião, com disposições e manias diferentes, que às vezes faziam com que tais operações matutinas adquirissem uma morosidade enorme, a desafiar a paciência de qualquer um. Mas não a dela, que o máximo que fazia contra nós era ameaçar contar tais novidades para nossa mãe, sem concretizar, todavia, tal disposição a maioria das vezes.

Continuar lendo “Três Marias”

Pavana para uma Princesa Morta

Ela nos chegou em um dia de abril, quase 10 anos atrás. Veio desconfiada, com o rabinho meio recolhido ao meio das patas, o olhar atento a tudo que ia em volta. A desconfiança durou pouco, entretanto. Quando percebeu a receptividade dos três humanos que a esperavam, um grande, que ela logo percebeu ser o Alfa e dois pequenos, menino e menina, relaxou e se entregou. Encontrando a porta do carro aberta, subiu no banco dianteiro imediatamente, como se ali fosse o lugar dela, desde sempre.

Continuar lendo “Pavana para uma Princesa Morta”

Médico e diabético: um depoimento

Já reparei – e certamente os leitores também – que tem se tornado comum o gesto de se solicitar aos médicos que registrem as maneiras peculiares de como lidam com as doenças quando se tornam pacientes. Não deixa de ser uma coisa arriscada essa de abrir o jogo sobre nossos hábitos saudáveis (ou nem tanto). É sempre possível que nos denunciemos aos pacientes e estes percebam que somos muitas vezes bons para ensinar as pessoas a lidar com seu corpo, mas já nossas práticas pessoais costumam deixar a desejar, como, aliás, todo mundo sabe. Mas deixemos de prolegômenos e vamos lá.

Continuar lendo “Médico e diabético: um depoimento”

Para uma amiga que partiu

A nossa Maria Helena partiu. Deixou para mim muitas lembranças. Por exemplo e para começar: a amizade e verdadeira devoção que tive a uma figura verdadeiramente paterna para mim, Dr. José Garcia Brandão, seu pai. E também do que ele me dizia de sua filha, que morava em BH na época em que eu o conheci, anos setenta: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você…

Continuar lendo “Para uma amiga que partiu”

Anos 50

Em texto que postei aqui recentemente, em homenagem a Mário Magalhães da Silveira, fiz uma espécie de apologia aos anos 50, dizendo o seguinte: << Movimentados anos 50. No Brasil, pelo menos, as coisas nunca mais foram as mesmas. Perdemos uma Copa do Mundo, ganhamos outra. Tivemos que lidar com o golpismo explícito ou implícito de militares e civis mancomunados. Entramos na guerra fria como se fosse coisa nossa. Nossos compatriotas migraram em massa das roças para as cidades. Jorge Amado e Guimarães Rosa projetaram a literatura brasileira para o mundo. Construímos Brasília. Apesar de alguns pesares, foi lícito pensar que chegara a nossa vez de tocar algum instrumento no concerto das nações. Não foi pouca coisa, realmente.>> Pois é, eu estive presente nesses “anos 50” e posso contar.  É provável que alguma coisa tenha acontecido nem no local, nem no tempo ou com as pessoas a que me refiro. Não importa. Vamos combinar: falo do que me lembro e como me lembro, tendo como ponto forte as coisas boas ocorridas. Permitam-me organizá-las e contá-las do meu jeito. Convido vocês para um giro na BH daquela época.

Continuar lendo “Anos 50”

O dia em que tomei uísque com Drummond

Em novembro de 1985, minha mãe, que sempre falava em visitar seu tio, Carlos Drummond de Andrade, mas que achava difícil sair de Belo Horizonte para fazê-lo, por falta de companhia, me levou oferecer a acompanhá-la . E eu fiz isso sem titubear, é claro. Eu tinha estado com Drummond umas quatro ou cinco vezes ao longo da minha vida, mas uma visita assim tão pessoal seria a primeira vez. Eu não podia realmente perder tal oportunidade. Foi assim que peguei um ônibus em Uberlândia, onde eu morava então, e já no dia seguinte fui buscá-la na Rodoviária do Rio, para executarmos o combinado.

Continuar lendo “O dia em que tomei uísque com Drummond”

Eu e o Conasems: 30 anos depois

Em 1987, fui escolhido, em Congresso de Secretários Municipais de Saúde realizado em Londrina, como vice coordenador (mas titular na prática) da comissão que organizou a entidade nacional de tal categoria, o Conasems, criado oficialmente um ano depois, no congresso de Olinda. Fui também o primeiro vice presidente da entidade, mas mais uma vez, na prática, fiz as vezes de presidente, pois o sujeito que foi eleito no evento,  já se candidatara sabendo que não ficaria muito tempo no cargo de secretário, candidato que era a vereador em Recife. Mas tudo bem, isso não está contado nas crônicas oficiais da história do Conasems… Recupero aqui um pouco da história que eu vivi.
Continuar lendo “Eu e o Conasems: 30 anos depois”

1964: há quem tenha saudades…

GOLPE 64Mil novecentos e sessenta e quatro: fatídico ano. No dia exato dos acontecimentos eu trabalhava em uma escola de datilografia (já fui professor desta arte, acreditem), que fez parte de uma das variadas tentativas de meu pai “abrir um negócio”. Eu escutava pelo rádio de uma sala ao lado os relatos da movimentação de tropas, com evidentes avanços dos mineiros do General Mourão sobre o Rio de Janeiro. Mas não me dava por vencido, Continuar lendo “1964: há quem tenha saudades…”